Possíveis convergências filosóficas entre Platão, Kardec e Eddington.

 Neste texto tentarei entender um texto de Allan Kardec, levando em consideração a filosofia "ocidental", principalmente em 2 pontos de sua história: sua formação na antiguidade clássica com Platão (428 aC - 327 aC) e sua mudança na concepção do que é a realidade, na primeira metade do século 20. Esta concepção de espaço-tempo mais moderna do que a da época do fundador do espiritismo, teve suas origens nos estudos de matemáticos e físicos e foi demonstrada por pensadores como Arthur S. Eddington (1882-1944). É sabido que Kardec viveu no séc 19, época quando a ciência em geral entendia o espaço como algo absoluto - então veremos quais pontos de seu texto sobre a presciência da alma pode ser coerente com uma cosmovisão mais próxima da teoria da relatividade e com o conceito de tempo quadrimensional...

"Como é possível o conhecimento do futuro? Compreende-se as previsões dos acontecimentos que são consequência do estado presente, mas não dos que nenhuma relação têm com eles, e, ainda menos, dos que são atribuídos ao acaso. Diz-se que as coisas futuras não existem, que ainda estão no nada, então como saber se acontecerão? Contudo são muito numerosos os exemplos de predições realizadas, de onde concluir-se que aí se passa um fenômeno cuja chave não se tem, pois não há efeito sem causa. Essa causa, que tentaremos achar, ainda é o Espiritismo, (...)" 

 O texto obviamente considera que existem alguns casos em que pessoas conseguem prever o futuro. Isso não significa abraçar toda suposta premonição ou adivinhação, afinal Kardec diferente de vários outros religiosos e médiuns, avaliava criticamente as mensagens entendidas como espirituais entre tantos outros fenômenos desta categoria, como mostra Dora Incontri em seu livro Kardec para o século 21, por exemplo. Seguimos com a comparação feita pelo fundador do espiritismo.

"Suponhamos um homem colocado no alto de uma montanha, considerando a vasta extensão da planície. Nessa situação, pouco será o espaço de uma légua, e facilmente poderá ele abarcar de um golpe de vista todos os acidentes do terreno, do começo ao fim da estrada. O viajante que por primeira vez percorre essa estrada sabe que caminhando chegará ao fim. Isto é simples previsão da consequência de sua marcha. Mas os acidentes do terreno, as subidas e descidas, os riachos a transpor, as matas a atravessar, os precipícios onde pode cair, os ladrões postados para o assalto, as hospedarias onde poderá descansar, tudo isto independe de sua pessoa. Para ele, o futuro é desconhecido, porque sua vista não vai além do pequeno círculo que o envolve. Quanto à duração, mede-a pelo tempo consumido em percorrer o caminho. Tirai-lhe os pontos de referência e apaga-se a duração. Para o homem que está na montanha e que acompanha o viajante com o olhar, tudo isto é presente. Suponhamos que esse homem desça até o viajante e que lhe diga: “Em tal momento encontrareis tal coisa; sereis atacado e socorrido.” Ele predirá o futuro. Para o viajante, isto é o futuro. Para o homem da montanha é o presente." 

 Esta analogia usada por Kardec é interessante: o autor utiliza o espaço tridimensional como exemplo, onde a vista de cima de uma montanha seria uma visão do presente e do futuro, mostrando-se mais ampla do que a visão a partir de uma região mais baixa, que seria a visão limitada ao presente. 

Agora devo relembrar algumas observações feitas pelo astrofísico e filósofo, Arthur S. Eddington, na primeira metade do século posterior à Kardec, sobre o espaço e o tempo: "Não sei se você está profundamente ciente do fato de que, há algum tempo, estamos imersos em um mundo quadridimensional. A quarta dimensão dispensa apresentações: assim que começamos a considerar os eventos, ela estava lá: O "mundo" quadridimensional. Os eventos obviamente têm uma ordem quádrupla que podemos dissecar em direita ou esquerda, atrás ou na frente, acima ou abaixo, mais cedo ou mais tarde - ou em muitos conjuntos alternativos de especificação quádrupla. A quarta dimensão não é uma concepção difícil. Não é difícil conceber os eventos como ordenados em quatro dimensões; é impossível concebê-los de outra forma. O problema começa quando continuamos nessa linha de pensamento, porque por um longo costume dividimos o mundo dos eventos em seções ou instantes tridimensionais e consideramos o empilhamento dos instantes como algo distinto de uma dimensão."  

Este argumento se refere a descoberta matemática da quarta dimensão, utilizada para o conceito de tempo quadrimensional na teoria da relatividade. Eddington explica que a quarta dimensão sempre esteve lá e insistir em enxergar o tempo como uma sucessão de instantes tridimensionais, mas distinto de uma dimensão, é uma contradição que ficou evidente. 

A quarta dimensão é um fato descoberto pela matemática, que por sua vez não é investigável por um método estritamente empírico, uma vez que não é perceptível sensorialmente por seres tridimensionais; O tempo em si, por exemplo, só percebido conscientemente (através da consciência do tempo). Mesmo porque, a característica da matemática que lhe concedeu a capacidade de colaborar com uma construção de conhecimento mais profunda e precisa, foi o "número zero". O zero não é palpável materialmente - é um conceito de ausência e um representante de "casas decimais". Com seu acréscimo na sequência dos demais números (e 1 a 9) fica evidente a dezena, a centena, os milhares... e possivelmente o "infinito" de certo modo. É justamente por ser teórico e ter estas características que transcendem o palpável, que o zero colaborou com uma (r)evolução na matemática e na construção de conhecimento. Além disto, questões sobre se os números são uma mera criação humana, uma força primordial da natureza, ou um meio termo de ambas as coisas, ocorrem na matemática do ocidente no mínimo desde meados do século 19 com autores como Edmund Husserl, entre outros.

Mas porque citar a quarta dimensão para falar de previsões sobre o futuro ou sobre a presciência da alma? Para trazer uma epistemologia que considere a existência do espírito em diálogo com teorias científicas mais atuais do que a física newtoniana, típicas do positivismo e da época de Kardec. Antes de retomar sobre o espaço e o tempo relacionados à teoria da relatividade e à quarta dimensão, vejamos como seguem as explicações de Kardec:

"Agora, se sairmos do círculo das coisas puramente materiais e, por pensamento, entrarmos no domínio da vida espiritual, veremos esse fenômeno reproduzir-se em escala muito maior. Os Espíritos desmaterializados são como o homem da montanha. O espaço e tempo não existem para eles. Entretanto, a extensão e a penetração de sua vista são proporcionais à sua depuração e à sua elevação na hierarquia espiritual. Em relação aos Espíritos inferiores, eles são como um homem munido de poderoso telescópio, ao lado de outros que observam a olho nu. Nestes últimos a vista é circunscrita, não só porque dificilmente podem afastar-se do globo a que estão ligados, mas porque a grosseria de seu perispírito vela as coisas afastadas, como faz a névoa em relação aos olhos do corpo. Compreende-se, pois, que conforme o grau de perfeição, um Espírito possa abarcar um período de alguns anos, de alguns séculos, e até de muitos milhares de anos, pois o que é um século em comparação com a eternidade? Diante dele os acontecimentos não se desenrolam sucessivamente, como os incidentes da estrada do viajante. Ele vê simultaneamente o começo e o fim do período. Todos os acontecimentos que nesse período são o futuro para o homem da Terra, para ele são o presente. Poderia ele, pois, vir dizer-nos com certeza: Tal coisa acontecerá em tal época, porque ele vê essa coisa, assim como o homem da montanha vê o que espera o viajor na estrada. Se ele não diz, é porque o conhecimento do futuro seria nocivo ao homem. Ele entravaria o seu livre-arbítrio; paralisá-lo-ia no trabalho que deve realizar para o seu progresso."

Kardec trabalha a teoria do progresso da alma, que é principalmente moral quando olhamos para os seres individualmente, mas também é ético, devido aos resultados do despertar de tal moral e devido às relações entre os espíritos, sejam estes encarnados como seres humanos ou em outro estado. A ética tem como um de seus elementos a universalidade, pois não há verdadeira ética em ganhos meramente individuais ou que beneficiem pequenos grupos prejudicando os demais. 

Quando Kardec diz que os "espíritos inferiores" dificilmente podem se afastar do globo, ele está de acordo com a teoria da psiquê imortal de Platão - o filósofo da antiguidade clássica explicava (de acordo com seu mestre Sócrates) que a psiquê dos indivíduos apegados à matéria, seja aos bens ou aos prazeres sensoriais, ficariam vagando na Terra de acordo com seus gostos, preferências e/ ou vícios. Tal fato não se tratava de uma punição divina, mas sim de uma consequência lógica a partir do entendimento que a psiquê (alma) é imortal. Para os filósofos gregos, a punição certamente existia, mas estaria relacionada ao conceito de justiça e não exatamente ao apego que os indivíduos sentem pelo mundo que (diga-se de passagem) está no espaço tridimensional. 

Mas Kardec desenvolve mais teorias sobre o espírito em relação aos filósofos da Grécia Clássica: O perispírito, um elemento super sutil certamente ligado ou constituído em alguma proporção de eletricidade e magnetismo (eletromagnetismo) deve fazer a ligação entre alma (equivalente à psiquê descrita por Platão) e corpo. Isto não é absurdo, uma vez que todos átomos têm cargas elétricas e campos eletromagnéticos, mas não entrarei em detalhes sobre o quanto os corpos possuem os são constituídos (a nível atômico etc) de campos/ ondas eletromagnéticas. Os temas como a moral e a ética são praticamente centrais nos 2 corpos de obras, seja nos textos do filósofo do séc 4 aC, ou no do pedagogo do séc. 19: porém enquanto Platão prioriza a construção de conhecimento (a episteme) e sua aplicação na vida coletiva (política/ ética), Kardec que viveu sob uma monarquia, priorizou a explicação dos fenômenos espirituais. Este elemento que conecta psique e corpo não pode cumprir um papel meramente físico, embora deva ser físico em algum nível, já que tudo se enquadra dentro das leis naturais (Kardec não faz diferenciação entre leis naturais e divinas - em sua busca por extinguir o sobrenatural, o autor integra ambos conceitos). Não sendo exclusivamente físico, o perispírito carrega propriedades morais dos indivíduos, ou ao menos, é regido pela moral deste, já que a moral faz parte do psiquismo, da mentalidade etc. É por isso que o autor diz que a grosseria do perispírito geralmente obstrui as "percepções" da alma (imperfeita). As percepções que transcendem o espaço e o tempo então devem ocorrer através da alma mais pura/ mais ética, que consequentemente tem um perispírito purificado em algum nível. Note que pureza aqui não se refere a puritanismo, nem moralismo - não se trata de proibir o comportamento alheio, pois cada indivíduo deve inferir/ despertar os valores universais em si mesmo e colocá-los em prática em sua mentalidade e no convívio social. E embora Kardec tenha se apoiado mais nos ensinamentos (morais/ éticos) de Jesus e seus apóstolos, mais uma vez a obra espírita lançada na França do século 19 converge com a raiz da filosofia ocidental: Platão propõe o mesmo despertar aos seus leitores, assim como Sócrates propunha aos seus interlocutores - o ser humano deve despertar/ viver valores universais: ser moderado, corajoso, benevolente/ belo e justo, pois isto é ser "uno", é ser apto a liderar ou governar a sociedade e é alcançar o que é cognoscível e também imutável. 

Sobre o tempo, Eddington indica que ele é quadrimensional, ou interpreta que ele seja a quarta dimensão, ao afirmar que os eventos tem uma ordem quádrupla (cima e baixo, esquerda e direita, para frente e para trás e mais cedo e mais tarde). Kardec por sua vez afirma que os espíritos mais puros (virtuosos, seja baseado na ética "cristã não-religiosa" ou na platônica que pouco diferem entre si) conseguem "ver" todos os eventos de uma determinada amplitude ou espectro do tempo (que ele compara com a "estrada" percorrida pelo encarnado) como se fossem o presente - Isto explicaria, ao menos em partes, porque Jesus conseguia realizar alguns feitos considerados milagres, como prever alguns eventos do futuro por exemplo. De acordo com Kardec, tais espíritos que despertaram uma grandiosa moral e ética geralmente não revelam os eventos do futuro (e possivelmente alguns esquecidos do passado) porque isto entravaria o progresso da (maioria da) humanidade. Mas porque entravaria? 

Certamente porque algumas "visões" de vidas passadas poderiam traumatizar ou deslumbrar os encarnados que as esqueceram, bem como muitas visões do futuro poderiam parecer desoladoras: Imagine um europeu do século 19 tendo revelações de como seriam as guerras mundiais, um congolês descobrindo as atrocidades que os belgas cometeriam com seu povo ou os indígenas norte americanos vendo antecipadamente as imposições e traições que ingleses e seus descendentes estadunidenses lhes imporiam (etc)... Previsões de dificuldades futuras podem ser aterrorizantes ou desesperadoras para muitos indivíduos que preferem ter uma perspectiva pacata da vida ou que preferem um otimismo ingênuo...

Eddington traz outro ponto interessante sobre a teoria do tempo quadrimensional ao explicar sua estrutura como uma espécie de ampulheta onde o "aqui agora" (o presente de cada indivíduo) seria o ponto mais afunilado de tal estrutura; 

O gráfico indica um "Aqui-Agora" (Here-Now) individual, ou seja, a percepção do tempo, ou a consciência do tempo, é de cada indivíduo, bem como sua localização e respectivos movimentos no espaço. As cunhas dos lados da ampulheta, nomeadas de "Outro lugar Absoluto" (Absolute Elsewhere), se referem ao que Eddington diz que deveria se chamar o Presente Absoluto, pois nesta teoria, o presente não é uma mera porção infinitesimal entre o passado absoluto e o futuro absoluto. Porém, em situações normais, cada indivíduo só percebe o "ponto" do Aqui-Agora: é a consciência individual de cada ser vivo situado em um determinado local do espaço; então o Outro lugar Absoluto, ou Presente Absoluto" seria inalcançável para as formas de vida em sua individualidade. Um exemplo disto é bem simples: não percebemos o que acontece o que está fora do alcance de nossos sentidos... 
Mas aqui entram alguns relatos de fenômenos que certamente se enquadrariam no que o espiritismo e algumas religiões chamam de mediúnicos: Em uma de suas revistas Kardec debate sobre indivíduos que conseguiram se comunicar espiritualmente (ou psiquicamente) em um processo que ele chamava de sonambulismo: O espírito de um ser era invocado durante o sono, e relatava sua experiência ao invocador - percebia afastando-se de seu próprio corpo e surgindo rapidamente diante o médium. Desconsiderando possíveis argumentos naturalistas/ biologistas, temos aqui uma forma de transpassar o espaço/ tempo? Parece que sim. Outras experiências também parecem ter características similares: o que Kardec chamava de "dupla vista", um fenômeno onde alguns indivíduos viam outros locais ou épocas em simultâneo com suas percepções normais do espaço/ tempo, e a bicorporalidade relatada na história de alguns santos que conseguiram estar em dois locais distantes ao  mesmo tempo, são exemplos de como fenômenos mediúnicos podem transcender a curvatura espaço/ tempo. Mas porque isto ocorreria? Certamente deve ter relação com o estado psíquico e ético dos seres, como deduziu Kardec. Oras, a psiquê, seja mente ou alma, é incorpórea: ninguém pega um sentimento ou pensamento e aperta ou divide eles... Há efeitos produzidos no sistema nervoso sim, os neurônios e suas sinapses, bem como os dendritos (etc) têm sua importância e ligação com todo nosso "aparelho psíquico" desde a percepção do presente, até memórias, sentimentos, valores individuais ou universais... Mas diante os relatos de todas experiências chamadas de místicas, mediúnicas ou transcendentais, se quisermos ter uma postura ética, ou seja, com respeito à universalidade, devemos nos manter abertos à uma visão de ser humano e de realidade mais aberta possível para abranger o máximo de amplitude não só de culturas e cosmovisões, mas também de construção de conhecimento. A partir daí, podemos investigar tais fenômenos com o método que melhor corresponda a tal "cosmovisão" - elemento naturalmente ligado ao que alguns estudiosos chamam de pressuposto. A pré suposição para estudar tais temas é admitir que o desconhecido é investigável - não se conhece um relato ou fato negando sua existência e sim investigando-o. E se o método sensorial/ reprodutível (empírico) não serve para tal investigação, devemos recorrer ao dialético racional (diálogo ou comparação de relatos e reflexão). 

Voltemos aos fenômenos mediúnicos então; a psiquê em atividade mediúnica pode transcender o espaço porque ela não é meramente biológica/ material e nem é espacial. Neste ponto, se não tivéssemos a teoria de Kardec sobre o perispírito, teríamos que voltar às discussões sobre como a mente se conecta ao corpo, propagadas desde o século 17 por René Descartes por exemplo. Ou talvez pudéssemos tentar partir da teoria da consciência do campo eletromagnético da virada do século 20 ao 21, mas esta ainda parece muito incipiente e pouco aceita na construção de conhecimento. Partindo de Kardec então, o perispírito poderia fazer o vínculo entre algo espacial/ tridimensional (corpo) e algo adimensional (psiquê). Oras, com a descoberta da quarta dimensão teríamos mais um elemento desconhecido que pode se relacionar com ambos (com o tridimensional e o adimensional). O problema é que apesar de ser uma descoberta matemática, ela não parece investigável pelo método estritamente empírico de construção de conhecimento. Voltando às comparações dialéticas e reflexões, poderíamos deduzir que seres superiores são quadrimensionais? Para isso, precisamos de uma referência que sirva de comparação, pois presos em corpos tridimensionais no espaço tridimensional, temos sérias dificuldades em conceber ou imaginar qualquer coisa quadrimensional: Peguemos as sombras e imagens refletidas (em espelhos ou superfícies lisas como água etc) - elas são bidimensionais, pois não possuem espessura alguma: só altura e largura. Sombras e imagens refletidas só existem em nosso mundo tridimensional em determinados pontos, afinal sombras só são vistas onde a luz não incide diretamente e reflexos só existem nas superfícies diante objetos ou seres iluminados pela luz. A partir daí, por analogia, podemos entender que para a realidade quadrimensional, o universo tridimensional deve ser algo semelhante ao que consideramos sombras ou imagens refletidas - são partes da realidade que só existem em alguns pontos sob determinadas condições. Isto não está longe das parábolas usadas por Platão na obra A República: O "Mito da caverna" por exemplo não trata só da comparação da ignorância com o conhecimento; Os prisioneiros na caverna que assistiam conformados as sombras projetadas na parede não eram só ignorantes: Eles viviam naquela situação como se ela (o teatro de sombras) fosse real, mas o fugitivo que subiu à superfície e viu os corpos tridimensionais e o sol que iluminava os mesmos, descobriu que há algo mais real do que meras sombras projetadas. Quando o fugitivo retorna e conta o que viu aos demais, esperando libertá-los, ele é rechaçado - os prisioneiros acham sua história um absurdo e certamente estão conformados com a caverna e o teatro de sombras. Ainda no mesmo texto, Platão relaciona o conhecimento verdadeiro e a realidade superior com o que é imutável e uno - os valores universais que o filósofo deve despertar e praticar em sua vivência. Em Fedro, o autor, fala sobre o hiper ouranos ("além céus"), uma realidade onde a justiça e outras virtudes fulguravam e não havia local para malevolência. Esta realidade de valores universais era alcançada não só via um estado alterado da mente (manike, mais no sentido de transe místico do que de mania), mas por indivíduos que de algum modo almejaram ou viveram os valores mencionados (a ética). 
Ao explicar sobre o Uno, no diálogo Parmênides, Platão discorre sobre o que é unidade e acaba indicando que se existem duas e três dimensões, naturalmente podem existir quatro dimensões. 
Mas Platão não investiga a vida da psiquê fora do corpo, nem especula possíveis minúcias do "hiper ouranos" ou de uma possível quarta dimensão. Sua finalidade é a ética, a melhoria de todas as coisas, a partir das psiquês vivendo no mundo, em sociedade e consequentemente na política. 
Kardec, por outro lado, não foi o único a tentar entender a vida para além do corpo e os "espíritos superiores". Na "árvore da vida", seja do hermetismo ou do judaísmo místico temos 10 possíveis representações de mundos ou realidades (sefirots), cada uma relacionada a um tipo de ser: Malkhut, a base da árvore cósmica/ espiritual parece ser o mundo material onde os humanos e outras formas de vida biológica habitam. As 9 sefirots acima estão relacionadas aos anjos e às virtudes (...força de vontade, piedade, entendimento, sabedoria etc) - quanto mais elevada, mais próxima de Deus. Deus criou todos os mundos via emanações e embora, nem o hermetismo nem o judaísmo místico discorram sobre uma "quarta dimensão", fica evidente a existência de seres intermediários entre o Deus eterno onipresente criador de tudo e os seres humanos, manifestações desta eternidade - almas feitas à semelhança Dele.  
Platonismo e judaísmo místico já foram estudados conjuntamente no mínimo desde o século 16, na Renascença: não é uma novidade que estou inventando aqui. Filósofos como Giovanni Pico de Mirandola possivelmente viram uma relação metafísica e/ ou cosmogônica entre teorias judaicas e gregas (platônicas) que não ficava só em confabulações: podia ser praticada pelo ser humano numa espiritualidade livre dos dogmas da igreja da época: O ser humano alcança realidades superiores vivendo valores universais, que fazem bem ao coletivo, ao maior número de seres possível e com uma postura de respeito à universalidade, sem deixar a busca por viver internamente e externamente a coragem, a moderação, a bondade, a justiça, a equidade etc. Esta(s) realidade(s) (ou algumas delas, mais próximas de Deus) certamente não podem ser experimentadas pelos corpos tridimensionais e daí a necessidade das psiquês/ almas reencarnarem no que Kardec chama de corpos mais sutis. Não se trata de se tornar um ser estranho (quadrimensional), ao menos, não há importância em imaginar a aparência de corpos quadrimensionais, pois Kardec explica que quanto mais puro (ético) o espírito, mais ele percebe/ "vê"/ sente todas as coisas e menos atividades mentais (pensamentos, sentimentos etc) os seres inferiores podem esconder deles. A hierarquia das almas é ética - de virtudes citadas por Sócrates,  Platão e pelos místicos judeus e de amor piedoso ensinado por Jesus, João Evangelista, Francisco de Assis, Teresa d'Ávila e tantos outros santos e apóstolos. E se as almas e seres vão se tornando mais e mais próximos de Deus ao despertarem e viverem valores universais, é provável que eles vão se aproximando gradualmente da onisciência divina - isto parece dialogar com a ideia de seres quadrimensionais que conseguem estar em mais de um local ao mesmo tempo sem problemas - pois o espaço e o tempo que percebemos aqui no universo tridimensional certamente é uma pequena fração ante uma realidade quadrimensional... Como uma imagem em uma poça d'água ou uma sombra projetada numa caverna... Assim, os espíritos superiores, sejam o que Kardec chama de "errantes" ou reencarnados em formas muito sutis e talvez quadrimensionais, não nos desprezam, mas o amor deles certamente é sereno porque entendem o quão pequeninos somos.

A saúde mental das pessoas começa na tenra infância

 Imagine um ser que não sabe se comunicar, mas é cercado por seres que sabem. Não só é cercado, mas é cuidado por estes, pois está vulnerável pelo fato de estar no início do aprendizado das coisas mais básicas da vida: se alimentar, identificar coisas, manipular objetos, expressar e lidar com suas emoções e com a de outros, enfim, aprendendo a dominar todas as necessidades básicas. 

Este é o bebê até sua fase de se tornar criança - um período que dura aproximadamente desde o nascimento até uns 3 anos de idade, embora isso possa variar um pouco de pessoa para pessoa... 

Se ele está começando o aprendizado da fala e da escuta, qual seriam as expressões mais naturais nas relações? Certamente as emoções. Mas as emoções não são só reações diante o ambiente - são isso e mais, pois emoções podem ter causas relacionadas às expectativas ou às experiências que deixam marcas leves ou profundas no psiquismo e na personalidade do ser humano. Estas marcas são referências, afinal as emoções não são totalmente separáveis de outros atributos humanos como o diálogo, as interpretações e os sentimentos - inclusive, muitas vezes elas podem ser expressões de sentimentos e estes últimos tendem a ser duradouros. Podemos ter sentimentos em relação a uma ou mais pessoas, em relação a uma ou mais experiências, ou a um tipo de pessoa ou de experiência etc. A importância das emoções então ficam evidente: o bebê e a criança pequena aprendem não só quando devem reagir e de qual forma devem reagir, mas também percebem as expressões/ emoções de outros a sua volta, principalmente a de seus cuidadores (pai, mãe etc).

Se o bebê/ criança encontra uma ou mais dificuldade ao lidar com o pai, com a mãe ou com ambos, o que é feito à respeito disto? Imagine experiências dolorosas (física e/ ou psicoemocional): elas podem ser simples e fazerem parte de um aprendizado, caso o bebê/ criança seja capaz de entender como lidar com elas. Mas caso o bebê não entenda, devemos questionar - o quão intensa é essa dor e/ ou o quanto duram tais experiências dolorosas? E quais são serão os impactos sobre um ser tão vulnerável que ainda não consegue lidar com tais experiências? A infância não é uma mera fase da vida, que quando fica no passado, desaparece como um passe de mágica: ela gera consequências históricas em cada ser humano e estas consequências podem limitar ou ampliar as suas capacidades psíquicas. Não se tratam de meras capacidades racionais ou de aquisição de conhecimento, mas também capacidade de empatia, de encontrar maneiras de lidar com os seres a sua volta e de encontrar forças para continuar diante uma diversidade de situações da vida. As consequências das experiências da tenra infância, onde o bebê/ criança está mais dependente ou vulnerável do que nas fases posteriores da vida, formam todo um repertório de sentimentos, além de alguns possíveis padrões de pensamentos e de valores, sejam estes valores mais individuais ou mais sociais/ coletivos e universais.

Com isso estou dizendo que esta fase da vida humana é um determinante absoluto do psiquismo e/ ou do comportamento? Não. Mas que é sim uma fase de grande peso na formação do ser humano, possivelmente a fase que estrutura as características psicoemocionais mais fundamentais da humanidade! É devido ao fato de ser uma fase de estruturação psicoemocional que o bebê e a criança que está aprendendo a falar é literalmente sensível a forma como os outros lidam com eles. Esta sensibilidade é vulnerabilidade, mas também é intuição, tentativa de entender os seres à sua volta e se relacionar com eles! Quando a comunicação é insuficiente e a correspondência de sentimentos também, a criança certamente irá manifestar comportamentos tidos como "surtos" por muita gente: choros intensos ou prolongados, gritos e até possíveis agressões ou autoagressões. Isto porque a vulnerabilidade dos bebês e crianças pequenas incapazes de uma comunicação complexa e completa, pode fazer com que muitas atitudes de nós adultos (ou adolescentes) sejam violentas para eles: Violência não é só bater ou ameaçar com gritos; no caso dos mais vulneráveis, até mesmo a impaciência, o ato de se afastar ou ignorar a criança em seu momento de necessidade, pode ser mais do que ela aguenta - pode sim ser uma violência.

É uma pena que o conhecimento disto pareça mais intuitivo e de senso comum do que das áreas científicas ou filosóficas (psicologia, pedagogia etc). Aqui não culpo a psicologia como ciência (ainda), mas sim a dificuldade de se estudar as fases iniciais da vida dentro das famílias... 

Os estudos neurológicos estão se desenvolvendo e podem colaborar com a psicologia - mas eles não abrangem todo repertório mental humano e seu histórico. Sentimentos, traumas, valores e tantos outros aspectos importantes da mentalidade humana possivelmente requerem também uma construção de conhecimento pautada na ética e na universalidade, portanto um conhecimento filosófico. Apesar das dificuldades espero que um dia, não só a ciência ou a filosofia, mas a humanidade entenda a importância das questões afetivas principalmente para os bebês e crianças. 

O como a criança deve receber atenção e afeto é um tema que deve ser aprofundado e que também deve variar em algum nível de acordo com as famílias e seus contextos. Talvez eu consiga abordar tal tema futuramente.

Ignorância não se combate só com ciência: É preciso filosofia

Ignorância não se refere só ao desinteresse em conhecimento, mas também o ato de ignorar as necessidades do próximo - de ignorar quem é diferente, ignorar pessoas de outras culturas etc. 
Por milênios o ser humano viveu na Terra de variadas maneiras diferentes - isto faz parte da universalidade humana, independente se o ser humano é mais emocional ou racional, mais curioso ou mais intuitivo. Tais fatores humanos individuais juntamente com suas relações sociais e ambientais, certamente foi o que gerou variadas culturas que viveram em períodos de maior ou menor harmonia.

Vejamos um fator humano e cultural notoriamente influente em nossa história: As religiões são algo muito antigo que existe em variadas sociedades humanas. Independentemente se você considerar o "xamanismo" de povos da "idade da pedra" ou as religiões politeístas após a construção de templos da antiguidade ou as igrejas cristãs que se formaram após os concílios do século 4 em diante na Europa. A diferença mais marcante entre estas religiões citadas é que o xamanismo era uma prática mais ligada à natureza e à ancestralidade enquanto as demais apresentam alguma hierarquia com uma ou mais autoridades religiosas. 
Sim, existiu um "cristianismo primitivo" sem igrejas entre os séculos 1 e 3, mas depois disto, a religiosidade cristã sem instituições sobreviveu de modo esparso em minorias pouco ou nada registradas na história humana, então voltemos a falar das religiões que foram institucionalizadas e cresceram; Estas religiões com autoridade as quais me refiro não incluem a religiosidade mística onde pessoas buscam um contato espiritual ou psíquico com o divino - aqui me refiro às igrejas onde bispos ou quaisquer outros sacerdotes usam sua posição de liderança como ferramenta de poder em grande parte do tempo; Isso não deve ser difícil de se estudar, mas não vou fazer um levantamento histórico mais detalhado neste texto.

Toda vez que vemos religiosos criticando pessoas ou grupos de outra fé ou pregando a sua própria religião como verdade absoluta, há um indício desta autoridade e também de um autoritarismo. Isto ocorre não somente por existir um ou mais líderes manipulando ou pressionando massas de fiéis para obter vantagens e/ ou fortunas, mas também acontece porque as pessoas que seguem tais líderes ou seguem as religiões das quais estes líderes alegam fazer parte, não refletem sobre autoridade, autoritarismo, liberdade religiosa etc. Estes fiéis, geralmente em grandes quantidades, se deixam levar por discursos emocionais que lhes dão uma identidade de grupo, que sustentam suas expectativas ou que lhes entregam um suposto pertencimento a um coletivo. Emoções são uma necessidade humana, bem como algum nível de relacionamento social (grupal, coletivo, seja em um grau  menor ou maior) e tal manipulação de "autoridades" religiosas se aproveita de tais necessidades, oferecendo supostas verdades que não exigem reflexão nem estudo. Isto é um fato, tanto é que muitos religiosos não leem os textos de sua própria fé (bíblia por ex.) ou leem somente com o viés e influência de um líder, seja ele pastor, padre etc. Assim se formam massas de pessoas que reproduzem falas preconceituosas e discursos segregadores ou conflituosos de "nós e eles".

Curiosamente muitos dos que gostam de estudar, ou ao menos, dos que dizem que priorizam o conhecimento, pouco ou nada atacam tais atitudes de religiosos: Praticamente não criticam a falta de ética das ações de manipulação ou de ganância de líderes religiosos nem criticam o fanatismo e as contradições éticas dos fiéis que seguem tais líderes/ religiões. Estes supostos estudiosos preferem afirmar sobre a inexistência de coisas, como de Deus, de uma realidade espiritual, de espíritos, de Jesus, de Moisés (de "profeta X, Y, Z"...) etc. Isto é uma contradição oriunda da falta do estudo filosófico, pois a filosofia que discute como se constrói conhecimento (epistemologia) não trabalha pressupondo inexistência(s) - ela investiga o que ela desconhece e afirma o que existe/ o que foi descoberto e entendido. 
Por um outro lado, recentemente neste final de 2025, um jovem gravou um vídeo na internet explicando que tentou argumentar com evangélicos anticomunistas e de direita. Ele teria explicado a história da política moderna (o surgimento da esquerda e da direita após a Revolução Francesa etc), indicando como os textos do cristianismo não possuem praticamente nada contra as práticas das ideologias e políticas de esquerda modernas. Os evangélicos (em resposta) teriam apelado para a ideia de que se trata de uma "guerra espiritual" para além da política e da vida cotidiana. O jovem aparentemente chocado, entendeu que tanto os líderes evangélicos conservadores de direita como seus respectivos seguidores ou fiéis não se importam mais com os fatos, porque sendo uma "guerra espiritual", nada do que acontece no mundo faria eles mudarem de ideia. De fato, ele tem um ponto, mas vale lembrar que se esses conservadores que compõem a direita religiosa, usam argumentos de suposto teor espiritual, então eles podem e devem ser combatidos dentro do tema espiritual. Nada impede alguém mais ético, ou seja, que respeite a universalidade seja da fé ou do direito à vida etc, refute as falácias de evangélicos de direita/ capitalistas a respeito de temas religiosos ou "espirituais". Os argumentos de guerra espiritual apresentados por conservadores e/ ou capitalistas ("direitistas" assumidos ou não) são obviamente mera retórica esvaziada de ética para defender religiosos enriquecidos, manter fiéis na ignorância e controlados e criar inimigos externos - sendo assim esses argumentos são uma questão filosófica de moral e ética e de discussão sobre o que é verdade e/ ou conhecimento; Não há necessidade de se prender exclusivamente a evidências ou a cientificidade para expor tais farsantes.
No final das contas, os estudiosos que criticam todos elementos da espiritualidade, caem no cientificismo que não é novidade alguma, pois existe ao menos desde o século 19; Se for para criticar as religiões, critique o que há de realmente nocivo nelas: líderes enganando massas para obter riqueza e status, contradizendo os ensinamentos de Jesus e seus apóstolos, "fiéis" se alienando em ignorância e em intolerância à universalidade etc. Indique o que é coerente e benéfico, ao invés de propagar uma "nova" ideologia dogmática baseada em reducionismos com discursos de cientificidade: O componente emocional e social que existe no simples conceito de religião não pode ser apagado exclusivamente por racionalidade nem por supostas evidências materiais - por isso o argumento tosco da "guerra espiritual" convence muita gente. Afinal espiritualidade e religiões existem há milênios sendo quase tão antigos quanto os sentimentos e as emoções, mas pessoas podem manipular tais conceitos impactando em suas expressões e práticas, assim como também podem mentir e omitir sobre qualquer outro tema, argumento ou ideia. A mera negação de todos elementos espirituais descamba no niilismo grotesco, que geralmente fomenta o hedonismo, a ganância, o armamentismo e/ ou mais egoísmos... 

A racionalidade e o estudo empírico (com evidências etc) são importantes sim, pois foram conquistas humanas principalmente da "era moderna" que durou aproximadamente desde 1430, quando a filosofia ocidental foi retirada do domínio da igreja e a imprensa chegou à Europa, até a Segunda guerra mundial (1939-1945). Neste período que durou cerca de 500 anos, a perspectiva racional do ser humano teve maior liberdade para se desenvolver, assim como teve maior responsabilidade: Sem a propagação e a consolidação da ética entre os seres humanos e em suas respectivas interrelações, o que se viu foram vários conflitos dominados por ganância e/ ou por rivalidades. Por causa disto é importante lembrar que foi a partir da combinação do gigantesco acúmulo de bens materiais em poder de poucos multimilionários e da fomentação de ideologias segregadoras (fascismo e capitalismo, por ex.) e de ideologias racistas, portanto biologistas e niilistas (nazismo e darwinismo social, por ex.) que a era moderna acabou em duas guerras mundiais. Ignorar isto, combatendo toda e qualquer religiosidade/ espiritualidade com mero dogmatismo científico sem ética e sem universalidade é retornar ao niilismo, a ideia de que nada existe além dos corpos materiais e do espaço tridimensional e nada importa além disto; Tal ideologia desembocou na criação de armas químicas e de destruição em massa que colaborou com as maiores tragédias humanas da história.
É impossível combater ignorância com tais ideias materialistas-niilistas, porque isto é combater o esvaziamento da solidariedade, da justiça e da equidade, com mais vazios! Não há racionalidade benéfica sem estes valores que são universais. Não há conhecimento ou verdade, sem ética e sem universalidade, portanto não há conhecimento ou verdade sem filosofia.

Análise da epistemologia espírita (continuação)

Esta é a continuação da análise da epistemologia espírita realizado na postagem Amor pelo Saber, Saber Amar: Uma breve análise da epistemologia espírita a partir de um texto da Revue-spirite journal d'etudes psychologiques de 04/1864. Neste ponto do texto, Allan Kardec volta a teorizar sobre a possível ligação entre corpo e espírito - o "perispírito": 

12. ─ Posto que invisível para nós em estado normal, o perispírito não deixa de ser matéria etérea. Em certos casos, o Espírito pode fazê-lo sofrer uma espécie de modificação molecular que o torna visível e até tangível. É assim que se produzem as aparições. Esse fenômeno não é mais extraordinário que o do vapor, que é invisível quando muito rarefeito, e que se torna visível quando condensado. Os Espíritos que se tornam visíveis apresentam-se quase sempre sob a aparência que tinham em vida, pela qual podem ser reconhecidos.

13 ─ É auxiliado por seu perispírito que o Espírito age sobre o seu corpo vivo. É ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte; que produz os ruídos, o movimento das mesas e de outros objetos que ergue, derruba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente se considerarmos que entre nós os mais poderosos princípios motores se acham nos fluidos mais rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade. É igualmente com o auxílio de seu perispírito que o Espírito faz o médium escrever, falar ou desenhar. Não tendo corpo tangível para agir ostensivamente, quando quer manifestar-se, ele se serve do corpo do médium, cujos órgãos ocupa, fazendo-os agir como se fosse seu próprio corpo, e isto pelo eflúvio fluídico que sobre ele derrama.

Sobre a teoria do perispírito abordada nestes tópicos da revista (e de outras obras do autor), mencionei no texto anterior que não se trata de algo gasoso muito menos líquido: o perispírito seria composto de elementos ou energia em um estado muito sutil. É um tema inconclusivo do ponto de vista científico, ou de uma investigação pautada em mensurabilidade, pois apesar do autor especular sobre a possível composição elétrica e magnética do perispírito, em sua época não se conhecia o eletromagnetismo nem os campos eletromagnéticos dos órgãos do corpo. Hoje, no início do século 21, temos poucos estudos que avançaram sobre a relação de campos eletromagnéticos com a biologia: exames como o eletrocardiograma, o eletroencefalograma e a imagem de ressonância magnética foram desenvolvidos na medicina após a descoberta dos campos E.M. do cérebro e do coração, mas teorias sobre a consciência relacionada ao campo eletromagnético do cérebro ainda parecem incipientes ou pouco aceitas no meio científico. E ainda que estudos da relação do campo eletromagnético do cérebro com a consciência ganhem espaço na ciência, não há garantia que a discussão filosófica sobre a relação "mente-corpo" ganhe relevância na construção de conhecimento ocidental, pois ainda é preciso abertura ao diálogo com variadas culturas e como estas percebem/ entendem o ser humano e a realidade. É essencial escutar com equidade relatos de pessoas que passam por experiências entendidas como espirituais, sejam experiências boas ou ruins, particulares ou grupais/ coletivas - e estes relatos, que deveriam adentrar ao menos a psicologia, dificilmente ganham um espaço na construção de conhecimento dominante no ocidente, que é a científica tomada por pressupostos materialistas de metodologia estritamente empírica.
Vale relembrar que já na época de Kardec a ciência estava sendo tomada por um biologismo crescente - Após o positivismo iniciado poucas décadas antes do espiritismo, Charles Darwin (1809-1882) e Alfred R. Wallace (1823-1913) realizaram grandes descobertas na biologia e ideias sobre um ser humano puramente biológico foram espalhadas pelas elites intelectuais do hemisfério norte. O racismo científico já era aceito nas elites europeias pois parte dos intelectuais eram de origem burguesa e a ideia de progresso certamente sofreu influência do mercantilismo desde o século 16 e do liberalismo a partir do século 18. As descobertas sobre a seleção natural e teoria da evolução das espécies do século 19 foram levadas como verdades absolutas por alguns autores que já tentavam reduzir o ser humano ao aspecto biológico. A leitura racial do ser humano já se apoiava nas características biológicas desde os estudos de Carl Linaeus (1707-1778) e se intensificou no século do positivismo. Várias ideias preconceituosas e de viés racista eurocêntrico foram difundidas como se fossem conhecimento durante maior parte do século 19 e algumas chegaram até as duas ou três primeiras décadas do século 20: a localização de todo psiquismo em partes do cérebro (frenologia), a cranoscopia, a drapetomania e o darwinismo social. Kardec não era um biologista mas dificilmente escaparia do viés eurocêntrico da construção de conhecimento, e no âmbito do que constitui a relação entre psiquê (espírito neste caso) e corpo, o espiritismo estava dentro dos limites da época. 
As comparações utilizadas por Kardec serviam para dar uma ideia ainda imprecisa e que hoje deveríamos ter um pouco mais de recursos para reconstruí-las: o quarto estado da matéria (plasma) por exemplo pode ser considerado mais sutil que o estado gasoso (o ar etc) utilizado na comparação feita por Kardec. O eletromagnetismo mostra a ligação entre eletricidade e magnetismo que era ainda desconhecida naquela época... 

14. ─ É pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, quer para movê-la sem objetivo determinado, quer para fazê-la vibrar golpes inteligentes indicando as letras do alfabeto, para formar palavras e frases, fenômeno designado sob o nome de tiptologia. Aí a mesa não passa de um instrumento de que ele se serve, como do lápis para escrever. Dá-lhe uma vitalidade momentânea, pelo fluido com que a penetra, mas não se identifica com ela. As pessoas que, emocionadas, ao verem manifestar-se um ser que lhes é caro, beijam a mesa, praticam um ato ridículo, porque é absolutamente como se beijassem a bengala de que um amigo se serve para vibrar golpes. Dá-se o mesmo com as que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na madeira, ou como se a madeira se tivesse tornado Espírito. Quando ocorrem comunicações por esse meio, é preciso imaginar o Espírito, não mesa, mas ao lado, como ele era em vida, e como ele seria visto se no momento se tornasse visível. O mesmo ocorre nas comunicações pela escrita. Ver-se-ia o Espírito ao lado do médium, dirigindo-lhe a mão, ou lhe transmitindo o pensamento por uma corrente fluídica. Quando a mesa se ergue do solo e flutua no espaço, sem ponto de apoio, o Espírito não a levanta pela força do braço, mas a envolve e a penetra de uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza a ação da gravidade, como faz o ar com os balões e papagaios. O fluido de que é penetrada lhe dá momentaneamente uma leveza específica maior. Quando ela está plantada ao solo, está numa situação análoga à da campânula pneumática, sob a qual se faz o vácuo. Estas são comparações para mostrar a analogia dos efeitos, e não a similitude absoluta das causas. Depois disto, compreende-se que a um Espírito não é mais difícil levantar uma pessoa do que uma mesa; transportar um objeto de um a outro lugar, ou atirá-lo em qualquer parte. Estes fenômenos são produzidos pela mesma lei. Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito que corre, pois pode ficar tranquilamente no mesmo lugar, mas que lhe dá o impulso por uma corrente fluídica com o auxílio da qual a faz mover-se à vontade. Quando os golpes são ouvidos na mesa ou noutro lugar, o Espírito não bate com sua mão, nem com um objeto qualquer. Ele dirige um jato de fluido para o ponto de onde parte o ruído, produzindo o efeito de um choque elétrico. Ele modifica o ruído, como podemos modificar os sons produzidos pelo ar.
15. ─ Por estas poucas palavras pode-se ver que as manifestações espíritas, sejam de que natureza forem, nada têm de sobrenatural ou maravilhoso. São fenômenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações entre o mundo visível e o invisível, lei tão natural quanto as da eletricidade, da gravitação, etc. O Espiritismo é a ciência que nos dá a conhecer essa lei, como a mecânica nos dá a conhecer as do movimento e a óptica as da luz. Estando as manifestações espíritas em a Natureza, produziram-se em todas as épocas. A lei que as rege, quando conhecida, explica-nos uma porção de problemas olhados como insolúveis. É a chave de uma porção de fenômenos explorados e amplificados pela superstição.

Seja como tenha ocorrido os fenômenos das mesas girantes no século 19, é impossível ter evidências nos conformes da ciência de pressupostos materialista - O que temos são descrições de diferentes autores e estudiosos observando diferentes casos que aconteceram em variados pontos do "eixo" Europa - América do Norte e as descrições de Kardec parecem ter seriedade e interesse em investigar os fenômenos. Afirmações do tipo "ah, os fenômenos do século 19 envolvendo espiritismo e espiritualismo devem ter sido casos de alucinações coletivas" são generalistas por desconsiderar toda a amplitude e variedade de casos e também são enviesadas nos conformes da pré suposição da inexistência da alma/ de espíritos. Uma construção de conhecimento séria e ética não parte de tal pressuposição excludente e limitante. Kardec então buscou construir conhecimento como pode ser notado no texto da Revista Espírita - o espiritismo não se tratava de uma religião: Admitia que existem coisas desconhecidas, mas não tinha segredos, hierarquia nem liturgias.

16. ─ Afastado completamente o maravilhoso, tais fenômenos nada mais têm que repugne à razão, porque vêm tomar assento ao lado dos outros fenômenos naturais. Nos tempos de ignorância, todos os efeitos cujas causas não eram conhecidas eram reputados sobrenaturais. As descobertas científicas foram restringindo continuamente o círculo do maravilhoso. O conhecimento desta nova lei vem reduzi-lo a nada. Assim, os que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso, provam, por isto mesmo, que falam do que não conhecem.

Neste parágrafo Kardec mostra que buscava extinguir o conceito de sobrenatural, afinal o espiritismo visava explicar toda (um)a série de fenômenos, dos quais as religiões se apropriam e os cientistas simplesmente os negam. Neste ponto entendo que Kardec tentou algo muito à frente de seu tempo - porém não era uma construção de conhecimento com universalidade, devido a estar limitada ao contexto da Europa positivista; Kardec, bem como a maioria esmagadora (ou totalidade) dos pensadores europeus do século 19, não percebia como a ciência não era só uma busca pela verdade, mas era também uma maneira de determinar o que era a verdade. O discurso de "restringir continuamente o círculo do maravilhoso" está relacionado a elevação da ciência (de origem europeia ocidental) como superior aos demais saberes. Sua separação da filosofia ocorrida por volta da primeira metade do século 19 consolidou este fato: A ciência passava oficialmente a menosprezar campos relegados à filosofia e a investigar só os fenômenos naturais com (suposta) "neutralidade" o que incluía tudo o que era perceptível no mundo e no espaço; Desta forma a filosofia ficava somente incumbida a discutir ética, ontologia, teleologia e epistemologia como se tais assuntos fossem separáveis da ciência ou irrelevantes para esta última. Claro que haviam cientistas humildes e/ ou éticos, mas muitas das ideias aceitas na ciência da época de Kardec eram racistas e elitistas e tal fato é indissociável dos pressupostos materialistas que encontraram a desculpa perfeita no biologismo pós Darwin. Como citei anteriormente, a elite intelectual certamente era em grande parte de origem burguesa desde a época de Locke, Newton e Voltaire - época esta onde o empirismo foi determinado como o meio superior de se construir conhecimento na Europa. Quando Kardec realizou suas investigações, os sistemas públicos de educação eram incipientes (a construção de conhecimento ainda era predominantemente burguesa) e além do domínio do empirismo, já haviam sido consolidadas na filosofia natural (ciência) as ideias de 4 raças humanas propagadas por Lineu, o positivismo com a hierarquização das áreas de estudo de Auguste Comte (1798-1857), o racismo científico entre outras ideias nada universais, ou seja, nada éticas (antiéticas). 
Apesar disto, tais limitações seja na ciência ou no espiritismo de Kardec, são passíveis de uma revisão pautada por valores universais: incluir valores universais na construção de conhecimento é uma tarefa da filosofia, portanto a ciência por si só, principalmente a de pressupostos materialistas/ empiristas não é capaz de aplicar a ética e o diálogo horizontal (equidade) na busca pela verdade. Para desmistificar todo tema espiritual, não basta a racionalidade ou a mensurabilidade - é preciso intenção e postura éticas, eis o porquê existem movimentos para descolonizar não só a ciência, mas a epistemologia - a filosofia, a espiritualidade e a construção de conhecimento em geral. Hoje temos autores que defendem as cosmovisões indígenas e da África "subsaariana" que foram quase apagadas por um "epistemicídio", bem como temos espíritas progressistas que realizam uma historiografia do espiritismo criticando e refutando o racismo e outras posturas preconceituosas e obscurantistas dentro do movimento. 

17. ─ Uma ideia mais ou menos geral entre pessoas que não conhecem o Espiritismo é crer que os Espíritos, apenas porque são desprendidos da matéria, devem saber tudo e possuir a sabedoria suprema. Isto é um erro grave. Deixando seu envoltório corporal, não se despojam imediatamente de suas imperfeições. Só com o tempo se depuram e se melhoram. Sendo os Espíritos as almas dos homens, como há homens de todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de maldade, o mesmo acontece entre os Espíritos. Entre eles, há aqueles que são apenas levianos e brincalhões; outros que são mentirosos, trapaceiros, hipócritas, maus e vingativos; e outros, ao contrário, que possuem as mais sublimes virtudes e o saber em grau desconhecido na Terra. Essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos mais importantes pontos a considerar, pois explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebe. É preciso aplicar-se em distingui-las. Disto resulta que não basta dirigir-se a um Espírito qualquer para ter uma resposta justa para cada pergunta, porque o Espírito responderá conforme o que sabe, e muitas vezes dará apenas sua opinião pessoal, que pode estar certa ou errada. Se ele for prudente, confessará sua ignorância sobre o que não sabe; se for leviano ou mentiroso, responderá a tudo, sem se preocupar com a verdade; se for orgulhoso, dará sua ideia como verdade absoluta. É por isto que São João, o evangelista, diz: “Não creiais em todo o Espírito, mas experimentai se os Espíritos são de Deus.” A experiência prova a sabedoria deste conselho. Haveria, pois, imprudência e leviandade em aceitar sem controle tudo o que vem dos Espíritos. Os Espíritos só podem responder sobre o que sabem e, além do mais, sobre o que lhes é permitido responder, porque há coisas que eles não devem revelar, porque ainda não é dado ao homem tudo conhecer

Kardec sabia da importância da ética não só na construção de conhecimento mas também na espiritualidade. Todos precisam despertar e viver os valores universais (que constituem a ética) e por isto ele indica que existem muitos espíritos imperfeitos. 
A necessidade de se distinguir as comunicações espirituais boas e ruins, não é exatamente uma novidade na história da humanidade: Platão aborda parte dela no diálogo Ion, onde ele mostra seu mestre Sócrates ensinando a importância de se estudar os temas que se trabalha (no caso, a poesia) e não depender somente de inspiração "divina/ daimônica"*.
*Daimonica refere-se à palavra grega daemon, que pode ser traduzida como espírito, gênio ou semi deus. Não é consenso se tem relação com o conceito cristão posterior de demônio, pois este último pode ter surgido da união das palavras demos (povo) e onios (medo). Se houver relação, é possível que a igreja tentou difamar o conceito de daemon, já que Platão apresenta uma cosmovisão diferente da instituição religiosa. 
Este espiritismo francês do século 19 então se mostrou diferente do movimento espírita posterior dominante no Brasil - no país sul americano, desde o século 20, aceita-se obras de alguns médiuns de maneira inquestionável, como se fossem verdades absolutas e sagradas, pouco diferindo de dogmas. 

18. ─ A qualidade dos Espíritos é reconhecida pela linguagem. A dos Espíritos realmente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de toda trivialidade, puerilidade ou contradição; respira sabedoria, benevolência e modéstia; é concisa e sem palavras inúteis. A dos Espíritos inferiores, ignorantes ou orgulhosos carece dessas qualidades; o vazio das ideias aí é quase sempre compensado pela abundância de palavras.

19. ─ Outro ponto a considerar, igualmente essencial, é que os Espíritos são livres. Eles se comunicam quando querem e com quem lhes convém, e também quando podem, pois têm as suas ocupações. Eles não estão às ordens e ao capricho de quem quer que seja, e a ninguém é dado fazê-los virem contra a sua vontade, nem lhes fazer dizer o que não querem, de sorte que ninguém pode afirmar que um certo Espírito virá a seu apelo em determinado momento ou responderá a esta ou àquela pergunta. Dizer o contrário é provar a absoluta ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo. Só o charlatanismo tem fontes infalíveis.

Kardec tenta traçar parâmetros para se reconhecer as boas mensagens ou boas inspirações espirituais. De fato a linguagem é um fator importante na vida humana, então quanto menos contraditória e mais alicerçada em valores universais, mais ética e mais verdadeira a mensagem. Uma linguagem ofensiva bem como uma complexidade exagerada na utilização de palavras, certamente não são sinais de universalidade nem de preocupação com o bem coletivo... 
Além disto, os espíritos sendo seres existentes em uma realidade para além da meramente material/ tridimensional, não podem ser constantemente monitorados ou controlados. Neste ponto, Kardec não só desmonta argumentos de espiritualistas charlatães que poderiam vir a alegar ter domínio sobre os espíritos ou sobre temas espirituais e até divinos, mas também abala a ideia de que o conhecimento superior ou universal dependa da reprodutibilidade típica da ciência "mainstream". Isto porque, apesar de Kardec não discutir como a realidade espiritual poderia ser adimensional ou estar para além do mero espaço tridimensional (mencionei no texto anterior sobre a descoberta matemática do conceito de quarta dimensão), é óbvio que a ciência de viés positivista se limita a investigação empírica (sensorial) de pressupostos materialistas (parte da suposição de que não há nada além da matéria perceptível e do espaço tridimensional). Este método de investigação dominante na ciência, juntamente com sua pré suposição, desde o século 19 não é capaz de aceitar a possibilidade de que a psiquê sobreviva após a morte do corpo, nem de que haja algo relevante além do espaço tridimensional e por isso crê que somente o reprodutível é verdadeiro ou importante.  

20. ─ Os Espíritos são atraídos pela simpatia, pela similitude dos gostos e dos caracteres e pela intenção que faz desejada a sua presença. Os Espíritos superiores não vão a reuniões fúteis, do mesmo modo que um cientista da Terra não iria a uma reunião de jovens estúrdios. Diz o simples bom-senso que não pode ser de outro modo; ou, se por vezes aí vão, é para dar um conselho salutar, combater os vícios, tentar reconduzir ao bom caminho. Se não forem escutados, retiram-se. Seria fazer uma ideia completamente falsa pensar que Espíritos sérios se comprazem em responder a futilidades, a perguntas ociosas, que nem provam interesse nem respeito por eles, nem real desejo de instruir-se e, ainda menos, que possam vir dar espetáculo para divertir curiosos. Se não o fizeram em vida, não farão depois de mortos.

Embora possa parecer que o autor, ao falar da simpatia entre espíritos, da comparação com o cientista e de se combater "vícios", abordou diferentes temas aqui, trata-se da relação entre bons sentimentos, raciocínio e interesse pelo conhecimento e ética! Esta lógica mais uma vez é condizente com a filosofia de Platão (e possivelmente com obras de outros filósofos também), pois demonstra para a construção de conhecimento, a importância de aspectos psíquicos e existenciais centrados na universalidade, na justiça e no bem, enfim valores universais/ éticos. 

21. ─ Do que precede resulta que toda reunião espírita, para ser proveitosa, deve, como primeira condição, ser séria e recolhida; que aí tudo deve passar-se respeitosamente, religiosamente, com dignidade, se se quiser obter o concurso habitual dos bons Espíritos. É preciso não esquecer que se esses mesmos Espíritos aí se tivessem apresentado quando vivos, teriam tido por eles considerações às quais têm ainda mais direito depois de mortos. Em vão alegam a necessidade de certas experiências curiosas, frívolas e divertidas para convencer os incrédulos: o que acontece é de resultado negativo. O incrédulo, já inclinado a troçar das mais sagradas crenças, não pode ver uma coisa séria naquilo de que fazem pilhérias; não pode ser levado a respeitar aquilo que lhe não é apresentado de modo respeitável. Assim, reuniões fúteis e levianas, dessas onde não há ordem nem seriedade nem recolhimento, ele sempre leva uma impressão má. O que pode convencê-lo é, sobretudo, a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara. É diante de suas palavras graves e solenes, diante de revelações íntimas que o vemos empalidecer e comover-se. Mas, pelo próprio fato de que há mais respeito, veneração e apego à pessoa cuja alma se lhe apresenta, ele fica chocado de vê-la vir a uma assembleia irreverente, entre mesas que dançam e chocarrices de Espíritos levianos. Por mais incrédulo que ele seja, sua consciência repele essa aliança entre o sério e o frívolo, entre o religioso e o profano, razão por que taxa tudo de palhaçada, e por vezes sai menos convencido do que quando entrou. As reuniões desse gênero sempre fazem mais mal do que bem, porque afastam da doutrina mais gente do que atraem, sem contar que oferecem o flanco à crítica dos detratores, que aí acham fundados motivos para troça.

22. ─ É um erro transformar as manifestações físicas em divertimento. Se elas não têm a importância do ensino filosófico, têm sua utilidade do ponto de vista dos fenômenos, porque são o á-bê-cê da ciência da qual deram a chave. Posto que hoje menos necessárias, ainda ajudam na convicção de certas pessoas. Mas não excluem, absolutamente, a ordem e a compostura nas reuniões onde se fazem experiências com elas. Se fossem sempre praticadas de maneira conveniente, convenceriam mais facilmente e, sob todos os aspectos, produziriam resultados muito melhores.

Eis um desafio para a prática espírita: Kardec propõe que ela não seja superficial e sim que seja profunda e bem intencionada. As práticas devem não somente se pautarem em valores universais, mas também exigem certa concentração, sinceridade na postura e intenção ética. O recolhimento citado pelo autor é uma palavra certamente usada na Europa ocidental ao menos desde a renascença. Ela parece se referir a um estado similar à meditação, que é mais comum nas culturas orientais e se refere a uma prática em grande parte da espiritualidade ou da religiosidade. Aquietar a mente, buscar o silêncio, o autocontrole etc... São fatores importantes não só para a pessoa pausar ou buscar uma saúde mental dentro de uma civilização dominada por um sistema econômico mercantil e uma ideologia capitalista - Na verdade, é um distanciamento de tal superficialidade e objetificação do ser humano, pois é cuidar do sentido existencial, de um nível mais profundo relacionado à psiquê, e a possibilidade da transcendência: este último um elemento da espiritualidade e da religiosidade. 
Certamente praticar as reuniões espíritas da maneira que Kardec propôs traz semelhanças a alguns ensinamentos de Jesus e de mestres/ yogues do sanatana dharma. Salvo as possíveis diferenças teológicas ou filosóficas entre espiritismo e espiritualidade "hindu", ambas trabalham a existência para além da pressuposição materialista e reducionista e requerem por parte de seus praticantes uma combinação de empenho, postura humilde, objetivos solidários e de progresso espiritual; Progresso esse que seus frutos podem ser percebidos não só em um despertar da moral de indivíduos, pois em algum nível é ético (uma moral sem ética tende ao moralismo) e social, colaborando com a formação de sociedades mais justas, equitativas nas esferas ideológica e material.

23. ─ Sem dúvida estas explicações são muito incompletas e necessariamente podem provocar numerosas perguntas, mas não se deve perder de vista que isto não é um curso de Espiritismo. Tais quais são, bastam para mostrar a base sobre a qual ele repousa, o caráter das manifestações e o grau de confiança que podem inspirar, conforme as circunstâncias. Quanto à utilidade das manifestações, ela é imensa, por suas consequências. Entretanto, ainda que só tivessem como resultado dar a conhecer uma nova lei da Natureza e demonstrar materialmente a existência da alma e a sua imortalidade, já seria muito, porque seria uma larga via aberta à filosofia.

Como diz o próprio autor, muitas dúvidas (e questionamentos) podem surgir em relação ao espiritismo, mas vale ressaltar que ele reconhecia uma importância em construir um conhecimento aberto à filosofia. Isto porque a filosofia ocidental por exemplo, desde sua origem no século 4 a.C. com Platão que reuniu várias teorias anteriores em um corpo de obras coeso, trabalha a construção de conhecimento com universalidade, ética e um rigor, ainda que este último elemento seja bem diferente do rigor da ciência que se espalhou do século 19 em diante. Embora a ética platônica possa ser percebida em maior parte dos textos do filósofo, o rigor da construção de conhecimento proposta por Platão pode ser entendido melhor nas obras A República, Crátilo, Teeteto, e, principalmente em Sofista e Parmênides.
A obra de Kardec então não traz uma verdade absoluta, pois não é uma religião apoiada em dogmas e/ ou hierarquia. Nem é charlatanismo, pois não visa tirar vantagens das pessoas nem trazer poder ou bens materiais ao autor e seus colegas. O espiritismo francês durante o século 19 se mostrou uma investigação aberta ao diálogo entre ciência e espiritualidade e com algum grau de inter religiosidade. Teve suas imprecisões e limitações? Certamente, mas colaborou com uma visão mais ampla do ser humano do que a proposta pelo materialismo e com uma cosmovisão que possibilita uma construção de conhecimento mais abrangente e menos excludente. 

Uma breve análise da epistemologia espírita

Conforme expliquei em um texto anterior, decidi analisar o espiritismo fundado por Allan Kardec na França não como mera religião, nem como uma área (não) aceita na ciência, mas como uma tentativa de construir conhecimento (um tanto filosófico) sobre uma série de fenômenos. A síntese apresentada aqui toma como base um texto do autor escrito em sua Revue-spirite journal d'etudes psychologiques de 04/1864: 

 "1. ─ O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais decorrentes dessas relações." 
 
 Como citei anteriormente, ao observar uma série de casos e relatos na França do séc. 19, o espiritismo iniciado por Kardec não partia da certeza da "não existência" da alma e dos espíritos. Mesmo porquê pressupor inexistências é se apoiar em negações e contradizer a filosofia em sua raiz platônica. Claro, que alguns podem afirmar que a ciência após Kardec conseguiu rastrear "áreas ativadas" no cérebro quando a pessoa tem alucinações ou supostas alucinações, mas o espiritismo trata de fenômenos mais complexos e amplos do que visões ou audições individuais. O espiritismo em sua postura de não pressupor inexistência, se aproxima da construção de conhecimento da filosofia ocidental em sua raiz/ cerne, que propunha a presunção da ignorância ao iniciar uma investigação. Além disto, ao buscar construir conhecimento de modo mais próximo à raiz platônica da filosofia, o espiritismo acaba demonstrando uma semelhança de postura básica com a suspensão de pressupostos da fenomenologia lançada pelo filósofo e matemático Edmund Husserl (1859-1938). Tal postura inicial para se investigar fenômenos que lidam com o psiquismo humano se mostra universal, pois não relega saberes e relatos relacionados à espiritualidade de diferentes culturas ao status de meras mentiras ou psicopatologias.
E porque Kardec fala de "consequências morais"? Certamente por 2 motivos: Os fenômenos ou relatos estudados envolviam frequentemente a psiquê humana - psicografar, observar objetos se mover com padrão inteligente sem interação de corpos, ouvir vozes, ter visões com ou sem espacialidade (este último caso, é a "percepção" mental, chamada de clarividência ou clariaudiência pelos espíritas) etc. Além disto, vários temas envolvendo a psiquê (a alma encarnada ou desencarnada, de acordo com o espiritismo) tocam questões morais e portanto éticas - assunto da filosofia e não da ciência de pressupostos e métodos reducionistas; 

 "2. ─ Os Espíritos não são, como por vezes os imaginam, seres à parte na criação. Eles são as almas dos que viveram na Terra e em outros mundos. As almas ou Espíritos são, pois, uma só e a mesma coisa, de onde se segue que todo aquele que crê na existência da alma, por isso mesmo crê na dos Espíritos."
 
 Isto diferencia o espiritismo de parte das religiões cristãs institucionalizadas, como a católica e a evangélica. Baseando-se nos textos do evangelho, não há consenso se Jesus, que recebeu o título de Cristo - base dos termos "cristão" e "cristianismo", definiu os espíritos como seres à parte na criação ou não. Sem um consenso referente aos textos do evangelho atribuídos aos apóstolos de Jesus, certamente restam somente interpretações e ideias propagadas por religiosos que viveram séculos após Jesus. Tais interpretações dos evangelhos são obras dos "pais da igreja" ou pré suposições impostas nos concílios da igreja ao longo da história antiga ou medieval. Partindo da lógica que temos alma e esta é imortal, o espírito em nada difere da alma. Chamar separadamente o espírito ligado ao corpo (encarnado) de alma e o desencarnado de espírito tem pouca utilidade no espiritismo. Tal possível utilidade deve ser abordada em um próximo texto.

 "3. ─ Geralmente as pessoas fazem uma ideia muito falsa do estado dos Espíritos. Eles não são, como alguns pensam, seres vagos e indefinidos, nem chamas, como fogos-fátuos, nem fantasmas, como nos contos de aparições. São seres semelhantes a nós, com um corpo como o nosso, mas invisível e fluídico em estado normal."
 
 Este tema é melhor explicado em outras obras como o Livro dos Espíritos. O espírito é incorpóreo - de modo similar a nossa atividade mental: ninguém pode pegar um pensamento ou sentimento com um bisturi e dividi-lo - apenas é possível rastrear seus efeitos eletroquímicos no sistema nervoso, pelas sinapses e talvez pelos campos eletromagnéticos do coração, do cérebro etc. A pré suposição dominante na ciência no mínimo desde a época de Kardec, é que a mente é o cérebro, ou que não há mente nem alma: só o cérebro e o corpo humano. Tal pressuposto afirma que se algo não é observável nem reprodutível sob controle humano, não existe. Deste modo a ciência nega o conceito de alma e contradiz a raiz da filosofia ocidental (Platão, por exemplo), pois também reduz a ética e os valores universais ao status de opinião e valores individuais. 
 O corpo "fluídico" citado, que dá a forma ou aparência ao espírito, é explicado, ou teorizado, a seguir. 

 "4. ─ Quando a alma está unida ao corpo, durante a vida, tem um envoltório duplo: um pesado, grosseiro e destrutível, que é o corpo; outro fluídico, leve e indestrutível, chamado perispírito. O perispírito é o elo que une a alma ao corpo. É por intermédio dele que a alma faz o corpo agir e que percebe as sensações experimentadas pelo corpo."
 
 O espiritismo não nega a existência do corpo nem argumenta que este só existe quando percebido por outrem. Assim o espiritismo, embora dê uma ênfase ao espírito, não é um pressuposto meramente idealista nem exclusivamente mentalista, fazendo alegações como: só o espírito é real, todos os corpos são ilusões ou coisas do tipo. Ele simplesmente vai além do materialismo, indicando a importância da alma/ espírito, de modo parecido com os estudos de Platão, que ao mirar no que é uno e imutável (a ética), acabou indicando a imortalidade da psiquê (termo que engloba alma e mente, unindo-os como un só coisa) e a importância do cognoscível. 
 O conceito de perispírito pode parecer mais polêmico por se tratar do que há entre o corpo e a mente (alma), que é uma discussão no mínimo desde a época de René Descartes (1596-1650). Certamente por também não detectar este agente intermediário sob uma investigação controlada (empírica), ocorreu a predominância dos pressupostos materialistas na ciência - ao estudarmos a história da filosofia e da ciência desde Descartes até a época de Kardec, isto fica claro. 
 Note que a utilização do termo "fluídico" é restrita à época de Kardec, principalmente aos espíritas, mas têm semelhanças e possíveis relações com os estudos de Franz Mesmer (1734-1815). Mesmer teorizou que assim como os minerais podem ter magnetismo, os vegetais e os animais (ser humano incluso) também deveriam ter. Apesar de exercer alguma influência na sociedade ao tentar realizar "curas magnéticas", Mesmer foi criticado não só por não conseguir explicar toda sua teoria e prática, mas também foi difamado por opositores e discordantes de suas ideias. Kardec reconhece algum valor nas obras de Mesmer em uma de suas Revistas Espíritas e nestes mesmos editoriais, o professor francês estipula que o perispírito poderia ser explicado futuramente com novas descobertas sobre a eletricidade e o magnetismo. De fato, muitos anos depois, entre 1963 e 1968, David Cohen e James Zimmerman descobriram que órgãos do corpo humano, como o cérebro e o coração por exemplo, possuem um campo eletromagnético - porém os estudos de tais campos e sua respectiva finalidade e relação com atividades neuronais e/ ou psíquicas permanecem tímidos e recebem resistência de grande parte das áreas médicas como a neurologia etc. 

 "5. ─ A morte é apenas a destruição do envoltório grosseiro. A alma abandona esse envoltório como se deixa uma roupa velha, ou como a borboleta deixa a sua crisálida, mas ela conserva o seu corpo fluídico, ou perispírito. A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem. A alma e o perispírito, separados do corpo, constituem o ser chamado Espírito."
 
 Em inúmeras culturas espalhadas pelo globo terrestre desde antes das eras dos metais/ antiguidade existiram "xamãs" e outros indivíduos que lidavam com espíritos, fossem esses considerados "da natureza", de ancestrais, ou de ambos. Apesar das diferenças entre tais culturas, todas elas tinham um modo de lidar com a morte ou passagem deste mundo para outra realidade. Obviamente a explicação de Kardec sobre o assunto está mais para teórica/ dialética reflexiva do que empírica, uma vez que em sua época nem os campos eletromagnéticos dos órgãos haviam sido descobertos. O períspirito aparece em explicações espíritas de outros fenômenos além da "morte" do corpo. Tal argumento parece ser utilizado em casos onde espíritos interagem com corpos materiais como o das "mesas girantes" do século 19 que incitou a curiosidade de Denizard antes de escrever sobre o assunto. Estes fenômenos envolvendo o perispírito incluem pancadas, "possessões" e curas e parece ter relação com os de pessoas de épocas anteriores a Kardec, que mencionavam "maus ares" ou "gases sutis" para explicar casos de bruxas e seus animais familiares. Como exemplo deste tipo de argumento existem algumas obras peculiares de Joseph Glanvill (1636-1680) que apresentem ideias certamente mais rústicas e imprecisas do que as da época de Kardec - afinal na Europa do século 17, quando ocorriam variadas caças às bruxas seguidas de execuções, era mais difícil criar toda uma teoria sobre o espírito sem ser ameaçado pelo poder das igrejas. Para Kardec então, o ser encarnado é o espírito com seu corpo "fluídico" (períspirito) mais o corpo (material), enquanto o ser desencarnado é só o espírito e seu respectivo períspirito. O autor constrói tal argumento sem contradizer a ciência de seu tempo, pois existiam e ainda existem grandes lacunas no conhecimento e muitos temas a serem descobertos e investigados. 

 "6. ─ A morte do corpo desembaraça o Espírito do envoltório que o ligava à Terra e o fazia sofrer. Uma vez livre desse fardo, ele tem apenas o seu corpo etéreo, que lhe permite percorrer o espaço e transpor distâncias com a rapidez do pensamento."
 
 Kardec chamava o perispírito de corpo etéreo, possivelmente porque o conceito de éter era aceitável na ciência de seu tempo, mas neste parágrafo abordarei mais o conceito de espírito/ alma. 
 Utilizando-se dos "médiuns ativos", Kardec em sua época, dialoga com espíritos que explicam alguns pormenores de como os espíritos percorrem distâncias e tais assuntos foram publicados em algumas edições das Revistas Espíritas. Resumidamente, o espírito desencarnado, que tem só seu corpo "etéreo" ou "fluídico" ignora praticamente todos obstáculos materiais, porém a locomoção parece influenciada conforme seu desapego ou apego ao mundo corpóreo/ material e conforme suas afinidades com ideias e princípios de outros espíritos encarnados ou desencarnados. A "vida após a morte" ou sobrevivência da psiquê, também abordada em antigas obras da filosofia, é um assunto que trabalha a esperança: A esperança de reencontrar seres amados, de justiça ou de novas chances para se viver. Apesar disto, ela lida com o desconhecido, por isso a opinião humana varia muito sobre o tema: desde medo diante o desconhecido, até dúvida, recusa ou desprezo por tal ideia. A verdade é que o conceito de "não existência" do espírito e de sua imortalidade parece ter ganhado força gradualmente nas elites intelectuais e econômicas da Europa na Era Moderna, mais especificamente na transição da renascença ao iluminismo. O conceito de não existência não é uma construção de conhecimento, como já mencionado neste texto: De acordo com Platão, tudo o que é desconhecido ou onde há dúvida, é passível de ser investigado; Não se pode afirmar sobre a inexistência de algo, pois se algo não existe, não pode ser conhecido. Portanto afirma-se sobre o que se conhece e o resto se investiga (não só cientificamente, mas filosoficamente) ou fica restrito à mera opinião. 

 "7. ─ O fluido que compõe o perispírito penetra todos os corpos e os atravessa, como a luz atravessa os corpos transparentes. Nenhuma matéria é obstáculo para ele. É por isso que os Espíritos penetram em toda a parte, nos lugares mais hermeticamente fechados. É uma ideia ridícula crer que eles entrem por uma pequena abertura, como o buraco de uma fechadura ou a chaminé."
 
 Cientificamente parece que era (e certamente ainda é) impossível abordar tal tema. Apesar de especular sobre a relação do perispírito com a eletricidade e o magnetismo em alguns de seus textos no Livro dos Médiuns e Evocadores e nas Revistas Espíritas, Kardec constrói tais argumentos via diálogo e reflexão, sem análise sensorial amplamente aceita: uma ou outra pessoa pode alegar sentir algum estímulo sensorial de origem desconhecida que poderia ter relação com o conceito de perispírito, mas fenômenos públicos deste tipo são muito raros e não reprodutíveis, devido a origem psíquica/ intencional relativa ao(s) espírito(s). Também vale relembrar que a física (ciência) da época de Kardec era newtoniana: tratava o espaço (tridimensional) como algo absoluto e assim ficava difícil imaginar que os espíritos fossem independentes do espaço. 

 "8. ─ Os Espíritos povoam o espaço. Eles constituem o mundo invisível que nos rodeia, em meio ao qual vivemos, e com o qual estamos em contato incessante."
 
 Como mostrado anteriormente, os espíritos podem interagir através do espaço, mas certamente não se limitam a ele - esta era uma possível interpretação com limitações típicas da maior parte do século 19; O astrofísico germânico, Johann K F Zollner (1834-1882) teorizou que alguns dos fenômenos "mediúnicos" poderiam estar relacionados à quarta dimensão, mas não obteve grande aceitação no meio científico por variados motivos. Tal conjectura não é impossível, mas parece ficar em um impasse; Apesar da quarta dimensão " ter sido uma descoberta matemática que serviu de base para Hermann Minkowski (1864-1909) explicar o "tempo quadrimensional", posteriormente utilizado na teoria da relatividade de Albert Einstein (1879-1955), ela se trata de algo não investigável pelo método empírico. Assim tal saber certamente permanece pouco conhecido e relegado ao campo de teorias ou taxado como sendo de pouca aplicabilidade. 

 "9. ─ Os Espíritos têm todas as percepções que tinham na Terra, mas em mais alto grau, porque suas faculdades não são amortecidas pela matéria; têm sensações que nos são desconhecidas; veem e ouvem coisas que os nossos sentidos limitados não nos permitem ver nem ouvir. Para eles não há escuridão, salvo para aqueles cuja punição é ficarem temporariamente nas trevas. Todos os nossos pensamentos repercutem neles e eles aí leem como num livro aberto, de sorte que aquilo que poderíamos ocultar a qualquer um quando vivos, não o podemos mais, se ele é Espírito."
 
 Kardec detalha melhor as percepções dos espíritos ao longo de suas obras (revistas inclusas) - Resumidamente ele explica que a moral (que não é algo meramente individual, portanto trata-se de valores universais e ética) influencia na percepção dos espíritos: quanto mais ético/ puro (justo, benevolente etc), mais apuradas as percepções do espírito. De fato é mais difícil ocultar pensamentos e atividades mentais ante um espírito pois estes independem dos corpos, mas mesmo isto tem algumas variações conforme as explicações da obra espírita (de afinidade, possível nível moral do espírito etc). Por fim, a "punição" é um conceito perigosamente simplório: é claro que há justiça tanto na visão espírita como há nas religiões e na filosofia; mas vale lembrar que Kardec e os demais espíritas se pautam principalmente nos ensinamentos de amor piedoso de Jesus e este diz "nem meu Pai julga" e "hipócrita, tirai primeiro o ramo do próprio olho, e então verá o cisco no olho alheio". Desta forma, a "punição' é entre o indivíduo que erra e a lei divina, pois "aquele que se orgulha de sua obra má, teme a luz e foge para a escuridão" - o espírito moralmente inferior nada pode ocultar daqueles que são verdadeiramente benevolentes, justos e piedosos. Estes são alguns indícios (entre outros) de que o espiritismo também está de acordo com a filosofia de Platão - para o filósofo, as virtudes ou excelências como a coragem, a moderação/ auto controle, a justiça e a bondade/ beleza psíquica estão relacionadas à verdade, pois são imutáveis (não se desgastam com o tempo) e unas (universais, não relativas nem meramente individuais). O hiper ouranos citado por Platão na obra Fedro, faz alusão a uma dimensão não só alcançada por algum tipo de transe ou estado alterado da consciência (as manikes e mantikes aobrdadas no texto), mas também a uma realidade sem malevolência onde os "deuses" viveriam.

 "10. ─ Os Espíritos conservam as afeições sérias que tinham na Terra. Eles sentem prazer em voltar para junto das pessoas que eles amaram, sobretudo quando são para elas atraídos pelo pensamento e pelos sentimentos afetuosos que lhes são dedicados, ao passo que são indiferentes em relação àqueles que lhes votam apenas indiferença."
 
 O amor sincero e sem interesses particulares é um exemplo de afeição que se propaga através do espírito para além da mera vida material. Este argumento aborda a importância de bons sentimentos como esperança, amor e serenidade e está de acordo com os ensinamentos de Jesus e até mesmo de outras religiões. Uma visão mais universal como esta tem maior abertura ao diálogo inter religioso pois trata-se de uma espiritualidade aberta e ética. Aqui também nota-se que o espiritismo não trata só da perspectiva racional da consciência, pois aborda os sentimentos de modo transcendente, para além da vida corpórea;

 "11. ─ Os Espíritos podem manifestar-se de muitas maneiras diferentes: pela visão, pela audição, pelo tato, pelos ruídos, movimento de corpos, escrita, desenho, música, etc. Eles se manifestam por meio de pessoas dotadas de uma aptidão especial para cada gênero de manifestação, e que são designados pelo nome de médiuns. É assim que se distinguem os médiuns videntes, falantes, audientes, sensitivos, de efeitos físicos, desenhistas, tiptologistas, escreventes, etc. Entre os médiuns escreventes há numerosas variedades, conforme a natureza das comunicações que são aptos a receber."
 
 Em outros pontos de sua obra, Kardec admite que todo ser humano é médium - o que difere cada um é a frequência e intensidade com que ocorrem as percepções/ contatos mediúnicos; Muitas pessoas podem passar toda uma vida sem perceber fenômeno algum, outros podem confundir; alguns podem ter por um determinado período, enquanto outros têm pela vida todo; Os motivos são os mais variados possíveis, pois envolvem necessidades particulares e coletivas, estágio psíquico e moral que se encontram as pessoas, disponibilidade, cultura etc. Ao longo de sua obra Kardec mostra um certo esforço em classificar os médiuns, mas isto tem as limitações de sua cultura e época.

Entender o espírito humano como incorpóreo não completamente a parte do corpo, mas em relação com este, possibilita uma postura de respeito verdadeiro às áreas da ciência e às religiões - pois o espiritismo trazido por Kardec não é uma religião com hierarquias ou ritos e tem poucos pressupostos ou dogmas: A imortalidade do espírito, a reencarnação e Deus onipresente e não-pessoal, baseado nos ensinamentos de Jesus os quais não detalharei aqui; 
Embora seja possível afirmar que não existam "provas" suficientes de um agente intermediário entre corpo e mente, o conceito de perispírito não é menos provável que o materialismo que reduz a vida ao corpo e aos efeitos eletroquímicos neste. Não foram encontrados marcadores biológicos para todos problemas mentais do ser humano e reduzir sentimentos e sentido existencial a meros efeitos neurológicos é negar cosmovisões, portanto é uma postura antiética. O materialismo, seja um empirismo ou qualquer outro que nega o psiquismo e o espírito, pode afirmar que busca construir um conhecimento com "rigor científico" baseado em "evidências", mas em última instância se apoia em negação e impõe uma visão da realidade que apesar de contrária às religiões em geral, é tão dogmática como muitas visões religiosas da realidade. 
 Embora Kardec não se empenhe em discutir a construção de conhecimento comparando pressupostos, que de certo modo, são pré suposições, Platão o faz ao longo de sua obra, e mais profundamente em  seus textos "Teeteto" e "Sofista". O filósofo grego indica que reduzir tudo à matéria ou ao espírito, são teorias incompletas e assim propõe uma construção de conhecimento aberta, pautada por valores universais, unindo epistemologia, ontologia e ética.
Por sua vez, ao invés de negar visões de mundo, o espiritismo possibilita um enfoque na ética, não muito diferente da filosofia iniciada por Platão: O ser humano deve trabalhar sua moral individualmente de um modo pedagógico e também filosófico, e isto não o isola da realidade material, portanto, ele deve se desenvolver eticamente nas relações em geral; Quando colocado em prática, este trabalho com uma postura universal do ser humano resulta em uma sociedade/ civilização mais justa, equitativa e enfim, ética. Assim o espiritismo não se reduz a um campo da ciência nem a uma religião, ele serve de base epistemológica respeitando normalmente outras áreas do conhecimento, simplesmente reconhecendo uma realidade para além da material. Trata-se de um "pressuposto" ou base teórica mais aberto(a) e portanto mais amplo do que os exclusivamente materialistas ou idealistas, possibilitando diálogo com diversas culturas e com a espiritualidade em geral, seja religiosa ou não. 
Ainda que Kardec pudesse discordar de pontos de uma ou outra religião, em seus textos, ele indica que o tempo mostrará quais estão mais ou menos certas - isso é evitar impor sua visão de realidade sobre os outros - elemento ausente em muitas religiões e na corrente principal da ciência que é materialista, relegando todo relato/ argumento espiritual à condição de alucinação (estado patológico etc) ou à mentira.

Em um próximo texto devo completar a análise deste artigo de Kardec e trazer reflexões filosóficas sobre o que deve haver entre a psiquê humana e o corpo; Há quem diga que isto é questão de pressuposto, mas a importância de tal tema não deve se reduzir a uma mera "neutralidade" racional/ científica, pois não há epistemologia (construção de conhecimento) sem ética e consequentemente não há conhecimento, verdade ou justiça sem universalidade e sem filosofia. 

A formação psicoemocional/ afetiva e as perspectivas da consciência humana

 O porque vivemos numa era de propagação de mentiras (fake news) e de polarizações (rivalidade entre grupos de opiniões políticas, econômicas ou religiosas diferentes entre si)?

Certamente existem muitas causas e as mais notáveis são observáveis em nosso meio: através das mídias (internet, redes sociais, televisão...) Notícias falsas e mentiras espalhadas através de meios de comunicação em massa podem ser desde notícias que omitem informações importantes, matérias sensacionalistas para atrair leitores (ou cliques) ou difamações de determinadas pessoas ou grupos. Já as polarizações, ou mais precisamente, a criação e/ ou intensificação de rixas entre variados grupos de pessoas, ocorrem não só por diferenças entre opiniões políticas e religiosas, mas também pelo fator mencionado anteriormente: notícias falsas, omissões de informações que afetam o público/ a sociedade, sensacionalismo, propagação de mentiras para atacar alguns grupos em prol de outros etc. 

Mas estamos falando de seres humanos aqui e não de objetos ou coisas. Além dos interesses particulares de grupos que detém o poder de uma religião, de segmentos de mercado e empresas ou de partidos políticos, nós temos enormes quantidades de seres humanos com variadas expectativas, preferências, culturas, formações e vieses... Além das condições econômicas/ sociais, temos a educacional não só referente a escolaridade, mas também referente à criação e ao desenvolvimento humano. E desenvolvimento humano não é só biológico e/ ou social: ele é afetivo/ emocional, abrangendo parâmetro de sentimentos e da expressão destes/ das emoções, referência de bem estar psíquico e/ ou segurança psíquica, sentido existencial, de vida e coisas assim. Estas questões tidas como meramente complementares por muitos, na verdade são centrais para o ser humano;

Aqui falo partindo não só de minha experiência de vida, mas também da experiência como psicólogo; Cada ser humano que crê em uma mentira ou que consome conteúdo sensacionalista tem uma história de vida e possíveis motivos para aderir a tais "ideias". Sim, a educação adequada seria libertadora: aumentaria a chance de cada pessoa entender seu entorno para conviver em paz, com equidade de oportunidade e respeito à toda cultura e à toda forma de vida. Mas para além da educação nas escolas e faculdades, temos a educação "caseira" ou familiar. Esta começa desde que o ser humano é bebê, ou até mesmo desde quando está no ventre da mãe. Ela envolve o afeto, o respeito e a atenção à criança - um ser extremamente vulnerável que precisa da ajuda dos pais (ou de cuidadores). A fase vulnerável do ser humano então dura desde que ele está no ventre da mãe até a adolescência. Claro que há óbvias diferenças entre o bebê e o adolescente, pois este último está se tornando adulto, porém ambos estão em desenvolvimento e são dependentes dos adultos embora em diferentes graus. 

Abordemos a criança: antes de aprender a falar, ela começa descobrir o próprio corpo e o espaço em seu entorno. Ela tem necessidades apesar de não conseguir se expressar pela principal forma de comunicação humana, que é a verbal, seja falada ou escrita. Este deve ser um dos motivos pelo qual o filósofo, médico e psicólogo, Henri Wallon (1879-1962) identificou as emoções como um fator importantíssimo para a criança na fase em que ela ainda não sabe falar e quando começa aprender as primeiras palavras: o olhar, o semblante, as expressões faciais, o tom de voz (etc) são determinantes na comunicação, formando um parâmetro de sentimentos para criança e sua respectiva personalidade. Dependente em praticamente tudo, a criança precisa de segurança, esta que vem de seus pais ou cuidadores. Caso ela não tenha esta experiência, ou caso esta experiência seja severamente deficiente (por variadas razões ou motivos), a criança sofrerá consequências psíquicas - seja em seu parâmetro do que são emoções exprimíveis, do que é segurança, o que é felicidade...

Toda a experiência infantil molda esta significante parte da psiquê humana e se a expressão de sentimentos for danosa, a criança dificilmente consegue reparar tal dano; Imagine uma criança que nos primeiros anos de sua vida não foi bem acolhida pelos pais - Crianças tratadas como estorvo, com pais presentes só de corpo (ou menos que isso) e que dão só o mínimo de atenção, são exemplos de que praticamente não houve receptividade na relação. Se a criança é deixada chorando por qualquer sofrimento por períodos prolongados, sem perspectiva de alívio ou compreensão dos pais, há um impedimento ou tolhimento do desenvolvimento de esperança e por aí vai. Note que são exemplos que tem sua subjetividade, mas são importantes, pois vale lembrar que subjetividade não é mera relatividade e sim o que envolve questões psíquicas não expressas e/ ou reprimidas/ suprimidas por negações, desprezo ou abandono, violência explícita ou velada etc. Para piorar, além da violência contra criança poder ser sutil, ela pode ser cumulativa de diferentes formas ao longo da vida e obviamente isso deixa "marcas" ou sequelas certamente misturadas à personalidade do indivíduo que sofre tais violências.

Certamente alguns transtornos identificados pela psiquiatria e pela psicologia têm essa característica complexa e aí que deveria ficar claro que um mero tratamento medicamentoso não trata o indivíduo, muito menos cura ou resolve seu profundo problema ou transtorno psicoemocional. Casos como esse exigem uma psicoterapia certamente de longo período e um profissional não só tecnicamente competente, mas definitivamente humano. Humano aqui então denota a importância de uma empatia e também a importância da ética - dois temas difíceis de se discutir por uma perspectiva exclusivamente racional por uma abordagem estritamente científica, afinal neste ponto adentra-se a filosofia. Além disto, quando cito sofrimento psicoemocional, devo ressaltar que a emoção neste caso, pode ter uma origem histórica na vida da pessoa e não é algo totalmente separado de sentimentos, embora algumas pessoas possam pensar que emoções sejam expressões meramente imediatas ou breves enquanto os sentimentos são algo exclusivamente subjetivo e/ ou duradouro.

O psicólogo existencialista, Rollo May (1909-1994), em seu livro Love and Will, identifica dois aspectos das emoções e como esta se interrelaciona com os sentimentos. A partir do estudo de casos de seus pacientes, May entende que a emoção não é meramente um impulso pois pode ser uma indicação de um desejo não só de possuir algo, mas de formar algo. É neste ponto que ela se relaciona com o(s) sentimento(s), bem como com a imaginação e a forma de nos comunicarmos com indivíduos relevantes para nós, moldando nosso modo de agir e interagir. Assim, o primeiro aspecto das emoções é de força propulsora pois relaciona-se com o passado da pessoa, a determinação da experiência pregressa (infantil, arcaica...) e a causalidade de possíveis sofrimentos ou transtornos. Por isso, o autor afirma que a psicanálise lançada por Sigmund Freud (1856-1939), estava correta em identificar e reviver este aspecto primário da psiquê humana e sua importância essencial na psicoterapia. Rollo May porém não para aí, e possivelmente se distancia da psicanálise freudiana, ao indicar que o segundo aspecto, identificado como sentimentos, parte do presente para o futuro do ser humano: Isto porque tal aspecto envolve sentir ou captar o sentimento das pessoas com quem interagimos, possibilitando o trabalho da intuição, além de possuir uma intencionalidade (por isto o ser humano pode ter expectativas, esperança, finalidade etc). Como psicólogo existencialista, Rollo May não se limita a estudos de viés deterministas e usa de uma construção de conhecimento massivamente filosófica (desde autores clássicos até os modernos) para colaborar com a ciência psicológica. 

Há quem diga que a filosofia é um saber vago, outros podem afirmar que ela tem normas ou regras totalmente apartadas das ciências, mas na verdade nenhuma destas afirmações são verdadeiras. Partindo do primeiro corpo de obras preservado da filosofia ocidental, temos uma construção de conhecimento que não é fragmentada e nem é estritamente empírica, mesmo porque tal empirismo requer ênfase na materialidade, e consequentemente, na sensorialidade. A filosofia deixada por Platão nos oferece uma construção de conhecimento universal pautada pela ética, se deixarmos de lado os elementos de sua obra especificamente voltados às cidades/ estado gregas do século 4 a.C. Obviamente não seria caso de discutir Platão com possíveis pacientes da saúde mental, e sim, de estabelecer um ponto de partida ou base da construção de conhecimento para entender a psiquê humana, afinal não há ética alguma em reduzir o ser humano a um mero corpo ou a determinadas partes do corpo, como o sistema nervoso ou o cérebro, por exemplo. A filosofia ocidental nesta raiz ou base fundada por Platão, indica que não se constrói conhecimento partindo da afirmação de que algo não existe. 

É por via de uma série de argumentações/ diálogos que o autor chega à conclusão que a psiquê humana, seja mente ou alma, não se reduz ao corpo físico. Embora certamente houvessem limitações para se estudar a parte biológica do ser humano no séc 4 a.C, Platão entendeu que a psiquê poderia ser "dividida", ou mais precisamente, classificada em 3 níveis. Estes 3 níveis da psiquê são parâmetros não detalhados minuciosamente, que podemos entendê-los como o nível mais biológico, voltado para as necessidades básicas e obtenção de prazer corporal, um nível intermediário ligado à indignação (thymous), certamente mais emocional e talvez ligado ao coração; e um nível mais racional e de capacidade ética, o qual o ser humano alcançaria as virtudes, a universalidade do bem etc. Não se trata de dividir o ser em partes totalmente distintas entre si nem de considerar o entendimento platônico como um dogma, mas sim de lançar uma base de construção de conhecimento que respeite relatos para além da vida física - que respeite não só  comportamentos perceptíveis e emoções, mas também respeite sentimentos, sentido existencial e espiritualidade ou religiosidade humana.

Neste ponto volto a dar exemplos como psicólogo: tive 5 pacientes que me trouxeram casos cuja temática flutuava entre questões espirituais (ou religiosas) e psicológicas. Em nenhum deles eu impus minha cosmovisão ou pré suposição sobre o relato deles, bem como não reduzi as experiências deles a uma alucinação ou a mentiras como faria uma leitura estritamente materialista, empírica e/ ou biologista. Se a abordagem psicológica realmente é ética e tem a finalidade da melhoria do paciente, ela deve considerar o relato como uma possibilidade verdadeira. No exemplo que citei, 4 pacientes afirmaram não ter uma religião específica no momento e realmente consideraram a existência da alma humana e de uma realidade espiritual, enquanto 1 paciente religioso, preferiu entender seu próprio relato como uma alucinação da qual tirou um aprendizado. Tanto o contexto como o impacto das experiências de possível teor espiritual variou de paciente para paciente - cada experiência teve seu significado e em geral isso faz parte da perspectiva mística da consciência humana, bem como pode fazer parte de uma perspectiva mais simbólica, da forma de contar histórias sobre temas complexos e/ ou se expressar sobre temas profundos. 

A psiquê humana não é exclusivamente racional e é por isso que o ser humano precisa de afeto desde bebê. Questões afetivas se ligam aos sentimentos, às emoções e ao possível sentido existencial do ser humano. O sentido existencial, ou sentido de vida das pessoas ao longo da história parece que esteve atrelado à cultura e à espiritualidade ou religiosidade. Povos das estepes asiáticas, da tundra, celtas da antiguidade europeia, o xintoísmo antes de registros históricos, os yorubás da África ocidental, inuítes, mazatecas, incas, tupis e tantos outros povos da América... muitos deles tinham a espiritualidade vinculada ao estilo de vida, seja mais ou menos social. Entre os menos sociais certamente estavam indivíduos com estilo de vida mais recluso, enquanto as práticas religiosas mais sociais foram difundidas em grupos de indivíduos com certa padronização de ritos e/ ou de conceitos.

Além disto, em inúmeras culturas espalhadas pelo globo terrestre ao longo da história houve mitos sobre a origem do mundo, do cosmos, do ser humano e da vida. E também existiram práticas espirituais com estilos de vida em harmonia com a natureza muito antes de religiões iniciáticas ou das religiões institucionalizadas via construção de templos e hierarquizações - exemplos incluem a busca do espiritual ou do divino através de práticas de transe místico via música, dança, consumo de substâncias, recolhimento, meditações etc. Estas perspectivas místicas e míticas, citadas por estudiosos como Jean Gebser, não são necessariamente contrárias à perspectiva racional da consciência humana - Platão por exemplo trata de todas elas ao longo de sua obra: Fedro e Íon tratam do transe psíquico, da inspiração divina ou espiritual e da transcendência; Político e A República trazem exemplos da perspectiva mítica etc.

A perspectiva racional do ser humano então não é superior às demais - todas fazem parte da consciência. Povos dominados por outras perspectivas da mente produziram suas coisas boas e viveram em paz com outros povos e com a natureza por séculos ou milênios, assim como povos tomados por uma perspectiva mais racionalista, como as cidades-estado helênicas dos séculos 5 a.C. ao 2 a.C e grande parte das nações europeias do final do século 17 em diante conseguiram desenvolver tecnologias, elaborar complexas construções de conhecimento e estruturas sociais. O que faz com que povos falhem em conviver na Terra não é uma ou outra perspectiva, mas sim a falta de ética. Isto porque um dos pontos centrais da ética é a universalidade que significa uma moral para além do indivíduo e voltada à todos, ao coletivo, e portanto à diversidade de cultura, de espiritualidade e de perspectivas da consciência. Aqui o tema toca a psicologia novamente: um indivíduo que tem pouca adaptabilidade ao sistema sócio econômico (neo) liberal deve ser considerado doente? Transtornado? Talvez até meados do século 20, muitos pensassem que sim. Mas hoje, após a luta anti manicomial, às críticas à indústria farmacêutica, incluindo aos psicofármacos, já é possível ver o quão anti ético é menosprezar ou patologizar quem tem dificuldades em se adaptar às condições de vida de ideologia capitalista. Não só muita gente vem sofrendo ou adoecendo justamente porque vive dentro do sistema sócio econômico neo liberal, mas como muitos outros que vivem fora dele (indígenas, quilombolas etc) sofrem por serem pressionados a se submeterem a tal sistema. Não há ética, portanto não há progresso real em oprimir pessoas, seja em pequenas ou grandes quantidades. E não se trata só do sistema, mas também das ideologias por trás dele - o que se incentiva e o que é apresentado como verdade ou como mais importante. Quem define isto é a construção de conhecimento, também chamada de epistemologia, mas principalmente tomada pela ciência com o decorrer dos anos. A ciência é um saber de perspectiva racionalista, porém menos amplo e mais voltado à especialização, pois abandonou a abertura da filosofia de autores como Platão, René Descartes, Jan Amós Comenius, Viktor Frankl, Arthur Eddington e Jean Gebser, fechando-se em pressupostos reducionistas os quais já detalhei em outros textos. Apesar de suas conquistas benéficas e importantes ainda hoje no séc 21, a ciência é predominantemente vertical, bem como grande parte das religiões, a economia, a política, as forças armadas das nações e os meios de comunicação. Ela é imposta de cima para baixo com um diálogo (ou mais precisamente, um discurso) enviesado beneficiando a quem tem mais poder, seja econômico, político, religioso ou qualquer outro. Ao desconsiderar ou inferiorizar outras perspectivas da consciência, a maior parte da produção científica passa longe da horizontalidade. É compreensível que depois de séculos afastada destas perspectivas, os cientistas que são os principais construtores de conhecimento da atualidade, tenham dificuldade de se reaproximar de tais perspectivas. Porém o ser humano TEM um pouco de todas estas perspectivas em sua consciência - talvez porque seja uma tendência social e/ ou evolutiva, fazer uma integração delas, afinal como mencionei anteriormente, o bebê nasce com necessidades afetivas e estas necessidades são de emoções como expressões do sentimento e formação de um sentido existencial. Nem todos encontram sentido na vida, é claro, muitos vivem bem sem um sentido ou achando que não têm um. Outros sofrem ou adoecem, enquanto muitos não conseguem encontrar porque são oprimidos pelas ideologias por trás do sistema econômico e por trás da construção de conhecimento da saúde mental, seja ela psiquiátrica, neurológica, farmacológica, ou até mesmo (mais tragicamente e absurdo em minha opinião) psicológica. 

A psicologia é um campo de estudo abrangente que pode ser aplicado em várias áreas: criminal, jurídica, social, esportiva, trabalhista, empresarial etc. No tratamento da saúde mental, sua principal área é a psicoterapia, que por sua vez, é centrada no diálogo com o paciente - por isso a psicologia é a última que deveria ser engolida por ideologias mecanicistas e/ ou segregadoras, sem universalidade, sem respeito à diversidade e sem ética. Os problemas trazidos por pacientes em psicoterapia sejam mais ou menos graves, possuem toda uma história de vida por trás, mas principalmente uma série de sentimentos, interpretações, gostos, valores entre outras questões que permanecem subjetivas por longos períodos de tempo. É preciso explorar todas essas camadas da psiquê humana com respeito e com finalidade ética. A ética não admite imposição de pressupostos nem de visões de realidade, sejam ateístas, religiosas, materialistas (etc), pois ela é aberta e por aberta não devemos entender aleatoriedade ou aceitação de toda fala sem crítica; Se trata de ser crítico mas universal e isto possivelmente é difícil porque exige esforço contínuo não só do paciente, mas do psicólogo como profissional de saúde mental e como construtor de conhecimento. 

Possíveis convergências filosóficas entre Platão, Kardec e Eddington.

 Neste texto tentarei entender um texto de Allan Kardec, levando em consideração a filosofia "ocidental", principalmente em 2 pont...