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Combater Charlatanismo requer só Ciência? Ou é problema Ético?

 Escrevo este texto após ser bombardeado por sugestões um tanto decepcionantes do algoritmo: particularmente vídeos sobre ciência que as redes sociais me empurram.

Mas por que vídeos sobre ciência me decepcionaram? Bom, talvez não seja somente os vídeos ou talvez não seja exatamente os vídeos; Sabe-se que o tal algoritmo oferece-nos conteúdos baseados no que nós mesmos assistimos, clicamos e/ ou comentamos na internet. Logo, podemos entender que eu mesmo cliquei e/ ou assisti vídeos de divulgadores científicos nos últimos 5 ou 6 anos... 

O que foi cumulativamente me incomodando na verdade foram os vieses de vários (não todos) divulgadores científicos... Cedo ou tarde estes divulgadores da ciência especializados em uma ou duas áreas específicas, decidiram falar de outra área como se tivesse conhecimento dela... e cometeram no mínimo algumas distorções para não dizer equívocos. Em um outro exemplo, o divulgador científico convidou outro cientista em seu canal ou programa e este convidado cometeu o mesmo tipo de deslize: escapava de temas de sua área de especialização e pronunciava opiniões disfarçadas de conhecimento.

 Cabe avaliar como eles saiam de suas respectivas áreas de estudo analisando 3 exemplos:

1º exemplo: Um estudioso formado em medicina e neurociências, reconhecido por seu trabalho internacionalmente certamente tem repertório para colaborar com as áreas que estudou: o corpo humano, as sinapses e suas respectivas relações e teorias do comportamento relacionadas a tais sistemas neurológicos... Mas teria um conhecimento sólido o suficiente para falar de história da humanidade? Discorrer sobre o que pensavam, o que queriam e o que faziam as classes governantes das 31 dinastias que reinaram no Egito/ Kemet por cerca de 3000 anos de história?? Dificilmente o médico neurocientista teria tal conhecimento, mas ele optou por espalhar suas opiniões como se fossem fatos, ignorando variadas explicações e interpretações certamente mais embasadas destes períodos antigos da história. Note que isto não tira o mérito de vários outros estudos e colaborações realizadas pelo cientista em questão na área da saúde e talvez até numa área social/ de interesse coletivo, mas seu conteúdo produzido sobre este tema alheio à sua especialização (história do Egito) foi no mínimo impreciso!

2º exemplo: Psicólogos com pós graduação em neurociências certamente deveriam falar sobre a parte do sistema nervoso que estudaram e seu funcionamento. Também deveriam entender da psicologia, suas origens na filosofia com Wilhelm Wundt, e suas investigações e teorias sobre a mentalidade do ser humano que deu origem a várias abordagens psicoterapêuticas. Deveriam entender que tais abordagens estão relacionadas à visão (entendimento) de ser humano e como esta visão serve para o profissional ter parâmetros ao tratar os pacientes. Deveriam saber como ajudar estes a lidar com sofrimentos psicoemocionais ou psicossociais, a lidar com a perda ou a busca de sentido existencial ou com possíveis transtornos mentais. Deveriam colaborar com a relação entre psicologia e psiquiatria, mas também entender suas diferenças, sem hierarquizar as áreas do saber. Deveriam entender e tratar da importância dos sentimentos - um elemento subjetivo e histórico de cada ser humano. Se um estudioso ou dois estudiosos com formação nestas áreas passa(m) a discorrer se Deus existe ou não existe, dificilmente ele(s) estarão agindo como psicólogo(s) ou como neurocientista(s). Se um destes estudiosos/ profissionais passa a criticar relatos de variadas experiências religiosas e espirituais, negando vários elementos da espiritualidade, ele não só está desviando das áreas que estudou, como também está contrariando a universalidade e portanto estará sendo antiético. Afirmar que as experiências ocorridas em diferentes contextos religiosos ou espirituais foram refutados pela ciência ou que simplesmente não existem é psicologia? Afirmar que a ciência descobriu que o ser humano inventou Deus ou que provou que Deus não existe é ciência? É construção de conhecimento? O método de investigação e estudo da neurociência é capaz de estudar Deus? E os métodos das diferentes abordagens psicológicas? A psicologia ou as neurociências têm esta finalidade? A resposta para todas estas perguntas é... Não.

Por fim, em um 3º exemplo, outro psicólogo e neurocientista decidiu criar canais de divulgação supostamente científica nas redes sociais, onde com certa regularidade usa chamadas sensacionalistas prometendo meios fáceis e rápidos de melhorar desempenho em diferentes áreas da vida (carreira profissional, saúde corporal etc). Este neurocientista também transmite uma constante narrativa como se praticamente todo psiquismo humano dependesse especialmente de fatores neuroquímicos do corpo... funda institutos ou parcerias com outros profissionais de viés semelhantes e que trazem conteúdos diminuindo a importância de fatores sociais na vida das pessoas, geralmente priorizando o sucesso do esforço individual (e consequentemente do "mérito") ... Ele está falando da área em que realizou as suas graduações? Pode parecer que sim, mas na verdade ele utilizou muita retórica (método de persuasão através da comunicação) para transmitir opiniões entre eventuais conteúdos de psicologia e de neurociência. Transmitir opiniões não é problema se você deixa claro o que é sua opinião e o que é fato ou descobertas científicas. Porém em muitos vídeos deste "divulgador científico" fica claro (ou deveria ficar claro ao menos para quem estudou filosofia ou psicologia e tem uma preocupação com a ética) que ele às vezes transmite suas próprias opiniões como se fossem fatos, ou como se fossem conhecimento. E isto pode ser perigosamente utilizado sem fins benéficos para quem consome tais conteúdos.

 Estudei neurociências somente em um ano do bacharelado de psicologia e não sou especialista no tema, mas também estudei "por conta própria" a história da ciência e um pouco de filosofia ocidental - particularmente bastante da filosofia clássica. Portanto sei, baseado não só nestes estudos, mas também em algumas aulas e vídeos públicos de professores e profissionais de neurociência, que a neurociência não considera estudar nada além da matéria! Por matéria entende-se toda e qualquer substância (imagino que energia também) que possa ser observada, ou seja, percebida sensorialmente, pelo investigador (cientista)! Além disto, esta área até onde sei, utiliza somente o método empírico de estudo, o que parece ter alguma coerência com a pré suposição (pressuposto) de que só a matéria exista (embora há controvérsias sobre o que exatamente seria matéria). O método empírico é só um método apoiado na pré suposição aqui mencionada: não é uma verdade absoluta. Não é a realidade, pois a pré suposição de que SÓ a matéria, ou a natureza sensorial/ tridimensional exista, não deve ser imposta sobre todas pessoas com diferentes visões de realidade (cosmovisões) - impor isto para pacientes, alunos ou outras pessoas, contraria a universalidade de pensamento e de experimentar o mundo e a vida. Impor tal visão e/ ou pré suposição reducionista sobre diferentes povos e culturas é antiético!

O método empírico teve e certamente ainda tem sua importância para humanidade. Mas além de estar restrito à pré suposição materialista e consequentemente sensorial, ele exige uma reprodutibilidade dos fenômenos estudados - muito comum e útil em estudos da química, da física e da biologia, por exemplo.

Deus é um fenômeno químico? É um ser corpóreo e tridimensional que fica voando pelos céus ou pelo espaço? Acho que não, ao menos não lembro de ver tal descrição de Deus seja nas religiões que frequentei ou que estudei.  Claro que Deus tem no mínimo um aspecto transcendental... No evangelho de João, por exemplo, fica claro que Jesus diz que Ele é espírito... e deve ser adorado em espírito. O espiritismo que tentou conciliar os 4 evangelhos que contam os ensinamentos de Jesus com filosofia e ciência durante o século 19, também entende Deus como um espírito... com toda a complexidade aparentemente paradoxal de onipresença etc etc. A Krya Yoga, corrente ecumênica do sanatana dharma, toscamente chamado de hinduísmo no ocidente, parece tratar Brahman (Deus) como o criador/ mantenedor e renovador de todas as coisas (do cosmo, dos espíritos etc) e também considera realidades além do cosmos material (astral, causal etc).

 Este aspecto transcendental é abordado por religiões e pela espiritualidade independente da religião e não aparece só quando se fala de "Deus / Yavé/ Alá/ Brahman"... O próprio conceito de aperfeiçoamento (moral, ético e espiritual) acaba tratando o transcendental em muitas religiões e na espiritualidade em geral. A própria existência humana não é considerada somente na Terra, mas também em um "além", seja lá como cada religião ou fé descreva tal realidade "além".

Aí vem mais uma pergunta: o transcendental é investigável pelo método empírico? A resposta já está dada devido a própria constituição do método: Não! 

Certamente seria necessário um outro método mais abrangente que não "pré suponha" que só exista uma realidade material/ energética / tridimensional. Tal método não deveria partir de certezas de como seria uma realidade além da matéria/ da realidade tridimensional, pois isto seria dogma! Dogma é verdade pronta que não permite investigação, seja ela empírica, sistêmica ou racional dialética! Dogma é comum nas religiões... embora muita gente sem religião, seja ateu ou espiritualista, também crê em dogmas... e até mesmo prega dogmas aos outros, seja de maneira aberta e assumida, ou de maneira sutil, escondida por retórica aparentemente lógica ou racionalista.

Cosmovisões, ética e métodos para se construir conhecimento não deveriam ser assunto complexo pois já foram abordados na filosofia grega por volta do século 4 a.C. Certamente foram estudados em antigas filosofias de outras culturas também, mas não me considero versado o suficiente para falar da história da filosofia/ construção de conhecimento destas outras regiões. Antes de abordarmos tais discussões históricas sobre a construção de conhecimento predominantemente ocidental, analisemos um pouco mais como e porque espiritualistas e ateus podem ter uma visão de mundo ou cosmovisão com um ou mais dogmas... que afetam pressupostos de suas respectivas construções de conhecimento, sejam estas chamadas de ciência ou de qualquer outro nome.

Uma cosmovisão comum (mas não obrigatória) entre espiritualistas é considerar a existência de Deus, das almas/ espíritos e de uma realidade espiritual como dogmas. Alguns destes podem considerar a reencarnação também praticamente como um dogma. O que deveria definir se é dogma ou conhecimento é a forma como se constrói esse entendimento de que tais coisas existem... e isto é um dos pontos mais polêmicos e inconclusivos quando se fala de cosmovisão (e possivelmente também quando se fala de ontologia/ metafísica/ filosofia, de pressupostos da ciência, de antropologia e de religião/ espiritualidade). Nas religiões certamente discutir como se chega ao entendimento de Deus ou de uma realidade espiritual, fica ao encargo da teologia... uma área que estudei pouquíssimo e atualmente, depois de ter estudado a história das igrejas católicas e protestantes, não estou interessado neste campo. Ao menos não por enquanto.

Tive maior contato com o sanatana dharma (espiritualidade dominante no subcontinente indiano e talvez em algumas regiões adjacentes como o sudeste asiático) através do sistema da Krya Yoga, onde leva-se em consideração os ensinamentos baseados nas experiências de mestres que alcançaram o samadhi, ou supra consciência. Após ler algumas obras de iogues e de frequentar um ashram em São Paulo por cerca de um ano, percebi que nem todos relatos dos mestres são imediatamente considerados como verdades absolutas ou dogmas... Entendi que a Krya Yoga mostra um enorme potencial de diálogo entre diferentes entusiastas e praticantes da espiritualidade e até mesmo mostra alguma capacidade de diálogo com as religiões cristãs, mas tive a impressão de que alguns praticantes tendem a uma busca por disciplina quase alienada e outros parecem se tornar bastante dependentes de um ou mais mestres, consolidando hierarquias pequenas mas talvez desnecessárias. Apesar destas possíveis dificuldades, a Krya Yoga me pareceu pouco dogmática: seu rigor é de método - mas não investigativo e sim de desenvolvimento "pessoal"/ espiritual... Óbvio que considerar Brahman é um dogma, mas vale lembrar que não se trata de um Deus antropomórfico nem punidor. Isto por que Brahman está tão ligado à supra consciência e a valores universais existentes em outras religiões, bem como existentes na espiritualidade e na filosofia, que é praticamente desnecessário taxá-lo de dogma. Aqui já adianto uma pergunta: vale a pena taxar equidade, justiça, amor e verdade como dogmas? Vamos tentar responder no decorrer deste texto.

Um último exemplo de espiritualidade que abordarei aqui (para não me delongar) é o espiritismo. O espiritismo surgiu na França em meados do século 19, quando eram comuns registros de fenômenos estranhos não só na Europa, como também nos EUA. O pedagogo Hippolyte Léon D. Rivail, assumiu o pseudônimo Allan Kardec após concluir que havia uma causa inteligente invisível por trás de alguns destes fenômenos (mesas girantes e tiptologia/ respostas às batidas em objetos). Ele utilizou da lógica e da comparação dos fatos e de investigações e a partir daí passou a avaliar criticamente várias mensagens entendidas como recebidas de espíritos através de médiuns. O que ele chamou de médium não era um indivíduo escolhido por um espírito superior ou por Deus: todo ser humano é médium, pois está entre a realidade material e  a espiritual, mas nem todos percebem ou entendem os fenômenos espirituais por variadas razões: Seja devido a religiões particulares, ao apego à realidade material, ao medo, ao orgulho etc. Todo ser humano também é um potencial "evocador" de espíritos, pois é capaz de orar e pensar com vontade e sinceridade, mas a possível obtenção de resultados e a percepção destes variam muito de acordo com as intenções, a moral e a cultura de cada pessoa. Kardec e os médiuns com que teve contato produziram alguns livros e muitas edições da Revista Espírita/ Jornal de Estudos Psicológicos por cerca de 13 anos. Tais fatos colaboram com o entendimento que Kardec e seu grupo davam grande importância ao estudo dos fenômenos espirituais: eles realizavam suas sessões como uma forma de investigação não só buscando entender e explicar a espiritualidade, mas também buscando um progresso moral e ético (independentemente de quão bem-sucedidos eles foram). Quando o espiritismo chegou ao Brasil ele teve que lidar com a pressão da igreja católica e também com o preconceito que afligia a espiritualidade afro-brasileira, seja chamada de umbanda, candomblé ou de outra denominação. Esta adaptação fez com que a maior parte do espiritismo brasileiro assumisse um viés religioso com alguma semelhança ao catolicismo: pouco se investiga nos centros espíritas brasileiros, pois eles agem mais como apoio espiritual e/ ou como uma religião sincrética ("mista"). Nota-se aí no mínimo dois espiritismos (certamente podemos considerar outros mais), cujo os dogmas são diferentes entre si: o primeiro, francês, mal tinha dogmas: possivelmente Deus, a existência de espíritos e a reencarnação eram dogmas, ainda que entendidos através de um raciocínio reflexivo e ético. Já no segundo, o brasileiro, vários romances psicografados por médiuns apresentam conteúdos dogmáticos, sem serem submetidos às avaliações críticas.

Por fim, ateus podem ser dogmáticos? Se eles afirmam e espalham a ideia de que Deus não existe, espíritos e reencarnações não existem... isto já são exemplos de dogmas. Mas certamente a maioria das pessoas que tem esta postura, mesmo que publicamente, nega tal fato: isto porque no próprio meio científico existem pessoas que pregam os pressupostos materialistas e/ ou niilistas como se fossem a realidade/ a verdade... portanto pregam estas suposições como se fossem dogmas. Isto é aceitável na ciência se o estudioso se limita a usar tal base ou ponto de partida somente para investigar seu campo de especialização material: um médico estudando o aparelho digestório, um otorrino, um químico entre outros exemplos deste tipo, certamente podem ter tal postura sem problemas. Mas os estudiosos das "áreas humanas" devem sempre utilizar uma investigação estritamente empírica? Devem sempre partir de um pressuposto naturalista/ materialista ou similar? Vejamos a área da história por exemplo: Não existem tradições orais? Quantos seres humanos deixaram obras parcialmente perdidas ou destruídas? Quantos seres humanos marcaram ideologias ou sociedades sem deixar evidências materiais eles mesmos? O assunto fica mais sensível ainda em áreas como direito e psicologia. O que é justiça? Certamente não deve ser considerada uma mera opinião... O que é o psiquismo humano? A subjetividade, seus desejos reprimidos e traumas psicoemocionais e históricos? Qual é a importância e os possíveis impactos de um sentido de vida(?) seja este espiritual ou sentimental. Para responder estas questões não seriam necessárias investigações pautadas por uma postura e um método para além do materialismo/ naturalismo e do empirismo? Afinal outros métodos e pressupostos não são novidades na história da construção de conhecimento: existem na filosofia há séculos. Avaliemos tal possibilidade adiante, então...

Os divulgadores científicos que citei existem, mas não vi necessidade de expor nomes, porque existem vários semelhantes entre si nestes discursos cientificistas. Acho válido criticar charlatães, sejam estes religiosos ou místicos, mas isto é uma questão mais ética (e portanto filosófica) do que científica. Porém criticar posturas antiéticas de certos religiosos e religiões é uma coisa: é criticar a utilização de argumentos religiosos ou teológicos que pontualmente favorecem a eles mesmos e causam dano às outras pessoas. Mas qual é a finalidade dos divulgadores científicos que parecem fazer isto eventualmente, mas frequentemente pregam suas respectivas cosmovisões e pré suposições como se fossem a realidade (e um dogma)? Divulgar sua própria visão reducionista da realidade ou da história como se fosse um fato ou verdade, não é divulgar conhecimento e nem combater charlatanismo. É outra coisa: é contrariar cosmovisões que considerem existência para além da matéria ou para além de uma realidade tridimensional, é contrariar toda a espiritualidade O charlatanismo deve ser combatido porque é o ato de negociar ou prometer a solução de um problema visando o benefício próprio (geralmente lucro) e sem resolver o problema, ou até mesmo causando algum mal ao seus alvos - seja a mera enganação e decepção, o empobrecimento, um dano físico, uma difamação etc. Na verdade, se tal negociação ou promessa fizesse algum bem aos seus alvos, não precisaria ser combatido e nem seria charlatanismo.

Não estou criticando o conteúdo que os divulgadores trazem de dentro de suas respectivas áreas e é reconhecido por outros acadêmicos ou profissionais éticos. Estou me esforçando para analisar esses divulgadores da ciência a partir do que estudei sobre a história da ciência (embora eu tenha estudado mais a história da psicologia que é uma de minhas formações) e com base na filosofia, particularmente a epistemologia, campo que investiga a construção de conhecimento.

Referente ao termo epistemologia, ele deve ser usado com cautela por 2 motivos: O primeiro é que esta é uma palavra que parece "bicho-de-7-cabeças"; Isto porque muita gente (geralmente leigos em filosofia) ficam receosos quando este tipo de palavra surge num diálogo ou texto, como se tratasse de um assunto dificílimo ou super enfadonho. O segundo motivo é que, após estudar um dos principais autores da filosofia "ocidental", me ficou claro que epistemologia dificilmente deveria ser separada de outras (supostas) áreas da filosofia, tais como ética, ontologia, teleologia e talvez outras áreas mais polêmicas das quais não citarei no momento. Este autor é Platão e ele é um dos alicerces da filosofia ocidental: admirado ou desprezado, sua obra foi muito discutida por pensadores por mais de 2000 anos! E se você acha que devido a idade de sua obra, Platão está obsoleto... certamente você está enganado. Isto porque como citei em outros textos meus, o filósofo das cidades estado gregas da antiguidade clássica se esforçou em deixar um modelo de construção de conhecimento inseparável da ética. O autor escreve várias obras indicando a diferença de opinião e conhecimento e como a finalidade da construção de conhecimento não deve privilegiar poucos indivíduos ou pequenos grupos ante o coletivo, representado (em sua época e local) pelas "cidades estado". Hoje poderíamos substituir tal coletivo pelas nações, grupos étnicos, ou, mais precisamente pela humanidade como um todo, já que avançamos muito na capacidade de nos comunicar se comparado com as épocas onde as tecnologias ainda eram incipientes ou inexistentes. 

Essa finalidade (teleologia) coletiva da construção de conhecimento (epistemologia) indicada por Platão era pautada na ideia de algo que não fosse meramente temporário ou descartável - algo eterno. É claro, que fazer tal proposta de modo tão resumido ou simplório não seria bem aceito na academia neste início de século 21. Como alguém que se propõe a ser tão racional poderia se pautar em algo eterno? Bom, neste ponto vale lembrar que eterno não é um conceito totalmente absurdo, afinal existem "coisas" que não temos certeza de onde acabam ou onde terminam como o espaço e o tempo (ou o espaço-tempo continuum, pressupondo que sejam uma coisa só). Isto porque para pressupor um início de todas as coisas, teríamos que ter certeza de que o tempo é linear... e que não havia coisa alguma antes do início de tudo... E nada disto é certo, ao menos não do ponto de vista de seres com corpos tridimensionais e/ou inseridos em um espaço tridimensional.

Mas estas questões não resolvem o aparente problema: Se Platão se pautou no eterno, como ele prova o eterno? Ou nada é eterno e Platão estava totalmente errado? Afirmar que nada é eterno é uma opinião, isto porque não se investiga algo partindo da negação de que este algo exista - tal ato é uma contradição por si só e Platão explica isto em um dos seus textos. 

Platão buscou construir conhecimento visando algo duradouro e que servisse para o maior número de pessoas ou seres possível (com algumas limitações culturais de sua época e local). O que poderia ser duradouro e bom para o ser humano coletivamente? Não poderia ser algo simplesmente neutro ou indiferente às pessoas, pois Platão entendeu que tal busca incluía o que é Uno e por Uno devemos entender universal, mas coeso. A universalidade é a inclusão de todas as cosmovisões sem priorizar uma ante a outra, sem desprezar ou oprimir qualquer uma das cosmovisões e sem exclusões. E o que são cosmovisões? São visões de mundo ou o que se entende por real ou realidade. Platão discute isto na obra Sofista (do Ser) que é continuação do diálogo Teeteto (da Episteme, ou do Conhecimento). E naturalmente, ao falar "do ser", fala-se de ontologia (estudo do ser), porém tal tema é bem exposto no diálogo Fédon (da Psiquê, traduzido como "da Alma") - Neste trabalho Platão mostra que seu mestre Sócrates havia estudado com o filósofo naturalista Anaxágoras. Apesar de Sócrates admirar Anaxágoras por este ter indicado Nous (traduzido por alguns autores como a Inteligência) como a causa de todas as coisas, o mestre de Platão acaba se decepcionando pelo fato de que o naturalista não relacionava Nous com a causa de vários temas estudados. Sócrates então teria explicado que um professor de ontos (o estudioso do ser, das coisas que são) deveria se pautar pela melhoria de todas as coisas. Esta melhoria de tudo (coisas e seres), faz sentido pois seria uma finalidade (teleos) ética para todos os estudos e investigações. 

Mas como melhorar todas as coisas? Comecemos pelo mais fácil: a humanidade evoluiu muito tecnologicamente desde a época de Platão (séc 4 aC) até a atualidade (séc 21). Esta evolução foi muito acelerada após invenções como as redes elétricas, o rádio, os veículos à combustão, a televisão, o telefone, os eletrodomésticos, o computador, a internet etc. Mas tal progresso objetivo não inclui necessariamente um progresso ético e/ ou moral, tanto é que mesmo com a suposta diminuição do obscurantismo de eras anteriores, o ser humano quase se destruiu em guerras sanguinárias modernas. As duas guerras mundiais só aconteceram porque o ser humano desenvolveu o "saber fazer armas" aliado à ideologias que tinham como finalidade ganhos particulares (lucros indefinitivamente crescentes) e a supremacia de determinados grupos étnicos ou nacionais. A priorização de lucros ou de determinados grupos sobre outros é apontada por Platão como a finalidade ou ideologia de dois tipos de pessoas que não priorizam a filosofia e sua finalidade universal/ ética: respectivamente os filokerdes (traduzido como interesseiros, ou amantes do dinheiro) e os filonikons (traduzido como briguentos, ou amantes das honrarias).

Para melhorar todas as coisas então, é preciso investigar o que torna o ambiente e os objetos em geral, melhores sim, mas também é preciso tornar os seres humanos melhores. Afinal se nos limitarmos ao primeiro tipo de investigação e estudo, abordamos somente o que conhecemos como tecnologia hoje em dia. E isto é alcançado pelo que Platão chamou em seu diálogo Sofista, de estudo da criação e manutenção de objetos/ corpos. Este método de investigação visa exclusivamente a matéria: o que pode ser observado (escutado, tocado, enfim, percebido pelos sentidos) e reproduzido sob controle do investigador. Isto parece com o método empírico que se tornou o alicerce da ciência moderna? Certamente. Porém tais investigações apesar de úteis, não tornam o ser humano mais ético, não faz o ser humano aprimorar sua moral nem torna ele ou suas obras, mais universais. É por isso que Platão segue com a investigação de outras cosmovisões (além do "materialismo" atomista, o autor analisa um tipo de espiritualismo ou imaterialismo entre outras visões de realidade) e conclui que nenhuma delas deve ser considerada verdade absoluta nem ponto de partida (pressuposto) para se iniciar uma construção de conhecimento universal. Assim como também conclui que estas visões de realidade não são necessariamente excludentes entre si e nem são totalmente descartáveis - Platão assume a postura mais abrangente (e universalista) possível, indicando a utilidade da visão mais reducionista (materialista/ sensorial etc) e considerando também uma possível realidade espiritual. E por isto seu método de construção de conhecimento (epistemologia) tem os seguintes elementos: A presunção da própria ignorância por parte do estudioso/ investigador diante uma questão, relato ou tema a ser pesquisado (isto se assemelha em algum grau com a suspensão de pressupostos proposta pela fenomenologia); A maiêutica como método de investigação: um diálogo (lógica comparada) onde os interlocutores apresentam suas questões e argumentos, refletindo sobre estes para chegar às melhores conclusões possíveis e a finalidade de melhoria; Melhoria esta que não é sensorial, mas primariamente cognoscível e "una"/ imutável. É o resultado mais belo (bom/ benevolente, oriundo do termo grego antigo kalos, sem tradução exata), justo e moderado, que fomenta valores universais nas pessoas e no coletivo/ sociedade, tais como temperança/ auto conhecimento, coragem e justiça. Seguindo esta lógica, vários absurdos que permearam a ciência moderna (principalmente do século 17 em diante), como por exemplo, o racismo científico, a drapetomania, a internação coercitiva, o darwinismo social, o desenvolvimento de armas químicas e de destruição servindo determinados grupos nacionais ou econômicos e a "farmacocracia" propagando a hiper medicalização e a priorização dos lucros das empresas/ laboratórios farmacêuticas, poderiam ser evitados.

A ciência não é neutra, porque o ser humano tem intencionalidade e não é puramente racional: ele também tem dimensões, ou perspectivas de consciência mais simbólicas/ míticas e mais místicas/ espirituais ou transcendentais. Estas perspectivas não podem ser simplesmente suprimidas ou superadas - elas devem ser integradas no entendimento humano e assim como a perspectiva mais racional, precisam ser estudadas e abordadas de modo ético.

Se um cientista se propõe a analisar criticamente elementos das religiões e/ ou da espiritualidade, ele deve ter uma finalidade ética. Isso por si só é uma análise ou investigação mais filosófica do que científica e não há mal algum nisto - a filosofia também deve construir conhecimento e não deve ser relegada a um status de mero devaneio ou de intelectualidade prolixa sem finalidade para a sociedade. Uma investigação ética não faz afirmações inconsequentes e de finalidade dúbia como "Deus não existe". Que Deus? Um Deus vingativo e punidor certamente merece críticas para que religiosos interesseiros não utilizem tal imagem para amedrontar pessoas, mas o conceito geral de Deus imanente e transcendente nem pode ser investigado pela corrente principal (empírica) da ciência. 

Um grupo de religiosos inconsequentes que põe a culpa dos problemas psicossociais das pessoas em Deus ou em "existências anteriores" deve sim ser refutado: eticamente e filosoficamente, porque a ciência nem dispõe de meios (e muitos cientistas nem querem) para investigar tais argumentos que transcendem a matéria/ o espaço tridimensional. Os líderes de religiões que cometem ações antiéticas devem responder pelos atos que favorecem eles mesmos em detrimento dos fiéis sim - e muitas vezes tais golpes e crimes, seja charlatanismo ou violência psicológica, deveriam ser investigados por uma área do conhecimento bem alicerçada na filosofia: o direito! Se as leis funcionam mal ou não funcionam, geralmente existem problemas éticos por trás disto: deturpações ou desvios dos códigos de leis, modificações de leis em prol de interesses particulares etc. O psicólogo pode e deve defender pacientes que foram vítimas de tais manobras nocivas exercidas por líderes religiosos. Ele pode orientar o paciente psicoemocionalmente e até psicossocialmente, afinal a psicologia frequentemente toca a sociologia/ as ciências sociais devido ao fato do ser humano estar inserido numa sociedade, porém tentar invalidar os elementos espirituais mencionados anteriormente, que estruturam praticamente toda a espiritualidade, é um exagero inconsequente: Já presenciei mais de um caso onde pacientes de profissionais de saúde mental, seguiram recomendações para tratar problemas oriundos de um contexto espiritual e/ ou religioso, com medicação psicofármaca! Os pacientes que aceitaram tais recomendações, tinham dúvidas sobre (ou não sabiam lidar com) suas próprias experiências nas quais relataram ver e/ ou ouvir entidades ou espíritos surgidos no contexto mísitco/ religioso onde frequentaram, seja por causa de medo ou de vergonha. Obviamente os resultados destes tratamentos psicofármacos variaram entre ineficazes e até nocivos para alguns dos pacientes!

A ciência pode pesquisar temas "neutros" como muitos objetos de estudo da física, da química e de determinadas partes dos organismos biológicos, mas sua finalidade, seja nas áreas mais "exatas" ou mais "humanas", sempre serve a alguém e a questão é: para quê serve e a quem ela serve?

Por fim, se a ciência não estuda a ética, afinal ela foi separada do campo que realizava tal estudo (a filosofia) de modo mais definitivo durante a primeira metade do séc 19 (com a proposição e difusão do termo cientista e com a propagação do positivismo), ela ainda necessita que os elementos deste campo sejam aplicados às suas investigações e à sua finalidade: A ciência ainda precisa da filosofia para ser universal e ética. Precisa da filosofia para reavaliar a construção de conhecimento, os métodos de investigação e de ensino, para que estes sejam integrais e quando possível, transdisciplinares. Isto permite um diálogo entre os conhecimentos construídos pela investigação empírica dominante na ciência e os conhecimentos construídos pela investigação "aperspectiva" (de pressupostos mais amplos possíveis, ou suspensos) e dialética reflexiva de finalidade ética, comum na filosofia. Só assim haverá equidade e progresso sem exclusões que causam ou possibilitam a propagação de variadas violências, seja a hiper vigilância e perda de privacidade, a propagação de produtos ou tratamentos falsos que dão lucro à trapaceiros, o consumo excessivo de substâncias nocivas (ultraprocessados, medicamentos que causam dependência) a curto ou longo prazo, a utilização de armas super modernas em conflitos que beneficiam minorias de multimilionários etc.

A filosofia que indico aqui é ética porque constrói conhecimento universal: não reduz o ser humano, abrange todas cosmovisões e não exclui pessoas por causa de dificuldades de desempenho, seja físico, mental ou profissional/ econômico. Não há saber que priorize lucros ou disputas, porque o saber verdadeiro tem universalidade - sem este elemento resta somente opiniões que dividem.

Um resumo sobre as origens e possíveis consequências do iluminismo

 Neste texto trago um pouco da história da filosofia e sua importância, com enfoque no iluminismo; período da era moderna posterior à renascença e anterior ao positivismo e à pós-modernidade.

O iluminismo é tido como um movimento intelectual e filosófico de base europeia; Seus autores propagaram ideias sociais centradas no valor do conhecimento construído pela investigação racionalista e empirista, em ideais políticos de "direito natural", "liberdade", "progresso", tolerância, fraternidade e governo constitucional, e na separação formal entre estado e igreja.

Não há um consenso absoluto de quando foi o início de tal movimento, mas entende-se que ele tenha começado na Europa durante o final do século 17. 

Um filósofo que se destacou no período de transição da renascença ao iluminismo foi René Descartes (1596-1650). Tido como um racionalista, Descartes deu ênfase à importância da matemática e da ética. Em seus estudos sobre o ser humano, além de abordar o tema da ética, também investigou o corpo humano e seu funcionamento. Conhecido pela frase "Penso, logo existo" (ou "Penso, logo sou"), Descartes indica que o ser humano é em essência o psiquismo, mas que age em relação (ou em) seu próprio corpo que tem uma extensão passiva de ser medida etc. Este foi um dos possíveis motivos pelo qual o filósofo foi considerado um dualista: Descartes é conhecido por classificar o ser humano como "dual": mente e corpo. Seus estudos causaram grande impacto na Europa e posteriormente no ocidente em geral - Vários pensadores de seu tempo e das décadas seguintes passaram a estudar, comentar e criticar sua obra. Embora a crítica nem sempre seja destrutiva, há evidências de que muitos pensadores discordaram da visão de ser humano e da existência apresentada por Descartes. Um dos principais motivos seria a "necessidade" de uma visão monista, ou seja, de que o ser humano era uma coisa "una" e não "dual".  Wozniak em "Mind and Body: René Descartes to William James" aborda este período da história: este livro foi aceito pela American Psychological Association (APA), pois seu conteúdo faz parte da história da filosofia e, consequentemente, da ciência e da psicologia. 

Entre as várias vozes que discordaram significantemente de Descartes, esteve o britânico John Locke (1632-1704), conhecido como fundador do liberalismo e um dos principais precursores do empirismo. Locke é unanimemente aceito como um autor inserido no movimento iluminista da Europa. Em linhas gerais Locke costuma ser lembrado por defender que todo indivíduo nasce com os seguintes direitos naturais: vida, liberdade e propriedade. Os conceitos de liberdade e propriedade porém devem ser discutidos buscando-se uma prática ética: que respeite a universalidade do ser humano... algo bem difícil de ser alcançado pela maioria dos pensadores europeus daquela época (séculos 17 e 18). Tentarei explicar tal fato sucintamente:

O iluminismo certamente não surge como algo uno, coeso e pensado por todos os filósofos classificados como iluministas. O movimento iluminista indiscutivelmente teve sua importância na história humana, mas ele naturalmente teve seus defeitos desde o início com as propostas de seus primeiros pensadores. Sua origem é predominantemente burguesa, pois na época, a maioria das pessoas de baixas classes sociais não tinham acesso aos estudos e ao conhecimento e nem recebiam espaço para expressar suas ideias etc. A mesma exclusão valeu para membros de nações não-européias: Nativo-americanos, africanos e asiáticos, por variadas razões, não eram aceitos entre os pensadores europeus. Existiram exceções a esta regra, como Angelo Soliman (1721-1796) por exemplo, mas estes raros indivíduos expressaram seus pontos de vista por curtos períodos de tempo entre os europeus (geralmente só durante suas respectivas vidas) e acabaram silenciados de alguma forma - seja por perseguições ou por uma massiva quantidade de opiniões e visões das elites europeias.  

Os pensadores iluministas praticamente em sua totalidade, aceitavam a divisão do ser humano em diferentes raças, pois consideravam características físicas como sendo de grande relevância - supostamente elas determinavam não só a aparência, mas também o comportamento e a capacidade intelectual dos seres humanos e isto passou a ser refutado somente muitos anos após o iluminismo, durante a década de 60 do século 20. Essa postura da maioria dos pensadores iluministas estavam de acordo com as opiniões e anseios das elites europeias: enxergavam a colonização e a exploração de terras e populações estrangeiras (escravização etc) como algo aceitável, afinal tais povos eram considerados "selvagens" e/ ou "ignorantes e ingênuos". A postura dos pensadores iluministas de questionar e enfrentar as monarquias e regimes absolutistas eram válidas enquanto se demonstrassem éticas: buscando a universalidade... porém como citei anteriormente, o pensamento europeu predominante só conseguia defender os povos europeus, pois o estrangeiro era tido como imperfeito e alguns autores faziam declarações ainda mais destrutivas do que a média dos pensadores, sobre os asiáticos e africanos (Petty, por exemplo, taxava os negros como uma raça desprezível). A visão racializada alicerçada em elementos físicos/ corporais do ser humano não contradizia o empirismo proposto por autores como Locke - na verdade colaborava com tal visão reducionista de ser humano e de realidade. Isto porque apesar do empirismo se mostrar eficaz como rigoroso método investigativo para o desenvolvimento da vindoura ciência, Locke não propôs tal ideia somente para realizar investigações e construir conhecimento: o autor britânico chega a insinuar que o empirismo é uma visão da realidade, ou uma forma de se viver e de se chegar à verdade. Isto por si só é negar grande parte do desconhecido e também é negar as experiências tidas como espirituais, místicas e similares, taxando-as de mentiras ou de meras alucinações. Oras, é compreensível que tal pensamento fosse propagado na Europa como resposta à influência da ideologia religiosa no continente e como combate ao poderio das igrejas que durou séculos, porém é inegável que tal pensamento nega estudos e teorias históricas da filosofia, bem como nega a universalidade de pensamento e seus diferentes modos de viver. Mais do que isso, propor o empirismo como o método mais verdadeiro de se alcançar o conhecimento ou a verdade, é em prática um dogma e colabora com a exclusão de cosmovisões, também colaborando com a taxação de variados povos da Terra como se estes fossem "primitivos" por integrarem uma realidade espiritual em seus modos de viver e de construir conhecimento. 

O Fim do Iluminismo e o que veio depois

O iluminismo teria durado até a ascensão de Napoleão (ou sua queda), talvez porque o império napoleônico derrubou a república/ "democracia" francesa tida como principal fruto do iluminismo. Porém o sistema liberal proposto por autores como Locke, que se provou mais econômico do que político ao longo dos anos, e a maneira dominante de se construir conhecimento (estritamente empírica/ racionalista), permaneceram em grande parte as mesmas do iluminismo após o século 18: O racismo científico, como citei, atravessou todo o século 19 durando até por volta de 1960 e a economia liberal (mercantil laissez faire) sobreviveu às crises financeiras da industrialização, ao crescimento dos bancos privados e às guerras mundiais. Tal sistema econômico que tanto influenciou a política, não foi extinto e sim só ganhou uma nova roupagem durante o século 20: o neo liberalismo continuou defendendo os bens e propriedades dos grupos mais enriquecidos das sociedades em detrimento da classe trabalhadora e da maioria dos empobrecidos. 

Servindo de argumento científico em defesa do liberalismo com pouca ou nenhuma regulação do estado (um tipo de continuação da ideologia laissez faire), o darwinismo social surgiu no final do século 19, entre as elites intelectuais da Europa. Desprezando fatores sociais e psicológicos do ser humano, tal ideologia disfarçada de construção de conhecimento colocou a culpa da pobreza e da desigualdade sócio econômica nas massas de pessoas mais pobres das nações e teve sua origem no biologismo - uma visão científica reducionista do ser humano, de seu comportamento e de suas relações. Tal reducionismo se mostrou interligado com a propagação do empirismo como se este fosse o melhor método de construção de conhecimento ou o mais verdadeiro. Afinal, se a investigação sensorial dos fenômenos e a reprodutibilidade determinavam o que era verdade (ao menos entre as elites, sejam elas intelectuais, econômicas ou ambas), a conclusão natural desta forma de "construir conhecimento" era de que os seres vivos eram somente materiais/ corporais e que o psiquismo era estritamente fruto dos corpos. O positivismo surgido na Europa do século 19 e rapidamente espalhado pelo ocidente, é claramente fruto da construção de conhecimento empírica. A consolidação e propagação deste pressuposto na construção de conhecimento possivelmente teve sua importância para reduzir o poder das igrejas na Europa, mas criou uma narrativa dos fatos oposta não necessariamente à falta de ética, seja nas igrejas ou nas elites, mas sim oposta a toda forma de religiosidade e espiritualidade. Tanto que a ciência foi mais claramente apartada da filosofia no início do século 19 com o surgimento do positivismo. Um dos ícones do positivismo, Auguste Comte (1797-1857), propagou a idéia simplória de uma história linear onde a humanidade passou por uma era religiosa que durou da antiguidade até a renascença (!), seguida por uma era supostamente metafísica até a virada do século 18 ao 19, onde estaria nascendo a "era científica". Para o autor, o pensamento científico de sua época (racional e estritamente empírico) deveria substituir completamente a era anterior, ou seja, conscientemente ou inconscientemente, Comte desprezou as conquistas filosóficas que embasaram sistemas políticos representativos. suas constituições, leis, códigos morais e éticos. Certamente tais ideias abriram espaço para uma construção de conhecimento supostamente "neutra" (a ciência separada da filosofia), que argumentava não tratar da ética, mas na verdade se afastava desta, permitindo a propagação de variadas teorias desumanizadas e antiéticas como o racismo científico, a drapetomania, o darwinismo social etc.

Após ganhar força ao longo dos anos, o darwinismo social surgido da ciência positivista reforçou a intensificação da desigualdade social e econômica, defendendo o enriquecimento irrestrito das elites e relativizando a justiça ao excluir por completo os valores como a equidade e a universalidade da construção de conhecimento dominante. Esta ideologia desumanizada possivelmente ganhou força na ciência porque foi aceita como se fosse "neutra" em relação ao ser humano, o tratando como a biologia entendia os demais seres vivos na época - aplicou conceitos como a adaptação biológica, à sociedade, fomentando e apoiando a ideia de "lei do mais forte" nas civilizações humanas.

Não estou dizendo aqui que o iluminismo foi um movimento coeso e totalmente interligado com os sistemas políticos e econômicos modernos e nem afirmo que foi o grande fomentador de ações antiéticas como o racismo ou o elitismo, mesmo porque muitas das ideologias reducionistas e antiéticas surgiram no período posterior - o séc 19 dominado pelo positivismo no ocidente. O movimento iluminista é complexo pelo simples fato de ter variados autores: Alguns como Locke se mostraram mais enraizados na cultura de seu local e tempo: A Inglaterra, que de tempos em tempos passava por cercamento de terras, enfrentava disputas por propriedades e na época de Locke até um século depois estava numa "ascensão" econômica devido às suas ações imperialistas que retirava recursos naturais e humanos de outras nações em prol de si mesma. Outros filósofos iluministas como Jean Jaques Rousseau (1712-1778), conhecido por influenciar o direito e defender o interesse coletivo, observou o potencial do ser humano ser bom e as influências sociais neste. Também abordou a importância da educação, dando abertura a uma universalidade de pensamento e acesso ao conhecimento, talvez influenciada por autores anteriores do final da renascença como Jan Amós Comenius (1592-1670).

Outros autores do iluminismo também tiveram sua importância, como, por exemplo, Henry More (1614-1687), Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778) e Diderot (1713-1784), mas não vou abordá-los aqui, pois além de conhecer só resumo sobre suas ideias, um texto abordando todos estes autores ficaria muito extenso para uma postagem de blog.

Enfim o iluminismo não foi a desgraça que alguns conservadores dizem que foi (devido ao fato de criticar a religião etc), nem foi um movimento ético de excelência ou virtudes humanas que salvaria a humanidade da ignorância. Foi um racionalismo mais ou menos útil que descambou em várias ideologias reducionistas; O iluminismo colaborou muito para o surgimento da ciência nascida do positivismo no início do século 19 - suas especializações, descobertas etc. Colaborou também para a prática de governos representativos e menos autocráticos do que as monarquias e para uma renovação dos conceitos de democracia e república. Mas também são inegáveis suas limitações resultantes de suas origens nas elites da Europa dos séculos 17 e 18. 

Considerações

No final dificilmente haverão "ismos" que salvem a humanidade enquanto esta não se tornar mais ética, com mais universalidade, equidade etc. Universalidade inclui relações equitativas entre pessoas com diferentes cosmovisões, bem como a vivência e a propagação de valores universais, ou seja, valores que unem as pessoas e beneficiam o maior número possível delas, numa busca constante por melhoria não só material, mas intelectual, comportamental e ética dos seres humanos e suas relações com a vida em geral. Uma postura e vivência que respeite todas as perspectivas da consciência humana, sejam estas racionais, simbólicas (míticas) ou transcendentais (místicas), se pautando pela ética e seus valores e não por meros métodos ou por uma suposta neutralidade que provou não existir na construção de conhecimento, na política e na economia. 

Infelizmente, como humanidade, ainda nos desenvolvemos mais rapidamente na esfera tecnológica do que na ética. Talvez por isso a história humana após o surgimento do iluminismo seguiu com tensões sociais, econômicas, guerras etc... 

Nestas considerações finais citei brevemente a importância da ética na construção de conhecimento e nos sistemas políticos/ econômicos, mas um aprofundamento sobre tal tema requer um outro texto.


Análise da epistemologia espírita (continuação)

Esta é a continuação da análise da epistemologia espírita realizado na postagem Amor pelo Saber, Saber Amar: Uma breve análise da epistemologia espírita a partir de um texto da Revue-spirite journal d'etudes psychologiques de 04/1864. Neste ponto do texto, Allan Kardec volta a teorizar sobre a possível ligação entre corpo e espírito - o "perispírito": 

12. ─ Posto que invisível para nós em estado normal, o perispírito não deixa de ser matéria etérea. Em certos casos, o Espírito pode fazê-lo sofrer uma espécie de modificação molecular que o torna visível e até tangível. É assim que se produzem as aparições. Esse fenômeno não é mais extraordinário que o do vapor, que é invisível quando muito rarefeito, e que se torna visível quando condensado. Os Espíritos que se tornam visíveis apresentam-se quase sempre sob a aparência que tinham em vida, pela qual podem ser reconhecidos.

13 ─ É auxiliado por seu perispírito que o Espírito age sobre o seu corpo vivo. É ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte; que produz os ruídos, o movimento das mesas e de outros objetos que ergue, derruba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente se considerarmos que entre nós os mais poderosos princípios motores se acham nos fluidos mais rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade. É igualmente com o auxílio de seu perispírito que o Espírito faz o médium escrever, falar ou desenhar. Não tendo corpo tangível para agir ostensivamente, quando quer manifestar-se, ele se serve do corpo do médium, cujos órgãos ocupa, fazendo-os agir como se fosse seu próprio corpo, e isto pelo eflúvio fluídico que sobre ele derrama.

Sobre a teoria do perispírito abordada nestes tópicos da revista (e de outras obras do autor), mencionei no texto anterior que não se trata de algo gasoso muito menos líquido: o perispírito seria composto de elementos ou energia em um estado muito sutil. É um tema inconclusivo do ponto de vista científico, ou de uma investigação pautada em mensurabilidade, pois apesar do autor especular sobre a possível composição elétrica e magnética do perispírito, em sua época não se conhecia o eletromagnetismo nem os campos eletromagnéticos dos órgãos do corpo. Hoje, no início do século 21, temos poucos estudos que avançaram sobre a relação de campos eletromagnéticos com a biologia: exames como o eletrocardiograma, o eletroencefalograma e a imagem de ressonância magnética foram desenvolvidos na medicina após a descoberta dos campos E.M. do cérebro e do coração, mas teorias sobre a consciência relacionada ao campo eletromagnético do cérebro ainda parecem incipientes ou pouco aceitas no meio científico. E ainda que estudos da relação do campo eletromagnético do cérebro com a consciência ganhem espaço na ciência, não há garantia que a discussão filosófica sobre a relação "mente-corpo" ganhe relevância na construção de conhecimento ocidental, pois ainda é preciso abertura ao diálogo com variadas culturas e como estas percebem/ entendem o ser humano e a realidade. É essencial escutar com equidade relatos de pessoas que passam por experiências entendidas como espirituais, sejam experiências boas ou ruins, particulares ou grupais/ coletivas - e estes relatos, que deveriam adentrar ao menos a psicologia, dificilmente ganham um espaço na construção de conhecimento dominante no ocidente, que é a científica tomada por pressupostos materialistas de metodologia estritamente empírica.
Vale relembrar que já na época de Kardec a ciência estava sendo tomada por um biologismo crescente - Após o positivismo iniciado poucas décadas antes do espiritismo, Charles Darwin (1809-1882) e Alfred R. Wallace (1823-1913) realizaram grandes descobertas na biologia e ideias sobre um ser humano puramente biológico foram espalhadas pelas elites intelectuais do hemisfério norte. O racismo científico já era aceito nas elites europeias pois parte dos intelectuais eram de origem burguesa e a ideia de progresso certamente sofreu influência do mercantilismo desde o século 16 e do liberalismo a partir do século 18. As descobertas sobre a seleção natural e teoria da evolução das espécies do século 19 foram levadas como verdades absolutas por alguns autores que já tentavam reduzir o ser humano ao aspecto biológico. A leitura racial do ser humano já se apoiava nas características biológicas desde os estudos de Carl Linaeus (1707-1778) e se intensificou no século do positivismo. Várias ideias preconceituosas e de viés racista eurocêntrico foram difundidas como se fossem conhecimento durante maior parte do século 19 e algumas chegaram até as duas ou três primeiras décadas do século 20: a localização de todo psiquismo em partes do cérebro (frenologia), a cranoscopia, a drapetomania e o darwinismo social. Kardec não era um biologista mas dificilmente escaparia do viés eurocêntrico da construção de conhecimento, e no âmbito do que constitui a relação entre psiquê (espírito neste caso) e corpo, o espiritismo estava dentro dos limites da época. 
As comparações utilizadas por Kardec serviam para dar uma ideia ainda imprecisa e que hoje deveríamos ter um pouco mais de recursos para reconstruí-las: o quarto estado da matéria (plasma) por exemplo pode ser considerado mais sutil que o estado gasoso (o ar etc) utilizado na comparação feita por Kardec. O eletromagnetismo mostra a ligação entre eletricidade e magnetismo que era ainda desconhecida naquela época... 

14. ─ É pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, quer para movê-la sem objetivo determinado, quer para fazê-la vibrar golpes inteligentes indicando as letras do alfabeto, para formar palavras e frases, fenômeno designado sob o nome de tiptologia. Aí a mesa não passa de um instrumento de que ele se serve, como do lápis para escrever. Dá-lhe uma vitalidade momentânea, pelo fluido com que a penetra, mas não se identifica com ela. As pessoas que, emocionadas, ao verem manifestar-se um ser que lhes é caro, beijam a mesa, praticam um ato ridículo, porque é absolutamente como se beijassem a bengala de que um amigo se serve para vibrar golpes. Dá-se o mesmo com as que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na madeira, ou como se a madeira se tivesse tornado Espírito. Quando ocorrem comunicações por esse meio, é preciso imaginar o Espírito, não mesa, mas ao lado, como ele era em vida, e como ele seria visto se no momento se tornasse visível. O mesmo ocorre nas comunicações pela escrita. Ver-se-ia o Espírito ao lado do médium, dirigindo-lhe a mão, ou lhe transmitindo o pensamento por uma corrente fluídica. Quando a mesa se ergue do solo e flutua no espaço, sem ponto de apoio, o Espírito não a levanta pela força do braço, mas a envolve e a penetra de uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza a ação da gravidade, como faz o ar com os balões e papagaios. O fluido de que é penetrada lhe dá momentaneamente uma leveza específica maior. Quando ela está plantada ao solo, está numa situação análoga à da campânula pneumática, sob a qual se faz o vácuo. Estas são comparações para mostrar a analogia dos efeitos, e não a similitude absoluta das causas. Depois disto, compreende-se que a um Espírito não é mais difícil levantar uma pessoa do que uma mesa; transportar um objeto de um a outro lugar, ou atirá-lo em qualquer parte. Estes fenômenos são produzidos pela mesma lei. Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito que corre, pois pode ficar tranquilamente no mesmo lugar, mas que lhe dá o impulso por uma corrente fluídica com o auxílio da qual a faz mover-se à vontade. Quando os golpes são ouvidos na mesa ou noutro lugar, o Espírito não bate com sua mão, nem com um objeto qualquer. Ele dirige um jato de fluido para o ponto de onde parte o ruído, produzindo o efeito de um choque elétrico. Ele modifica o ruído, como podemos modificar os sons produzidos pelo ar.
15. ─ Por estas poucas palavras pode-se ver que as manifestações espíritas, sejam de que natureza forem, nada têm de sobrenatural ou maravilhoso. São fenômenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações entre o mundo visível e o invisível, lei tão natural quanto as da eletricidade, da gravitação, etc. O Espiritismo é a ciência que nos dá a conhecer essa lei, como a mecânica nos dá a conhecer as do movimento e a óptica as da luz. Estando as manifestações espíritas em a Natureza, produziram-se em todas as épocas. A lei que as rege, quando conhecida, explica-nos uma porção de problemas olhados como insolúveis. É a chave de uma porção de fenômenos explorados e amplificados pela superstição.

Seja como tenha ocorrido os fenômenos das mesas girantes no século 19, é impossível ter evidências nos conformes da ciência de pressupostos materialista - O que temos são descrições de diferentes autores e estudiosos observando diferentes casos que aconteceram em variados pontos do "eixo" Europa - América do Norte e as descrições de Kardec parecem ter seriedade e interesse em investigar os fenômenos. Afirmações do tipo "ah, os fenômenos do século 19 envolvendo espiritismo e espiritualismo devem ter sido casos de alucinações coletivas" são generalistas por desconsiderar toda a amplitude e variedade de casos e também são enviesadas nos conformes da pré suposição da inexistência da alma/ de espíritos. Uma construção de conhecimento séria e ética não parte de tal pressuposição excludente e limitante. Kardec então buscou construir conhecimento como pode ser notado no texto da Revista Espírita - o espiritismo não se tratava de uma religião: Admitia que existem coisas desconhecidas, mas não tinha segredos, hierarquia nem liturgias.

16. ─ Afastado completamente o maravilhoso, tais fenômenos nada mais têm que repugne à razão, porque vêm tomar assento ao lado dos outros fenômenos naturais. Nos tempos de ignorância, todos os efeitos cujas causas não eram conhecidas eram reputados sobrenaturais. As descobertas científicas foram restringindo continuamente o círculo do maravilhoso. O conhecimento desta nova lei vem reduzi-lo a nada. Assim, os que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso, provam, por isto mesmo, que falam do que não conhecem.

Neste parágrafo Kardec mostra que buscava extinguir o conceito de sobrenatural, afinal o espiritismo visava explicar toda (um)a série de fenômenos, dos quais as religiões se apropriam e os cientistas simplesmente os negam. Neste ponto entendo que Kardec tentou algo muito à frente de seu tempo - porém não era uma construção de conhecimento com universalidade, devido a estar limitada ao contexto da Europa positivista; Kardec, bem como a maioria esmagadora (ou totalidade) dos pensadores europeus do século 19, não percebia como a ciência não era só uma busca pela verdade, mas era também uma maneira de determinar o que era a verdade. O discurso de "restringir continuamente o círculo do maravilhoso" está relacionado a elevação da ciência (de origem europeia ocidental) como superior aos demais saberes. Sua separação da filosofia ocorrida por volta da primeira metade do século 19 consolidou este fato: A ciência passava oficialmente a menosprezar campos relegados à filosofia e a investigar só os fenômenos naturais com (suposta) "neutralidade" o que incluía tudo o que era perceptível no mundo e no espaço; Desta forma a filosofia ficava somente incumbida a discutir ética, ontologia, teleologia e epistemologia como se tais assuntos fossem separáveis da ciência ou irrelevantes para esta última. Claro que haviam cientistas humildes e/ ou éticos, mas muitas das ideias aceitas na ciência da época de Kardec eram racistas e elitistas e tal fato é indissociável dos pressupostos materialistas que encontraram a desculpa perfeita no biologismo pós Darwin. Como citei anteriormente, a elite intelectual certamente era em grande parte de origem burguesa desde a época de Locke, Newton e Voltaire - época esta onde o empirismo foi determinado como o meio superior de se construir conhecimento na Europa. Quando Kardec realizou suas investigações, os sistemas públicos de educação eram incipientes (a construção de conhecimento ainda era predominantemente burguesa) e além do domínio do empirismo, já haviam sido consolidadas na filosofia natural (ciência) as ideias de 4 raças humanas propagadas por Lineu, o positivismo com a hierarquização das áreas de estudo de Auguste Comte (1798-1857), o racismo científico entre outras ideias nada universais, ou seja, nada éticas (antiéticas). 
Apesar disto, tais limitações seja na ciência ou no espiritismo de Kardec, são passíveis de uma revisão pautada por valores universais: incluir valores universais na construção de conhecimento é uma tarefa da filosofia, portanto a ciência por si só, principalmente a de pressupostos materialistas/ empiristas não é capaz de aplicar a ética e o diálogo horizontal (equidade) na busca pela verdade. Para desmistificar todo tema espiritual, não basta a racionalidade ou a mensurabilidade - é preciso intenção e postura éticas, eis o porquê existem movimentos para descolonizar não só a ciência, mas a epistemologia - a filosofia, a espiritualidade e a construção de conhecimento em geral. Hoje temos autores que defendem as cosmovisões indígenas e da África "subsaariana" que foram quase apagadas por um "epistemicídio", bem como temos espíritas progressistas que realizam uma historiografia do espiritismo criticando e refutando o racismo e outras posturas preconceituosas e obscurantistas dentro do movimento. 

17. ─ Uma ideia mais ou menos geral entre pessoas que não conhecem o Espiritismo é crer que os Espíritos, apenas porque são desprendidos da matéria, devem saber tudo e possuir a sabedoria suprema. Isto é um erro grave. Deixando seu envoltório corporal, não se despojam imediatamente de suas imperfeições. Só com o tempo se depuram e se melhoram. Sendo os Espíritos as almas dos homens, como há homens de todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de maldade, o mesmo acontece entre os Espíritos. Entre eles, há aqueles que são apenas levianos e brincalhões; outros que são mentirosos, trapaceiros, hipócritas, maus e vingativos; e outros, ao contrário, que possuem as mais sublimes virtudes e o saber em grau desconhecido na Terra. Essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos mais importantes pontos a considerar, pois explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebe. É preciso aplicar-se em distingui-las. Disto resulta que não basta dirigir-se a um Espírito qualquer para ter uma resposta justa para cada pergunta, porque o Espírito responderá conforme o que sabe, e muitas vezes dará apenas sua opinião pessoal, que pode estar certa ou errada. Se ele for prudente, confessará sua ignorância sobre o que não sabe; se for leviano ou mentiroso, responderá a tudo, sem se preocupar com a verdade; se for orgulhoso, dará sua ideia como verdade absoluta. É por isto que São João, o evangelista, diz: “Não creiais em todo o Espírito, mas experimentai se os Espíritos são de Deus.” A experiência prova a sabedoria deste conselho. Haveria, pois, imprudência e leviandade em aceitar sem controle tudo o que vem dos Espíritos. Os Espíritos só podem responder sobre o que sabem e, além do mais, sobre o que lhes é permitido responder, porque há coisas que eles não devem revelar, porque ainda não é dado ao homem tudo conhecer. 

Kardec sabia da importância da ética não só na construção de conhecimento mas também na espiritualidade. Todos precisam despertar e viver os valores universais (que constituem a ética) e por isto ele indica que existem muitos espíritos imperfeitos. 
A necessidade de se distinguir as comunicações espirituais boas e ruins, não é exatamente uma novidade na história da humanidade: Platão aborda parte dela no diálogo Ion, onde ele mostra seu mestre Sócrates ensinando a importância de se estudar os temas que se trabalha (no caso, a poesia) e não depender somente de inspiração "divina/ daimônica"*.
*Daimonica refere-se à palavra grega daemon, que pode ser traduzida como espírito, gênio ou semi deus. Não é consenso se tem relação com o conceito cristão posterior de demônio, pois este último pode ter surgido da união das palavras demos (povo) e onios (medo). Se houver relação, é possível que a igreja tentou difamar o conceito de daemon, já que Platão apresenta uma cosmovisão diferente da instituição religiosa. 
Este espiritismo francês do século 19 então se mostrou diferente do movimento espírita posterior dominante no Brasil - no país sul americano, desde o século 20, aceita-se obras de alguns médiuns de maneira inquestionável, como se fossem verdades absolutas e sagradas, pouco diferindo de dogmas. 

18. ─ A qualidade dos Espíritos é reconhecida pela linguagem. A dos Espíritos realmente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de toda trivialidade, puerilidade ou contradição; respira sabedoria, benevolência e modéstia; é concisa e sem palavras inúteis. A dos Espíritos inferiores, ignorantes ou orgulhosos carece dessas qualidades; o vazio das ideias aí é quase sempre compensado pela abundância de palavras.

19. ─ Outro ponto a considerar, igualmente essencial, é que os Espíritos são livres. Eles se comunicam quando querem e com quem lhes convém, e também quando podem, pois têm as suas ocupações. Eles não estão às ordens e ao capricho de quem quer que seja, e a ninguém é dado fazê-los virem contra a sua vontade, nem lhes fazer dizer o que não querem, de sorte que ninguém pode afirmar que um certo Espírito virá a seu apelo em determinado momento ou responderá a esta ou àquela pergunta. Dizer o contrário é provar a absoluta ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo. Só o charlatanismo tem fontes infalíveis.

Kardec tenta traçar parâmetros para se reconhecer as boas mensagens ou boas inspirações espirituais. De fato a linguagem é um fator importante na vida humana, então quanto menos contraditória e mais alicerçada em valores universais, mais ética e mais verdadeira a mensagem. Uma linguagem ofensiva bem como uma complexidade exagerada na utilização de palavras, certamente não são sinais de universalidade nem de preocupação com o bem coletivo... 
Além disto, os espíritos sendo seres existentes em uma realidade para além da meramente material/ tridimensional, não podem ser constantemente monitorados ou controlados. Neste ponto, Kardec não só desmonta argumentos de espiritualistas charlatães que poderiam vir a alegar ter domínio sobre os espíritos ou sobre temas espirituais e até divinos, mas também abala a ideia de que o conhecimento superior ou universal dependa da reprodutibilidade típica da ciência "mainstream". Isto porque, apesar de Kardec não discutir como a realidade espiritual poderia ser adimensional ou estar para além do mero espaço tridimensional (mencionei no texto anterior sobre a descoberta matemática do conceito de quarta dimensão), é óbvio que a ciência de viés positivista se limita a investigação empírica (sensorial) de pressupostos materialistas (parte da suposição de que não há nada além da matéria perceptível e do espaço tridimensional). Este método de investigação dominante na ciência, juntamente com sua pré suposição, desde o século 19 não é capaz de aceitar a possibilidade de que a psiquê sobreviva após a morte do corpo, nem de que haja algo relevante além do espaço tridimensional e por isso crê que somente o reprodutível é verdadeiro ou importante.  

20. ─ Os Espíritos são atraídos pela simpatia, pela similitude dos gostos e dos caracteres e pela intenção que faz desejada a sua presença. Os Espíritos superiores não vão a reuniões fúteis, do mesmo modo que um cientista da Terra não iria a uma reunião de jovens estúrdios. Diz o simples bom-senso que não pode ser de outro modo; ou, se por vezes aí vão, é para dar um conselho salutar, combater os vícios, tentar reconduzir ao bom caminho. Se não forem escutados, retiram-se. Seria fazer uma ideia completamente falsa pensar que Espíritos sérios se comprazem em responder a futilidades, a perguntas ociosas, que nem provam interesse nem respeito por eles, nem real desejo de instruir-se e, ainda menos, que possam vir dar espetáculo para divertir curiosos. Se não o fizeram em vida, não farão depois de mortos.

Embora possa parecer que o autor, ao falar da simpatia entre espíritos, da comparação com o cientista e de se combater "vícios", abordou diferentes temas aqui, trata-se da relação entre bons sentimentos, raciocínio e interesse pelo conhecimento e ética! Esta lógica mais uma vez é condizente com a filosofia de Platão (e possivelmente com obras de outros filósofos também), pois demonstra para a construção de conhecimento, a importância de aspectos psíquicos e existenciais centrados na universalidade, na justiça e no bem, enfim valores universais/ éticos. 

21. ─ Do que precede resulta que toda reunião espírita, para ser proveitosa, deve, como primeira condição, ser séria e recolhida; que aí tudo deve passar-se respeitosamente, religiosamente, com dignidade, se se quiser obter o concurso habitual dos bons Espíritos. É preciso não esquecer que se esses mesmos Espíritos aí se tivessem apresentado quando vivos, teriam tido por eles considerações às quais têm ainda mais direito depois de mortos. Em vão alegam a necessidade de certas experiências curiosas, frívolas e divertidas para convencer os incrédulos: o que acontece é de resultado negativo. O incrédulo, já inclinado a troçar das mais sagradas crenças, não pode ver uma coisa séria naquilo de que fazem pilhérias; não pode ser levado a respeitar aquilo que lhe não é apresentado de modo respeitável. Assim, reuniões fúteis e levianas, dessas onde não há ordem nem seriedade nem recolhimento, ele sempre leva uma impressão má. O que pode convencê-lo é, sobretudo, a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara. É diante de suas palavras graves e solenes, diante de revelações íntimas que o vemos empalidecer e comover-se. Mas, pelo próprio fato de que há mais respeito, veneração e apego à pessoa cuja alma se lhe apresenta, ele fica chocado de vê-la vir a uma assembleia irreverente, entre mesas que dançam e chocarrices de Espíritos levianos. Por mais incrédulo que ele seja, sua consciência repele essa aliança entre o sério e o frívolo, entre o religioso e o profano, razão por que taxa tudo de palhaçada, e por vezes sai menos convencido do que quando entrou. As reuniões desse gênero sempre fazem mais mal do que bem, porque afastam da doutrina mais gente do que atraem, sem contar que oferecem o flanco à crítica dos detratores, que aí acham fundados motivos para troça.

22. ─ É um erro transformar as manifestações físicas em divertimento. Se elas não têm a importância do ensino filosófico, têm sua utilidade do ponto de vista dos fenômenos, porque são o á-bê-cê da ciência da qual deram a chave. Posto que hoje menos necessárias, ainda ajudam na convicção de certas pessoas. Mas não excluem, absolutamente, a ordem e a compostura nas reuniões onde se fazem experiências com elas. Se fossem sempre praticadas de maneira conveniente, convenceriam mais facilmente e, sob todos os aspectos, produziriam resultados muito melhores.

Eis um desafio para a prática espírita: Kardec propõe que ela não seja superficial e sim que seja profunda e bem intencionada. As práticas devem não somente se pautarem em valores universais, mas também exigem certa concentração, sinceridade na postura e intenção ética. O recolhimento citado pelo autor é uma palavra certamente usada na Europa ocidental ao menos desde a renascença. Ela parece se referir a um estado similar à meditação, que é mais comum nas culturas orientais e se refere a uma prática em grande parte da espiritualidade ou da religiosidade. Aquietar a mente, buscar o silêncio, o autocontrole etc... São fatores importantes não só para a pessoa pausar ou buscar uma saúde mental dentro de uma civilização dominada por um sistema econômico mercantil e uma ideologia capitalista - Na verdade, é um distanciamento de tal superficialidade e objetificação do ser humano, pois é cuidar do sentido existencial, de um nível mais profundo relacionado à psiquê, e a possibilidade da transcendência: este último um elemento da espiritualidade e da religiosidade. 
Certamente praticar as reuniões espíritas da maneira que Kardec propôs traz semelhanças a alguns ensinamentos de Jesus e de mestres/ yogues do sanatana dharma. Salvo as possíveis diferenças teológicas ou filosóficas entre espiritismo e espiritualidade "hindu", ambas trabalham a existência para além da pressuposição materialista e reducionista e requerem por parte de seus praticantes uma combinação de empenho, postura humilde, objetivos solidários e de progresso espiritual; Progresso esse que seus frutos podem ser percebidos não só em um despertar da moral de indivíduos, pois em algum nível é ético (uma moral sem ética tende ao moralismo) e social, colaborando com a formação de sociedades mais justas, equitativas nas esferas ideológica e material.

23. ─ Sem dúvida estas explicações são muito incompletas e necessariamente podem provocar numerosas perguntas, mas não se deve perder de vista que isto não é um curso de Espiritismo. Tais quais são, bastam para mostrar a base sobre a qual ele repousa, o caráter das manifestações e o grau de confiança que podem inspirar, conforme as circunstâncias. Quanto à utilidade das manifestações, ela é imensa, por suas consequências. Entretanto, ainda que só tivessem como resultado dar a conhecer uma nova lei da Natureza e demonstrar materialmente a existência da alma e a sua imortalidade, já seria muito, porque seria uma larga via aberta à filosofia.

Como diz o próprio autor, muitas dúvidas (e questionamentos) podem surgir em relação ao espiritismo, mas vale ressaltar que ele reconhecia uma importância em construir um conhecimento aberto à filosofia. Isto porque a filosofia ocidental por exemplo, desde sua origem no século 4 a.C. com Platão que reuniu várias teorias anteriores em um corpo de obras coeso, trabalha a construção de conhecimento com universalidade, ética e um rigor, ainda que este último elemento seja bem diferente do rigor da ciência que se espalhou do século 19 em diante. Embora a ética platônica possa ser percebida em maior parte dos textos do filósofo, o rigor da construção de conhecimento proposta por Platão pode ser entendido melhor nas obras A República, Crátilo, Teeteto, e, principalmente em Sofista e Parmênides.
A obra de Kardec então não traz uma verdade absoluta, pois não é uma religião apoiada em dogmas e/ ou hierarquia. Nem é charlatanismo, pois não visa tirar vantagens das pessoas nem trazer poder ou bens materiais ao autor e seus colegas. O espiritismo francês durante o século 19 se mostrou uma investigação aberta ao diálogo entre ciência e espiritualidade e com algum grau de inter religiosidade. Teve suas imprecisões e limitações? Certamente, mas colaborou com uma visão mais ampla do ser humano do que a proposta pelo materialismo e com uma cosmovisão que possibilita uma construção de conhecimento mais abrangente e menos excludente. 

Uma breve análise da epistemologia espírita

Conforme expliquei em um texto anterior, decidi analisar o espiritismo fundado por Allan Kardec na França não como mera religião, nem como uma área (não) aceita na ciência, mas como uma tentativa de construir conhecimento (um tanto filosófico) sobre uma série de fenômenos. A síntese apresentada aqui toma como base um texto do autor escrito em sua Revue-spirite journal d'etudes psychologiques de 04/1864: 

 "1. ─ O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais decorrentes dessas relações." 
 
 Como citei anteriormente, ao observar uma série de casos e relatos na França do séc. 19, o espiritismo iniciado por Kardec não partia da certeza da "não existência" da alma e dos espíritos. Mesmo porquê pressupor inexistências é se apoiar em negações e contradizer a filosofia em sua raiz platônica. Claro, que alguns podem afirmar que a ciência após Kardec conseguiu rastrear "áreas ativadas" no cérebro quando a pessoa tem alucinações ou supostas alucinações, mas o espiritismo trata de fenômenos mais complexos e amplos do que visões ou audições individuais. O espiritismo em sua postura de não pressupor inexistência, se aproxima da construção de conhecimento da filosofia ocidental em sua raiz/ cerne, que propunha a presunção da ignorância ao iniciar uma investigação. Além disto, ao buscar construir conhecimento de modo mais próximo à raiz platônica da filosofia, o espiritismo acaba demonstrando uma semelhança de postura básica com a suspensão de pressupostos da fenomenologia lançada pelo filósofo e matemático Edmund Husserl (1859-1938). Tal postura inicial para se investigar fenômenos que lidam com o psiquismo humano se mostra universal, pois não relega saberes e relatos relacionados à espiritualidade de diferentes culturas ao status de meras mentiras ou psicopatologias.
E porque Kardec fala de "consequências morais"? Certamente por 2 motivos: Os fenômenos ou relatos estudados envolviam frequentemente a psiquê humana - psicografar, observar objetos se mover com padrão inteligente sem interação de corpos, ouvir vozes, ter visões com ou sem espacialidade (este último caso, é a "percepção" mental, chamada de clarividência ou clariaudiência pelos espíritas) etc. Além disto, vários temas envolvendo a psiquê (a alma encarnada ou desencarnada, de acordo com o espiritismo) tocam questões morais e portanto éticas - assunto da filosofia e não da ciência de pressupostos e métodos reducionistas; 

 "2. ─ Os Espíritos não são, como por vezes os imaginam, seres à parte na criação. Eles são as almas dos que viveram na Terra e em outros mundos. As almas ou Espíritos são, pois, uma só e a mesma coisa, de onde se segue que todo aquele que crê na existência da alma, por isso mesmo crê na dos Espíritos."
 
 Isto diferencia o espiritismo de parte das religiões cristãs institucionalizadas, como a católica e a evangélica. Baseando-se nos textos do evangelho, não há consenso se Jesus, que recebeu o título de Cristo - base dos termos "cristão" e "cristianismo", definiu os espíritos como seres à parte na criação ou não. Sem um consenso referente aos textos do evangelho atribuídos aos apóstolos de Jesus, certamente restam somente interpretações e ideias propagadas por religiosos que viveram séculos após Jesus. Tais interpretações dos evangelhos são obras dos "pais da igreja" ou pré suposições impostas nos concílios da igreja ao longo da história antiga ou medieval. Partindo da lógica que temos alma e esta é imortal, o espírito em nada difere da alma. Chamar separadamente o espírito ligado ao corpo (encarnado) de alma e o desencarnado de espírito tem pouca utilidade no espiritismo. Tal possível utilidade deve ser abordada em um próximo texto.

 "3. ─ Geralmente as pessoas fazem uma ideia muito falsa do estado dos Espíritos. Eles não são, como alguns pensam, seres vagos e indefinidos, nem chamas, como fogos-fátuos, nem fantasmas, como nos contos de aparições. São seres semelhantes a nós, com um corpo como o nosso, mas invisível e fluídico em estado normal."
 
 Este tema é melhor explicado em outras obras como o Livro dos Espíritos. O espírito é incorpóreo - de modo similar a nossa atividade mental: ninguém pode pegar um pensamento ou sentimento com um bisturi e dividi-lo - apenas é possível rastrear seus efeitos eletroquímicos no sistema nervoso, pelas sinapses e talvez pelos campos eletromagnéticos do coração, do cérebro etc. A pré suposição dominante na ciência no mínimo desde a época de Kardec, é que a mente é o cérebro, ou que não há mente nem alma: só o cérebro e o corpo humano. Tal pressuposto afirma que se algo não é observável nem reprodutível sob controle humano, não existe. Deste modo a ciência nega o conceito de alma e contradiz a raiz da filosofia ocidental (Platão, por exemplo), pois também reduz a ética e os valores universais ao status de opinião e valores individuais. 
 O corpo "fluídico" citado, que dá a forma ou aparência ao espírito, é explicado, ou teorizado, a seguir. 

 "4. ─ Quando a alma está unida ao corpo, durante a vida, tem um envoltório duplo: um pesado, grosseiro e destrutível, que é o corpo; outro fluídico, leve e indestrutível, chamado perispírito. O perispírito é o elo que une a alma ao corpo. É por intermédio dele que a alma faz o corpo agir e que percebe as sensações experimentadas pelo corpo."
 
 O espiritismo não nega a existência do corpo nem argumenta que este só existe quando percebido por outrem. Assim o espiritismo, embora dê uma ênfase ao espírito, não é um pressuposto meramente idealista nem exclusivamente mentalista, fazendo alegações como: só o espírito é real, todos os corpos são ilusões ou coisas do tipo. Ele simplesmente vai além do materialismo, indicando a importância da alma/ espírito, de modo parecido com os estudos de Platão, que ao mirar no que é uno e imutável (a ética), acabou indicando a imortalidade da psiquê (termo que engloba alma e mente, unindo-os como un só coisa) e a importância do cognoscível. 
 O conceito de perispírito pode parecer mais polêmico por se tratar do que há entre o corpo e a mente (alma), que é uma discussão no mínimo desde a época de René Descartes (1596-1650). Certamente por também não detectar este agente intermediário sob uma investigação controlada (empírica), ocorreu a predominância dos pressupostos materialistas na ciência - ao estudarmos a história da filosofia e da ciência desde Descartes até a época de Kardec, isto fica claro. 
 Note que a utilização do termo "fluídico" é restrita à época de Kardec, principalmente aos espíritas, mas têm semelhanças e possíveis relações com os estudos de Franz Mesmer (1734-1815). Mesmer teorizou que assim como os minerais podem ter magnetismo, os vegetais e os animais (ser humano incluso) também deveriam ter. Apesar de exercer alguma influência na sociedade ao tentar realizar "curas magnéticas", Mesmer foi criticado não só por não conseguir explicar toda sua teoria e prática, mas também foi difamado por opositores e discordantes de suas ideias. Kardec reconhece algum valor nas obras de Mesmer em uma de suas Revistas Espíritas e nestes mesmos editoriais, o professor francês estipula que o perispírito poderia ser explicado futuramente com novas descobertas sobre a eletricidade e o magnetismo. De fato, muitos anos depois, entre 1963 e 1968, David Cohen e James Zimmerman descobriram que órgãos do corpo humano, como o cérebro e o coração por exemplo, possuem um campo eletromagnético - porém os estudos de tais campos e sua respectiva finalidade e relação com atividades neuronais e/ ou psíquicas permanecem tímidos e recebem resistência de grande parte das áreas médicas como a neurologia etc. 

 "5. ─ A morte é apenas a destruição do envoltório grosseiro. A alma abandona esse envoltório como se deixa uma roupa velha, ou como a borboleta deixa a sua crisálida, mas ela conserva o seu corpo fluídico, ou perispírito. A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem. A alma e o perispírito, separados do corpo, constituem o ser chamado Espírito."
 
 Em inúmeras culturas espalhadas pelo globo terrestre desde antes das eras dos metais/ antiguidade existiram "xamãs" e outros indivíduos que lidavam com espíritos, fossem esses considerados "da natureza", de ancestrais, ou de ambos. Apesar das diferenças entre tais culturas, todas elas tinham um modo de lidar com a morte ou passagem deste mundo para outra realidade. Obviamente a explicação de Kardec sobre o assunto está mais para teórica/ dialética reflexiva do que empírica, uma vez que em sua época nem os campos eletromagnéticos dos órgãos haviam sido descobertos. O períspirito aparece em explicações espíritas de outros fenômenos além da "morte" do corpo. Tal argumento parece ser utilizado em casos onde espíritos interagem com corpos materiais como o das "mesas girantes" do século 19 que incitou a curiosidade de Denizard antes de escrever sobre o assunto. Estes fenômenos envolvendo o perispírito incluem pancadas, "possessões" e curas e parece ter relação com os de pessoas de épocas anteriores a Kardec, que mencionavam "maus ares" ou "gases sutis" para explicar casos de bruxas e seus animais familiares. Como exemplo deste tipo de argumento existem algumas obras peculiares de Joseph Glanvill (1636-1680) que apresentem ideias certamente mais rústicas e imprecisas do que as da época de Kardec - afinal na Europa do século 17, quando ocorriam variadas caças às bruxas seguidas de execuções, era mais difícil criar toda uma teoria sobre o espírito sem ser ameaçado pelo poder das igrejas. Para Kardec então, o ser encarnado é o espírito com seu corpo "fluídico" (períspirito) mais o corpo (material), enquanto o ser desencarnado é só o espírito e seu respectivo períspirito. O autor constrói tal argumento sem contradizer a ciência de seu tempo, pois existiam e ainda existem grandes lacunas no conhecimento e muitos temas a serem descobertos e investigados. 

 "6. ─ A morte do corpo desembaraça o Espírito do envoltório que o ligava à Terra e o fazia sofrer. Uma vez livre desse fardo, ele tem apenas o seu corpo etéreo, que lhe permite percorrer o espaço e transpor distâncias com a rapidez do pensamento."
 
 Kardec chamava o perispírito de corpo etéreo, possivelmente porque o conceito de éter era aceitável na ciência de seu tempo, mas neste parágrafo abordarei mais o conceito de espírito/ alma. 
 Utilizando-se dos "médiuns ativos", Kardec em sua época, dialoga com espíritos que explicam alguns pormenores de como os espíritos percorrem distâncias e tais assuntos foram publicados em algumas edições das Revistas Espíritas. Resumidamente, o espírito desencarnado, que tem só seu corpo "etéreo" ou "fluídico" ignora praticamente todos obstáculos materiais, porém a locomoção parece influenciada conforme seu desapego ou apego ao mundo corpóreo/ material e conforme suas afinidades com ideias e princípios de outros espíritos encarnados ou desencarnados. A "vida após a morte" ou sobrevivência da psiquê, também abordada em antigas obras da filosofia, é um assunto que trabalha a esperança: A esperança de reencontrar seres amados, de justiça ou de novas chances para se viver. Apesar disto, ela lida com o desconhecido, por isso a opinião humana varia muito sobre o tema: desde medo diante o desconhecido, até dúvida, recusa ou desprezo por tal ideia. A verdade é que o conceito de "não existência" do espírito e de sua imortalidade parece ter ganhado força gradualmente nas elites intelectuais e econômicas da Europa na Era Moderna, mais especificamente na transição da renascença ao iluminismo. O conceito de não existência não é uma construção de conhecimento, como já mencionado neste texto: De acordo com Platão, tudo o que é desconhecido ou onde há dúvida, é passível de ser investigado; Não se pode afirmar sobre a inexistência de algo, pois se algo não existe, não pode ser conhecido. Portanto afirma-se sobre o que se conhece e o resto se investiga (não só cientificamente, mas filosoficamente) ou fica restrito à mera opinião. 

 "7. ─ O fluido que compõe o perispírito penetra todos os corpos e os atravessa, como a luz atravessa os corpos transparentes. Nenhuma matéria é obstáculo para ele. É por isso que os Espíritos penetram em toda a parte, nos lugares mais hermeticamente fechados. É uma ideia ridícula crer que eles entrem por uma pequena abertura, como o buraco de uma fechadura ou a chaminé."
 
 Cientificamente parece que era (e certamente ainda é) impossível abordar tal tema. Apesar de especular sobre a relação do perispírito com a eletricidade e o magnetismo em alguns de seus textos no Livro dos Médiuns e Evocadores e nas Revistas Espíritas, Kardec constrói tais argumentos via diálogo e reflexão, sem análise sensorial amplamente aceita: uma ou outra pessoa pode alegar sentir algum estímulo sensorial de origem desconhecida que poderia ter relação com o conceito de perispírito, mas fenômenos públicos deste tipo são muito raros e não reprodutíveis, devido a origem psíquica/ intencional relativa ao(s) espírito(s). Também vale relembrar que a física (ciência) da época de Kardec era newtoniana: tratava o espaço (tridimensional) como algo absoluto e assim ficava difícil imaginar que os espíritos fossem independentes do espaço. 

 "8. ─ Os Espíritos povoam o espaço. Eles constituem o mundo invisível que nos rodeia, em meio ao qual vivemos, e com o qual estamos em contato incessante."
 
 Como mostrado anteriormente, os espíritos podem interagir através do espaço, mas certamente não se limitam a ele - esta era uma possível interpretação com limitações típicas da maior parte do século 19; O astrofísico germânico, Johann K F Zollner (1834-1882) teorizou que alguns dos fenômenos "mediúnicos" poderiam estar relacionados à quarta dimensão, mas não obteve grande aceitação no meio científico por variados motivos. Tal conjectura não é impossível, mas parece ficar em um impasse; Apesar da quarta dimensão " ter sido uma descoberta matemática que serviu de base para Hermann Minkowski (1864-1909) explicar o "tempo quadrimensional", posteriormente utilizado na teoria da relatividade de Albert Einstein (1879-1955), ela se trata de algo não investigável pelo método empírico. Assim tal saber certamente permanece pouco conhecido e relegado ao campo de teorias ou taxado como sendo de pouca aplicabilidade. 

 "9. ─ Os Espíritos têm todas as percepções que tinham na Terra, mas em mais alto grau, porque suas faculdades não são amortecidas pela matéria; têm sensações que nos são desconhecidas; veem e ouvem coisas que os nossos sentidos limitados não nos permitem ver nem ouvir. Para eles não há escuridão, salvo para aqueles cuja punição é ficarem temporariamente nas trevas. Todos os nossos pensamentos repercutem neles e eles aí leem como num livro aberto, de sorte que aquilo que poderíamos ocultar a qualquer um quando vivos, não o podemos mais, se ele é Espírito."
 
 Kardec detalha melhor as percepções dos espíritos ao longo de suas obras (revistas inclusas) - Resumidamente ele explica que a moral (que não é algo meramente individual, portanto trata-se de valores universais e ética) influencia na percepção dos espíritos: quanto mais ético/ puro (justo, benevolente etc), mais apuradas as percepções do espírito. De fato é mais difícil ocultar pensamentos e atividades mentais ante um espírito pois estes independem dos corpos, mas mesmo isto tem algumas variações conforme as explicações da obra espírita (de afinidade, possível nível moral do espírito etc). Por fim, a "punição" é um conceito perigosamente simplório: é claro que há justiça tanto na visão espírita como há nas religiões e na filosofia; mas vale lembrar que Kardec e os demais espíritas se pautam principalmente nos ensinamentos de amor piedoso de Jesus e este diz "nem meu Pai julga" e "hipócrita, tirai primeiro o ramo do próprio olho, e então verá o cisco no olho alheio". Desta forma, a "punição' é entre o indivíduo que erra e a lei divina, pois "aquele que se orgulha de sua obra má, teme a luz e foge para a escuridão" - o espírito moralmente inferior nada pode ocultar daqueles que são verdadeiramente benevolentes, justos e piedosos. Estes são alguns indícios (entre outros) de que o espiritismo também está de acordo com a filosofia de Platão - para o filósofo, as virtudes ou excelências como a coragem, a moderação/ auto controle, a justiça e a bondade/ beleza psíquica estão relacionadas à verdade, pois são imutáveis (não se desgastam com o tempo) e unas (universais, não relativas nem meramente individuais). O hiper ouranos citado por Platão na obra Fedro, faz alusão a uma dimensão não só alcançada por algum tipo de transe ou estado alterado da consciência (as manikes e mantikes aobrdadas no texto), mas também a uma realidade sem malevolência onde os "deuses" viveriam.

 "10. ─ Os Espíritos conservam as afeições sérias que tinham na Terra. Eles sentem prazer em voltar para junto das pessoas que eles amaram, sobretudo quando são para elas atraídos pelo pensamento e pelos sentimentos afetuosos que lhes são dedicados, ao passo que são indiferentes em relação àqueles que lhes votam apenas indiferença."
 
 O amor sincero e sem interesses particulares é um exemplo de afeição que se propaga através do espírito para além da mera vida material. Este argumento aborda a importância de bons sentimentos como esperança, amor e serenidade e está de acordo com os ensinamentos de Jesus e até mesmo de outras religiões. Uma visão mais universal como esta tem maior abertura ao diálogo inter religioso pois trata-se de uma espiritualidade aberta e ética. Aqui também nota-se que o espiritismo não trata só da perspectiva racional da consciência, pois aborda os sentimentos de modo transcendente, para além da vida corpórea;

 "11. ─ Os Espíritos podem manifestar-se de muitas maneiras diferentes: pela visão, pela audição, pelo tato, pelos ruídos, movimento de corpos, escrita, desenho, música, etc. Eles se manifestam por meio de pessoas dotadas de uma aptidão especial para cada gênero de manifestação, e que são designados pelo nome de médiuns. É assim que se distinguem os médiuns videntes, falantes, audientes, sensitivos, de efeitos físicos, desenhistas, tiptologistas, escreventes, etc. Entre os médiuns escreventes há numerosas variedades, conforme a natureza das comunicações que são aptos a receber."
 
 Em outros pontos de sua obra, Kardec admite que todo ser humano é médium - o que difere cada um é a frequência e intensidade com que ocorrem as percepções/ contatos mediúnicos; Muitas pessoas podem passar toda uma vida sem perceber fenômeno algum, outros podem confundir; alguns podem ter por um determinado período, enquanto outros têm pela vida todo; Os motivos são os mais variados possíveis, pois envolvem necessidades particulares e coletivas, estágio psíquico e moral que se encontram as pessoas, disponibilidade, cultura etc. Ao longo de sua obra Kardec mostra um certo esforço em classificar os médiuns, mas isto tem as limitações de sua cultura e época.

Entender o espírito humano como incorpóreo não completamente a parte do corpo, mas em relação com este, possibilita uma postura de respeito verdadeiro às áreas da ciência e às religiões - pois o espiritismo trazido por Kardec não é uma religião com hierarquias ou ritos e tem poucos pressupostos ou dogmas: A imortalidade do espírito, a reencarnação e Deus onipresente e não-pessoal, baseado nos ensinamentos de Jesus os quais não detalharei aqui; 
Embora seja possível afirmar que não existam "provas" suficientes de um agente intermediário entre corpo e mente, o conceito de perispírito não é menos provável que o materialismo que reduz a vida ao corpo e aos efeitos eletroquímicos neste. Não foram encontrados marcadores biológicos para todos problemas mentais do ser humano e reduzir sentimentos e sentido existencial a meros efeitos neurológicos é negar cosmovisões, portanto é uma postura antiética. O materialismo, seja um empirismo ou qualquer outro que nega o psiquismo e o espírito, pode afirmar que busca construir um conhecimento com "rigor científico" baseado em "evidências", mas em última instância se apoia em negação e impõe uma visão da realidade que apesar de contrária às religiões em geral, é tão dogmática como muitas visões religiosas da realidade. 
 Embora Kardec não se empenhe em discutir a construção de conhecimento comparando pressupostos, que de certo modo, são pré suposições, Platão o faz ao longo de sua obra, e mais profundamente em  seus textos "Teeteto" e "Sofista". O filósofo grego indica que reduzir tudo à matéria ou ao espírito, são teorias incompletas e assim propõe uma construção de conhecimento aberta, pautada por valores universais, unindo epistemologia, ontologia e ética.
Por sua vez, ao invés de negar visões de mundo, o espiritismo possibilita um enfoque na ética, não muito diferente da filosofia iniciada por Platão: O ser humano deve trabalhar sua moral individualmente de um modo pedagógico e também filosófico, e isto não o isola da realidade material, portanto, ele deve se desenvolver eticamente nas relações em geral; Quando colocado em prática, este trabalho com uma postura universal do ser humano resulta em uma sociedade/ civilização mais justa, equitativa e enfim, ética. Assim o espiritismo não se reduz a um campo da ciência nem a uma religião, ele serve de base epistemológica respeitando normalmente outras áreas do conhecimento, simplesmente reconhecendo uma realidade para além da material. Trata-se de um "pressuposto" ou base teórica mais aberto(a) e portanto mais amplo do que os exclusivamente materialistas ou idealistas, possibilitando diálogo com diversas culturas e com a espiritualidade em geral, seja religiosa ou não. 
Ainda que Kardec pudesse discordar de pontos de uma ou outra religião, em seus textos, ele indica que o tempo mostrará quais estão mais ou menos certas - isso é evitar impor sua visão de realidade sobre os outros - elemento ausente em muitas religiões e na corrente principal da ciência que é materialista, relegando todo relato/ argumento espiritual à condição de alucinação (estado patológico etc) ou à mentira.

Em um próximo texto devo completar a análise deste artigo de Kardec e trazer reflexões filosóficas sobre o que deve haver entre a psiquê humana e o corpo; Há quem diga que isto é questão de pressuposto, mas a importância de tal tema não deve se reduzir a uma mera "neutralidade" racional/ científica, pois não há epistemologia (construção de conhecimento) sem ética e consequentemente não há conhecimento, verdade ou justiça sem universalidade e sem filosofia. 

Expressões

Esta é uma tentativa de anotar o que é importante para mim. Escrevi muitos textos expondo ideias de maneira predominantemente racional, entã...