Neste texto tentarei entender um texto de Allan Kardec, levando em consideração a filosofia "ocidental", principalmente em 2 pontos de sua história: sua formação na antiguidade clássica com Platão (428 aC - 327 aC) e sua mudança na concepção do que é a realidade, na primeira metade do século 20. Esta concepção de espaço-tempo mais moderna do que a da época do fundador do espiritismo, teve suas origens nos estudos de matemáticos e físicos e foi demonstrada por pensadores como Arthur S. Eddington (1882-1944). É sabido que Kardec viveu no séc 19, época quando a ciência em geral entendia o espaço como algo absoluto - então veremos quais pontos de seu texto sobre a presciência da alma pode ser coerente com uma cosmovisão mais próxima da teoria da relatividade e com o conceito de tempo quadrimensional...
"Como é possível o conhecimento do futuro? Compreende-se as previsões dos acontecimentos que são consequência do estado presente, mas não dos que nenhuma relação têm com eles, e, ainda menos, dos que são atribuídos ao acaso. Diz-se que as coisas futuras não existem, que ainda estão no nada, então como saber se acontecerão? Contudo são muito numerosos os exemplos de predições realizadas, de onde concluir-se que aí se passa um fenômeno cuja chave não se tem, pois não há efeito sem causa. Essa causa, que tentaremos achar, ainda é o Espiritismo, (...)"
O texto obviamente considera que existem alguns casos em que pessoas conseguem prever o futuro. Isso não significa abraçar toda suposta premonição ou adivinhação, afinal Kardec diferente de vários outros religiosos e médiuns, avaliava criticamente as mensagens entendidas como espirituais entre tantos outros fenômenos desta categoria, como mostra Dora Incontri em seu livro Kardec para o século 21, por exemplo. Seguimos com a comparação feita pelo fundador do espiritismo.
"Suponhamos um homem colocado no alto de uma montanha, considerando a vasta extensão da planície. Nessa situação, pouco será o espaço de uma légua, e facilmente poderá ele abarcar de um golpe de vista todos os acidentes do terreno, do começo ao fim da estrada. O viajante que por primeira vez percorre essa estrada sabe que caminhando chegará ao fim. Isto é simples previsão da consequência de sua marcha. Mas os acidentes do terreno, as subidas e descidas, os riachos a transpor, as matas a atravessar, os precipícios onde pode cair, os ladrões postados para o assalto, as hospedarias onde poderá descansar, tudo isto independe de sua pessoa. Para ele, o futuro é desconhecido, porque sua vista não vai além do pequeno círculo que o envolve. Quanto à duração, mede-a pelo tempo consumido em percorrer o caminho. Tirai-lhe os pontos de referência e apaga-se a duração. Para o homem que está na montanha e que acompanha o viajante com o olhar, tudo isto é presente. Suponhamos que esse homem desça até o viajante e que lhe diga: “Em tal momento encontrareis tal coisa; sereis atacado e socorrido.” Ele predirá o futuro. Para o viajante, isto é o futuro. Para o homem da montanha é o presente."
Esta analogia usada por Kardec é interessante: o autor utiliza o espaço tridimensional como exemplo, onde a vista de cima de uma montanha seria uma visão do presente e do futuro, mostrando-se mais ampla do que a visão a partir de uma região mais baixa, que seria a visão limitada ao presente.
Agora devo relembrar algumas observações feitas pelo astrofísico e filósofo, Arthur S. Eddington, na primeira metade do século posterior à Kardec, sobre o espaço e o tempo: "Não sei se você está profundamente ciente do fato de que, há algum tempo, estamos imersos em um mundo quadridimensional. A quarta dimensão dispensa apresentações: assim que começamos a considerar os eventos, ela estava lá: O "mundo" quadridimensional. Os eventos obviamente têm uma ordem quádrupla que podemos dissecar em direita ou esquerda, atrás ou na frente, acima ou abaixo, mais cedo ou mais tarde - ou em muitos conjuntos alternativos de especificação quádrupla. A quarta dimensão não é uma concepção difícil. Não é difícil conceber os eventos como ordenados em quatro dimensões; é impossível concebê-los de outra forma. O problema começa quando continuamos nessa linha de pensamento, porque por um longo costume dividimos o mundo dos eventos em seções ou instantes tridimensionais e consideramos o empilhamento dos instantes como algo distinto de uma dimensão."
Este argumento se refere a descoberta matemática da quarta dimensão, utilizada para o conceito de tempo quadrimensional na teoria da relatividade. Eddington explica que a quarta dimensão sempre esteve lá e insistir em enxergar o tempo como uma sucessão de instantes tridimensionais, mas distinto de uma dimensão, é uma contradição que ficou evidente.
A quarta dimensão é um fato descoberto pela matemática, que por sua vez não é investigável por um método estritamente empírico, uma vez que não é perceptível sensorialmente por seres tridimensionais; O tempo em si, por exemplo, só percebido conscientemente (através da consciência do tempo). Mesmo porque, a característica da matemática que lhe concedeu a capacidade de colaborar com uma construção de conhecimento mais profunda e precisa, foi o "número zero". O zero não é palpável materialmente - é um conceito de ausência e um representante de "casas decimais". Com seu acréscimo na sequência dos demais números (e 1 a 9) fica evidente a dezena, a centena, os milhares... e possivelmente o "infinito" de certo modo. É justamente por ser teórico e ter estas características que transcendem o palpável, que o zero colaborou com uma (r)evolução na matemática e na construção de conhecimento. Além disto, questões sobre se os números são uma mera criação humana, uma força primordial da natureza, ou um meio termo de ambas as coisas, ocorrem na matemática do ocidente no mínimo desde meados do século 19 com autores como Edmund Husserl, entre outros.
Mas porque citar a quarta dimensão para falar de previsões sobre o futuro ou sobre a presciência da alma? Para trazer uma epistemologia que considere a existência do espírito em diálogo com teorias científicas mais atuais do que a física newtoniana, típicas do positivismo e da época de Kardec. Antes de retomar sobre o espaço e o tempo relacionados à teoria da relatividade e à quarta dimensão, vejamos como seguem as explicações de Kardec:
"Agora, se sairmos do círculo das coisas puramente materiais e, por pensamento, entrarmos no domínio da vida espiritual, veremos esse fenômeno reproduzir-se em escala muito maior. Os Espíritos desmaterializados são como o homem da montanha. O espaço e tempo não existem para eles. Entretanto, a extensão e a penetração de sua vista são proporcionais à sua depuração e à sua elevação na hierarquia espiritual. Em relação aos Espíritos inferiores, eles são como um homem munido de poderoso telescópio, ao lado de outros que observam a olho nu. Nestes últimos a vista é circunscrita, não só porque dificilmente podem afastar-se do globo a que estão ligados, mas porque a grosseria de seu perispírito vela as coisas afastadas, como faz a névoa em relação aos olhos do corpo. Compreende-se, pois, que conforme o grau de perfeição, um Espírito possa abarcar um período de alguns anos, de alguns séculos, e até de muitos milhares de anos, pois o que é um século em comparação com a eternidade? Diante dele os acontecimentos não se desenrolam sucessivamente, como os incidentes da estrada do viajante. Ele vê simultaneamente o começo e o fim do período. Todos os acontecimentos que nesse período são o futuro para o homem da Terra, para ele são o presente. Poderia ele, pois, vir dizer-nos com certeza: Tal coisa acontecerá em tal época, porque ele vê essa coisa, assim como o homem da montanha vê o que espera o viajor na estrada. Se ele não diz, é porque o conhecimento do futuro seria nocivo ao homem. Ele entravaria o seu livre-arbítrio; paralisá-lo-ia no trabalho que deve realizar para o seu progresso."
Kardec trabalha a teoria do progresso da alma, que é principalmente moral quando olhamos para os seres individualmente, mas também é ético, devido aos resultados do despertar de tal moral e devido às relações entre os espíritos, sejam estes encarnados como seres humanos ou em outro estado. A ética tem como um de seus elementos a universalidade, pois não há verdadeira ética em ganhos meramente individuais ou que beneficiem pequenos grupos prejudicando os demais.
Quando Kardec diz que os "espíritos inferiores" dificilmente podem se afastar do globo, ele está de acordo com a teoria da psiquê imortal de Platão - o filósofo da antiguidade clássica explicava (de acordo com seu mestre Sócrates) que a psiquê dos indivíduos apegados à matéria, seja aos bens ou aos prazeres sensoriais, ficariam vagando na Terra de acordo com seus gostos, preferências e/ ou vícios. Tal fato não se tratava de uma punição divina, mas sim de uma consequência lógica a partir do entendimento que a psiquê (alma) é imortal. Para os filósofos gregos, a punição certamente existia, mas estaria relacionada ao conceito de justiça e não exatamente ao apego que os indivíduos sentem pelo mundo que (diga-se de passagem) está no espaço tridimensional.
Mas Kardec desenvolve mais teorias sobre o espírito em relação aos filósofos da Grécia Clássica: O perispírito, um elemento super sutil certamente ligado ou constituído em alguma proporção de eletricidade e magnetismo (eletromagnetismo) deve fazer a ligação entre alma (equivalente à psiquê descrita por Platão) e corpo. Isto não é absurdo, uma vez que todos átomos têm cargas elétricas e campos eletromagnéticos, mas não entrarei em detalhes sobre o quanto os corpos possuem os são constituídos (a nível atômico etc) de campos/ ondas eletromagnéticas. Os temas como a moral e a ética são praticamente centrais nos 2 corpos de obras, seja nos textos do filósofo do séc 4 aC, ou no do pedagogo do séc. 19: porém enquanto Platão prioriza a construção de conhecimento (a episteme) e sua aplicação na vida coletiva (política/ ética), Kardec que viveu sob uma monarquia, priorizou a explicação dos fenômenos espirituais. Este elemento que conecta psique e corpo não pode cumprir um papel meramente físico, embora deva ser físico em algum nível, já que tudo se enquadra dentro das leis naturais (Kardec não faz diferenciação entre leis naturais e divinas - em sua busca por extinguir o sobrenatural, o autor integra ambos conceitos). Não sendo exclusivamente físico, o perispírito carrega propriedades morais dos indivíduos, ou ao menos, é regido pela moral deste, já que a moral faz parte do psiquismo, da mentalidade etc. É por isso que o autor diz que a grosseria do perispírito geralmente obstrui as "percepções" da alma (imperfeita). As percepções que transcendem o espaço e o tempo então devem ocorrer através da alma mais pura/ mais ética, que consequentemente tem um perispírito purificado em algum nível. Note que pureza aqui não se refere a puritanismo, nem moralismo - não se trata de proibir o comportamento alheio, pois cada indivíduo deve inferir/ despertar os valores universais em si mesmo e colocá-los em prática em sua mentalidade e no convívio social. E embora Kardec tenha se apoiado mais nos ensinamentos (morais/ éticos) de Jesus e seus apóstolos, mais uma vez a obra espírita lançada na França do século 19 converge com a raiz da filosofia ocidental: Platão propõe o mesmo despertar aos seus leitores, assim como Sócrates propunha aos seus interlocutores - o ser humano deve despertar/ viver valores universais: ser moderado, corajoso, benevolente/ belo e justo, pois isto é ser "uno", é ser apto a liderar ou governar a sociedade e é alcançar o que é cognoscível e também imutável.
Sobre o tempo, Eddington indica que ele é quadrimensional, ou interpreta que ele seja a quarta dimensão, ao afirmar que os eventos tem uma ordem quádrupla (cima e baixo, esquerda e direita, para frente e para trás e mais cedo e mais tarde). Kardec por sua vez afirma que os espíritos mais puros (virtuosos, seja baseado na ética "cristã não-religiosa" ou na platônica que pouco diferem entre si) conseguem "ver" todos os eventos de uma determinada amplitude ou espectro do tempo (que ele compara com a "estrada" percorrida pelo encarnado) como se fossem o presente - Isto explicaria, ao menos em partes, porque Jesus conseguia realizar alguns feitos considerados milagres, como prever alguns eventos do futuro por exemplo. De acordo com Kardec, tais espíritos que despertaram uma grandiosa moral e ética geralmente não revelam os eventos do futuro (e possivelmente alguns esquecidos do passado) porque isto entravaria o progresso da (maioria da) humanidade. Mas porque entravaria?
Certamente porque algumas "visões" de vidas passadas poderiam traumatizar ou deslumbrar os encarnados que as esqueceram, bem como muitas visões do futuro poderiam parecer desoladoras: Imagine um europeu do século 19 tendo revelações de como seriam as guerras mundiais, um congolês descobrindo as atrocidades que os belgas cometeriam com seu povo ou os indígenas norte americanos vendo antecipadamente as imposições e traições que ingleses e seus descendentes estadunidenses lhes imporiam (etc)... Previsões de dificuldades futuras podem ser aterrorizantes ou desesperadoras para muitos indivíduos que preferem ter uma perspectiva pacata da vida ou que preferem um otimismo ingênuo...
Eddington traz outro ponto interessante sobre a teoria do tempo quadrimensional ao explicar sua estrutura como uma espécie de ampulheta onde o "aqui agora" (o presente de cada indivíduo) seria o ponto mais afunilado de tal estrutura;
O gráfico indica um "Aqui-Agora" (Here-Now) individual, ou seja, a percepção do tempo, ou a consciência do tempo, é de cada indivíduo, bem como sua localização e respectivos movimentos no espaço. As cunhas dos lados da ampulheta, nomeadas de "Outro lugar Absoluto" (Absolute Elsewhere), se referem ao que Eddington diz que deveria se chamar o Presente Absoluto, pois nesta teoria, o presente não é uma mera porção infinitesimal entre o passado absoluto e o futuro absoluto. Porém, em situações normais, cada indivíduo só percebe o "ponto" do Aqui-Agora: é a consciência individual de cada ser vivo situado em um determinado local do espaço; então o Outro lugar Absoluto, ou Presente Absoluto" seria inalcançável para as formas de vida em sua individualidade. Um exemplo disto é bem simples: não percebemos o que acontece o que está fora do alcance de nossos sentidos...Platonismo e judaísmo místico já foram estudados conjuntamente no mínimo desde o século 16, na Renascença: não é uma novidade que estou inventando aqui. Filósofos como Giovanni Pico de Mirandola possivelmente viram uma relação metafísica e/ ou cosmogônica entre teorias judaicas e gregas (platônicas) que não ficava só em confabulações: podia ser praticada pelo ser humano numa espiritualidade livre dos dogmas da igreja da época: O ser humano alcança realidades superiores vivendo valores universais, que fazem bem ao coletivo, ao maior número de seres possível e com uma postura de respeito à universalidade, sem deixar a busca por viver internamente e externamente a coragem, a moderação, a bondade, a justiça, a equidade etc. Esta(s) realidade(s) (ou algumas delas, mais próximas de Deus) certamente não podem ser experimentadas pelos corpos tridimensionais e daí a necessidade das psiquês/ almas reencarnarem no que Kardec chama de corpos mais sutis. Não se trata de se tornar um ser estranho (quadrimensional), ao menos, não há importância em imaginar a aparência de corpos quadrimensionais, pois Kardec explica que quanto mais puro (ético) o espírito, mais ele percebe/ "vê"/ sente todas as coisas e menos atividades mentais (pensamentos, sentimentos etc) os seres inferiores podem esconder deles. A hierarquia das almas é ética - de virtudes citadas por Sócrates, Platão e pelos místicos judeus e de amor piedoso ensinado por Jesus, João Evangelista, Francisco de Assis, Teresa d'Ávila e tantos outros santos e apóstolos. E se as almas e seres vão se tornando mais e mais próximos de Deus ao despertarem e viverem valores universais, é provável que eles vão se aproximando gradualmente da onisciência divina - isto parece dialogar com a ideia de seres quadrimensionais que conseguem estar em mais de um local ao mesmo tempo sem problemas - pois o espaço e o tempo que percebemos aqui no universo tridimensional certamente é uma pequena fração ante uma realidade quadrimensional... Como uma imagem em uma poça d'água ou uma sombra projetada numa caverna... Assim, os espíritos superiores, sejam o que Kardec chama de "errantes" ou reencarnados em formas muito sutis e talvez quadrimensionais, não nos desprezam, mas o amor deles certamente é sereno porque entendem o quão pequeninos somos.