A saúde mental das pessoas começa na tenra infância

 Imagine um ser que não sabe se comunicar, mas é cercado por seres que sabem. Não só é cercado, mas é cuidado por estes, pois está vulnerável pelo fato de estar no início do aprendizado das coisas mais básicas da vida: se alimentar, identificar coisas, manipular objetos, expressar e lidar com suas emoções e com a de outros, enfim, aprendendo a dominar todas as necessidades básicas. 

Este é o bebê até sua fase de se tornar criança - um período que dura aproximadamente desde o nascimento até uns 3 anos de idade, embora isso possa variar um pouco de pessoa para pessoa... 

Se ele está começando o aprendizado da fala e da escuta, qual seriam as expressões mais naturais nas relações? Certamente as emoções. Mas as emoções não são só reações diante o ambiente - são isso e mais, pois incluem expectativas e experiências que deixam marcas leves ou profundas no psiquismo e na personalidade do ser humano. Estas marcas são referências, afinal as emoções não são totalmente separáveis de outros atributos humanos como o diálogo, as interpretações e os sentimentos - inclusive, muitas vezes elas podem ser expressões de sentimentos e estes últimos tendem a ser duradouros. Podemos ter sentimentos em relação a uma ou mais pessoas, em relação a uma ou mais experiências, ou a um tipo de pessoa ou de experiência etc. A importância das emoções então ficam evidente: o bebê e a criança pequena aprendem não só quando devem reagir e de qual forma devem reagir, mas também percebem as expressões/ emoções de outros a sua volta, principalmente a de seus cuidadores (pai, mãe etc).

Se o bebê/ criança encontra uma ou mais dificuldade ao lidar com o pai, com a mãe ou com ambos, o que é feito à respeito disto? Imagine experiências dolorosas (física e/ ou psicoemocional): elas podem ser simples e fazerem parte de um aprendizado, caso o bebê/ criança seja capaz de entender como lidar com elas. Mas caso o bebê não entenda, devemos questionar - o quão intensa é essa dor e/ ou o quanto duram tais experiências dolorosas? E quais são serão os impactos sobre um ser tão vulnerável que ainda não consegue lidar com tais experiências? A infância não é uma mera fase da vida, que quando fica no passado, desaparece como um passe de mágica: ela gera consequências históricas em cada ser humano e estas consequências podem limitar ou ampliar as suas capacidades psíquicas. Não se tratam de meras capacidades racionais ou de aquisição de conhecimento, mas também capacidade de empatia, de encontrar maneiras de lidar com os seres a sua volta e de encontrar forças para continuar diante uma diversidade de situações da vida. As consequências das experiências da tenra infância, onde o bebê/ criança está mais dependente ou vulnerável do que nas fases posteriores da vida, formam todo um repertório de sentimentos, além de alguns possíveis padrões de pensamentos e de valores, sejam estes valores mais individuais ou mais sociais/ coletivos e universais.

Com isso estou dizendo que esta fase da vida humana é um determinante absoluto do psiquismo e/ ou do comportamento? Não. Mas que é sim uma fase de grande peso na formação do ser humano, possivelmente a fase que estrutura as características psicoemocionais mais fundamentais da humanidade!

É uma pena que o conhecimento disto pareça mais intuitivo e de senso comum do que das áreas científicas ou filosóficas (psicologia, pedagogia etc). Aqui não culpo a psicologia como ciência (ainda), mas sim a dificuldade de se estudar as fases iniciais da vida dentro das famílias... 

Os estudos neurológicos estão se desenvolvendo e podem colaborar com a psicologia - mas eles não abrangem todo repertório mental humano e seu histórico. Sentimentos, traumas, valores e tantos outros aspectos importantes da mentalidade humana possivelmente requerem também uma construção de conhecimento pautada na ética e na universalidade, portanto um conhecimento filosófico. Apesar das dificuldades espero que um dia, não só a ciência ou a filosofia, mas a humanidade entenda a importância das questões afetivas principalmente para os bebês e crianças. 

O como a criança deve receber atenção e afeto é um tema que deve ser aprofundado e que também deve variar em algum nível de acordo com as famílias e seus contextos. Talvez eu consiga abordar tal tema futuramente.

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