Só ciência não resolve charlatanismo: é preciso Filosofia

 Escrevo este texto após ser bombardeado por sugestões um tanto decepcionantes do algoritmo: particularmente vídeos sobre ciência que as redes sociais me empurram.

Mas por que vídeos sobre ciência me decepcionaram? Bom, talvez não seja somente os vídeos ou talvez não seja exatamente os vídeos; Sabe-se que o tal algoritmo oferece-nos conteúdos baseados no que nós mesmos assistimos, clicamos e/ ou comentamos na internet. Logo, podemos entender que eu mesmo cliquei e/ ou assisti vídeos de divulgadores científicos nos últimos 5 ou 6 anos... 

O que foi cumulativamente me incomodando na verdade foram os vieses de vários (não todos) divulgadores científicos... Cedo ou tarde estes divulgadores da ciência, convidavam um suposto cientista que escapava de temas de sua área de especialização e pronunciava opiniões disfarçadas de conhecimento. Em alguns casos, o próprio cientista especializado em uma ou duas áreas específicas, decidiu falar de outra área como se tivesse conhecimento dela... e cometeu no mínimo algumas distorções para não dizer equívocos.

 Cabe avaliar como eles saiam de suas respectivas áreas de estudo analisando 3 exemplos:

Um estudioso formado em medicina e neurociências, reconhecido por seu trabalho internacionalmente certamente tem repertório para colaborar com as áreas que estudou: o corpo humano, as sinapses e suas respectivas relações e teorias do comportamento relacionadas a tais sistemas neurológicos... colaborou com Mas teria um conhecimento sólido o suficiente para falar de história da humanidade? Discorrer sobre o que pensavam, o que queriam e o que faziam as classes governantes das 30 dinastias que reinaram no Egito/ Kemet por cerca de 3000 anos de história?? Dificilmente. Note que isto não lhe tira o mérito de vários outros estudos e colaborações realizadas pelo cientista na área da saúde e talvez até numa área social/ de interesse coletivo, mas seu conteúdo produzido sobre este tema alheio à sua especialização (história do Egito) foi no mínimo impreciso!

Psicólogos com pós graduação em neurociências certamente deveriam falar sobre a parte do sistema nervoso que estudaram e seu funcionamento. Também deveriam entender da psicologia, suas origens na filosofia com Wilhelm Wundt, e suas investigações e teorias sobre a mentalidade do ser humano que deu origem a várias abordagens psicoterapêuticas. Deveriam entender que tais abordagens estão relacionadas à visão (entendimento) de ser humano e como esta visão serve para o profissional tratar os pacientes. Como ajudar estes a lidar com sofrimentos psicoemocionais ou psicossociais, com a perda ou busca de sentido existencial ou com possíveis transtornos mentais. Deveriam colaborar com a relação entre psicologia e psiquiatria, mas também entender suas diferenças, sem hierarquizar as áreas do saber. Deveriam entender e tratar da importância dos sentimentos - um elemento subjetivo e histórico de cada ser humano. Se um estudioso ou dois estudiosos com formação nestas áreas passa(m) a discorrer se Deus existe ou não existe, dificilmente ele(s) estaráão agindo como psicólogo(s) ou como neurocientista(s). Se um destes estudiosos/ profissionais passa a criticar elementos de variadas religiões, negando vários elementos da espiritualidade, ele não só está desviando das áreas que estudou, como também está contrariando a universalidade e portanto estará sendo antiético. Afirmar que a ciência descobriu que o ser humano inventou Deus ou que provou que Deus não existe é ciência? É construção de conhecimento? O método de investigação e estudo da neurociência é capaz de estudar Deus? E os métodos das diferentes abordagens psicológicas? A psicologia ou as neurociências têm esta finalidade? A resposta para todas estas perguntas é... Não.

Por fim, um outro psicólogo e neurocientista decide criar canais de divulgação supostamente científica nas redes sociais, onde com certa regularidade usa chamadas sensacionalistas prometendo meios fáceis e rápidos de melhorar desempenho em diferentes áreas da vida (carreira profissional, saúde corporal etc). Também transmite uma constante narrativa como se praticamente todo psiquismo humano dependesse especialmente de fatores neuroquímicos do corpo... funda institutos ou parcerias com outros profissionais de viés semelhantes e que trazem conteúdos diminuindo a importância de fatores sociais na vida das pessoas, geralmente priorizando o sucesso do esforço (e consequentemente do "mérito") individual... Ele está falando da área em que realizou as suas tantas graduações? Pode parecer que sim, mas na verdade ele utilizou muita retórica (método de persuasão através da comunicação) para transmitir opiniões entre eventuais conteúdos de psicologia e neurociência. Transmitir opiniões não é problema se você deixa claro o que é sua opinião e o que é fato ou descobertas científicas... porém em muitos vídeos deste "divulgador científico" fica claro (ou deveria ficar claro ao menos para quem estudou psicologia e tem uma preocupação com a ética) que ele transmite suas próprias opiniões como fatos, ou como se fossem conhecimento. E isto pode ser perigosamente utilizado sem fins benéficos para quem consome tais conteúdos.

 Estudei neurociências somente em um ano do bacharelado de psicologia e não sou especialista no tema, mas sei, baseado em que profissionais desta mesma área falaram em aula ou em vídeos públicos, que a neurociência NÃO considera estudar nada além da matéria! Por matéria entende-se toda e qualquer substância (imagino que energia também) que possa ser observada, ou seja, percebida sensorialmente, pelo investigador (cientista)! Além disto, esta área até onde sei, utiliza somente o método empírico de estudo, o que parece ter alguma coerência com a pressuposição (pressuposto) de que só a matéria exista (embora há controvérsias sobre o que exatamente seria matéria). O método empírico é SÓ um método apoiado na pré suposição aqui mencionada: não é uma verdade absoluta. Não é a realidade, pois não deve ser imposta sobre todas pessoas com diferentes visões de realidade (cosmovisões) - impor isto para pacientes, alunos ou outras pessoas, contraria a universalidade de pensamento e de experimentar o mundo e a vida. Impor tal visão e/ ou pré suposição sobre diferentes povos e culturas é antiético!

O método empírico teve e certamente ainda tem sua importância para humanidade. Mas além de estar restrito à pré suposição materialista e consequentemente sensorial, ele exige uma reprodutibilidade dos fenômenos estudados - muito comum e útil em estudos da química, da física e da biologia, por exemplo.

Deus é um fenômeno químico? É um ser corpóreo e tridimensional que fica voando pelos céus ou pelo espaço? Acho que não, ao menos não lembro de ver tal descrição de Deus seja nas religiões que frequentei ou que estudei. 

 Claro que Deus tem no mínimo um aspecto transcendental... No evangelho de João fica claro que Jesus diz que Ele é espírito... e deve ser adorado em espírito. O espiritismo que tentou conciliar os 4 evangelhos que contam os ensinamentos de Jesus com filosofia e ciência durante o século 19, também entende Deus como um espírito... com toda a complexidade aparentemente paradoxal de onipresença etc etc. A Krya Yoga, corrente ecumênica do sanatana dharma, toscamente chamado de hinduísmo no ocidente, parece tratar Brahman (Deus) como o criador/ mantenedor e renovador de todas as coisas (do cosmo, dos espíritos etc), mas considera realidades além do cosmos material (astral, causal etc).

 Este aspecto transcendental é abordado por religiões e pela espiritualidade independente da religião e não aparece só quando se fala de "Deus / Yavé/ Alá/ Brahman". O próprio conceito de aperfeiçoamento (moral, ético e espiritual) acaba tratando o transcendental nestas áreas. A própria existência humana não é considerada somente na Terra, mas também em um "além", seja lá como cada religião ou fé descreva tal realidade "além".

Aí vem mais uma pergunta: o transcendental é investigável pelo método empírico? A resposta já está dada devido a própria constituição do método: Não! Seria necessário um outro método mais abrangente que não "pré suponha" que só exista uma realidade material/ energética / tridimensional. Tal método não deveria partir de certezas de como seria uma realidade além da matéria/ da realidade tridimensional, pois isto seria dogma! Dogma é verdade pronta que não permite investigação, seja ela empírica, sistêmica ou racional dialética! Dogma é comum nas religiões... embora muita gente sem religião, seja ateu ou espiritualista, também crê em dogmas... e até mesmo prega dogmas aos outros, seja de maneira aberta e assumida, ou de maneira sutil, escondida por retórica aparentemente lógica ou racionalista.

Cosmovisões, ética e métodos para se construir conhecimento não deveriam ser assunto complexo pois já foram abordados na filosofia ocidental por volta do século 4 a.C. Possivelmente foram estudados em antigas filosofias de outros continentes também, mas não me considero versado o suficiente para falar da história da filosofia/ construção de conhecimento destas outras regiões. Antes de abordarmos tais discussões históricas sobre a construção de conhecimento predominantemente ocidental, analisemos um pouco mais como e porque espiritualistas e ateus podem ter uma visão de mundo ou cosmovisão com um ou mais dogmas... que afetam pressupostos de suas respectivas construções de conhecimento, sejam estas chamadas de ciência ou de qualquer outro nome.

Uma cosmovisão comum (mas não obrigatória) entre espiritualistas é considerar a existência de Deus, das almas/ espíritos e de uma realidade espiritual como dogmas. Alguns destes podem considerar a reencarnação também praticamente como um dogma. O que deveria definir se é dogma ou conhecimento é a forma como se constrói esse entendimento de que tais coisas existem... e isto é um dos pontos mais polêmicos e inconclusivos quando se fala de cosmovisão (e possivelmente também quando se fala de ontologia/ metafísica/ filosofia, de pressupostos da ciência, de antropologia e de religião/ espiritualidade). Nas religiões certamente discutir como se chega ao entendimento de Deus ou de uma realidade espiritual, fica ao encargo da teologia... uma área que estudei pouquíssimo e atualmente, depois de ter estudado a história das igrejas católicas e protestantes, não estou interessado neste campo. Ao menos não por enquanto.

Pelo que entendi da Krya Yoga, leva-se em consideração os ensinamentos baseados nas experiências de mestres que alcançaram o samadhi, ou supra consciência. Ao frequentar um ashram em São Paulo, percebi que nem todos relatos dos mestres são imediatamente considerados como verdades absolutas ou dogmas... Entendi que a Krya Yoga mostra um enorme potencial de diálogo entre diferentes entusiastas e praticantes da espiritualidade e até mesmo mostra alguma capacidade de diálogo com as religiões cristãs, mas tive a impressão de que alguns praticantes tendem a uma busca por disciplina quase alienada e outros parecem se tornar bastante dependentes de um ou mais mestres, consolidando hierarquias pequenas mas talvez desnecessárias. Apesar destas possíveis dificuldades, a Krya Yoga me pareceu pouco dogmática: seu rigor é de método - mas não investigativo e sim de desenvolvimento pessoal... Óbvio que considerar Brahman é um dogma, mas vale lembrar que não se trata de um Deus antropomórfico nem punidor. Isto por que Brahaman está tão ligado à supra consciência e a valores universais existentes em outras religiões, bem como existentes na espiritualidade e na filosofia, que é praticamente desnecessário taxá-lo de dogma. Aqui já adianto uma pergunta: vale a pena taxar equidade, justiça, amor e verdade como dogmas? Vamos tentar responder no decorrer deste texto.

Um último exemplo de espiritualidade que abordarei aqui (para não me delongar) é o espiritismo. O espiritismo surgiu na França em meados do século 19, quando eram comuns registros de fenômenos estranhos não só na Europa, como também nos EUA. O pedagogo Hippolyte Léon D. Rivail, assumiu o pseudônimo Allan Kardec após concluir que havia uma causa inteligente invisível por trás de alguns destes fenômenos (mesas girantes e tiptologia/ respostas às batidas em objetos). Ele utilizou da lógica e da comparação dos fatos e de investigações e a partir daí passou a avaliar criticamente várias mensagens entendidas como recebidas de espíritos através de médiuns. O que ele chamou de médium não era um indivíduo escolhido por um espírito superior ou por Deus: todo ser humano é médium, pois está entre a realidade material e  a espiritual, mas nem todos percebem ou entendem os fenômenos espirituais por variadas razões: seja devido a religiões particulares, ao apego à realidade material, ao medo, ao orgulho etc. Todo ser humano também é um potencial "evocador" de espíritos, pois é capaz de orar e pensar com vontade e sinceridade, mas a possível obtenção de resultados e a percepção destes variam muito de acordo com as intenções, a moral e a cultura de cada pessoa. Kardec e os mediuns com que teve contato produziram alguns livros e muitas edições de Revista Espírita/ Jornal de Estudos Psicológicos por cerca de 13 anos. Quando o espiritismo chegou ao Brasil ele teve que lidar com a pressão da igreja católica e também com o preconceito que afligia a espiritualidade afro-brasileira, seja chamada de umbanda, candomblé ou de outra denominação. Esta adaptação fez com que a maior parte do espiritismo brasileiro assumisse um viés religioso com alguma semelhança ao catolicismo: pouco se investiga nos centros espíritas brasileiros, pois eles agem mais como apoio espiritual e/ ou como uma religião sincrética. Nota-se aí no mínimo dois espiritismos (certamente podemos considerar outros mais), cujo os dogmas são diferentes entre si: o primeiro, francês, mal tinha dogmas: possivelmente Deus, a existência de espíritos e a reencarnação eram dogmas, ainda que entendidos através de um raciocínio reflexivo e ético. Já no segundo, o brasileiro, vários romances psicografados por médiuns apresentam conteúdos dogmáticos, sem serem submetidos às avaliações críticas.

Por fim, ateus podem ser dogmáticos? Se eles afirmam e espalham a ideia de que Deus não existe, espíritos e reencarnações não existem... isto já são exemplos de dogmas. Mas certamente a maioria das pessoas que tem esta postura, mesmo que publicamente, nega tal fato: isto porque no próprio meio científico existem pessoas que pregam os pressupostos materialistas e/ ou niilistas como se fossem a realidade/ a verdade... portanto pregam estas suposições como se fossem dogmas. Isto é aceitável na ciência se o estudioso se limita a usar tal base ou ponto de partida somente para investigar seu campo de especialização material: um médico estudando o aparelho digestório, um otorrino, um químico entre outros certamente pode ter tal postura sem problemas. Mas os estudiosos das "áreas humanas" deve sempre iniciar uma investigação empírica partindo de um pressuposto naturalista/ materialista ou similar? Veja na história por exemplo: Não existem tradições orais? Quantos seres humanos deixaram obras parcialmente perdidas ou destruídas? Quantos seres humanos marcaram ideologias ou sociedades sem deixar evidências materiais eles mesmos? O assunto fica mais sensível ainda em áreas como direito e psicologia. O que é justiça? Certamente não deve ser considerada uma mera opinião? O que é o psiquismo humano? A subjetividade, seus desejos reprimidos e traumas psicoemocionais e históricos? Qual é a importância e os possíveis impactos de um sentido de vida(?) seja este espiritual ou sentimental. 

Os divulgadores científicos que citei existem, mas não vi necessidade de expor nomes, porque existem vários semelhantes entre si nestes discursos cientificistas. Acho válido criticar charlatães, sejam estes religiosos ou místicos, mas isto é uma questão mais ética (e portanto filosófica) do que científica. Porém qual é a finalidade deles? Divulgar sua própria visão da realidade ou da história como se fosse um fato ou verdade, contrariando outras cosmovisões ou contrariando toda espiritualidade não é divulgar conhecimento e nem combater charlatanismo. O charlatanismo deve ser combatido porque trata-se do ato de negociar ou prometer a solução de um problema visando o benefício (geralmente lucro) próprio e sem necessariamente resolver o problema. Na verdade, se tal negociação ou promessa fizesse algum bem aos seus alvos, não precisaria ser combatido e nem seria charlatanismo, mas a verdade é que o charlatanismo nunca faz bem: gera benefício ao praticante e geralmente causa algum mal ao alvo - seja a mera enganação e decepção ou algum efeito nocivo (empobrecimento, dano físico ou moral etc).

Não estou criticando o conteúdo que os divulgadores trazem de dentro de suas respectivas áreas e é reconhecido por outros acadêmicos ou profissionais éticos. Estou me esforçando para analisar esses divulgadores da ciência a partir do que estudei sobre a história da ciência (embora eu tenha estudado mais a história da psicologia que é uma de minhas formações) e com base na filosofia, particularmente a epistemologia que investiga a construção de conhecimento.

Só que eu acho que o termo epistemologia deve ser usado com cautela por 2 motivos: O primeiro é que esta é uma palavra que parece "bicho-de-7-cabeças"; Isto porque muita gente (geralmente leigos em filosofia) ficam receosos quando este tipo de palavra surge num diálogo ou texto, como se tratasse de um assunto dificílimo ou super enfadonho. O segundo motivo é que, após estudar um dos principais autores da filosofia ocidental, me ficou claro que epistemologia dificilmente deveria ser separada de outras (supostas) áreas da filosofia, tais como ética, ontologia, teleologia e talvez outras áreas mais polêmicas das quais não citarei no momento. Este autor é Platão e ele é um dos alicerces da filosofia ocidental: admirado ou desprezado, sua obra foi muito discutida por pensadores por mais de 2000 anos! E se você acha que devido a idade de sua obra, Platão está obsoleto... certamente você está enganado. 

Isto porque como citei em outros textos, o filósofo das cidades estado gregas da antiguidade clássica se esforçou em deixar um modelo de construção de conhecimento inseparável da ética. O autor escreve várias obras indicando a diferença de opinião e conhecimento e como a finalidade da construção de conhecimento não deve privilegiar poucos indivíduos ou pequenos grupos ante o coletivo, representado (em sua época e local) pelas "cidades estado". Hoje poderíamos substituir tal coletivo pelas nações, grupos étnicos, ou, mais precisamente pela humanidade como um todo, já que avançamos muito na capacidade de nos comunicar se comparado com as épocas onde as tecnologias ainda eram incipientes ou inexistentes. 

Essa finalidade (teleologia) coletiva da construção de conhecimento (epistemologia) indicada por Platão era pautada na ideia de algo que não fosse meramente temporário ou descartável - algo eterno. É claro, que fazer tal proposta de modo tão resumido ou simplório não seria bem aceito na academia neste início de século 21. Como alguém que se propõe a ser tão racional poderia se pautar em algo eterno? Bom, neste ponto vale lembrar que eterno não é um conceito totalmente absurdo, afinal existem "coisas" que não temos certeza de onde acabam ou onde terminam como o espaço e o tempo (ou o espaço-tempo continuum, pressupondo que sejam uma coisa só). Isto porque para pressupor um início de todas as coisas, teríamos que ter certeza de que o tempo é linear... e que não havia coisa alguma antes do início de tudo... E nada disto é certo, ao menos não do ponto de vista de seres com corpos tridimensionais e/ou inseridos em um espaço tridimensional.

Mas estas questões não resolvem o aparente problema: Se Platão se pautou no eterno, como ele prova o eterno? Ou nada é eterno e Platão estava totalmente errado? Afirmar que nada é eterno é uma opinião, isto porque não se investiga algo partindo da negação de que este algo exista - isto é uma contradição por si só e Platão explica isto em um dos seus textos. 

Platão buscou construir conhecimento visando algo duradouro e que servisse para o maior número de pessoas ou seres possível. O que poderia ser isso? Não poderia ser algo simplesmente neutro ou indiferente às pessoas, pois Platão entendeu que tal busca incluía o que é Uno e por Uno devemos entender universal, mas coeso. A universalidade é a inclusão de todas as cosmovisões sem priorizar uma ante a outra, sem desprezar ou oprimir qualquer uma das cosmovisões e sem exclusões. E o que são cosmovisões? São visões de mundo ou o que se entende por real ou realidade. Platão discute isto na obra Sofista (do Ser) que é continuação do diálogo Teeteto (da Episteme, ou do Conhecimento). E naturalmente, ao falar "do ser", fala-se de ontologia (estudo do ser), porém tal tema é bem exposto no diálogo Fédon (da Psiquê, traduzido como "da Alma") - Neste trabalho Platão mostra que seu mestre Sócrates havia estudado com o filósofo naturalista Anaxágoras. Apesar de Sócrates admirar Anaxágoras por este ter indicado Nous (traduzido por alguns autores como a Inteligência) como a causa de todas as coisas, o mestre de Platão acaba se decepcionando pelo fato de que o naturalista não relacionava Nous com a causa de vários temas estudados. Sócrates então teria explicado que um professor de ontos (o estudioso do ser, das coisas que são) deveria se pautar pela melhoria de todas as coisas. Esta melhoria de tudo (coisas e seres), faz sentido pois seria uma finalidade (teleos) ética para todos os estudos e investigações. 

Mas como melhorar todas as coisas? Comecemos pelo mais fácil: a humanidade evoluiu muito tecnologicamente desde a época de Platão (séc 4 aC) até a atualidade (séc 21). Esta evolução foi muito acelerada após invenções como as redes elétricas, o rádio, os veículos à combustão, a televisão, o telefone, os eletrodomésticos etc. Mas tal progresso objetivo não inclui necessariamente um progresso ético e/ ou moral, tanto é que mesmo com a suposta diminuição do obscurantismo de eras anteriores, o ser humano quase se destruiu em guerras sanguinárias modernas. As duas guerras mundiais só aconteceram porque o ser humano desenvolveu o "saber fazer armas" aliado à ideologias que tinham como finalidade ganhos particulares (lucros indefinitivamente crescentes) e a supremacia de determinados grupos étnicos ou nacionais. A priorização de lucros ou de determinados grupos sobre outros é apontada por Platão como a finalidade ou ideologia de dois tipos de pessoas que não priorizam a filosofia e sua finalidade universal/ ética: respectivamente os filokerdes e os filonikons.

Para melhorar todas as coisas então, é preciso investigar o que torna o ambiente e os objetos em geral, melhores sim, mas também é preciso tornar os seres humanos melhores. Afinal se nos limitarmos ao primeiro tipo de investigação e estudo, abordamos somente o que conhecemos como tecnologia hoje em dia. E isto é alcançado pelo que Platão chamou em seu diálogo Sofista, de estudo da criação e manutenção de coisas/ objetos. Este método de investigação visa exclusivamente a matéria: o que pode ser observado (escutado, enfim, percebido pelos sentidos) e reproduzido sob controle do investigador. Isto parece com o método empírico que se tornou o alicerce da ciência moderna? Certamente. Porém tais investigações não tornam o ser humano mais ético, não faz o ser humano aprimorar sua moral nem torna ele ou suas obras, mais universais. É por isso que Platão segue com a investigação de outras cosmovisões (além do materialismo atomista, o autor analisa um espiritualismo entre outras visões de realidade) e conclui que nenhuma delas deve ser considerada verdade absoluta nem ponto de partida (pressuposto) para se iniciar uma construção de conhecimento universal. Assim como estas visões de realidade não são necessariamente excludentes entre si e nem são totalmente descartáveis - Platão assume a postura mais abrangente (e universalista) possível, indicando a utilidade da visão mais reducionista (materialista/ sensorial etc) e considerando também uma possível realidade espiritual. E por isto seu método de construção de conhecimento (epistemologia) tem os seguintes elementos: A presunção da própria ignorância por parte do estudioso/ investigador diante uma questão, relato ou tema a ser pesquisado (isto se assemelha em algum grau com a suspensão de pressupostos proposta pela fenomenologia); A maiêutica, um diálogo (lógica comparada) onde os interlocutores apresentam suas questões e argumentos, refletindo sobre estes para chegar às melhores conclusões possíveis e a finalidade de melhoria; Melhoria esta que não é sensorial, mas primariamente cognoscível e "uno"/ imutável. É o resultado mais justo, belo (bom, benevolente do termo kalos, sem tradução exata) e moderado, que fomenta valores universais nas pessoas e no coletivo/ sociedade, tais como temperança/ auto conhecimento, coragem e justiça. Seguindo esta lógica vários absurdos que permearam a ciência moderna (principalmente do século 17 em diante), como por exemplo, o racismo científico, a drapetomania, a internação coercitiva, o darwinismo social, o desenvolvimento de armas químicas e de destruição servindo determinados grupos nacionais ou econômicos e a "farmacocracia" propagando a hiper medicalização e a priorização dos lucros das empresas/ laboratórios farmacêuticas, poderiam ser evitados.

A ciência não é neutra, porque o ser humano tem intencionalidade e não é puramente racional: ele também tem dimensões, ou perspectivas de consciência mais simbólicas/ míticas e mais místicas/ espirituais ou transcendentais. Estas perspectivas não podem ser simplesmente suprimidas ou superadas - elas devem ser integradas no entendimento humano e assim como a perspectiva mais racional, precisam ser estudadas e abordadas de modo ético.

Se um cientista se propõe a analisar criticamente elementos das religiões e/ ou da espiritualidade, ele deve ter uma finalidade ética. Isso por si só é uma análise ou investigação mais filosófica do que científica e não há mal algum nisto - a filosofia também deve construir conhecimento e não deve ser relegada a um status de mero devaneio ou de intelectualidade prolixa sem finalidade para a sociedade. Uma investigação ética não faz afirmações inconsequentes e de finalidade dúbia como "Deus não existe". Que Deus? Um Deus vingativo e punidor certamente merece críticas para que religiosos picaretas não utilizem tal imagem para amedrontar pessoas, mas o conceito geral de Deus imanente e transcendente nem pode ser investigado pela corrente principal (empírica) da ciência. 

Um grupo de religiosos inconsequentes que põe a culpa dos problemas psicossociais das pessoas em "existências anteriores" deve sim ser refutado: eticamente e filosoficamente, porque a ciência nem dispõe de meios (e muitos cientistas nem querem) para investigar tais argumentos que transcendem a matéria/ o espaço tridimensional. Os líderes de religiões que cometem ações antiéticas devem responder pelos atos que favorecem eles mesmos em detrimento dos fiéis sim - e muitas vezes tais golpes e crimes, seja charlatanismo ou violência psicológica, deveriam ser investigados por uma área do conhecimento bem alicerçada na filosofia: o direito! Se as leis funcionam mal ou não funcionam, geralmente existem problemas éticos por trás disto: deturpações ou desvios dos códigos de leis, modificações de leis em prol de interesses particulares etc. O psicólogo pode e deve defender pacientes que foram vítimas de tais manobras nocivas exercidas por líderes religiosos. Ele pode orientar o paciente psicoemocionalmente e até psicossocialmente, afinal a psicologia frequentemente toca a sociologia/ as ciências sociais devido ao fato do ser humano estar inserido numa sociedade, porém tentar invalidar os elementos espirituais mencionados anteriormente, que estruturam praticamente toda a espiritualidade, é um exagero inconsequente: Já presenciei mais de um caso onde pacientes de profissionais de saúde mental, seguiram recomendações para tratar problemas oriundos de um contexto espiritual e/ ou religioso, com medicação psicofármaca! Os pacientes que aceitaram tais recomendações, tinham dúvidas sobre suas próprias experiências e/ ou não sabiam lidar com elas no contexto mísitco/ religioso onde surgiram, seja por causa de medo ou vergonha. Obviamente os resultados destes tratamentos psicofármacos variaram entre ineficazes e até nocivos para alguns dos pacientes!

A ciência pode pesquisar temas "neutros" como muitos objetos de estudo da física, da química e de determinadas partes dos organismos biológicos, mas sua finalidade, seja nas áreas mais "exatas" ou mais "humanas", sempre serve a alguém e a questão é: para quê e a quem ela serve?

Por fim, se a ciência não estuda a ética, afinal ela foi separada do campo que realizava tal estudo (a filosofia) de modo mais definitivo durante a primeira metade do séc 19 (com a proposição do termo cientista e com a propagação do positivismo), ela ainda necessita que os elementos deste campo sejam aplicados às suas investigações e à sua finalidade: A ciência ainda precisa da filosofia para ser universal e ética. Precisa da filosofia para reavaliar a construção de conhecimento, os métodos de investigação e de ensino, para que estes sejam integrais e quando possível, transdisciplinares. Só assim haverá equidade e progresso sem exclusões que causam ou possibilitam a propagação de variadas violências, seja a hiper vigilância e perda de privacidade, a propagação de produtos ou tratamentos falsos que dão lucro à trapaceiros, o consumo excessivo de substâncias nocivas (ultraprocessados, medicamentos que causam dependência) a curto ou longo prazo, a utilização de armas super modernas em conflitos que beneficiam minorias de multimilionários etc.

A filosofia que indico aqui é ética porque constrói conhecimento universal: não reduz o ser humano, abrange todas cosmovisões e não exclui pessoas por causa de dificuldades de desempenho, seja físico, mental ou profissional/ econômico. Não há saber que priorize lucros ou disputas, porque o saber verdadeiro tem universalidade.

A importância da Vida Psíquica e dos Valores (universais)

 Você imagine viver uma vida onde nada pareça ter sentido, ou, uma vida que em alguns momentos você vê algo que faz sentido, mas nunca consegue viver aquilo, pois está sempre ocupado com tarefas que lhe impõem - sejam tarefas solicitadas por pessoas próximas como pais e parceira(o) ou por tarefas impostas por regras da sociedade, via um sistema econômico, político, religioso etc. 

Oras, você pode responder que isso é normal: que desde "sempre" a humanidade vive sob imposição de alguma regra ou sistema de regras que lhe exige a realização de tarefas. Mas não se trata disto - estou falando do sentido (existencial, de vida), mais precisamente da falta dele ou da impossibilidade de experimentá-lo/ vivê-lo. 

Quando jovem minha vida não parecia ter sentido e eu não procurava isto... Por outro lado, o que fazia sentido para mim era viver com quem eu amava e onde me sentia amado: com minha mãe, com meus irmãos... e por alguns anos viver a amizade... com meus amigos. Mas o tempo passou e muitas coisas foram mudando: caminhos trilhados por mim e pelas outras pessoas que conheci foram divergindo cá e acolá... Relacionamentos, carreiras e trabalho ditam regras, escolhas e prioridades. Neste processo, observando a realidade em meu entorno, fui descobrindo dificuldades e contradições de pessoas que fui conhecendo e da sociedade em geral - este último caso, mais amplo ou coletivo, eu entendi através de notícias e estudos.

Após anos destas observações e estudos confirmei o que eu suspeitava: o mundo precisa do bem, da solidariedade, pois a maioria das pessoas está correndo atrás do próprio sucesso ou da própria segurança. Na maioria das vezes, incentivado por discursos segregacionistas ou meritocráticos, seja de religiões, de empresas, de influenciadores etc. Então vivi um pouco do que me fazia sentido: pratiquei a solidariedade que estava a meu alcance em alguns anos... mas eu tinha que cuidar de mim também e agora não só de meu corpo (da minha segurança alimentar, econômica etc) mas também de minha mente, tentando resolver minhas contradições: cuidar de minhas percepções, sentimentos, de meu sentido existencial e de minha profundidade psíquica. Profundidade aqui não é nada conciliável com me adaptar às regras dominantes da sociedade onde vivo: O Brasil, uma nação sul-americana (de democracia representativa) presidencialista e de sistema econômico (neo) liberal. Uma sociedade onde escolhem-se alguns líderes para determinar o que é importante a cada 4 anos e onde o sistema organizador de recursos para a vida prioriza o mercado o mais livre de regulação possível - um mercado onde aqueles que acumularam mais bens (dinheiro etc) tem mais facilidade para acumular mais enquanto os demais (a maioria) se esforçam para adquirir o mínimo enquanto são incentivados pelos discursos que mencionei anteriormente. 

As regras dominantes na sociedade são a "realidade" em meu entorno - em geral elas não fazem sentido para mim e não fazem parte da profundidade que senti em minhas experiências significantes. Minhas experiências significantes são minha realidade e relacionam-se com sentimentos que me fazem bem: o amor que vivi de minha mãe, a amizade que vivi com meus irmãos e com meus amigos e os sentimentos que senti ao praticar a solidariedade. Estas coisas pouco ou nada têm a ver com tentar ganhar dinheiro ou participar de um grupo que critica e ataca os demais. O amor e amizade ao quais me refiro são respeitosos - relações de alegria e respeito: expressão de bons sentimentos e valores universais. 

Bom, você poderia dizer: Mas sua "realidade" é a tua opinião ou os teus valores e devem obedecer leis exteriores, se adaptar a elas para que você sobreviva... 

Primeiramente então eu destacaria a diferença de opinião e valores: Opinião nós emitimos em relação às coisas que não conhecemos - coisas que no máximo tivemos um contato superficial e que não temos certeza dos fatos, pois estes não foram averiguados ou confirmados. E isto não é o meu caso.

Em segundo lugar, teríamos que avaliar o que são valores. Eles podem ser valores individuais, onde cada pessoa tem alguns: É possível que uma pessoa dê valor (priorize) à amizade, a amar uma parceira(o), os filhos, os pais, que dê mais valor a um trabalho, aos bens materiais ou mesmo a um sistema de regras comportamentais etc. São exemplos de valores individuais... mas existem valores universais também: valores que independem de locais e épocas. Estes últimos valores são temas da ética e da filosofia e não deveriam ser algo super complexo ou inalcançável para as pessoas... Mas é um tema que parece despertar interesse de pouca gente por causa de variados motivos. 

Falemos dos supostos interessados em filosofia e ética então: Como saber se tais pessoas realmente se interessam? Tentemos ir por etapas: O interessado não pode se apoiar em mera opinião. Opinião não é conhecimento como citei anteriormente. Mas como todos tem ou deveriam ter o direito de filosofar, então mesmo aqueles sem conhecimento devem buscar o saber e ser amigável ao saber. Para ser amigável, é preciso abertura: aceitar descobrir coisas novas e aceitar dialogar - só assim se inicia uma investigação sem viés e que não seja opiniática. E isso não é novidade: tanto a filosofia clássica fundada por Platão parte da presunção da própria ignorância, como a filosofia moderna de Russerl (fenomenologia) parte da suspensão dos pressupostos. São formas de possibilitar um conhecimento universal e universalidade é um elemento essencial da ética (por isso destaquei valores universais e não os valores individuais).

Deste modo, um filósofo que afirmasse a importância de ter coisas, colocando direito à propriedade (particular, privada) como algo igual (ou mesmo superior) ao direito à vida, não seria amigo do saber. Este falso filósofo acabaria priorizando ganhos individuais e relativizando a universalidade. Um sistema de leis ou regras de convívio que permite que um indivíduo que priorize ganhos materiais seja recompensado e amparado, naturalmente fomenta rivalidade e disputa ao invés de valores universais como respeito e equidade.

Assim como um filósofo que afirmasse que a verdade só é alcançada ou entendida observando o entorno também não seria um amigo do saber, porque estaria diminuindo a importância do pensar e do raciocinar: do ato psíquico de comparar argumentos ou fatos para se chegar em conclusões. Além disso, afirmar que a verdade só é compreendida pelo meio (material, espacial, tridimensional), é reduzir a importância de sentimentos não expressos e de possíveis sentidos existenciais, portanto, é ignorar grande parte da psicologia. É também desprezar relatos de variadas experiências não só psíquicas, mas espirituais, sejam estas chamadas de místicas, mediúnicas ou "sobrenaturais". Relativizar ou reduzir a importância de tais assuntos é objetificar o ser humano: inventar uma suposta neutralidade diante questões reais, além de ser uma pré suposição que afirma a inexistência do que não é investigado sensorialmente no meio. Portanto escutar com respeito os relatos sobre sentimentos, ausência ou presença de sentido de vida e de espiritualidade religiosa ou não, e buscar entender tais temas, não se trata de aceitar tudo sem análise: é buscar construir conhecimento de maneira humana e não objetificada.

Com os fatos que citei aqui, já é possível notar que os valores universais então se mostram abertos a todos, sem favorecer um em detrimento de outro. 

Todas essas coisas que citei - buscar conhecimento para evitar se basear em mera opinião, ser amigável/ ter abertura (para escutar e considerar cosmovisões), assumir a própria ignorância, dialogar com universalidade, investigar, valores universais etc, são essencialmente mentais. E isso reforça a importância da vida mental, ou no meu caso ao menos, de minha vida psíquica. 

Se afastando um pouco da discussão ética e de construção de conhecimento e voltando a um exemplo de minha vivência, eu entendo a vida psíquica como mental e também espiritual - um nível mais profundo da mentalidade, que está ligado não só a sentimentos, sentido de vida e saúde mental, mas também está ligado à espiritualidade. 

A saúde mental é um tema delicado que, no meu caso, tentei tratar via psicoterapia algumas vezes entre os anos de 2017 e 2021 com um sucesso que considero apenas parcial. A espiritualidade por sua vez pode ou não ser baseada em religião, mas em minhas experiências, já passei por esta fase voltada à religião: frequentei a igreja católica desde missas até ações de caridade, visitei terreiros de umbanda, passei por desobsessões e iniciei um curso em um centro espírita e fui iniciado na Krya Yoga (uma linha do sanatana dharma, vulgo "hinduísmo"). Não desprezo nenhum destes caminhos espirituais, mas tive dificuldade de permanecer simplesmente em um deles. Minha vida psíquica é muito importante e talvez esta seja a dificuldade de eu me manter em só um (ou dois, que seja) destes caminhos.

O que (re)descobri recentemente após anos de dificuldade tentando terapias e práticas espirituais, foi que viver o amor é muito importante. Sei que "amor" é um termo subjetivo muito relativizado na civilização humana, mas aqui me refiro ao sentimento profundo que deve ser expresso... experimentado. Acho muito difícil definí-lo racionalmente, afinal é natural expressarmos sentimentos via emoções e não via palavras ou escrita. Mas sei que este amor ao qual me refiro não é só gostar, pois está relacionado ao bem / praticar alguma bondade... com felicidade e devoção, portanto com veracidade. 

Particularmente sei que devo ser grato por minha vida, pois sei que sou amado e todos são amados... mas isto eu experimentei via experiências "místicas" ou "mediúnicas". Então o amor que posso viver no cotidiano é com os seres que conheço. Particularmente estou (re)aprendendo a lidar com adultos desde minha crise espiritual que durou aproximadamente de 2019 até um ano ou alguns meses atrás, mas tenho alguma facilidade para gostar de e lidar com crianças. Tenho uma boa oportunidade de viver o amor com meu sobrinho que tem quase 3 anos de idade, assim como também tive oportunidade ao trabalhar numa clínica para crianças com TEA há poucos anos.

Inclusive o contato com crianças me faz lembrar de quanto fui feliz e amado em minha infância - um período estrutural de nossa vida. Tal período forma a base de como experimentamos os sentimentos, como lidamos com eles e como expressamos eles ao lidar com outros seres humanos. Isto por si só é uma das maiores provas da importância dos sentimentos e da psiquê humana, seja você um materialista, um ateu, um religioso ou um espiritualista independente de religiões. A psiquê e os sentimentos são o que forma nosso ser, ou ao menos o essencial de nosso ser - Não é uma camisa de força, mas é uma estrutura básica do ser humano que não desaparece, pois serve de base das nossas intenções, do que pensamos, do que priorizamos, de como lidamos com a vida e do que carregamos até o fim desta, ou até o "além"...

Um resumo sobre as origens e possíveis consequências do iluminismo

 Neste texto trago um pouco da história da filosofia e sua importância, com enfoque no iluminismo; período da era moderna posterior à renascença e anterior ao positivismo e à pós-modernidade.

O iluminismo é tido como um movimento intelectual e filosófico de base europeia; Seus autores propagaram ideias sociais centradas no valor do conhecimento construído pela investigação racionalista e empirista, em ideais políticos de "direito natural", "liberdade", "progresso", tolerância, fraternidade e governo constitucional, e na separação formal entre estado e igreja.

Não há um consenso absoluto de quando foi o início de tal movimento, mas entende-se que ele tenha começado na Europa durante o final do século 17. 

Um filósofo que se destacou no período de transição da renascença ao iluminismo foi René Descartes (1596-1650). Tido como um racionalista, Descartes deu ênfase à importância da matemática e da ética. Em seus estudos sobre o ser humano, além de abordar o tema da ética, também investigou o corpo humano e seu funcionamento. Conhecido pela frase "Penso, logo existo" (ou "Penso, logo sou"), Descartes indica que o ser humano é em essência o psiquismo, mas que age em relação (ou em) seu próprio corpo que tem uma extensão passiva de ser medida etc. Este foi um dos possíveis motivos pelo qual o filósofo foi considerado um dualista: Descartes é conhecido por classificar o ser humano como "dual": mente e corpo. Seus estudos causaram grande impacto na Europa e posteriormente no ocidente em geral - Vários pensadores de seu tempo e das décadas seguintes passaram a estudar, comentar e criticar sua obra. Embora a crítica nem sempre seja destrutiva, há evidências de que muitos pensadores discordaram da visão de ser humano e da existência apresentada por Descartes. Um dos principais motivos seria a "necessidade" de uma visão monista, ou seja, de que o ser humano era uma coisa "una" e não "dual".  Wozniak em "Mind and Body: René Descartes to William James" aborda este período da história: este livro foi aceito pela American Psychological Association (APA), pois seu conteúdo faz parte da história da filosofia e, consequentemente, da ciência e da psicologia. 

Entre as várias vozes que discordaram significantemente de Descartes, esteve o britânico John Locke (1632-1704), conhecido como fundador do liberalismo e um dos principais precursores do empirismo. Locke é unanimemente aceito como um autor inserido no movimento iluminista da Europa. Em linhas gerais Locke costuma ser lembrado por defender que todo indivíduo nasce com os seguintes direitos naturais: vida, liberdade e propriedade. Os conceitos de liberdade e propriedade porém devem ser discutidos buscando-se uma prática ética: que respeite a universalidade do ser humano... algo bem difícil de ser alcançado pela maioria dos pensadores europeus daquela época (séculos 17 e 18). Tentarei explicar tal fato sucintamente:

O iluminismo certamente não surge como algo uno, coeso e pensado por todos os filósofos classificados como iluministas. O movimento iluminista indiscutivelmente teve sua importância na história humana, mas ele naturalmente teve seus defeitos desde o início com as propostas de seus primeiros pensadores. Sua origem é predominantemente burguesa, pois na época, a maioria das pessoas de baixas classes sociais não tinham acesso aos estudos e ao conhecimento e nem recebiam espaço para expressar suas ideias etc. A mesma exclusão valeu para membros de nações não-européias: Nativo-americanos, africanos e asiáticos, por variadas razões, não eram aceitos entre os pensadores europeus. Existiram exceções a esta regra, como Angelo Soliman (1721-1796) por exemplo, mas estes raros indivíduos expressaram seus pontos de vista por curtos períodos de tempo entre os europeus (geralmente só durante suas respectivas vidas) e acabaram silenciados de alguma forma - seja por perseguições ou por uma massiva quantidade de opiniões e visões das elites europeias.  

Os pensadores iluministas praticamente em sua totalidade, aceitavam a divisão do ser humano em diferentes raças, pois consideravam características físicas como sendo de grande relevância - supostamente elas determinavam não só a aparência, mas também o comportamento e a capacidade intelectual dos seres humanos e isto passou a ser refutado somente muitos anos após o iluminismo, durante a década de 60 do século 20. Essa postura da maioria dos pensadores iluministas estavam de acordo com as opiniões e anseios das elites europeias: enxergavam a colonização e a exploração de terras e populações estrangeiras (escravização etc) como algo aceitável, afinal tais povos eram considerados "selvagens" e/ ou "ignorantes e ingênuos". A postura dos pensadores iluministas de questionar e enfrentar as monarquias e regimes absolutistas eram válidas enquanto se demonstrassem éticas: buscando a universalidade... porém como citei anteriormente, o pensamento europeu predominante só conseguia defender os povos europeus, pois o estrangeiro era tido como imperfeito e alguns autores faziam declarações ainda mais destrutivas do que a média dos pensadores, sobre os asiáticos e africanos (Petty, por exemplo, taxava os negros como uma raça desprezível). A visão racializada alicerçada em elementos físicos/ corporais do ser humano não contradizia o empirismo proposto por autores como Locke - na verdade colaborava com tal visão reducionista de ser humano e de realidade. Isto porque apesar do empirismo se mostrar eficaz como rigoroso método investigativo para o desenvolvimento da vindoura ciência, Locke não propôs tal ideia somente para realizar investigações e construir conhecimento: o autor britânico chega a insinuar que o empirismo é uma visão da realidade, ou uma forma de se viver e de se chegar à verdade. Isto por si só é negar grande parte do desconhecido e também é negar as experiências tidas como espirituais, místicas e similares, taxando-as de mentiras ou de meras alucinações. Oras, é compreensível que tal pensamento fosse propagado na Europa como resposta à influência da ideologia religiosa no continente e como combate ao poderio das igrejas que durou séculos, porém é inegável que tal pensamento nega estudos e teorias históricas da filosofia, bem como nega a universalidade de pensamento e seus diferentes modos de viver. Mais do que isso, propor o empirismo como o método mais verdadeiro de se alcançar o conhecimento ou a verdade, é em prática um dogma e colabora com a exclusão de cosmovisões, também colaborando com a taxação de variados povos da Terra como se estes fossem "primitivos" por integrarem uma realidade espiritual em seus modos de viver e de construir conhecimento. 

O Fim do Iluminismo e o que veio depois

O iluminismo teria durado até a ascensão de Napoleão (ou sua queda), talvez porque o império napoleônico derrubou a república/ "democracia" francesa tida como principal fruto do iluminismo. Porém o sistema liberal proposto por autores como Locke, que se provou mais econômico do que político ao longo dos anos, e a maneira dominante de se construir conhecimento (estritamente empírica/ racionalista), permaneceram em grande parte as mesmas do iluminismo após o século 18: O racismo científico, como citei, atravessou todo o século 19 durando até por volta de 1960 e a economia liberal (mercantil laissez faire) sobreviveu às crises financeiras da industrialização, ao crescimento dos bancos privados e às guerras mundiais. Tal sistema econômico que tanto influenciou a política, não foi extinto e sim só ganhou uma nova roupagem durante o século 20: o neo liberalismo continuou defendendo os bens e propriedades dos grupos mais enriquecidos das sociedades em detrimento da classe trabalhadora e da maioria dos empobrecidos. 

Servindo de argumento científico em defesa do liberalismo com pouca ou nenhuma regulação do estado (um tipo de continuação da ideologia laissez faire), o darwinismo social surgiu no final do século 19, entre as elites intelectuais da Europa. Desprezando fatores sociais e psicológicos do ser humano, tal ideologia disfarçada de construção de conhecimento colocou a culpa da pobreza e da desigualdade sócio econômica nas massas de pessoas mais pobres das nações e teve sua origem no biologismo - uma visão científica reducionista do ser humano, de seu comportamento e de suas relações. Tal reducionismo se mostrou interligado com a propagação do empirismo como se este fosse o melhor método de construção de conhecimento ou o mais verdadeiro. Afinal, se a investigação sensorial dos fenômenos e a reprodutibilidade determinavam o que era verdade (ao menos entre as elites, sejam elas intelectuais, econômicas ou ambas), a conclusão natural desta forma de "construir conhecimento" era de que os seres vivos eram somente materiais/ corporais e que o psiquismo era estritamente fruto dos corpos. O positivismo surgido na Europa do século 19 e rapidamente espalhado pelo ocidente, é claramente fruto da construção de conhecimento empírica. A consolidação e propagação deste pressuposto na construção de conhecimento possivelmente teve sua importância para reduzir o poder das igrejas na Europa, mas criou uma narrativa dos fatos oposta não necessariamente à falta de ética, seja nas igrejas ou nas elites, mas sim oposta a toda forma de religiosidade e espiritualidade. Tanto que a ciência foi mais claramente apartada da filosofia no início do século 19 com o surgimento do positivismo. Um dos ícones do positivismo, Auguste Comte (1797-1857), propagou a idéia simplória de uma história linear onde a humanidade passou por uma era religiosa que durou da antiguidade até a renascença (!), seguida por uma era supostamente metafísica até a virada do século 18 ao 19, onde estaria nascendo a "era científica". Para o autor, o pensamento científico de sua época (racional e estritamente empírico) deveria substituir completamente a era anterior, ou seja, conscientemente ou inconscientemente, Comte desprezou as conquistas filosóficas que embasaram sistemas políticos representativos. suas constituições, leis, códigos morais e éticos. Certamente tais ideias abriram espaço para uma construção de conhecimento supostamente "neutra" (a ciência separada da filosofia), que argumentava não tratar da ética, mas na verdade se afastava desta, permitindo a propagação de variadas teorias desumanizadas e antiéticas como o racismo científico, a drapetomania, o darwinismo social etc.

Após ganhar força ao longo dos anos, o darwinismo social surgido da ciência positivista reforçou a intensificação da desigualdade social e econômica, defendendo o enriquecimento irrestrito das elites e relativizando a justiça ao excluir por completo os valores como a equidade e a universalidade da construção de conhecimento dominante. Esta ideologia desumanizada possivelmente ganhou força na ciência porque foi aceita como se fosse "neutra" em relação ao ser humano, o tratando como a biologia entendia os demais seres vivos na época - aplicou conceitos como a adaptação biológica, à sociedade, fomentando e apoiando a ideia de "lei do mais forte" nas civilizações humanas.

Não estou dizendo aqui que o iluminismo foi um movimento coeso e totalmente interligado com os sistemas políticos e econômicos modernos e nem afirmo que foi o grande fomentador de ações antiéticas como o racismo ou o elitismo, mesmo porque muitas das ideologias reducionistas e antiéticas surgiram no período posterior - o séc 19 dominado pelo positivismo no ocidente. O movimento iluminista é complexo pelo simples fato de ter variados autores: Alguns como Locke se mostraram mais enraizados na cultura de seu local e tempo: A Inglaterra, que de tempos em tempos passava por cercamento de terras, enfrentava disputas por propriedades e na época de Locke até um século depois estava numa "ascensão" econômica devido às suas ações imperialistas que retirava recursos naturais e humanos de outras nações em prol de si mesma. Outros filósofos iluministas como Jean Jaques Rousseau (1712-1778), conhecido por influenciar o direito e defender o interesse coletivo, observou o potencial do ser humano ser bom e as influências sociais neste. Também abordou a importância da educação, dando abertura a uma universalidade de pensamento e acesso ao conhecimento, talvez influenciada por autores anteriores do final da renascença como Jan Amós Comenius (1592-1670).

Outros autores do iluminismo também tiveram sua importância, como, por exemplo, Henry More (1614-1687), Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778) e Diderot (1713-1784), mas não vou abordá-los aqui, pois além de conhecer só resumo sobre suas ideias, um texto abordando todos estes autores ficaria muito extenso para uma postagem de blog.

Enfim o iluminismo não foi a desgraça que alguns conservadores dizem que foi (devido ao fato de criticar a religião etc), nem foi um movimento ético de excelência ou virtudes humanas que salvaria a humanidade da ignorância. Foi um racionalismo mais ou menos útil que descambou em várias ideologias reducionistas; O iluminismo colaborou muito para o surgimento da ciência nascida do positivismo no início do século 19 - suas especializações, descobertas etc. Colaborou também para a prática de governos representativos e menos autocráticos do que as monarquias e para uma renovação dos conceitos de democracia e república. Mas também são inegáveis suas limitações resultantes de suas origens nas elites da Europa dos séculos 17 e 18

Considerações

No final dificilmente haverão "ismos" que salvem a humanidade enquanto esta não se tornar mais ética, com mais universalidade, equidade etc. Universalidade inclui relações equitativas entre pessoas com diferentes cosmovisões, bem como a vivência e a propagação de valores universais, ou seja, valores que unem as pessoas e beneficiam o maior número possível delas, numa busca constante por melhoria não só material, mas intelectual, comportamental e ética dos seres humanos e suas relações com a vida em geral. Uma postura e vivência que respeite todas as perspectivas da consciência humana, sejam estas racionais, simbólicas (míticas) ou transcendentais (místicas), se pautando pela ética e seus valores e não por meros métodos ou por uma suposta neutralidade que provou não existir na construção de conhecimento, na política e na economia. 

Infelizmente, como humanidade, ainda nos desenvolvemos mais rapidamente na esfera tecnológica do que na ética. Talvez por isso a história humana após o surgimento do iluminismo seguiu com tensões sociais, econômicas, guerras etc... 

Nestas considerações finais citei brevemente a importância da ética na construção de conhecimento e nos sistemas políticos/ econômicos, mas um aprofundamento sobre tal tema requer um outro texto.


Possíveis convergências filosóficas entre Platão, Kardec e Eddington.

 Neste texto tentarei entender um artigo de Allan Kardec, levando em consideração a filosofia "ocidental", principalmente em 2 pontos de sua história: sua formação na antiguidade clássica com Platão (428 aC - 327 aC) e sua mudança na concepção do que é a realidade, na primeira metade do século 20. Esta concepção de espaço-tempo mais moderna do que a da época do fundador do espiritismo, teve suas origens nos estudos de matemáticos e físicos e foi demonstrada por pensadores como Arthur S. Eddington (1882-1944). É sabido que Kardec viveu no séc 19, época quando a ciência em geral entendia o espaço como algo absoluto - então veremos quais pontos de seu texto sobre a presciência da alma pode ser coerente com uma cosmovisão mais próxima da teoria da relatividade e com o conceito de tempo quadrimensional:

"Como é possível o conhecimento do futuro? Compreende-se as previsões dos acontecimentos que são consequência do estado presente, mas não dos que nenhuma relação têm com eles, e, ainda menos, dos que são atribuídos ao acaso. Diz-se que as coisas futuras não existem, que ainda estão no nada, então como saber se acontecerão? Contudo são muito numerosos os exemplos de predições realizadas, de onde concluir-se que aí se passa um fenômeno cuja chave não se tem, pois não há efeito sem causa. Essa causa, que tentaremos achar, ainda é o Espiritismo, (...)" 

 O texto obviamente considera que existem alguns casos em que pessoas conseguem prever o futuro. Isso não significa abraçar toda suposta premonição ou adivinhação, afinal Kardec diferente de vários outros religiosos e médiuns, avaliava criticamente as mensagens entendidas como espirituais entre tantos outros fenômenos desta categoria, como mostra Dora Incontri em seu livro Kardec para o século 21, por exemplo. Seguimos com a comparação feita pelo fundador do espiritismo.

"Suponhamos um homem colocado no alto de uma montanha, considerando a vasta extensão da planície. Nessa situação, pouco será o espaço de uma légua, e facilmente poderá ele abarcar de um golpe de vista todos os acidentes do terreno, do começo ao fim da estrada. O viajante que por primeira vez percorre essa estrada sabe que caminhando chegará ao fim. Isto é simples previsão da consequência de sua marcha. Mas os acidentes do terreno, as subidas e descidas, os riachos a transpor, as matas a atravessar, os precipícios onde pode cair, os ladrões postados para o assalto, as hospedarias onde poderá descansar, tudo isto independe de sua pessoa. Para ele, o futuro é desconhecido, porque sua vista não vai além do pequeno círculo que o envolve. Quanto à duração, mede-a pelo tempo consumido em percorrer o caminho. Tirai-lhe os pontos de referência e apaga-se a duração. Para o homem que está na montanha e que acompanha o viajante com o olhar, tudo isto é presente. Suponhamos que esse homem desça até o viajante e que lhe diga: “Em tal momento encontrareis tal coisa; sereis atacado e socorrido.” Ele predirá o futuro. Para o viajante, isto é o futuro. Para o homem da montanha é o presente." 

 Esta analogia usada por Kardec é interessante: o autor utiliza o espaço tridimensional como exemplo, onde a vista de cima de uma montanha seria uma visão do presente e do futuro, mostrando-se mais ampla do que a visão a partir de uma região mais baixa, que seria a visão limitada ao presente. 

Agora devo relembrar algumas observações feitas pelo astrofísico e filósofo, Arthur S. Eddington, na primeira metade do século posterior à Kardec, sobre o espaço e o tempo: "Não sei se você está profundamente ciente do fato de que, há algum tempo, estamos imersos em um mundo quadridimensional. A quarta dimensão dispensa apresentações: assim que começamos a considerar os eventos, ela estava lá: O "mundo" quadridimensional. Os eventos obviamente têm uma ordem quádrupla que podemos dissecar em direita ou esquerda, atrás ou na frente, acima ou abaixo, mais cedo ou mais tarde - ou em muitos conjuntos alternativos de especificação quádrupla. A quarta dimensão não é uma concepção difícil. Não é difícil conceber os eventos como ordenados em quatro dimensões; é impossível concebê-los de outra forma. O problema começa quando continuamos nessa linha de pensamento, porque por um longo costume dividimos o mundo dos eventos em seções ou instantes tridimensionais e consideramos o empilhamento dos instantes como algo distinto de uma dimensão."  

Este argumento se refere a descoberta matemática da quarta dimensão, utilizada para o conceito de tempo quadrimensional na teoria da relatividade. Eddington explica que a quarta dimensão sempre esteve lá e insistir em enxergar o tempo como uma sucessão de instantes tridimensionais, mas distinto de uma dimensão, é uma contradição que ficou evidente. 

A quarta dimensão é um fato descoberto pela matemática, que por sua vez não é investigável por um método estritamente empírico, uma vez que não é perceptível sensorialmente por seres tridimensionais; O tempo em si, por exemplo, só percebido conscientemente (através da consciência do tempo). Mesmo porque, a característica da matemática que lhe concedeu a capacidade de colaborar com uma construção de conhecimento mais profunda e precisa, foi o "número zero". O zero não é palpável materialmente - é um conceito de ausência e um representante de "casas decimais". Com seu acréscimo na sequência dos demais números (e 1 a 9) fica evidente a dezena, a centena, os milhares... e possivelmente o "infinito" de certo modo. É justamente por ser teórico e ter estas características que transcendem o palpável, que o zero colaborou com uma (r)evolução na matemática e na construção de conhecimento. Além disto, questões sobre se os números são uma mera criação humana, uma força primordial da natureza, ou um meio termo de ambas as coisas, ocorrem na matemática do ocidente no mínimo desde meados do século 19 com autores como Edmund Husserl, entre outros.

Mas porque citar a quarta dimensão para falar de previsões sobre o futuro ou sobre a presciência da alma? Para trazer uma epistemologia que considere a existência do espírito em diálogo com teorias científicas mais atuais do que a física newtoniana, típicas do positivismo e da época de Kardec. Antes de retomar sobre o espaço e o tempo relacionados à teoria da relatividade e à quarta dimensão, vejamos como seguem as explicações de Kardec:

"Agora, se sairmos do círculo das coisas puramente materiais e, por pensamento, entrarmos no domínio da vida espiritual, veremos esse fenômeno reproduzir-se em escala muito maior. Os Espíritos desmaterializados são como o homem da montanha. O espaço e tempo não existem para eles. Entretanto, a extensão e a penetração de sua vista são proporcionais à sua depuração e à sua elevação na hierarquia espiritual. Em relação aos Espíritos inferiores, eles são como um homem munido de poderoso telescópio, ao lado de outros que observam a olho nu. Nestes últimos a vista é circunscrita, não só porque dificilmente podem afastar-se do globo a que estão ligados, mas porque a grosseria de seu perispírito vela as coisas afastadas, como faz a névoa em relação aos olhos do corpo. Compreende-se, pois, que conforme o grau de perfeição, um Espírito possa abarcar um período de alguns anos, de alguns séculos, e até de muitos milhares de anos, pois o que é um século em comparação com a eternidade? Diante dele os acontecimentos não se desenrolam sucessivamente, como os incidentes da estrada do viajante. Ele vê simultaneamente o começo e o fim do período. Todos os acontecimentos que nesse período são o futuro para o homem da Terra, para ele são o presente. Poderia ele, pois, vir dizer-nos com certeza: Tal coisa acontecerá em tal época, porque ele vê essa coisa, assim como o homem da montanha vê o que espera o viajor na estrada. Se ele não diz, é porque o conhecimento do futuro seria nocivo ao homem. Ele entravaria o seu livre-arbítrio; paralisá-lo-ia no trabalho que deve realizar para o seu progresso."

Kardec trabalha a teoria do progresso da alma, que é principalmente moral quando olhamos para os seres individualmente, mas também é ético, devido aos resultados do despertar de tal moral e devido às relações entre os espíritos, sejam estes encarnados como seres humanos ou em outro estado. A ética tem como um de seus elementos a universalidade, pois não há verdadeira ética em ganhos meramente individuais ou que beneficiem pequenos grupos prejudicando os demais. 

Quando Kardec diz que os "espíritos inferiores" dificilmente podem se afastar do globo, ele está de acordo com a teoria da psiquê imortal de Platão - o filósofo da antiguidade clássica explicava (de acordo com seu mestre Sócrates) que a psiquê dos indivíduos apegados à matéria, seja aos bens ou aos prazeres sensoriais, ficariam vagando na Terra de acordo com seus gostos, preferências e/ ou vícios. Tal fato não se tratava de uma punição divina, mas sim de uma consequência lógica a partir do entendimento que a psiquê (alma) é imortal. Para os filósofos gregos, a punição certamente existia, mas estaria relacionada ao conceito de justiça e não exatamente ao apego que os indivíduos sentem pelo mundo que (diga-se de passagem) está no espaço tridimensional. 

Mas Kardec desenvolve mais teorias sobre o espírito em relação aos filósofos da Grécia Clássica: O perispírito, um elemento super sutil certamente ligado ou constituído em alguma proporção de eletricidade e magnetismo (eletromagnetismo) deve fazer a ligação entre alma (equivalente à psiquê descrita por Platão) e corpo. Isto não é absurdo, uma vez que todos átomos têm cargas elétricas e campos eletromagnéticos, mas não entrarei em detalhes sobre o quanto os corpos possuem os são constituídos (a nível atômico etc) de campos/ ondas eletromagnéticas. Os temas como a moral e a ética são praticamente centrais nos 2 corpos de obras, seja nos textos do filósofo do séc 4 aC, ou no do pedagogo do séc. 19: porém enquanto Platão prioriza a construção de conhecimento (a episteme) e sua aplicação na vida coletiva (política/ ética), Kardec que viveu sob uma monarquia, priorizou a explicação dos fenômenos espirituais. Este elemento que conecta psique e corpo não pode cumprir um papel meramente físico, embora deva ser físico em algum nível, já que tudo se enquadra dentro das leis naturais (Kardec não faz diferenciação entre leis naturais e divinas - em sua busca por extinguir o sobrenatural, o autor integra ambos conceitos). Não sendo exclusivamente físico, o perispírito carrega propriedades morais dos indivíduos, ou ao menos, é regido pela moral deste, já que a moral faz parte do psiquismo, da mentalidade etc. É por isso que o autor diz que a grosseria do perispírito geralmente obstrui as "percepções" da alma (imperfeita). As percepções que transcendem o espaço e o tempo então devem ocorrer através da alma mais pura/ mais ética, que consequentemente tem um perispírito purificado em algum nível. Note que pureza aqui não se refere a puritanismo, nem moralismo - não se trata de proibir o comportamento alheio, pois cada indivíduo deve inferir/ despertar os valores universais em si mesmo e colocá-los em prática em sua mentalidade e no convívio social. E embora Kardec tenha se apoiado mais nos ensinamentos (morais/ éticos) de Jesus e seus apóstolos, mais uma vez a obra espírita lançada na França do século 19 converge com a raiz da filosofia ocidental: Platão propõe o mesmo despertar aos seus leitores, assim como Sócrates propunha aos seus interlocutores - o ser humano deve despertar/ viver valores universais: ser moderado, corajoso, benevolente/ belo e justo, pois isto é ser "uno", é ser apto a liderar ou governar a sociedade e é alcançar o que é cognoscível e também imutável. 

Sobre o tempo, Eddington indica que ele é quadrimensional, ou interpreta que ele seja a quarta dimensão, ao afirmar que os eventos tem uma ordem quádrupla (cima e baixo, esquerda e direita, para frente e para trás e mais cedo e mais tarde). Kardec por sua vez afirma que os espíritos mais puros (virtuosos, seja baseado na ética "cristã não-religiosa" ou na platônica que pouco diferem entre si) conseguem "ver" todos os eventos de uma determinada amplitude ou espectro do tempo (que ele compara com a "estrada" percorrida pelo encarnado) como se fossem o presente - Isto explicaria, ao menos em partes, porque Jesus conseguia realizar alguns feitos considerados milagres, como prever alguns eventos do futuro por exemplo. De acordo com Kardec, tais espíritos que despertaram uma grandiosa moral e ética geralmente não revelam os eventos do futuro (e possivelmente alguns esquecidos do passado) porque isto entravaria o progresso da (maioria da) humanidade. Mas porque entravaria? 

Certamente porque algumas "visões" de vidas passadas poderiam traumatizar ou deslumbrar os encarnados que as esqueceram, bem como muitas visões do futuro poderiam parecer desoladoras: Imagine um europeu do século 19 tendo revelações de como seriam as guerras mundiais, um congolês descobrindo as atrocidades que os belgas cometeriam com seu povo ou os indígenas norte americanos vendo antecipadamente as imposições e traições que ingleses e seus descendentes estadunidenses lhes imporiam (etc)... Previsões de dificuldades futuras podem ser aterrorizantes ou desesperadoras para muitos indivíduos que preferem ter uma perspectiva pacata da vida ou que preferem um otimismo ingênuo...

Eddington traz outro ponto interessante sobre a teoria do tempo quadrimensional ao explicar sua estrutura como uma espécie de ampulheta onde o "aqui agora" (o presente de cada indivíduo) seria o ponto mais afunilado de tal estrutura; 

O gráfico indica um "Aqui-Agora" (Here-Now) individual, ou seja, a percepção do tempo, ou a consciência do tempo, é de cada indivíduo, bem como sua localização e respectivos movimentos no espaço. As cunhas dos lados da ampulheta, nomeadas de "Outro lugar Absoluto" (Absolute Elsewhere), se referem ao que Eddington diz que deveria se chamar o Presente Absoluto, pois nesta teoria, o presente não é uma mera porção infinitesimal entre o passado absoluto e o futuro absoluto. Porém, em situações normais, cada indivíduo só percebe o "ponto" do Aqui-Agora: é a consciência individual de cada ser vivo situado em um determinado local do espaço; então o Outro lugar Absoluto, ou Presente Absoluto" seria inalcançável para as formas de vida em sua individualidade. Um exemplo disto é bem simples: não percebemos o que acontece o que está fora do alcance de nossos sentidos... 
Mas aqui entram alguns relatos de fenômenos que certamente se enquadrariam no que o espiritismo e algumas religiões chamam de mediúnicos: Em uma de suas revistas Kardec debate sobre indivíduos que conseguiram se comunicar espiritualmente (ou psiquicamente) em um processo que ele chamava de sonambulismo: O espírito de um ser era invocado durante o sono, e relatava sua experiência ao invocador - percebia afastando-se de seu próprio corpo e surgindo rapidamente diante o médium. Desconsiderando possíveis argumentos naturalistas/ biologistas, temos aqui uma forma de transpassar o espaço/ tempo? Parece que sim. Outras experiências também parecem ter características similares: o que Kardec chamava de "dupla vista", um fenômeno onde alguns indivíduos viam outros locais ou épocas em simultâneo com suas percepções normais do espaço/ tempo, e a bicorporalidade relatada na história de alguns santos que conseguiram estar em dois locais distantes entre si ao mesmo tempo, são exemplos de como fenômenos mediúnicos podem transcender a curvatura espaço/ tempo. Mas porque isto ocorreria? Certamente deve ter relação com o estado psíquico e ético dos seres, como deduziu Kardec. Oras, a psiquê, seja mente ou alma, é incorpórea: ninguém pega um sentimento ou pensamento e aperta ou divide eles... Há efeitos produzidos no sistema nervoso sim, os neurônios e suas sinapses, bem como os dendritos (etc) têm sua importância e ligação com todo nosso "aparelho psíquico" desde a percepção do presente, até memórias, sentimentos, valores individuais ou universais... Mas diante os relatos de todas experiências chamadas de místicas, mediúnicas ou transcendentais, se quisermos ter uma postura ética, ou seja, com respeito à universalidade, devemos nos manter abertos à uma visão de ser humano e de realidade mais aberta possível para abranger o máximo de amplitude não só de culturas e cosmovisões, mas também de construção de conhecimento. A partir daí, podemos investigar tais fenômenos com o método que melhor corresponda a tal "cosmovisão" - elemento naturalmente ligado ao que alguns estudiosos chamam de pressuposto. A pré suposição para estudar tais temas é admitir que o desconhecido é investigável - não se conhece um relato ou fato negando sua existência e sim investigando-o. E se o método sensorial/ reprodutível (empírico) não serve para tal investigação, devemos recorrer ao dialético racional (diálogo ou comparação de relatos e reflexão). 

Voltemos aos fenômenos mediúnicos então; a psiquê em atividade mediúnica pode transcender o espaço porque ela não é meramente biológica/ material e nem é espacial. Neste ponto, se não tivéssemos a teoria de Kardec sobre o perispírito, teríamos que voltar às discussões sobre como a mente se conecta ao corpo, propagadas desde o século 17 por René Descartes por exemplo. Ou talvez pudéssemos tentar partir da teoria da consciência do campo eletromagnético da virada do século 20 ao 21, mas esta ainda parece muito incipiente e pouco aceita na construção de conhecimento. Partindo de Kardec então, o perispírito poderia fazer o vínculo entre algo espacial/ tridimensional (corpo) e algo adimensional (psiquê). Oras, com a descoberta da quarta dimensão teríamos mais um elemento desconhecido que pode se relacionar com ambos (com o tridimensional e o adimensional). O problema é que apesar de ser uma descoberta matemática, ela não parece investigável pelo método estritamente empírico de construção de conhecimento. Voltando às comparações dialéticas e reflexões, poderíamos deduzir que seres superiores são quadrimensionais? Para isso, precisamos de uma referência que sirva de comparação, pois presos em corpos tridimensionais no espaço tridimensional, temos sérias dificuldades em conceber ou imaginar qualquer coisa quadrimensional: Peguemos as sombras e imagens refletidas (em espelhos ou superfícies lisas como água etc) - elas são bidimensionais, pois não possuem espessura alguma: só altura e largura. Sombras e imagens refletidas só existem em nosso mundo tridimensional em determinados pontos, afinal sombras só são vistas onde a luz não incide diretamente e reflexos só existem nas superfícies diante objetos ou seres iluminados pela luz. A partir daí, por analogia, podemos entender que para a realidade quadrimensional, o universo tridimensional deve ser algo semelhante ao que consideramos sombras ou imagens refletidas - são partes da realidade que só existem em alguns pontos sob determinadas condições. Isto não está longe das parábolas usadas por Platão na obra A República: O "Mito da caverna" por exemplo não trata só da comparação da ignorância com o conhecimento; Os prisioneiros na caverna que assistiam conformados as sombras projetadas na parede não eram só ignorantes: Eles viviam naquela situação como se ela (o teatro de sombras) fosse real, mas o fugitivo que subiu à superfície e viu os corpos tridimensionais e o sol que iluminava os mesmos, descobriu que há algo mais real do que meras sombras projetadas. Quando o fugitivo retorna e conta o que viu aos demais, esperando libertá-los, ele é rechaçado - os prisioneiros acham sua história um absurdo e certamente estão conformados com a caverna e o teatro de sombras. Ainda no mesmo texto, Platão relaciona o conhecimento verdadeiro e a realidade superior com o que é imutável e uno - os valores universais que o filósofo deve despertar e praticar em sua vivência. Em Fedro, o autor, fala sobre o hiper ouranos ("além céus"), uma realidade onde a justiça e outras virtudes fulguravam e não havia local para malevolência. Esta realidade de valores universais era alcançada não só via um estado alterado da mente (manike, mais no sentido de transe místico do que de mania), mas por indivíduos que de algum modo almejaram ou viveram os valores mencionados (a ética). 
Ao explicar sobre o Uno, no diálogo Parmênides, Platão discorre sobre o que é unidade e acaba indicando que se existem duas e três dimensões, naturalmente podem existir quatro dimensões. 
Mas Platão não investiga a vida da psiquê fora do corpo, nem especula possíveis minúcias do "hiper ouranos" ou de uma possível quarta dimensão. Sua finalidade é a ética, a melhoria de todas as coisas, a partir das psiquês vivendo no mundo, em sociedade e consequentemente na política. 
Kardec, por outro lado, não foi o único a tentar entender a vida para além do corpo e os "espíritos superiores". Na "árvore da vida", seja do hermetismo ou do judaísmo místico temos 10 possíveis representações de mundos ou realidades (sefirots), cada uma relacionada a um tipo de ser: Malkhut, a base da árvore cósmica/ espiritual parece ser o mundo material onde os humanos e outras formas de vida biológica habitam. As 9 sefirots acima estão relacionadas aos anjos e às virtudes (...força de vontade, piedade, entendimento, sabedoria etc) - quanto mais elevada, mais próxima de Deus. Deus criou todos os mundos via emanações e embora, nem o hermetismo nem o judaísmo místico discorram sobre uma "quarta dimensão", fica evidente a existência de seres intermediários entre o Deus eterno onipresente criador de tudo e os seres humanos, manifestações desta eternidade - almas feitas à semelhança Dele.  
Platonismo e judaísmo místico já foram estudados conjuntamente no mínimo desde o século 16, na Renascença: não é uma novidade que estou inventando aqui. Filósofos como Giovanni Pico de Mirandola possivelmente viram uma relação metafísica e/ ou cosmogônica entre teorias judaicas e gregas (platônicas) que não ficava só em confabulações: podia ser praticada pelo ser humano numa espiritualidade livre dos dogmas da igreja da época: O ser humano alcança realidades superiores vivendo valores universais, que fazem bem ao coletivo, ao maior número de seres possível e com uma postura de respeito à universalidade, sem deixar a busca por viver internamente e externamente a coragem, a moderação, a bondade, a justiça, a equidade etc. Esta(s) realidade(s) (ou algumas delas, mais próximas de Deus) certamente não podem ser experimentadas pelos corpos tridimensionais e daí a necessidade das psiquês/ almas reencarnarem no que Kardec chama de corpos mais sutis. Não se trata de se tornar um ser estranho (quadrimensional), ao menos, não há importância em imaginar a aparência de corpos quadrimensionais, pois Kardec explica que quanto mais puro (ético) o espírito, mais ele percebe/ "vê"/ sente todas as coisas e menos atividades mentais (pensamentos, sentimentos etc) os seres inferiores podem esconder deles. A hierarquia das almas é ética - de virtudes citadas por Sócrates,  Platão e pelos místicos judeus e de amor piedoso ensinado por Jesus, João Evangelista, Francisco de Assis, Teresa d'Ávila e tantos outros santos e apóstolos. E se as almas e seres vão se tornando mais e mais próximos de Deus ao despertarem e viverem valores universais, é provável que eles vão se aproximando gradualmente da onisciência divina - isto parece dialogar com a ideia de seres quadrimensionais que conseguem estar em mais de um local ao mesmo tempo sem problemas - pois o espaço e o tempo que percebemos aqui no universo tridimensional certamente é uma pequena fração ante uma realidade quadrimensional... Como uma imagem em uma poça d'água ou uma sombra projetada numa caverna... Assim, os espíritos superiores, sejam o que Kardec chama de "errantes" ou reencarnados em formas muito sutis e talvez quadrimensionais, não nos desprezam, mas o amor deles certamente é sereno porque entendem o quão pequeninos somos.

Ignorância não se combate só com ciência: É preciso filosofia

Ignorância não se refere só ao desinteresse em conhecimento, mas também o ato de ignorar as necessidades do próximo - de ignorar quem é diferente, ignorar pessoas de outras culturas etc. 
Por milênios o ser humano viveu na Terra de variadas maneiras diferentes - isto faz parte da universalidade humana, independente se o ser humano é mais emocional ou racional, mais curioso ou mais intuitivo. Tais fatores humanos individuais juntamente com suas relações sociais e ambientais, certamente foi o que gerou variadas culturas que viveram em períodos de maior ou menor harmonia.

Vejamos um fator humano e cultural notoriamente influente em nossa história: As religiões são algo muito antigo que existe em variadas sociedades humanas. Independentemente se você considerar o "xamanismo" de povos da "idade da pedra" ou as religiões politeístas após a construção de templos da antiguidade ou as igrejas cristãs que se formaram após os concílios do século 4 em diante na Europa. A diferença mais marcante entre estas religiões citadas é que o xamanismo era uma prática mais ligada à natureza e à ancestralidade enquanto as demais apresentam alguma hierarquia com uma ou mais autoridades religiosas. 
Sim, existiu um "cristianismo primitivo" sem igrejas entre os séculos 1 e 3, mas depois disto, a religiosidade cristã sem instituições sobreviveu de modo esparso em minorias pouco ou nada registradas na história humana, então voltemos a falar das religiões que foram institucionalizadas e cresceram; Estas religiões com autoridade as quais me refiro não incluem a religiosidade mística onde pessoas buscam um contato espiritual ou psíquico com o divino - aqui me refiro às igrejas onde bispos ou quaisquer outros sacerdotes usam sua posição de liderança como ferramenta de poder em grande parte do tempo; Isso não deve ser difícil de se estudar, mas não vou fazer um levantamento histórico mais detalhado neste texto.

Toda vez que vemos religiosos criticando pessoas ou grupos de outra fé ou pregando a sua própria religião como verdade absoluta, há um indício desta autoridade e também de um autoritarismo. Isto ocorre não somente por existir um ou mais líderes manipulando ou pressionando massas de fiéis para obter vantagens e/ ou fortunas, mas também acontece porque as pessoas que seguem tais líderes ou seguem as religiões das quais estes líderes alegam fazer parte, não refletem sobre autoridade, autoritarismo, liberdade religiosa etc. Estes fiéis, geralmente em grandes quantidades, se deixam levar por discursos emocionais que lhes dão uma identidade de grupo, que sustentam suas expectativas ou que lhes entregam um suposto pertencimento a um coletivo. Emoções são uma necessidade humana, bem como algum nível de relacionamento social (grupal, coletivo, seja em um grau  menor ou maior) e tal manipulação de "autoridades" religiosas se aproveita de tais necessidades, oferecendo supostas verdades que não exigem reflexão nem estudo. Isto é um fato, tanto é que muitos religiosos não leem os textos de sua própria fé (bíblia por ex.) ou leem somente com o viés e influência de um líder, seja ele pastor, padre etc. Assim se formam massas de pessoas que reproduzem falas preconceituosas e discursos segregadores ou conflituosos de "nós e eles".

Curiosamente muitos dos que gostam de estudar, ou ao menos, dos que dizem que priorizam o conhecimento, pouco ou nada atacam tais atitudes de religiosos: Praticamente não criticam a falta de ética das ações de manipulação ou de ganância de líderes religiosos nem criticam o fanatismo e as contradições éticas dos fiéis que seguem tais líderes/ religiões. Estes supostos estudiosos preferem afirmar sobre a inexistência de coisas, como de Deus, de uma realidade espiritual, de espíritos, de Jesus, de Moisés (de "profeta X, Y, Z"...) etc. Isto é uma contradição oriunda da falta do estudo filosófico, pois a filosofia que discute como se constrói conhecimento (epistemologia) não trabalha pressupondo inexistência(s) - ela investiga o que ela desconhece e afirma o que existe/ o que foi descoberto e entendido. 
Por um outro lado, recentemente neste final de 2025, um jovem gravou um vídeo na internet explicando que tentou argumentar com evangélicos anticomunistas e de direita. Ele teria explicado a história da política moderna (o surgimento da esquerda e da direita após a Revolução Francesa etc), indicando como os textos do cristianismo não possuem praticamente nada contra as práticas das ideologias e políticas de esquerda modernas. Os evangélicos (em resposta) teriam apelado para a ideia de que se trata de uma "guerra espiritual" para além da política e da vida cotidiana. O jovem aparentemente chocado, entendeu que tanto os líderes evangélicos conservadores de direita como seus respectivos seguidores ou fiéis não se importam mais com os fatos, porque sendo uma "guerra espiritual", nada do que acontece no mundo faria eles mudarem de ideia. De fato, ele tem um ponto, mas vale lembrar que se esses conservadores que compõem a direita religiosa, usam argumentos de suposto teor espiritual, então eles podem e devem ser combatidos dentro do tema espiritual. Nada impede alguém mais ético, ou seja, que respeite a universalidade seja da fé ou do direito à vida etc, refute as falácias de evangélicos de direita/ capitalistas a respeito de temas religiosos ou "espirituais". Os argumentos de guerra espiritual apresentados por conservadores e/ ou capitalistas ("direitistas" assumidos ou não) são obviamente mera retórica esvaziada de ética para defender religiosos enriquecidos, manter fiéis na ignorância e controlados e criar inimigos externos - sendo assim esses argumentos são uma questão filosófica de moral e ética e de discussão sobre o que é verdade e/ ou conhecimento; Não há necessidade de se prender exclusivamente a evidências ou a cientificidade para expor tais farsantes.
No final das contas, os estudiosos que criticam todos elementos da espiritualidade, caem no cientificismo que não é novidade alguma, pois existe ao menos desde o século 19; Se for para criticar as religiões, critique o que há de realmente nocivo nelas: líderes enganando massas para obter riqueza e status, contradizendo os ensinamentos de Jesus e seus apóstolos, "fiéis" se alienando em ignorância e em intolerância à universalidade etc. Indique o que é coerente e benéfico, ao invés de propagar uma "nova" ideologia dogmática baseada em reducionismos com discursos de cientificidade: O componente emocional e social que existe no simples conceito de religião não pode ser apagado exclusivamente por racionalidade nem por supostas evidências materiais - por isso o argumento tosco da "guerra espiritual" convence muita gente. Afinal espiritualidade e religiões existem há milênios sendo quase tão antigos quanto os sentimentos e as emoções, mas pessoas podem manipular tais conceitos impactando em suas expressões e práticas, assim como também podem mentir e omitir sobre qualquer outro tema, argumento ou ideia. A mera negação de todos elementos espirituais descamba no niilismo grotesco, que geralmente fomenta o hedonismo, a ganância, o armamentismo e/ ou mais egoísmos... 

A racionalidade e o estudo empírico (com evidências etc) são importantes sim, pois foram conquistas humanas principalmente da "era moderna" que durou aproximadamente desde 1430, quando a filosofia ocidental foi retirada do domínio da igreja e a imprensa chegou à Europa, até a Segunda guerra mundial (1939-1945). Neste período que durou cerca de 500 anos, a perspectiva racional do ser humano teve maior liberdade para se desenvolver, assim como teve maior responsabilidade: Sem a propagação e a consolidação da ética entre os seres humanos e em suas respectivas interrelações, o que se viu foram vários conflitos dominados por ganância e/ ou por rivalidades. Por causa disto é importante lembrar que foi a partir da combinação do gigantesco acúmulo de bens materiais em poder de poucos multimilionários e da fomentação de ideologias segregadoras (fascismo e capitalismo, por ex.) e de ideologias racistas, portanto biologistas e niilistas (nazismo e darwinismo social, por ex.) que a era moderna acabou em duas guerras mundiais. Ignorar isto, combatendo toda e qualquer religiosidade/ espiritualidade com mero dogmatismo científico sem ética e sem universalidade é retornar ao niilismo, a ideia de que nada existe além dos corpos materiais e do espaço tridimensional e nada importa além disto; Tal ideologia desembocou na criação de armas químicas e de destruição em massa que colaborou com as maiores tragédias humanas da história.
É impossível combater ignorância com tais ideias materialistas-niilistas, porque isto é combater o esvaziamento da solidariedade, da justiça e da equidade, com mais vazios! Não há racionalidade benéfica sem estes valores que são universais. Não há conhecimento ou verdade, sem ética e sem universalidade, portanto não há conhecimento ou verdade sem filosofia.

Análise da epistemologia espírita (continuação)

Esta é a continuação da análise da epistemologia espírita realizado na postagem Amor pelo Saber, Saber Amar: Uma breve análise da epistemologia espírita a partir de um texto da Revue-spirite journal d'etudes psychologiques de 04/1864. Neste ponto do texto, Allan Kardec volta a teorizar sobre a possível ligação entre corpo e espírito - o "perispírito": 

12. ─ Posto que invisível para nós em estado normal, o perispírito não deixa de ser matéria etérea. Em certos casos, o Espírito pode fazê-lo sofrer uma espécie de modificação molecular que o torna visível e até tangível. É assim que se produzem as aparições. Esse fenômeno não é mais extraordinário que o do vapor, que é invisível quando muito rarefeito, e que se torna visível quando condensado. Os Espíritos que se tornam visíveis apresentam-se quase sempre sob a aparência que tinham em vida, pela qual podem ser reconhecidos.

13 ─ É auxiliado por seu perispírito que o Espírito age sobre o seu corpo vivo. É ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte; que produz os ruídos, o movimento das mesas e de outros objetos que ergue, derruba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente se considerarmos que entre nós os mais poderosos princípios motores se acham nos fluidos mais rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade. É igualmente com o auxílio de seu perispírito que o Espírito faz o médium escrever, falar ou desenhar. Não tendo corpo tangível para agir ostensivamente, quando quer manifestar-se, ele se serve do corpo do médium, cujos órgãos ocupa, fazendo-os agir como se fosse seu próprio corpo, e isto pelo eflúvio fluídico que sobre ele derrama.

Sobre a teoria do perispírito abordada nestes tópicos da revista (e de outras obras do autor), mencionei no texto anterior que não se trata de algo gasoso muito menos líquido: o perispírito seria composto de elementos ou energia em um estado muito sutil. É um tema inconclusivo do ponto de vista científico, ou de uma investigação pautada em mensurabilidade, pois apesar do autor especular sobre a possível composição elétrica e magnética do perispírito, em sua época não se conhecia o eletromagnetismo nem os campos eletromagnéticos dos órgãos do corpo. Hoje, no início do século 21, temos poucos estudos que avançaram sobre a relação de campos eletromagnéticos com a biologia: exames como o eletrocardiograma, o eletroencefalograma e a imagem de ressonância magnética foram desenvolvidos na medicina após a descoberta dos campos E.M. do cérebro e do coração, mas teorias sobre a consciência relacionada ao campo eletromagnético do cérebro ainda parecem incipientes ou pouco aceitas no meio científico. E ainda que estudos da relação do campo eletromagnético do cérebro com a consciência ganhem espaço na ciência, não há garantia que a discussão filosófica sobre a relação "mente-corpo" ganhe relevância na construção de conhecimento ocidental, pois ainda é preciso abertura ao diálogo com variadas culturas e como estas percebem/ entendem o ser humano e a realidade. É essencial escutar com equidade relatos de pessoas que passam por experiências entendidas como espirituais, sejam experiências boas ou ruins, particulares ou grupais/ coletivas - e estes relatos, que deveriam adentrar ao menos a psicologia, dificilmente ganham um espaço na construção de conhecimento dominante no ocidente, que é a científica tomada por pressupostos materialistas de metodologia estritamente empírica.
Vale relembrar que já na época de Kardec a ciência estava sendo tomada por um biologismo crescente - Após o positivismo iniciado poucas décadas antes do espiritismo, Charles Darwin (1809-1882) e Alfred R. Wallace (1823-1913) realizaram grandes descobertas na biologia e ideias sobre um ser humano puramente biológico foram espalhadas pelas elites intelectuais do hemisfério norte. O racismo científico já era aceito nas elites europeias pois parte dos intelectuais eram de origem burguesa e a ideia de progresso certamente sofreu influência do mercantilismo desde o século 16 e do liberalismo a partir do século 18. As descobertas sobre a seleção natural e teoria da evolução das espécies do século 19 foram levadas como verdades absolutas por alguns autores que já tentavam reduzir o ser humano ao aspecto biológico. A leitura racial do ser humano já se apoiava nas características biológicas desde os estudos de Carl Linaeus (1707-1778) e se intensificou no século do positivismo. Várias ideias preconceituosas e de viés racista eurocêntrico foram difundidas como se fossem conhecimento durante maior parte do século 19 e algumas chegaram até as duas ou três primeiras décadas do século 20: a localização de todo psiquismo em partes do cérebro (frenologia), a cranoscopia, a drapetomania e o darwinismo social. Kardec não era um biologista mas dificilmente escaparia do viés eurocêntrico da construção de conhecimento, e no âmbito do que constitui a relação entre psiquê (espírito neste caso) e corpo, o espiritismo estava dentro dos limites da época. 
As comparações utilizadas por Kardec serviam para dar uma ideia ainda imprecisa e que hoje deveríamos ter um pouco mais de recursos para reconstruí-las: o quarto estado da matéria (plasma) por exemplo pode ser considerado mais sutil que o estado gasoso (o ar etc) utilizado na comparação feita por Kardec. O eletromagnetismo mostra a ligação entre eletricidade e magnetismo que era ainda desconhecida naquela época... 

14. ─ É pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, quer para movê-la sem objetivo determinado, quer para fazê-la vibrar golpes inteligentes indicando as letras do alfabeto, para formar palavras e frases, fenômeno designado sob o nome de tiptologia. Aí a mesa não passa de um instrumento de que ele se serve, como do lápis para escrever. Dá-lhe uma vitalidade momentânea, pelo fluido com que a penetra, mas não se identifica com ela. As pessoas que, emocionadas, ao verem manifestar-se um ser que lhes é caro, beijam a mesa, praticam um ato ridículo, porque é absolutamente como se beijassem a bengala de que um amigo se serve para vibrar golpes. Dá-se o mesmo com as que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na madeira, ou como se a madeira se tivesse tornado Espírito. Quando ocorrem comunicações por esse meio, é preciso imaginar o Espírito, não mesa, mas ao lado, como ele era em vida, e como ele seria visto se no momento se tornasse visível. O mesmo ocorre nas comunicações pela escrita. Ver-se-ia o Espírito ao lado do médium, dirigindo-lhe a mão, ou lhe transmitindo o pensamento por uma corrente fluídica. Quando a mesa se ergue do solo e flutua no espaço, sem ponto de apoio, o Espírito não a levanta pela força do braço, mas a envolve e a penetra de uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza a ação da gravidade, como faz o ar com os balões e papagaios. O fluido de que é penetrada lhe dá momentaneamente uma leveza específica maior. Quando ela está plantada ao solo, está numa situação análoga à da campânula pneumática, sob a qual se faz o vácuo. Estas são comparações para mostrar a analogia dos efeitos, e não a similitude absoluta das causas. Depois disto, compreende-se que a um Espírito não é mais difícil levantar uma pessoa do que uma mesa; transportar um objeto de um a outro lugar, ou atirá-lo em qualquer parte. Estes fenômenos são produzidos pela mesma lei. Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito que corre, pois pode ficar tranquilamente no mesmo lugar, mas que lhe dá o impulso por uma corrente fluídica com o auxílio da qual a faz mover-se à vontade. Quando os golpes são ouvidos na mesa ou noutro lugar, o Espírito não bate com sua mão, nem com um objeto qualquer. Ele dirige um jato de fluido para o ponto de onde parte o ruído, produzindo o efeito de um choque elétrico. Ele modifica o ruído, como podemos modificar os sons produzidos pelo ar.
15. ─ Por estas poucas palavras pode-se ver que as manifestações espíritas, sejam de que natureza forem, nada têm de sobrenatural ou maravilhoso. São fenômenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações entre o mundo visível e o invisível, lei tão natural quanto as da eletricidade, da gravitação, etc. O Espiritismo é a ciência que nos dá a conhecer essa lei, como a mecânica nos dá a conhecer as do movimento e a óptica as da luz. Estando as manifestações espíritas em a Natureza, produziram-se em todas as épocas. A lei que as rege, quando conhecida, explica-nos uma porção de problemas olhados como insolúveis. É a chave de uma porção de fenômenos explorados e amplificados pela superstição.

Seja como tenha ocorrido os fenômenos das mesas girantes no século 19, é impossível ter evidências nos conformes da ciência de pressupostos materialista - O que temos são descrições de diferentes autores e estudiosos observando diferentes casos que aconteceram em variados pontos do "eixo" Europa - América do Norte e as descrições de Kardec parecem ter seriedade e interesse em investigar os fenômenos. Afirmações do tipo "ah, os fenômenos do século 19 envolvendo espiritismo e espiritualismo devem ter sido casos de alucinações coletivas" são generalistas por desconsiderar toda a amplitude e variedade de casos e também são enviesadas nos conformes da pré suposição da inexistência da alma/ de espíritos. Uma construção de conhecimento séria e ética não parte de tal pressuposição excludente e limitante. Kardec então buscou construir conhecimento como pode ser notado no texto da Revista Espírita - o espiritismo não se tratava de uma religião: Admitia que existem coisas desconhecidas, mas não tinha segredos, hierarquia nem liturgias.

16. ─ Afastado completamente o maravilhoso, tais fenômenos nada mais têm que repugne à razão, porque vêm tomar assento ao lado dos outros fenômenos naturais. Nos tempos de ignorância, todos os efeitos cujas causas não eram conhecidas eram reputados sobrenaturais. As descobertas científicas foram restringindo continuamente o círculo do maravilhoso. O conhecimento desta nova lei vem reduzi-lo a nada. Assim, os que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso, provam, por isto mesmo, que falam do que não conhecem.

Neste parágrafo Kardec mostra que buscava extinguir o conceito de sobrenatural, afinal o espiritismo visava explicar toda (um)a série de fenômenos, dos quais as religiões se apropriam e os cientistas simplesmente os negam. Neste ponto entendo que Kardec tentou algo muito à frente de seu tempo - porém não era uma construção de conhecimento com universalidade, devido a estar limitada ao contexto da Europa positivista; Kardec, bem como a maioria esmagadora (ou totalidade) dos pensadores europeus do século 19, não percebia como a ciência não era só uma busca pela verdade, mas era também uma maneira de determinar o que era a verdade. O discurso de "restringir continuamente o círculo do maravilhoso" está relacionado a elevação da ciência (de origem europeia ocidental) como superior aos demais saberes. Sua separação da filosofia ocorrida por volta da primeira metade do século 19 consolidou este fato: A ciência passava oficialmente a menosprezar campos relegados à filosofia e a investigar só os fenômenos naturais com (suposta) "neutralidade" o que incluía tudo o que era perceptível no mundo e no espaço; Desta forma a filosofia ficava somente incumbida a discutir ética, ontologia, teleologia e epistemologia como se tais assuntos fossem separáveis da ciência ou irrelevantes para esta última. Claro que haviam cientistas humildes e/ ou éticos, mas muitas das ideias aceitas na ciência da época de Kardec eram racistas e elitistas e tal fato é indissociável dos pressupostos materialistas que encontraram a desculpa perfeita no biologismo pós Darwin. Como citei anteriormente, a elite intelectual certamente era em grande parte de origem burguesa desde a época de Locke, Newton e Voltaire - época esta onde o empirismo foi determinado como o meio superior de se construir conhecimento na Europa. Quando Kardec realizou suas investigações, os sistemas públicos de educação eram incipientes (a construção de conhecimento ainda era predominantemente burguesa) e além do domínio do empirismo, já haviam sido consolidadas na filosofia natural (ciência) as ideias de 4 raças humanas propagadas por Lineu, o positivismo com a hierarquização das áreas de estudo de Auguste Comte (1798-1857), o racismo científico entre outras ideias nada universais, ou seja, nada éticas (antiéticas). 
Apesar disto, tais limitações seja na ciência ou no espiritismo de Kardec, são passíveis de uma revisão pautada por valores universais: incluir valores universais na construção de conhecimento é uma tarefa da filosofia, portanto a ciência por si só, principalmente a de pressupostos materialistas/ empiristas não é capaz de aplicar a ética e o diálogo horizontal (equidade) na busca pela verdade. Para desmistificar todo tema espiritual, não basta a racionalidade ou a mensurabilidade - é preciso intenção e postura éticas, eis o porquê existem movimentos para descolonizar não só a ciência, mas a epistemologia - a filosofia, a espiritualidade e a construção de conhecimento em geral. Hoje temos autores que defendem as cosmovisões indígenas e da África "subsaariana" que foram quase apagadas por um "epistemicídio", bem como temos espíritas progressistas que realizam uma historiografia do espiritismo criticando e refutando o racismo e outras posturas preconceituosas e obscurantistas dentro do movimento. 

17. ─ Uma ideia mais ou menos geral entre pessoas que não conhecem o Espiritismo é crer que os Espíritos, apenas porque são desprendidos da matéria, devem saber tudo e possuir a sabedoria suprema. Isto é um erro grave. Deixando seu envoltório corporal, não se despojam imediatamente de suas imperfeições. Só com o tempo se depuram e se melhoram. Sendo os Espíritos as almas dos homens, como há homens de todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de maldade, o mesmo acontece entre os Espíritos. Entre eles, há aqueles que são apenas levianos e brincalhões; outros que são mentirosos, trapaceiros, hipócritas, maus e vingativos; e outros, ao contrário, que possuem as mais sublimes virtudes e o saber em grau desconhecido na Terra. Essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos mais importantes pontos a considerar, pois explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebe. É preciso aplicar-se em distingui-las. Disto resulta que não basta dirigir-se a um Espírito qualquer para ter uma resposta justa para cada pergunta, porque o Espírito responderá conforme o que sabe, e muitas vezes dará apenas sua opinião pessoal, que pode estar certa ou errada. Se ele for prudente, confessará sua ignorância sobre o que não sabe; se for leviano ou mentiroso, responderá a tudo, sem se preocupar com a verdade; se for orgulhoso, dará sua ideia como verdade absoluta. É por isto que São João, o evangelista, diz: “Não creiais em todo o Espírito, mas experimentai se os Espíritos são de Deus.” A experiência prova a sabedoria deste conselho. Haveria, pois, imprudência e leviandade em aceitar sem controle tudo o que vem dos Espíritos. Os Espíritos só podem responder sobre o que sabem e, além do mais, sobre o que lhes é permitido responder, porque há coisas que eles não devem revelar, porque ainda não é dado ao homem tudo conhecer

Kardec sabia da importância da ética não só na construção de conhecimento mas também na espiritualidade. Todos precisam despertar e viver os valores universais (que constituem a ética) e por isto ele indica que existem muitos espíritos imperfeitos. 
A necessidade de se distinguir as comunicações espirituais boas e ruins, não é exatamente uma novidade na história da humanidade: Platão aborda parte dela no diálogo Ion, onde ele mostra seu mestre Sócrates ensinando a importância de se estudar os temas que se trabalha (no caso, a poesia) e não depender somente de inspiração "divina/ daimônica"*.
*Daimonica refere-se à palavra grega daemon, que pode ser traduzida como espírito, gênio ou semi deus. Não é consenso se tem relação com o conceito cristão posterior de demônio, pois este último pode ter surgido da união das palavras demos (povo) e onios (medo). Se houver relação, é possível que a igreja tentou difamar o conceito de daemon, já que Platão apresenta uma cosmovisão diferente da instituição religiosa. 
Este espiritismo francês do século 19 então se mostrou diferente do movimento espírita posterior dominante no Brasil - no país sul americano, desde o século 20, aceita-se obras de alguns médiuns de maneira inquestionável, como se fossem verdades absolutas e sagradas, pouco diferindo de dogmas. 

18. ─ A qualidade dos Espíritos é reconhecida pela linguagem. A dos Espíritos realmente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de toda trivialidade, puerilidade ou contradição; respira sabedoria, benevolência e modéstia; é concisa e sem palavras inúteis. A dos Espíritos inferiores, ignorantes ou orgulhosos carece dessas qualidades; o vazio das ideias aí é quase sempre compensado pela abundância de palavras.

19. ─ Outro ponto a considerar, igualmente essencial, é que os Espíritos são livres. Eles se comunicam quando querem e com quem lhes convém, e também quando podem, pois têm as suas ocupações. Eles não estão às ordens e ao capricho de quem quer que seja, e a ninguém é dado fazê-los virem contra a sua vontade, nem lhes fazer dizer o que não querem, de sorte que ninguém pode afirmar que um certo Espírito virá a seu apelo em determinado momento ou responderá a esta ou àquela pergunta. Dizer o contrário é provar a absoluta ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo. Só o charlatanismo tem fontes infalíveis.

Kardec tenta traçar parâmetros para se reconhecer as boas mensagens ou boas inspirações espirituais. De fato a linguagem é um fator importante na vida humana, então quanto menos contraditória e mais alicerçada em valores universais, mais ética e mais verdadeira a mensagem. Uma linguagem ofensiva bem como uma complexidade exagerada na utilização de palavras, certamente não são sinais de universalidade nem de preocupação com o bem coletivo... 
Além disto, os espíritos sendo seres existentes em uma realidade para além da meramente material/ tridimensional, não podem ser constantemente monitorados ou controlados. Neste ponto, Kardec não só desmonta argumentos de espiritualistas charlatães que poderiam vir a alegar ter domínio sobre os espíritos ou sobre temas espirituais e até divinos, mas também abala a ideia de que o conhecimento superior ou universal dependa da reprodutibilidade típica da ciência "mainstream". Isto porque, apesar de Kardec não discutir como a realidade espiritual poderia ser adimensional ou estar para além do mero espaço tridimensional (mencionei no texto anterior sobre a descoberta matemática do conceito de quarta dimensão), é óbvio que a ciência de viés positivista se limita a investigação empírica (sensorial) de pressupostos materialistas (parte da suposição de que não há nada além da matéria perceptível e do espaço tridimensional). Este método de investigação dominante na ciência, juntamente com sua pré suposição, desde o século 19 não é capaz de aceitar a possibilidade de que a psiquê sobreviva após a morte do corpo, nem de que haja algo relevante além do espaço tridimensional e por isso crê que somente o reprodutível é verdadeiro ou importante.  

20. ─ Os Espíritos são atraídos pela simpatia, pela similitude dos gostos e dos caracteres e pela intenção que faz desejada a sua presença. Os Espíritos superiores não vão a reuniões fúteis, do mesmo modo que um cientista da Terra não iria a uma reunião de jovens estúrdios. Diz o simples bom-senso que não pode ser de outro modo; ou, se por vezes aí vão, é para dar um conselho salutar, combater os vícios, tentar reconduzir ao bom caminho. Se não forem escutados, retiram-se. Seria fazer uma ideia completamente falsa pensar que Espíritos sérios se comprazem em responder a futilidades, a perguntas ociosas, que nem provam interesse nem respeito por eles, nem real desejo de instruir-se e, ainda menos, que possam vir dar espetáculo para divertir curiosos. Se não o fizeram em vida, não farão depois de mortos.

Embora possa parecer que o autor, ao falar da simpatia entre espíritos, da comparação com o cientista e de se combater "vícios", abordou diferentes temas aqui, trata-se da relação entre bons sentimentos, raciocínio e interesse pelo conhecimento e ética! Esta lógica mais uma vez é condizente com a filosofia de Platão (e possivelmente com obras de outros filósofos também), pois demonstra para a construção de conhecimento, a importância de aspectos psíquicos e existenciais centrados na universalidade, na justiça e no bem, enfim valores universais/ éticos. 

21. ─ Do que precede resulta que toda reunião espírita, para ser proveitosa, deve, como primeira condição, ser séria e recolhida; que aí tudo deve passar-se respeitosamente, religiosamente, com dignidade, se se quiser obter o concurso habitual dos bons Espíritos. É preciso não esquecer que se esses mesmos Espíritos aí se tivessem apresentado quando vivos, teriam tido por eles considerações às quais têm ainda mais direito depois de mortos. Em vão alegam a necessidade de certas experiências curiosas, frívolas e divertidas para convencer os incrédulos: o que acontece é de resultado negativo. O incrédulo, já inclinado a troçar das mais sagradas crenças, não pode ver uma coisa séria naquilo de que fazem pilhérias; não pode ser levado a respeitar aquilo que lhe não é apresentado de modo respeitável. Assim, reuniões fúteis e levianas, dessas onde não há ordem nem seriedade nem recolhimento, ele sempre leva uma impressão má. O que pode convencê-lo é, sobretudo, a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara. É diante de suas palavras graves e solenes, diante de revelações íntimas que o vemos empalidecer e comover-se. Mas, pelo próprio fato de que há mais respeito, veneração e apego à pessoa cuja alma se lhe apresenta, ele fica chocado de vê-la vir a uma assembleia irreverente, entre mesas que dançam e chocarrices de Espíritos levianos. Por mais incrédulo que ele seja, sua consciência repele essa aliança entre o sério e o frívolo, entre o religioso e o profano, razão por que taxa tudo de palhaçada, e por vezes sai menos convencido do que quando entrou. As reuniões desse gênero sempre fazem mais mal do que bem, porque afastam da doutrina mais gente do que atraem, sem contar que oferecem o flanco à crítica dos detratores, que aí acham fundados motivos para troça.

22. ─ É um erro transformar as manifestações físicas em divertimento. Se elas não têm a importância do ensino filosófico, têm sua utilidade do ponto de vista dos fenômenos, porque são o á-bê-cê da ciência da qual deram a chave. Posto que hoje menos necessárias, ainda ajudam na convicção de certas pessoas. Mas não excluem, absolutamente, a ordem e a compostura nas reuniões onde se fazem experiências com elas. Se fossem sempre praticadas de maneira conveniente, convenceriam mais facilmente e, sob todos os aspectos, produziriam resultados muito melhores.

Eis um desafio para a prática espírita: Kardec propõe que ela não seja superficial e sim que seja profunda e bem intencionada. As práticas devem não somente se pautarem em valores universais, mas também exigem certa concentração, sinceridade na postura e intenção ética. O recolhimento citado pelo autor é uma palavra certamente usada na Europa ocidental ao menos desde a renascença. Ela parece se referir a um estado similar à meditação, que é mais comum nas culturas orientais e se refere a uma prática em grande parte da espiritualidade ou da religiosidade. Aquietar a mente, buscar o silêncio, o autocontrole etc... São fatores importantes não só para a pessoa pausar ou buscar uma saúde mental dentro de uma civilização dominada por um sistema econômico mercantil e uma ideologia capitalista - Na verdade, é um distanciamento de tal superficialidade e objetificação do ser humano, pois é cuidar do sentido existencial, de um nível mais profundo relacionado à psiquê, e a possibilidade da transcendência: este último um elemento da espiritualidade e da religiosidade. 
Certamente praticar as reuniões espíritas da maneira que Kardec propôs traz semelhanças a alguns ensinamentos de Jesus e de mestres/ yogues do sanatana dharma. Salvo as possíveis diferenças teológicas ou filosóficas entre espiritismo e espiritualidade "hindu", ambas trabalham a existência para além da pressuposição materialista e reducionista e requerem por parte de seus praticantes uma combinação de empenho, postura humilde, objetivos solidários e de progresso espiritual; Progresso esse que seus frutos podem ser percebidos não só em um despertar da moral de indivíduos, pois em algum nível é ético (uma moral sem ética tende ao moralismo) e social, colaborando com a formação de sociedades mais justas, equitativas nas esferas ideológica e material.

23. ─ Sem dúvida estas explicações são muito incompletas e necessariamente podem provocar numerosas perguntas, mas não se deve perder de vista que isto não é um curso de Espiritismo. Tais quais são, bastam para mostrar a base sobre a qual ele repousa, o caráter das manifestações e o grau de confiança que podem inspirar, conforme as circunstâncias. Quanto à utilidade das manifestações, ela é imensa, por suas consequências. Entretanto, ainda que só tivessem como resultado dar a conhecer uma nova lei da Natureza e demonstrar materialmente a existência da alma e a sua imortalidade, já seria muito, porque seria uma larga via aberta à filosofia.

Como diz o próprio autor, muitas dúvidas (e questionamentos) podem surgir em relação ao espiritismo, mas vale ressaltar que ele reconhecia uma importância em construir um conhecimento aberto à filosofia. Isto porque a filosofia ocidental por exemplo, desde sua origem no século 4 a.C. com Platão que reuniu várias teorias anteriores em um corpo de obras coeso, trabalha a construção de conhecimento com universalidade, ética e um rigor, ainda que este último elemento seja bem diferente do rigor da ciência que se espalhou do século 19 em diante. Embora a ética platônica possa ser percebida em maior parte dos textos do filósofo, o rigor da construção de conhecimento proposta por Platão pode ser entendido melhor nas obras A República, Crátilo, Teeteto, e, principalmente em Sofista e Parmênides.
A obra de Kardec então não traz uma verdade absoluta, pois não é uma religião apoiada em dogmas e/ ou hierarquia. Nem é charlatanismo, pois não visa tirar vantagens das pessoas nem trazer poder ou bens materiais ao autor e seus colegas. O espiritismo francês durante o século 19 se mostrou uma investigação aberta ao diálogo entre ciência e espiritualidade e com algum grau de inter religiosidade. Teve suas imprecisões e limitações? Certamente, mas colaborou com uma visão mais ampla do ser humano do que a proposta pelo materialismo e com uma cosmovisão que possibilita uma construção de conhecimento mais abrangente e menos excludente. 

Só ciência não resolve charlatanismo: é preciso Filosofia

 Escrevo este texto após ser bombardeado por sugestões um tanto decepcionantes do algoritmo: particularmente vídeos sobre ciência que as red...