Uma breve análise da epistemologia espírita

Conforme expliquei em um texto anterior, decidi analisar o espiritismo fundado por Allan Kardec na França não como mera religião, nem como uma área (não) aceita na ciência, mas como uma tentativa de construir conhecimento (um tanto filosófico) sobre uma série de fenômenos. A síntese apresentada aqui toma como base um texto do autor escrito em sua Revue-spirite journal d'etudes psychologiques de 04/1864: 

 "1. ─ O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais decorrentes dessas relações." 
 
 Como citei anteriormente, ao observar uma série de casos e relatos na França do séc. 19, o espiritismo iniciado por Kardec não partia da certeza da "não existência" da alma e dos espíritos. Mesmo porquê pressupor inexistências é se apoiar em negações e contradizer a filosofia em sua raiz platônica. Claro, que alguns podem afirmar que a ciência após Kardec conseguiu rastrear "áreas ativadas" no cérebro quando a pessoa tem alucinações ou supostas alucinações, mas o espiritismo trata de fenômenos mais complexos e amplos do que visões ou audições individuais. O espiritismo em sua postura de não pressupor inexistência, se aproxima da construção de conhecimento da filosofia ocidental em sua raiz/ cerne, que propunha a presunção da ignorância ao iniciar uma investigação. Além disto, ao buscar construir conhecimento de modo mais próximo à raiz platônica da filosofia, o espiritismo acaba demonstrando uma semelhança de postura básica com a suspensão de pressupostos da fenomenologia lançada pelo filósofo e matemático Edmund Husserl (1859-1938). Tal postura inicial para se investigar fenômenos que lidam com o psiquismo humano se mostra universal, pois não relega saberes e relatos relacionados à espiritualidade de diferentes culturas ao status de meras mentiras ou psicopatologias.
E porque Kardec fala de "consequências morais"? Certamente por 2 motivos: Os fenômenos ou relatos estudados envolviam frequentemente a psiquê humana - psicografar, observar objetos se mover com padrão inteligente sem interação de corpos, ouvir vozes, ter visões com ou sem espacialidade (este último caso, é a "percepção" mental, chamada de clarividência ou clariaudiência pelos espíritas) etc. Além disto, vários temas envolvendo a psiquê (a alma encarnada ou desencarnada, de acordo com o espiritismo) tocam questões morais e portanto éticas - assunto da filosofia e não da ciência de pressupostos e métodos reducionistas; 

 "2. ─ Os Espíritos não são, como por vezes os imaginam, seres à parte na criação. Eles são as almas dos que viveram na Terra e em outros mundos. As almas ou Espíritos são, pois, uma só e a mesma coisa, de onde se segue que todo aquele que crê na existência da alma, por isso mesmo crê na dos Espíritos."
 
 Isto diferencia o espiritismo de parte das religiões cristãs institucionalizadas, como a católica e a evangélica. Baseando-se nos textos do evangelho, não há consenso se Jesus, que recebeu o título de Cristo - base dos termos "cristão" e "cristianismo", definiu os espíritos como seres à parte na criação ou não. Sem um consenso referente aos textos do evangelho atribuídos aos apóstolos de Jesus, certamente restam somente interpretações e ideias propagadas por religiosos que viveram séculos após Jesus. Tais interpretações dos evangelhos são obras dos "pais da igreja" ou pré suposições impostas nos concílios da igreja ao longo da história antiga ou medieval. Partindo da lógica que temos alma e esta é imortal, o espírito em nada difere da alma. Chamar separadamente o espírito ligado ao corpo (encarnado) de alma e o desencarnado de espírito tem pouca utilidade no espiritismo. Tal possível utilidade deve ser abordada em um próximo texto.

 "3. ─ Geralmente as pessoas fazem uma ideia muito falsa do estado dos Espíritos. Eles não são, como alguns pensam, seres vagos e indefinidos, nem chamas, como fogos-fátuos, nem fantasmas, como nos contos de aparições. São seres semelhantes a nós, com um corpo como o nosso, mas invisível e fluídico em estado normal."
 
 Este tema é melhor explicado em outras obras como o Livro dos Espíritos. O espírito é incorpóreo - de modo similar a nossa atividade mental: ninguém pode pegar um pensamento ou sentimento com um bisturi e dividi-lo - apenas é possível rastrear seus efeitos eletroquímicos no sistema nervoso, pelas sinapses e talvez pelos campos eletromagnéticos do coração, do cérebro etc. A pré suposição dominante na ciência no mínimo desde a época de Kardec, é que a mente é o cérebro, ou que não há mente nem alma: só o cérebro e o corpo humano. Tal pressuposto afirma que se algo não é observável nem reprodutível sob controle humano, não existe. Deste modo a ciência nega o conceito de alma e contradiz a raiz da filosofia ocidental (Platão, por exemplo), pois também reduz a ética e os valores universais ao status de opinião e valores individuais. 
 O corpo "fluídico" citado, que dá a forma ou aparência ao espírito, é explicado, ou teorizado, a seguir. 

 "4. ─ Quando a alma está unida ao corpo, durante a vida, tem um envoltório duplo: um pesado, grosseiro e destrutível, que é o corpo; outro fluídico, leve e indestrutível, chamado perispírito. O perispírito é o elo que une a alma ao corpo. É por intermédio dele que a alma faz o corpo agir e que percebe as sensações experimentadas pelo corpo."
 
 O espiritismo não nega a existência do corpo nem argumenta que este só existe quando percebido por outrem. Assim o espiritismo, embora dê uma ênfase ao espírito, não é um pressuposto meramente idealista nem exclusivamente mentalista, fazendo alegações como: só o espírito é real, todos os corpos são ilusões ou coisas do tipo. Ele simplesmente vai além do materialismo, indicando a importância da alma/ espírito, de modo parecido com os estudos de Platão, que ao mirar no que é uno e imutável (a ética), acabou indicando a imortalidade da psiquê (termo que engloba alma e mente, unindo-os como un só coisa) e a importância do cognoscível. 
 O conceito de perispírito pode parecer mais polêmico por se tratar do que há entre o corpo e a mente (alma), que é uma discussão no mínimo desde a época de René Descartes (1596-1650). Certamente por também não detectar este agente intermediário sob uma investigação controlada (empírica), ocorreu a predominância dos pressupostos materialistas na ciência - ao estudarmos a história da filosofia e da ciência desde Descartes até a época de Kardec, isto fica claro. 
 Note que a utilização do termo "fluídico" é restrita à época de Kardec, principalmente aos espíritas, mas têm semelhanças e possíveis relações com os estudos de Franz Mesmer (1734-1815). Mesmer teorizou que assim como os minerais podem ter magnetismo, os vegetais e os animais (ser humano incluso) também deveriam ter. Apesar de exercer alguma influência na sociedade ao tentar realizar "curas magnéticas", Mesmer foi criticado não só por não conseguir explicar toda sua teoria e prática, mas também foi difamado por opositores e discordantes de suas ideias. Kardec reconhece algum valor nas obras de Mesmer em uma de suas Revistas Espíritas e nestes mesmos editoriais, o professor francês estipula que o perispírito poderia ser explicado futuramente com novas descobertas sobre a eletricidade e o magnetismo. De fato, muitos anos depois, entre 1963 e 1968, David Cohen e James Zimmerman descobriram que órgãos do corpo humano, como o cérebro e o coração por exemplo, possuem um campo eletromagnético - porém os estudos de tais campos e sua respectiva finalidade e relação com atividades neuronais e/ ou psíquicas permanecem tímidos e recebem resistência de grande parte das áreas médicas como a neurologia etc. 

 "5. ─ A morte é apenas a destruição do envoltório grosseiro. A alma abandona esse envoltório como se deixa uma roupa velha, ou como a borboleta deixa a sua crisálida, mas ela conserva o seu corpo fluídico, ou perispírito. A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem. A alma e o perispírito, separados do corpo, constituem o ser chamado Espírito."
 
 Em inúmeras culturas espalhadas pelo globo terrestre desde antes das eras dos metais/ antiguidade existiram "xamãs" e outros indivíduos que lidavam com espíritos, fossem esses considerados "da natureza", de ancestrais, ou de ambos. Apesar das diferenças entre tais culturas, todas elas tinham um modo de lidar com a morte ou passagem deste mundo para outra realidade. Obviamente a explicação de Kardec sobre o assunto está mais para teórica/ dialética reflexiva do que empírica, uma vez que em sua época nem os campos eletromagnéticos dos órgãos haviam sido descobertos. O períspirito aparece em explicações espíritas de outros fenômenos além da "morte" do corpo. Tal argumento parece ser utilizado em casos onde espíritos interagem com corpos materiais como o das "mesas girantes" do século 19 que incitou a curiosidade de Denizard antes de escrever sobre o assunto. Estes fenômenos envolvendo o perispírito incluem pancadas, "possessões" e curas e parece ter relação com os de pessoas de épocas anteriores a Kardec, que mencionavam "maus ares" ou "gases sutis" para explicar casos de bruxas e seus animais familiares. Como exemplo deste tipo de argumento existem algumas obras peculiares de Joseph Glanvill (1636-1680) que apresentem ideias certamente mais rústicas e imprecisas do que as da época de Kardec - afinal na Europa do século 17, quando ocorriam variadas caças às bruxas seguidas de execuções, era mais difícil criar toda uma teoria sobre o espírito sem ser ameaçado pelo poder das igrejas. Para Kardec então, o ser encarnado é o espírito com seu corpo "fluídico" (períspirito) mais o corpo (material), enquanto o ser desencarnado é só o espírito e seu respectivo períspirito. O autor constrói tal argumento sem contradizer a ciência de seu tempo, pois existiam e ainda existem grandes lacunas no conhecimento e muitos temas a serem descobertos e investigados. 

 "6. ─ A morte do corpo desembaraça o Espírito do envoltório que o ligava à Terra e o fazia sofrer. Uma vez livre desse fardo, ele tem apenas o seu corpo etéreo, que lhe permite percorrer o espaço e transpor distâncias com a rapidez do pensamento."
 
 Kardec chamava o perispírito de corpo etéreo, possivelmente porque o conceito de éter era aceitável na ciência de seu tempo, mas neste parágrafo abordarei mais o conceito de espírito/ alma. 
 Utilizando-se dos "médiuns ativos", Kardec em sua época, dialoga com espíritos que explicam alguns pormenores de como os espíritos percorrem distâncias e tais assuntos foram publicados em algumas edições das Revistas Espíritas. Resumidamente, o espírito desencarnado, que tem só seu corpo "etéreo" ou "fluídico" ignora praticamente todos obstáculos materiais, porém a locomoção parece influenciada conforme seu desapego ou apego ao mundo corpóreo/ material e conforme suas afinidades com ideias e princípios de outros espíritos encarnados ou desencarnados. A "vida após a morte" ou sobrevivência da psiquê, também abordada em antigas obras da filosofia, é um assunto que trabalha a esperança: A esperança de reencontrar seres amados, de justiça ou de novas chances para se viver. Apesar disto, ela lida com o desconhecido, por isso a opinião humana varia muito sobre o tema: desde medo diante o desconhecido, até dúvida, recusa ou desprezo por tal ideia. A verdade é que o conceito de "não existência" do espírito e de sua imortalidade parece ter ganhado força gradualmente nas elites intelectuais e econômicas da Europa na Era Moderna, mais especificamente na transição da renascença ao iluminismo. O conceito de não existência não é uma construção de conhecimento, como já mencionado neste texto: De acordo com Platão, tudo o que é desconhecido ou onde há dúvida, é passível de ser investigado; Não se pode afirmar sobre a inexistência de algo, pois se algo não existe, não pode ser conhecido. Portanto afirma-se sobre o que se conhece e o resto se investiga (não só cientificamente, mas filosoficamente) ou fica restrito à mera opinião. 

 "7. ─ O fluido que compõe o perispírito penetra todos os corpos e os atravessa, como a luz atravessa os corpos transparentes. Nenhuma matéria é obstáculo para ele. É por isso que os Espíritos penetram em toda a parte, nos lugares mais hermeticamente fechados. É uma ideia ridícula crer que eles entrem por uma pequena abertura, como o buraco de uma fechadura ou a chaminé."
 
 Cientificamente parece que era (e certamente ainda é) impossível abordar tal tema. Apesar de especular sobre a relação do perispírito com a eletricidade e o magnetismo em alguns de seus textos no Livro dos Médiuns e Evocadores e nas Revistas Espíritas, Kardec constrói tais argumentos via diálogo e reflexão, sem análise sensorial amplamente aceita: uma ou outra pessoa pode alegar sentir algum estímulo sensorial de origem desconhecida que poderia ter relação com o conceito de perispírito, mas fenômenos públicos deste tipo são muito raros e não reprodutíveis, devido a origem psíquica/ intencional relativa ao(s) espírito(s). Também vale relembrar que a física (ciência) da época de Kardec era newtoniana: tratava o espaço (tridimensional) como algo absoluto e assim ficava difícil imaginar que os espíritos fossem independentes do espaço. 

 "8. ─ Os Espíritos povoam o espaço. Eles constituem o mundo invisível que nos rodeia, em meio ao qual vivemos, e com o qual estamos em contato incessante."
 
 Como mostrado anteriormente, os espíritos podem interagir através do espaço, mas certamente não se limitam a ele - esta era uma possível interpretação com limitações típicas da maior parte do século 19; O astrofísico germânico, Johann K F Zollner (1834-1882) teorizou que alguns dos fenômenos "mediúnicos" poderiam estar relacionados à quarta dimensão, mas não obteve grande aceitação no meio científico por variados motivos. Tal conjectura não é impossível, mas parece ficar em um impasse; Apesar da quarta dimensão " ter sido uma descoberta matemática que serviu de base para Hermann Minkowski (1864-1909) explicar o "tempo quadrimensional", posteriormente utilizado na teoria da relatividade de Albert Einstein (1879-1955), ela se trata de algo não investigável pelo método empírico. Assim tal saber certamente permanece pouco conhecido e relegado ao campo de teorias ou taxado como sendo de pouca aplicabilidade. 

 "9. ─ Os Espíritos têm todas as percepções que tinham na Terra, mas em mais alto grau, porque suas faculdades não são amortecidas pela matéria; têm sensações que nos são desconhecidas; veem e ouvem coisas que os nossos sentidos limitados não nos permitem ver nem ouvir. Para eles não há escuridão, salvo para aqueles cuja punição é ficarem temporariamente nas trevas. Todos os nossos pensamentos repercutem neles e eles aí leem como num livro aberto, de sorte que aquilo que poderíamos ocultar a qualquer um quando vivos, não o podemos mais, se ele é Espírito."
 
 Kardec detalha melhor as percepções dos espíritos ao longo de suas obras (revistas inclusas) - Resumidamente ele explica que a moral (que não é algo meramente individual, portanto trata-se de valores universais e ética) influencia na percepção dos espíritos: quanto mais ético/ puro (justo, benevolente etc), mais apuradas as percepções do espírito. De fato é mais difícil ocultar pensamentos e atividades mentais ante um espírito pois estes independem dos corpos, mas mesmo isto tem algumas variações conforme as explicações da obra espírita (de afinidade, possível nível moral do espírito etc). Por fim, a "punição" é um conceito perigosamente simplório: é claro que há justiça tanto na visão espírita como há nas religiões e na filosofia; mas vale lembrar que Kardec e os demais espíritas se pautam principalmente nos ensinamentos de amor piedoso de Jesus e este diz "nem meu Pai julga" e "hipócrita, tirai primeiro o ramo do próprio olho, e então verá o cisco no olho alheio". Desta forma, a "punição' é entre o indivíduo que erra e a lei divina, pois "aquele que se orgulha de sua obra má, teme a luz e foge para a escuridão" - o espírito moralmente inferior nada pode ocultar daqueles que são verdadeiramente benevolentes, justos e piedosos. Estes são alguns indícios (entre outros) de que o espiritismo também está de acordo com a filosofia de Platão - para o filósofo, as virtudes ou excelências como a coragem, a moderação/ auto controle, a justiça e a bondade/ beleza psíquica estão relacionadas à verdade, pois são imutáveis (não se desgastam com o tempo) e unas (universais, não relativas nem meramente individuais). O hiper ouranos citado por Platão na obra Fedro, faz alusão a uma dimensão não só alcançada por algum tipo de transe ou estado alterado da consciência (as manikes e mantikes aobrdadas no texto), mas também a uma realidade sem malevolência onde os "deuses" viveriam.

 "10. ─ Os Espíritos conservam as afeições sérias que tinham na Terra. Eles sentem prazer em voltar para junto das pessoas que eles amaram, sobretudo quando são para elas atraídos pelo pensamento e pelos sentimentos afetuosos que lhes são dedicados, ao passo que são indiferentes em relação àqueles que lhes votam apenas indiferença."
 
 O amor sincero e sem interesses particulares é um exemplo de afeição que se propaga através do espírito para além da mera vida material. Este argumento aborda a importância de bons sentimentos como esperança, amor e serenidade e está de acordo com os ensinamentos de Jesus e até mesmo de outras religiões. Uma visão mais universal como esta tem maior abertura ao diálogo inter religioso pois trata-se de uma espiritualidade aberta e ética. Aqui também nota-se que o espiritismo não trata só da perspectiva racional da consciência, pois aborda os sentimentos de modo transcendente, para além da vida corpórea;

 "11. ─ Os Espíritos podem manifestar-se de muitas maneiras diferentes: pela visão, pela audição, pelo tato, pelos ruídos, movimento de corpos, escrita, desenho, música, etc. Eles se manifestam por meio de pessoas dotadas de uma aptidão especial para cada gênero de manifestação, e que são designados pelo nome de médiuns. É assim que se distinguem os médiuns videntes, falantes, audientes, sensitivos, de efeitos físicos, desenhistas, tiptologistas, escreventes, etc. Entre os médiuns escreventes há numerosas variedades, conforme a natureza das comunicações que são aptos a receber."
 
 Em outros pontos de sua obra, Kardec admite que todo ser humano é médium - o que difere cada um é a frequência e intensidade com que ocorrem as percepções/ contatos mediúnicos; Muitas pessoas podem passar toda uma vida sem perceber fenômeno algum, outros podem confundir; alguns podem ter por um determinado período, enquanto outros têm pela vida todo; Os motivos são os mais variados possíveis, pois envolvem necessidades particulares e coletivas, estágio psíquico e moral que se encontram as pessoas, disponibilidade, cultura etc. Ao longo de sua obra Kardec mostra um certo esforço em classificar os médiuns, mas isto tem as limitações de sua cultura e época.

Entender o espírito humano como incorpóreo não completamente a parte do corpo, mas em relação com este, possibilita uma postura de respeito verdadeiro às áreas da ciência e às religiões - pois o espiritismo trazido por Kardec não é uma religião com hierarquias ou ritos e tem poucos pressupostos ou dogmas: A imortalidade do espírito, a reencarnação e Deus onipresente e não-pessoal, baseado nos ensinamentos de Jesus os quais não detalharei aqui; 
Embora seja possível afirmar que não existam "provas" suficientes de um agente intermediário entre corpo e mente, o conceito de perispírito não é menos provável que o materialismo que reduz a vida ao corpo e aos efeitos eletroquímicos neste. Não foram encontrados marcadores biológicos para todos problemas mentais do ser humano e reduzir sentimentos e sentido existencial a meros efeitos neurológicos é negar cosmovisões, portanto é uma postura antiética. O materialismo, seja um empirismo ou qualquer outro que nega o psiquismo e o espírito, pode afirmar que busca construir um conhecimento com "rigor científico" baseado em "evidências", mas em última instância se apoia em negação e impõe uma visão da realidade que apesar de contrária às religiões em geral, é tão dogmática como muitas visões religiosas da realidade. 
 Embora Kardec não se empenhe em discutir a construção de conhecimento comparando pressupostos, que de certo modo, são pré suposições, Platão o faz ao longo de sua obra, e mais profundamente em  seus textos "Teeteto" e "Sofista". O filósofo grego indica que reduzir tudo à matéria ou ao espírito, são teorias incompletas e assim propõe uma construção de conhecimento aberta, pautada por valores universais, unindo epistemologia, ontologia e ética.
Por sua vez, ao invés de negar visões de mundo, o espiritismo possibilita um enfoque na ética, não muito diferente da filosofia iniciada por Platão: O ser humano deve trabalhar sua moral individualmente de um modo pedagógico e também filosófico, e isto não o isola da realidade material, portanto, ele deve se desenvolver eticamente nas relações em geral; Quando colocado em prática, este trabalho com uma postura universal do ser humano resulta em uma sociedade/ civilização mais justa, equitativa e enfim, ética. Assim o espiritismo não se reduz a um campo da ciência nem a uma religião, ele serve de base epistemológica respeitando normalmente outras áreas do conhecimento, simplesmente reconhecendo uma realidade para além da material. Trata-se de um "pressuposto" ou base teórica mais aberto(a) e portanto mais amplo do que os exclusivamente materialistas ou idealistas, possibilitando diálogo com diversas culturas e com a espiritualidade em geral, seja religiosa ou não. 
Ainda que Kardec pudesse discordar de pontos de uma ou outra religião, em seus textos, ele indica que o tempo mostrará quais estão mais ou menos certas - isso é evitar impor sua visão de realidade sobre os outros - elemento ausente em muitas religiões e na corrente principal da ciência que é materialista, relegando todo relato/ argumento espiritual à condição de alucinação (estado patológico etc) ou à mentira.

Em um próximo texto devo completar a análise deste artigo de Kardec e trazer reflexões filosóficas sobre o que deve haver entre a psiquê humana e o corpo; Há quem diga que isto é questão de pressuposto, mas a importância de tal tema não deve se reduzir a uma mera "neutralidade" racional/ científica, pois não há epistemologia (construção de conhecimento) sem ética e consequentemente não há conhecimento, verdade ou justiça sem universalidade e sem filosofia. 

A formação psicoemocional/ afetiva e as perspectivas da consciência humana

 O porque vivemos numa era de propagação de mentiras (fake news) e de polarizações (rivalidade entre grupos de opiniões políticas, econômicas ou religiosas diferentes entre si)?

Certamente existem muitas causas e as mais notáveis são observáveis em nosso meio: através das mídias (internet, redes sociais, televisão...) Notícias falsas e mentiras espalhadas através de meios de comunicação em massa podem ser desde notícias que omitem informações importantes, matérias sensacionalistas para atrair leitores (ou cliques) ou difamações de determinadas pessoas ou grupos. Já as polarizações, ou mais precisamente, a criação e/ ou intensificação de rixas entre variados grupos de pessoas, ocorrem não só por diferenças entre opiniões políticas e religiosas, mas também pelo fator mencionado anteriormente: notícias falsas, omissões de informações que afetam o público/ a sociedade, sensacionalismo, propagação de mentiras para atacar alguns grupos em prol de outros etc. 

Mas estamos falando de seres humanos aqui e não de objetos ou coisas. Além dos interesses particulares de grupos que detém o poder de uma religião, de segmentos de mercado e empresas ou de partidos políticos, nós temos enormes quantidades de seres humanos com variadas expectativas, preferências, culturas, formações e vieses... Além das condições econômicas/ sociais, temos a educacional não só referente a escolaridade, mas também referente à criação e ao desenvolvimento humano. E desenvolvimento humano não é só biológico e/ ou social: ele é afetivo/ emocional, abrangendo parâmetro de sentimentos e da expressão destes/ das emoções, referência de bem estar psíquico e/ ou segurança psíquica, sentido existencial, de vida e coisas assim. Estas questões tidas como meramente complementares por muitos, na verdade são centrais para o ser humano;

Aqui falo partindo não só de minha experiência de vida, mas também da experiência como psicólogo; Cada ser humano que crê em uma mentira ou que consome conteúdo sensacionalista tem uma história de vida e possíveis motivos para aderir a tais "ideias". Sim, a educação adequada seria libertadora: aumentaria a chance de cada pessoa entender seu entorno para conviver em paz, com equidade de oportunidade e respeito à toda cultura e à toda forma de vida. Mas para além da educação nas escolas e faculdades, temos a educação "caseira" ou familiar. Esta começa desde que o ser humano é bebê, ou até mesmo desde quando está no ventre da mãe. Ela envolve o afeto, o respeito e a atenção à criança - um ser extremamente vulnerável que precisa da ajuda dos pais (ou de cuidadores). A fase vulnerável do ser humano então dura desde que ele está no ventre da mãe até a adolescência. Claro que há óbvias diferenças entre o bebê e o adolescente, pois este último está se tornando adulto, porém ambos estão em desenvolvimento e são dependentes dos adultos embora em diferentes graus. 

Abordemos a criança: antes de aprender a falar, ela começa descobrir o próprio corpo e o espaço em seu entorno. Ela tem necessidades apesar de não conseguir se expressar pela principal forma de comunicação humana, que é a verbal, seja falada ou escrita. Este deve ser um dos motivos pelo qual o filósofo, médico e psicólogo, Henri Wallon (1879-1962) identificou as emoções como um fator importantíssimo para a criança na fase em que ela ainda não sabe falar e quando começa aprender as primeiras palavras: o olhar, o semblante, as expressões faciais, o tom de voz (etc) são determinantes na comunicação, formando um parâmetro de sentimentos para criança e sua respectiva personalidade. Dependente em praticamente tudo, a criança precisa de segurança, esta que vem de seus pais ou cuidadores. Caso ela não tenha esta experiência, ou caso esta experiência seja severamente deficiente (por variadas razões ou motivos), a criança sofrerá consequências psíquicas - seja em seu parâmetro do que são emoções exprimíveis, do que é segurança, o que é felicidade...

Toda a experiência infantil molda esta significante parte da psiquê humana e se a expressão de sentimentos for danosa, a criança dificilmente consegue reparar tal dano; Imagine uma criança que nos primeiros anos de sua vida não foi bem acolhida pelos pais - Crianças tratadas como estorvo, com pais presentes só de corpo (ou menos que isso) e que dão só o mínimo de atenção, são exemplos de que praticamente não houve receptividade na relação. Se a criança é deixada chorando por qualquer sofrimento por períodos prolongados, sem perspectiva de alívio ou compreensão dos pais, há um impedimento ou tolhimento do desenvolvimento de esperança e por aí vai. Note que são exemplos que tem sua subjetividade, mas são importantes, pois vale lembrar que subjetividade não é mera relatividade e sim o que envolve questões psíquicas não expressas e/ ou reprimidas/ suprimidas por negações, desprezo ou abandono, violência explícita ou velada etc. Para piorar, além da violência contra criança poder ser sutil, ela pode ser cumulativa de diferentes formas ao longo da vida e obviamente isso deixa "marcas" ou sequelas certamente misturadas à personalidade do indivíduo que sofre tais violências.

Certamente alguns transtornos identificados pela psiquiatria e pela psicologia têm essa característica complexa e aí que deveria ficar claro que um mero tratamento medicamentoso não trata o indivíduo, muito menos cura ou resolve seu profundo problema ou transtorno psicoemocional. Casos como esse exigem uma psicoterapia certamente de longo período e um profissional não só tecnicamente competente, mas definitivamente humano. Humano aqui então denota a importância de uma empatia e também a importância da ética - dois temas difíceis de se discutir por uma perspectiva exclusivamente racional por uma abordagem estritamente científica, afinal neste ponto adentra-se a filosofia. Além disto, quando cito sofrimento psicoemocional, devo ressaltar que a emoção neste caso, pode ter uma origem histórica na vida da pessoa e não é algo totalmente separado de sentimentos, embora algumas pessoas possam pensar que emoções sejam expressões meramente imediatas ou breves enquanto os sentimentos são algo exclusivamente subjetivo e/ ou duradouro.

O psicólogo existencialista, Rollo May (1909-1994), em seu livro Love and Will, identifica dois aspectos das emoções e como esta se interrelaciona com os sentimentos. A partir do estudo de casos de seus pacientes, May entende que a emoção não é meramente um impulso pois pode ser uma indicação de um desejo não só de possuir algo, mas de formar algo. É neste ponto que ela se relaciona com o(s) sentimento(s), bem como com a imaginação e a forma de nos comunicarmos com indivíduos relevantes para nós, moldando nosso modo de agir e interagir. Assim, o primeiro aspecto das emoções é de força propulsora pois relaciona-se com o passado da pessoa, a determinação da experiência pregressa (infantil, arcaica...) e a causalidade de possíveis sofrimentos ou transtornos. Por isso, o autor afirma que a psicanálise lançada por Sigmund Freud (1856-1939), estava correta em identificar e reviver este aspecto primário da psiquê humana e sua importância essencial na psicoterapia. Rollo May porém não para aí, e possivelmente se distancia da psicanálise freudiana, ao indicar que o segundo aspecto, identificado como sentimentos, parte do presente para o futuro do ser humano: Isto porque tal aspecto envolve sentir ou captar o sentimento das pessoas com quem interagimos, possibilitando o trabalho da intuição, além de possuir uma intencionalidade (por isto o ser humano pode ter expectativas, esperança, finalidade etc). Como psicólogo existencialista, Rollo May não se limita a estudos de viés deterministas e usa de uma construção de conhecimento massivamente filosófica (desde autores clássicos até os modernos) para colaborar com a ciência psicológica. 

Há quem diga que a filosofia é um saber vago, outros podem afirmar que ela tem normas ou regras totalmente apartadas das ciências, mas na verdade nenhuma destas afirmações são verdadeiras. Partindo do primeiro corpo de obras preservado da filosofia ocidental, temos uma construção de conhecimento que não é fragmentada e nem é estritamente empírica, mesmo porque tal empirismo requer ênfase na materialidade, e consequentemente, na sensorialidade. A filosofia deixada por Platão nos oferece uma construção de conhecimento universal pautada pela ética, se deixarmos de lado os elementos de sua obra especificamente voltados às cidades/ estado gregas do século 4 a.C. Obviamente não seria caso de discutir Platão com possíveis pacientes da saúde mental, e sim, de estabelecer um ponto de partida ou base da construção de conhecimento para entender a psiquê humana, afinal não há ética alguma em reduzir o ser humano a um mero corpo ou a determinadas partes do corpo, como o sistema nervoso ou o cérebro, por exemplo. A filosofia ocidental nesta raiz ou base fundada por Platão, indica que não se constrói conhecimento partindo da afirmação de que algo não existe. 

É por via de uma série de argumentações/ diálogos que o autor chega à conclusão que a psiquê humana, seja mente ou alma, não se reduz ao corpo físico. Embora certamente houvessem limitações para se estudar a parte biológica do ser humano no séc 4 a.C, Platão entendeu que a psiquê poderia ser "dividida", ou mais precisamente, classificada em 3 níveis. Estes 3 níveis da psiquê são parâmetros não detalhados minuciosamente, que podemos entendê-los como o nível mais biológico, voltado para as necessidades básicas e obtenção de prazer corporal, um nível intermediário ligado à indignação (thymous), certamente mais emocional e talvez ligado ao coração; e um nível mais racional e de capacidade ética, o qual o ser humano alcançaria as virtudes, a universalidade do bem etc. Não se trata de dividir o ser em partes totalmente distintas entre si nem de considerar o entendimento platônico como um dogma, mas sim de lançar uma base de construção de conhecimento que respeite relatos para além da vida física - que respeite não só  comportamentos perceptíveis e emoções, mas também respeite sentimentos, sentido existencial e espiritualidade ou religiosidade humana.

Neste ponto volto a dar exemplos como psicólogo: tive 5 pacientes que me trouxeram casos cuja temática flutuava entre questões espirituais (ou religiosas) e psicológicas. Em nenhum deles eu impus minha cosmovisão ou pré suposição sobre o relato deles, bem como não reduzi as experiências deles a uma alucinação ou a mentiras como faria uma leitura estritamente materialista, empírica e/ ou biologista. Se a abordagem psicológica realmente é ética e tem a finalidade da melhoria do paciente, ela deve considerar o relato como uma possibilidade verdadeira. No exemplo que citei, 4 pacientes afirmaram não ter uma religião específica no momento e realmente consideraram a existência da alma humana e de uma realidade espiritual, enquanto 1 paciente religioso, preferiu entender seu próprio relato como uma alucinação da qual tirou um aprendizado. Tanto o contexto como o impacto das experiências de possível teor espiritual variou de paciente para paciente - cada experiência teve seu significado e em geral isso faz parte da perspectiva mística da consciência humana, bem como pode fazer parte de uma perspectiva mais simbólica, da forma de contar histórias sobre temas complexos e/ ou se expressar sobre temas profundos. 

A psiquê humana não é exclusivamente racional e é por isso que o ser humano precisa de afeto desde bebê. Questões afetivas se ligam aos sentimentos, às emoções e ao possível sentido existencial do ser humano. O sentido existencial, ou sentido de vida das pessoas ao longo da história parece que esteve atrelado à cultura e à espiritualidade ou religiosidade. Povos das estepes asiáticas, da tundra, celtas da antiguidade europeia, o xintoísmo antes de registros históricos, os yorubás da África ocidental, inuítes, mazatecas, incas, tupis e tantos outros povos da América... muitos deles tinham a espiritualidade vinculada ao estilo de vida, seja mais ou menos social. Entre os menos sociais certamente estavam indivíduos com estilo de vida mais recluso, enquanto as práticas religiosas mais sociais foram difundidas em grupos de indivíduos com certa padronização de ritos e/ ou de conceitos.

Além disto, em inúmeras culturas espalhadas pelo globo terrestre ao longo da história houve mitos sobre a origem do mundo, do cosmos, do ser humano e da vida. E também existiram práticas espirituais com estilos de vida em harmonia com a natureza muito antes de religiões iniciáticas ou das religiões institucionalizadas via construção de templos e hierarquizações - exemplos incluem a busca do espiritual ou do divino através de práticas de transe místico via música, dança, consumo de substâncias, recolhimento, meditações etc. Estas perspectivas místicas e míticas, citadas por estudiosos como Jean Gebser, não são necessariamente contrárias à perspectiva racional da consciência humana - Platão por exemplo trata de todas elas ao longo de sua obra: Fedro e Íon tratam do transe psíquico, da inspiração divina ou espiritual e da transcendência; Político e A República trazem exemplos da perspectiva mítica etc.

A perspectiva racional do ser humano então não é superior às demais - todas fazem parte da consciência. Povos dominados por outras perspectivas da mente produziram suas coisas boas e viveram em paz com outros povos e com a natureza por séculos ou milênios, assim como povos tomados por uma perspectiva mais racionalista, como as cidades-estado helênicas dos séculos 5 a.C. ao 2 a.C e grande parte das nações europeias do final do século 17 em diante conseguiram desenvolver tecnologias, elaborar complexas construções de conhecimento e estruturas sociais. O que faz com que povos falhem em conviver na Terra não é uma ou outra perspectiva, mas sim a falta de ética. Isto porque um dos pontos centrais da ética é a universalidade que significa uma moral para além do indivíduo e voltada à todos, ao coletivo, e portanto à diversidade de cultura, de espiritualidade e de perspectivas da consciência. Aqui o tema toca a psicologia novamente: um indivíduo que tem pouca adaptabilidade ao sistema sócio econômico (neo) liberal deve ser considerado doente? Transtornado? Talvez até meados do século 20, muitos pensassem que sim. Mas hoje, após a luta anti manicomial, às críticas à indústria farmacêutica, incluindo aos psicofármacos, já é possível ver o quão anti ético é menosprezar ou patologizar quem tem dificuldades em se adaptar às condições de vida de ideologia capitalista. Não só muita gente vem sofrendo ou adoecendo justamente porque vive dentro do sistema sócio econômico neo liberal, mas como muitos outros que vivem fora dele (indígenas, quilombolas etc) sofrem por serem pressionados a se submeterem a tal sistema. Não há ética, portanto não há progresso real em oprimir pessoas, seja em pequenas ou grandes quantidades. E não se trata só do sistema, mas também das ideologias por trás dele - o que se incentiva e o que é apresentado como verdade ou como mais importante. Quem define isto é a construção de conhecimento, também chamada de epistemologia, mas principalmente tomada pela ciência com o decorrer dos anos. A ciência é um saber de perspectiva racionalista, porém menos amplo e mais voltado à especialização, pois abandonou a abertura da filosofia de autores como Platão, René Descartes, Jan Amós Comenius, Viktor Frankl, Arthur Eddington e Jean Gebser, fechando-se em pressupostos reducionistas os quais já detalhei em outros textos. Apesar de suas conquistas benéficas e importantes ainda hoje no séc 21, a ciência é predominantemente vertical, bem como grande parte das religiões, a economia, a política, as forças armadas das nações e os meios de comunicação. Ela é imposta de cima para baixo com um diálogo (ou mais precisamente, um discurso) enviesado beneficiando a quem tem mais poder, seja econômico, político, religioso ou qualquer outro. Ao desconsiderar ou inferiorizar outras perspectivas da consciência, a maior parte da produção científica passa longe da horizontalidade. É compreensível que depois de séculos afastada destas perspectivas, os cientistas que são os principais construtores de conhecimento da atualidade, tenham dificuldade de se reaproximar de tais perspectivas. Porém o ser humano TEM um pouco de todas estas perspectivas em sua consciência - talvez porque seja uma tendência social e/ ou evolutiva, fazer uma integração delas, afinal como mencionei anteriormente, o bebê nasce com necessidades afetivas e estas necessidades são de emoções como expressões do sentimento e formação de um sentido existencial. Nem todos encontram sentido na vida, é claro, muitos vivem bem sem um sentido ou achando que não têm um. Outros sofrem ou adoecem, enquanto muitos não conseguem encontrar porque são oprimidos pelas ideologias por trás do sistema econômico e por trás da construção de conhecimento da saúde mental, seja ela psiquiátrica, neurológica, farmacológica, ou até mesmo (mais tragicamente e absurdo em minha opinião) psicológica. 

A psicologia é um campo de estudo abrangente que pode ser aplicado em várias áreas: criminal, jurídica, social, esportiva, trabalhista, empresarial etc. No tratamento da saúde mental, sua principal área é a psicoterapia, que por sua vez, é centrada no diálogo com o paciente - por isso a psicologia é a última que deveria ser engolida por ideologias mecanicistas e/ ou segregadoras, sem universalidade, sem respeito à diversidade e sem ética. Os problemas trazidos por pacientes em psicoterapia sejam mais ou menos graves, possuem toda uma história de vida por trás, mas principalmente uma série de sentimentos, interpretações, gostos, valores entre outras questões que permanecem subjetivas por longos períodos de tempo. É preciso explorar todas essas camadas da psiquê humana com respeito e com finalidade ética. A ética não admite imposição de pressupostos nem de visões de realidade, sejam ateístas, religiosas, materialistas (etc), pois ela é aberta e por aberta não devemos entender aleatoriedade ou aceitação de toda fala sem crítica; Se trata de ser crítico mas universal e isto possivelmente é difícil porque exige esforço contínuo não só do paciente, mas do psicólogo como profissional de saúde mental e como construtor de conhecimento. 

A saúde mental das pessoas começa na tenra infância

 Imagine um ser que não sabe se comunicar, mas é cercado por seres que sabem. Não só é cercado, mas é cuidado por estes, pois está vulneráve...