Escrevo este texto após ser bombardeado por sugestões um tanto decepcionantes do algoritmo: particularmente vídeos sobre ciência que as redes sociais me empurram.
Mas por que vídeos sobre ciência me decepcionaram? Bom, talvez não seja somente os vídeos ou talvez não seja exatamente os vídeos; Sabe-se que o tal algoritmo oferece-nos conteúdos baseados no que nós mesmos assistimos, clicamos e/ ou comentamos na internet. Logo, podemos entender que eu mesmo cliquei e/ ou assisti vídeos de divulgadores científicos nos últimos 5 ou 6 anos...
O que foi cumulativamente me incomodando na verdade foram os vieses de vários (não todos) divulgadores científicos... Cedo ou tarde estes divulgadores da ciência, convidavam um suposto cientista que escapava de temas de sua área de especialização e pronunciava opiniões disfarçadas de conhecimento.
Cabe avaliar como eles saiam de suas respectivas áreas de estudo analisando exemplos:
Um estudioso formado em medicina e neurociências, reconhecido por seu trabalho internacionalmente certamente tem repertório para colaborar com as áreas que estudou: o corpo humano, as sinapses e suas respectivas relações e teorias do comportamento relacionadas a tais sistemas neurológicos... Mas teria um conhecimento sólido o suficiente para falar de história da humanidade? Discorrer sobre o que pensavam, o que queriam e o que faziam as classes governantes das 30 dinastias que reinaram no Egito/ Kemet por cerca de 3000 anos de história?? Dificilmente.
Psicólogos com pós graduação em neurociências certamente deveriam falar sobre a parte do sistema nervoso que estudaram e seu funcionamento. Também deveriam entender da psicologia, suas origens na filosofia com Wilhelm Wundt, e suas investigações e teorias sobre a mentalidade do ser humano que deu origem a várias abordagens psicoterapêuticas. Deveriam entender que tais abordagens estão relacionadas à visão (entendimento) de ser humano e como esta visão serve para o profissional tratar os pacientes. Como ajudar estes a lidar com sofrimentos psicoemocionais ou psicossociais, com a perda ou busca de sentido existencial ou com possíveis transtornos mentais. Deveriam colaborar com a relação entre psicologia e psiquiatria, mas também entender suas diferenças, sem hierarquizar as áreas do saber. Deveriam entender e tratar da importância dos sentimentos - um elemento subjetivo e histórico de cada ser humano. Se um estudioso com formação nestas áreas passa a discorrer se Deus existe ou não existe, dificilmente ele estará agindo como psicólogo ou como neurocientista. Se ele passa a criticar elementos de variadas religiões, negando vários elementos da espiritualidade, ele não só está desviando das áreas que estudou, como também está contrariando a universalidade e portanto estará sendo antiético. Afirmar que a ciência descobriu que o ser humano inventou Deus ou que provou que Deus não existe é ciência? É construção de conhecimento? O método de investigação e estudo da neurociência é capaz de estudar Deus? E os métodos das diferentes abordagens psicológicas? A psicologia ou as neurociências têm esta finalidade?
A resposta para todas estas perguntas é... Não.
Estudei neurociências somente em um ano do bacharelado de psicologia e não sou especialista no tema, mas sei, baseado em que profissionais desta mesma área falaram em aula ou em vídeos públicos, que a neurociência NÃO considera estudar nada além da matéria! Por matéria entende-se toda e qualquer substância (imagino que energia também) que possa ser observada, ou seja, percebida sensorialmente, pelo investigador (cientista)! Além disto, esta área até onde sei, utiliza somente o método empírico de estudo, o que parece ter alguma coerência com a pressuposição (pressuposto) de que só a matéria exista (embora há controvérsias sobre o que exatamente seria matéria). O método empírico é SÓ um método apoiado na pré suposição aqui mencionada: não é uma verdade absoluta. Não é a realidade, pois não deve ser imposta sobre todas pessoas com diferentes visões de realidade (cosmovisões) - impor isto para pacientes, alunos ou outras pessoas, contraria a universalidade de pensamento e de experimentar o mundo e a vida. Impor tal visão e/ ou pré suposição sobre diferentes povos e culturas é antiético!
O método empírico teve e certamente ainda tem sua importância para humanidade. Mas além de estar restrito à pré suposição materialista e consequentemente sensorial, ele exige uma reprodutibilidade dos fenômenos estudados - muito comum e útil em estudos da química, da física e da biologia, por exemplo.
Deus é um fenômeno químico? É um ser corpóreo e tridimensional que fica voando pelos céus ou pelo espaço? Acho que não, ao menos não lembro de ver tal descrição de Deus seja nas religiões que frequentei ou que estudei.
Claro que Deus tem no mínimo um aspecto transcendental... No evangelho de João fica claro que Jesus diz que Ele é espírito... e deve ser adorado em espírito. O espiritismo que tentou conciliar os 4 evangelhos que contam os ensinamentos de Jesus com filosofia e ciência durante o século 19, também entende Deus como um espírito... com toda a complexidade aparentemente paradoxal de onipresença etc etc. A Krya Yoga, corrente ecumênica do sanatana dharma, toscamente chamado de hinduísmo no ocidente, parece tratar Brahman (Deus) como o criador/ mantenedor e renovador de todas as coisas (do cosmo, dos espíritos etc), mas considera realidades além do cosmos material (astral, causal etc).
Este aspecto transcendental é abordado por religiões e pela espiritualidade independente da religião e não aparece só quando se fala de "Deus / Yavé/ Alá/ Brahman". O próprio conceito de aperfeiçoamento (moral, ético e espiritual) acaba tratando o transcendental nestas áreas. A própria existência humana não é considerada somente na Terra, mas também em um "além", seja lá como cada religião ou fé descreva tal realidade "além".
Aí vem mais uma pergunta: o transcendental é investigável pelo método empírico? A resposta já está dada devido a própria constituição do método: Não! Seria necessário um outro método mais abrangente que não "pré suponha" que só exista uma realidade material/ energética / tridimensional. Tal método não deveria partir de certezas de como seria uma realidade além da matéria/ da realidade tridimensional, pois isto seria dogma! Dogma é verdade pronta que não permite investigação, seja ela empírica, sistêmica ou racional dialética! Dogma é comum nas religiões... embora muita gente sem religião, seja ateu ou espiritualista, também crê em dogmas... e até mesmo prega dogmas aos outros, seja de maneira aberta e assumida, ou de maneira sutil, escondida por retórica aparentemente lógica ou racionalista.
Cosmovisões, ética e métodos para se construir conhecimento não deveriam ser assunto complexo pois já foram abordados na filosofia ocidental por volta do século 4 a.C. Possivelmente foram estudados em antigas filosofias de outros continentes também, mas não me considero versado o suficiente para falar da história da filosofia/ construção de conhecimento destas outras regiões. Antes de abordarmos tais discussões históricas sobre a construção de conhecimento predominantemente ocidental, analisemos um pouco mais como e porque espiritualistas e ateus podem ter uma visão de mundo ou cosmovisão com um ou mais dogmas... que afetam pressupostos de suas respectivas construções de conhecimento, sejam estas chamadas de ciência ou de qualquer outro nome.
Uma cosmovisão comum (mas não obrigatória) entre espiritualistas é considerar a existência de Deus, das almas/ espíritos e de uma realidade espiritual como dogmas. Alguns destes podem considerar a reencarnação também praticamente como um dogma. O que deveria definir se é dogma ou conhecimento é a forma como se constrói esse entendimento de que tais coisas existem... e isto é um dos pontos mais polêmicos e inconclusivos quando se fala de cosmovisão (e possivelmente também quando se fala de ontologia/ metafísica/ filosofia, de pressupostos da ciência, de antropologia e de religião/ espiritualidade). Nas religiões certamente discutir como se chega ao entendimento de Deus ou de uma realidade espiritual, fica ao encargo da teologia... uma área que estudei pouquíssimo e atualmente, depois de ter estudado a história das igrejas católicas e protestantes, não estou interessado neste campo. Ao menos não por enquanto.
Pelo que entendi da Krya Yoga, leva-se em consideração os ensinamentos baseados nas experiências de mestres que alcançaram o samadhi, ou supra consciência. Ao frequentar um ashram em São Paulo, percebi que nem todos relatos dos mestres são imediatamente considerados como verdades absolutas ou dogmas... Entendi que a Krya Yoga mostra um enorme potencial de diálogo entre diferentes entusiastas e praticantes da espiritualidade e até mesmo mostra alguma capacidade de diálogo com as religiões cristãs, mas tive a impressão de que alguns praticantes tendem a uma busca por disciplina quase alienada e outros parecem se tornar bastante dependentes de um ou mais mestres, consolidando hierarquias pequenas mas talvez desnecessárias. Apesar destas possíveis dificuldades, a Krya Yoga me pareceu pouco dogmática: seu rigor é de método - mas não investigativo e sim de desenvolvimento pessoal... Óbvio que considerar Brahman é um dogma, mas vale lembrar que não se trata de um Deus antropomórfico nem punidor. Isto por que Brahaman está tão ligado à supra consciência e a valores universais existentes em outras religiões, bem como existentes na espiritualidade e na filosofia, que é praticamente desnecessário taxá-lo de dogma. Aqui já adianto uma pergunta: vale a pena taxar equidade, justiça, amor e verdade como dogmas? Vamos tentar responder no decorrer deste texto.
Um último exemplo de espiritualidade que abordarei aqui (para não me delongar) é o espiritismo. O espiritismo surgiu na França em meados do século 19, quando eram comuns registros de fenômenos estranhos não só na Europa, como também nos EUA. O pedagogo Hippolyte Léon D. Rivail, assumiu o pseudônimo Allan Kardec após concluir que havia uma causa inteligente invisível por trás de alguns destes fenômenos (mesas girantes e tiptologia/ respostas às batidas em objetos). Ele utilizou da lógica e da comparação dos fatos e de investigações e a partir daí passou a avaliar criticamente várias mensagens entendidas como recebidas de espíritos através de médiuns. O que ele chamou de médium não era um indivíduo escolhido por um espírito superior ou por Deus: todo ser humano é médium, pois está entre a realidade material e a espiritual, mas nem todos percebem ou entendem os fenômenos espirituais por variadas razões: seja devido a religiões particulares, ao apego à realidade material, ao medo, ao orgulho etc. Todo ser humano também é um potencial "evocador" de espíritos, pois é capaz de orar e pensar com vontade e sinceridade, mas a possível obtenção de resultados e a percepção destes variam muito de acordo com as intenções, a moral e a cultura de cada pessoa. Kardec e os mediuns com que teve contato produziram alguns livros e muitas edições de Revista Espírita/ Jornal de Estudos Psicológicos por cerca de 13 anos. Quando o espiritismo chegou ao Brasil ele teve que lidar com a pressão da igreja católica e também com o preconceito que afligia a espiritualidade afro-brasileira, seja chamada de umbanda, candomblé ou de outra denominação. Esta adaptação fez com que a maior parte do espiritismo brasileiro assumisse um viés religioso com alguma semelhança ao catolicismo: pouco se investiga nos centros espíritas brasileiros, pois eles agem mais como apoio espiritual e/ ou como uma religião sincrética. Nota-se aí no mínimo dois espiritismos (certamente podemos considerar outros mais), cujo os dogmas são diferentes entre si: o primeiro, francês, mal tinha dogmas: possivelmente Deus, a existência de espíritos e a reencarnação eram dogmas, ainda que entendidos através de um raciocínio reflexivo e ético. Já no segundo, o brasileiro, vários romances psicografados por médiuns apresentam conteúdos dogmáticos, sem serem submetidos às avaliações críticas.
Por fim, ateus podem ser dogmáticos? Se eles afirmam e espalham a ideia de que Deus não existe, espíritos e reencarnações não existem... isto já são exemplos de dogmas. Mas certamente a maioria das pessoas que tem esta postura, mesmo que publicamente, nega tal fato: isto porque no próprio meio científico existem pessoas que pregam os pressupostos materialistas e/ ou niilistas como se fossem a realidade/ a verdade... portanto pregam estas suposições como se fossem dogmas. Isto é aceitável na ciência se o estudioso se limita a usar tal base ou ponto de partida somente para investigar seu campo de especialização material: um médico estudando o aparelho digestório, um otorrino, um químico entre outros certamente pode ter tal postura sem problemas. Mas os estudiosos das "áreas humanas" deve sempre iniciar uma investigação empírica partindo de um pressuposto naturalista/ materialista ou similar? Veja na história por exemplo: Não existem tradições orais? Quantos seres humanos deixaram obras parcialmente perdidas ou destruídas? Quantos seres humanos marcaram ideologias ou sociedades sem deixar evidências materiais eles mesmos? O assunto fica mais sensível ainda em áreas como direito e psicologia. O que é justiça? Certamente não deve ser considerada uma mera opinião? O que é o psiquismo humano? A subjetividade, seus desejos reprimidos e traumas psicoemocionais e históricos? Qual é a importância e os possíveis impactos de um sentido de vida(?) seja este espiritual ou sentimental.
Os divulgadores científicos que citei existem, mas não vi necessidade de expor nomes, porque existem vários semelhantes entre si nestes discursos cientificistas. Acho válido criticar charlatães, sejam estes religiosos ou místicos, mas isto é uma questão mais ética (e portanto filosófica) do que científica. Porém qual é a finalidade deles? Divulgar sua própria visão da realidade ou da história como se fosse um fato ou verdade, contrariando outras cosmovisões ou contrariando toda espiritualidade não é divulgar conhecimento e nem combater charlatanismo. O charlatanismo deve ser combatido porque trata-se do ato de negociar ou prometer a solução de um problema visando o benefício (geralmente lucro) próprio e sem necessariamente resolver o problema. Na verdade, se tal negociação ou promessa fizesse algum bem aos seus alvos, não precisaria ser combatido e nem seria charlatanismo, mas a verdade é que o charlatanismo nunca faz bem: gera benefício ao praticante e geralmente causa algum mal ao alvo - seja a mera enganação e decepção ou algum efeito nocivo (empobrecimento, dano físico ou moral etc).
Não estou criticando o conteúdo que os divulgadores trazem de dentro de suas respectivas áreas e é reconhecido por outros acadêmicos ou profissionais éticos. Estou me esforçando para analisar esses divulgadores da ciência a partir do que estudei sobre a história da ciência (embora eu tenha estudado mais a história da psicologia que é uma de minhas formações) e com base na filosofia, particularmente a epistemologia que investiga a construção de conhecimento.
Só que eu acho que o termo epistemologia deve ser usado com cautela por 2 motivos: O primeiro é que esta é uma palavra que parece "bicho-de-7-cabeças"; Isto porque muita gente (geralmente leigos em filosofia) ficam receosos quando este tipo de palavra surge num diálogo ou texto, como se tratasse de um assunto dificílimo ou super enfadonho. O segundo motivo é que, após estudar um dos principais autores da filosofia ocidental, me ficou claro que epistemologia dificilmente deveria ser separada de outras (supostas) áreas da filosofia, tais como ética, ontologia, teleologia e talvez outras áreas mais polêmicas das quais não citarei no momento. Este autor é Platão e ele é um dos alicerces da filosofia ocidental: admirado ou desprezado, sua obra foi muito discutida por pensadores por mais de 2000 anos! E se você acha que devido a idade de sua obra, Platão está obsoleto... certamente você está enganado.
Isto porque como citei em outros textos, o filósofo das cidades estado gregas da antiguidade clássica se esforçou em deixar um modelo de construção de conhecimento inseparável da ética. O autor escreve várias obras indicando a diferença de opinião e conhecimento e como a finalidade da construção de conhecimento não deve privilegiar poucos indivíduos ou pequenos grupos ante o coletivo, representado (em sua época e local) pelas "cidades estado". Hoje poderíamos substituir tal coletivo pelas nações, grupos étnicos, ou, mais precisamente pela humanidade como um todo, já que avançamos muito na capacidade de nos comunicar se comparado com as épocas onde as tecnologias ainda eram incipientes ou inexistentes.
Essa finalidade (teleologia) coletiva da construção de conhecimento (epistemologia) indicada por Platão era pautada na ideia de algo que não fosse meramente temporário ou descartável - algo eterno. É claro, que fazer tal proposta de modo tão resumido ou simplório não seria bem aceito na academia neste início de século 21. Como alguém que se propõe a ser tão racional poderia se pautar em algo eterno? Bom, neste ponto vale lembrar que eterno não é um conceito totalmente absurdo, afinal existem "coisas" que não temos certeza de onde acabam ou onde terminam como o espaço e o tempo (ou o espaço-tempo continuum, pressupondo que sejam uma coisa só). Isto porque para pressupor um início de todas as coisas, teríamos que ter certeza de que o tempo é linear... e que não havia coisa alguma antes do início de tudo... E nada disto é certo, ao menos não do ponto de vista de seres com corpos tridimensionais e/ou inseridos em um espaço tridimensional.
Mas estas questões não resolvem o aparente problema: Se Platão se pautou no eterno, como ele prova o eterno? Ou nada é eterno e Platão estava totalmente errado? Afirmar que nada é eterno é uma opinião, isto porque não se investiga algo partindo da negação de que este algo exista - isto é uma contradição por si só e Platão explica isto em um dos seus textos.
Platão buscou construir conhecimento visando algo duradouro e que servisse para o maior número de pessoas ou seres possível. O que poderia ser isso? Não poderia ser algo simplesmente neutro ou indiferente às pessoas, pois Platão entendeu que tal busca incluía o que é Uno e por Uno devemos entender universal, mas coeso. A universalidade é a inclusão de todas as cosmovisões sem priorizar uma ante a outra, sem desprezar ou oprimir qualquer uma das cosmovisões e sem exclusões. E o que são cosmovisões? São visões de mundo ou o que se entende por real ou realidade. Platão discute isto na obra Sofista (do Ser) que é continuação do diálogo Teeteto (da Episteme, ou do Conhecimento). E naturalmente, ao falar "do ser", fala-se de ontologia (estudo do ser), porém tal tema é bem exposto no diálogo Fédon (da Psiquê, traduzido como "da Alma") - Neste trabalho Platão mostra que seu mestre Sócrates havia estudado com o filósofo naturalista Anaxágoras. Apesar de Sócrates admirar Anaxágoras por este ter indicado Nous (traduzido por alguns autores como a Inteligência) como a causa de todas as coisas, o mestre de Platão acaba se decepcionando pelo fato de que o naturalista não relacionava Nous com a causa de vários temas estudados. Sócrates então teria explicado que um professor de ontos (o estudioso do ser, das coisas que são) deveria se pautar pela melhoria de todas as coisas. Esta melhoria de tudo (coisas e seres), faz sentido pois seria uma finalidade (teleos) ética para todos os estudos e investigações.
Mas como melhorar todas as coisas? Comecemos pelo mais fácil: a humanidade evoluiu muito tecnologicamente desde a época de Platão (séc 4 aC) até a atualidade (séc 21). Esta evolução foi muito acelerada após invenções como as redes elétricas, o rádio, os veículos à combustão, a televisão, o telefone, os eletrodomésticos etc. Mas tal progresso objetivo não inclui necessariamente um progresso ético e/ ou moral, tanto é que mesmo com a suposta diminuição do obscurantismo de eras anteriores, o ser humano quase se destruiu em guerras sanguinárias modernas. As duas guerras mundiais só aconteceram porque o ser humano desenvolveu o "saber fazer armas" aliado à ideologias que tinham como finalidade ganhos particulares (lucros indefinitivamente crescentes) e a supremacia de determinados grupos étnicos ou nacionais. A priorização de lucros ou de determinados grupos sobre outros é apontada por Platão como a finalidade ou ideologia de dois tipos de pessoas que não priorizam a filosofia e sua finalidade universal/ ética: respectivamente os filokerdes e os filonikons.
Para melhorar todas as coisas então, é preciso investigar o que torna o ambiente e os objetos em geral, melhores sim, mas também é preciso tornar os seres humanos melhores. Afinal se nos limitarmos ao primeiro tipo de investigação e estudo, abordamos somente o que conhecemos como tecnologia hoje em dia. E isto é alcançado pelo que Platão chamou em seu diálogo Sofista, de estudo da criação e manutenção de coisas/ objetos. Este método de investigação visa exclusivamente a matéria: o que pode ser observado (escutado, enfim, percebido pelos sentidos) e reproduzido sob controle do investigador. Isto parece com o método empírico que se tornou o alicerce da ciência moderna? Certamente. Porém tais investigações não tornam o ser humano mais ético, não faz o ser humano aprimorar sua moral nem torna ele ou suas obras, mais universais. É por isso que Platão segue com a investigação de outras cosmovisões (além do materialismo atomista, o autor analisa um espiritualismo entre outras visões de realidade) e conclui que nenhuma delas deve ser considerada verdade absoluta nem ponto de partida (pressuposto) para se iniciar uma construção de conhecimento universal. Assim como estas visões de realidade não são necessariamente excludentes entre si e nem são totalmente descartáveis - Platão assume a postura mais abrangente (e universalista) possível, indicando a utilidade da visão mais reducionista (materialista/ sensorial etc) e considerando também uma possível realidade espiritual. E por isto seu método de construção de conhecimento (epistemologia) tem os seguintes elementos: A presunção da própria ignorância por parte do estudioso/ investigador diante uma questão, relato ou tema a ser pesquisado (isto se assemelha em algum grau com a suspensão de pressupostos proposta pela fenomenologia); A maiêutica, um diálogo (lógica comparada) onde os interlocutores apresentam suas questões e argumentos, refletindo sobre estes para chegar às melhores conclusões possíveis e a finalidade de melhoria; Melhoria esta que não é sensorial, mas primariamente cognoscível e "uno"/ imutável. É o resultado mais justo, belo (bom, benevolente do termo kalos, sem tradução exata) e moderado, que fomenta valores universais nas pessoas e no coletivo/ sociedade, tais como temperança/ auto conhecimento, coragem e justiça. Seguindo esta lógica vários absurdos que permearam a ciência moderna (principalmente do século 17 em diante), como por exemplo, o racismo científico, a drapetomania, a internação coercitiva, o darwinismo social, o desenvolvimento de armas químicas e de destruição servindo determinados grupos nacionais ou econômicos e a "farmacocracia" propagando a hiper medicalização e a priorização dos lucros das empresas/ laboratórios farmacêuticas, poderiam ser evitados.
A ciência não é neutra, porque o ser humano tem intencionalidade e não é puramente racional: ele também tem dimensões, ou perspectivas de consciência mais simbólicas/ míticas e mais místicas/ espirituais ou transcendentais. Estas perspectivas não podem ser simplesmente suprimidas ou superadas - elas devem ser integradas no entendimento humano e assim como a perspectiva mais racional, precisam ser estudadas e abordadas de modo ético.
Se um cientista se propõe a analisar criticamente elementos das religiões e/ ou da espiritualidade, ele deve ter uma finalidade ética. Isso por si só é uma análise ou investigação mais filosófica do que científica e não há mal algum nisto - a filosofia também deve construir conhecimento e não deve ser relegada a um status de mero devaneio ou de intelectualidade prolixa sem finalidade para a sociedade. Uma investigação ética não faz afirmações inconsequentes e de finalidade dúbia como "Deus não existe". Que Deus? Um Deus vingativo e punidor certamente merece críticas para que religiosos picaretas não utilizem tal imagem para amedrontar pessoas, mas o conceito geral de Deus imanente e transcendente nem pode ser investigado pela corrente principal (empírica) da ciência.
Um grupo de religiosos inconsequentes que põe a culpa dos problemas psicossociais das pessoas em "existências anteriores" deve sim ser refutado: eticamente e filosoficamente, porque a ciência nem dispõe de meios (e muitos cientistas nem querem) para investigar tais argumentos que transcendem a matéria/ o espaço tridimensional. Os líderes de religiões que cometem ações antiéticas devem responder pelos atos que favorecem eles mesmos em detrimento dos fiéis sim - e muitas vezes tais golpes e crimes, seja charlatanismo ou violência psicológica, deveriam ser investigados por uma área do conhecimento bem alicerçada na filosofia: o direito! Se as leis funcionam mal ou não funcionam, geralmente existem problemas éticos por trás disto: deturpações ou desvios dos códigos de leis, modificações de leis em prol de interesses particulares etc. O psicólogo pode e deve defender pacientes que foram vítimas de tais manobras nocivas exercidas por líderes religiosos. Ele pode orientar o paciente psicoemocionalmente e até psicossocialmente, afinal a psicologia frequentemente toca a sociologia/ as ciências sociais devido ao fato do ser humano estar inserido numa sociedade, porém tentar invalidar os elementos espirituais mencionados anteriormente, que estruturam praticamente toda a espiritualidade, é um exagero inconsequente: Já presenciei mais de um caso onde pacientes de profissionais de saúde mental, seguiram recomendações para tratar problemas oriundos de um contexto espiritual e/ ou religioso, com medicação psicofármaca! Os pacientes que aceitaram tais recomendações, tinham dúvidas sobre suas próprias experiências e/ ou não sabiam lidar com elas no contexto mísitco/ religioso onde surgiram, seja por causa de medo ou vergonha. Obviamente os resultados destes tratamentos psicofármacos variaram entre ineficazes e até nocivos para alguns dos pacientes!
A ciência pode pesquisar temas "neutros" como muitos objetos de estudo da física, da química e de determinadas partes dos organismos biológicos, mas sua finalidade, seja nas áreas mais "exatas" ou mais "humanas", sempre serve a alguém e a questão é: para quê e a quem ela serve?
Por fim, se a ciência não estuda a ética, afinal ela foi separada do campo que realizava tal estudo (a filosofia) de modo mais definitivo durante a primeira metade do séc 19 (com a proposição do termo cientista e com a propagação do positivismo), ela ainda necessita que os elementos deste campo sejam aplicados às suas investigações e à sua finalidade: A ciência ainda precisa da filosofia para ser universal e ética. Precisa da filosofia para reavaliar a construção de conhecimento, os métodos de investigação e de ensino, para que estes sejam integrais e quando possível, transdisciplinares. Só assim haverá equidade e progresso sem exclusões que causam ou possibilitam a propagação de variadas violências, seja a hiper vigilância e perda de privacidade, a propagação de produtos ou tratamentos falsos que dão lucro à trapaceiros, o consumo excessivo de substâncias nocivas (ultraprocessados, medicamentos que causam dependência) a curto ou longo prazo, a utilização de armas super modernas em conflitos que beneficiam minorias de multimilionários etc.