Epistemologia/ Ética/ Ontologia e saúde mental

Buscando mostrar a relação entre "áreas" da filosofia, tais como epistemologia, ontologia e ética, e áreas da saúde mental como a psicologia, a logoterapia e a psicoterapia, eu trago neste texto alguns pontos importantes da construção de conhecimento mostrada por Viktor Emil Frankl (1905-1997), neurologista, psiquiatra e filósofo fundador da logoterapia. 

Em seu livro A Vontade de Sentido o autor explica os fundamentos da logoterapia e os compara com as demais psicoterapias, que logicamente podem ser das mais variadas abordagens (psicanálise, behaviorismo, TCC, gestalt etc). Frankl aponta que não há psicoterapia sem uma teoria antropológica (uma visão de ser humano) e uma filosofia de vida por trás. Ele indica como a psicanálise, por exemplo, acaba abordando questões éticas e morais de seus pacientes - pontos estes estudados pela filosofia, mas que têm seu impacto na vida das pessoas. 

O autor propõe entender os ser humano através de uma ontologia dimensional, ou seja um estudo do ser baseado em dimensões. Isto porque o ser humano é obviamente biológico, mas também psicológico e possivelmente noológico (espiritual). Para se referir ao aspecto espiritual do ser humano, Frankl preferiu usar um termo baseado na palavra "nous", evitando possíveis ligações ou mesmo conflitos com religiões. E porque um estudioso ou um profissional de saúde mental deveria considerar a espiritualidade humana? Porque reduzir o ser humano ao mero aspecto biológico pode parecer científico ou lógico, mas é uma pressuposição que ignora a questão "mente-corpo" discutida na construção de conhecimento no mínimo desde René Descartes (1596-1650). 

A pré suposição de que o conhecimento só pode ser construído priorizando a existência da matéria que podemos perceber sensorialmente e medir (etc) está ligada à proposta metodológica de filósofos iluministas da Europa, como uma tentativa de resolver a questão do que é o ser humano e o que é a realidade. Esta proposta que foi ganhando força do século 17 em diante, com autores como John Locke e Francis Bacon (entre outros), possivelmente foi em algum nível uma contraposição à influência das religiões cristãs na Europa daquela época. Tal pressuposto certamente colaborou com o avanço de diversos estudos principalmente os das áreas das quais chamamos de biológicas, química e física. Porém quando a visão de que o ser humano é puramente biológico foi elevada como a mais verdadeira entre as elites (intelectuais e econômicas) do eixo Europa-EUA durante os meados do séc 19 até as primeiras décadas do séc 20, tivemos a propagação de uma série de movimentos problemáticos/ nocivos como por exemplo o racismo científico e o darwinismo social

O darwinismo social, que serviu bem às elites econômicas "euro-estadunidenses" foi propagado por pensadores (Spencer, Malthus e outros) que afirmavam que a lei da  natureza era do "mais adaptado ou mais forte" e que isto deveria se aplicar à sociedade, sobrepondo os conceitos da biologia sobre os estudos de psicologia, sociologia e economia, como se os "mais adaptados ou fortes" fossem os mais ricos e poderosos. A propagação de tais ideias na construção de conhecimento fomentou desregulação do mercado, impunidade aos ricos e poderosos e desmanche de infraestrutura, da luta por direitos da sociedade e até de saberes mais populares. Já os pensadores mais radicais do racismo científico por sua vez, mostravam-se eugenistas: afirmavam a superioridade da raça branca e/ ou do povo europeu como se esta tivesse um mérito por desenvolver tecnologias e riquezas particulares e este mérito supostamente dava a tais povos o direito de empregar a opressão e/ ou a violência contra outras diversas etnias e nações do globo terrestre. Isto pode ser visto não só no tratamento que os povos "brancos" deram aos negros e indígenas desde a era colonial, mas também em cientistas, que em grande parte da primeira metade do séc 20, tentavam justificar o uso de armas químicas ou de destruição em massa para eliminar nações rivais ou dissidentes etc. O próprio Frankl bem como outros estudiosos (Gebser por ex.) indicam como tais visões niilistas de ser humano e de mundo estavam relacionadas com a ideologia e as ações dos nazistas. A visão reducionista do ser humano ainda pareceu estar relacionada a outros problemas posteriores como o excesso de medicalização de indivíduos com possíveis transtornos psíquicos ou sofrimento psicoemocional e o crescimento lucrativo da indústria farmacêutica ante tais problemas psicossociais.

Mostrada a importância de se questionar a propagação da ideia de que o ser humano é meramente biológico, podemos continuar com a exposição da ontologia dimensional de Frankl: Primeiramente o ser humano tem uma série de atividades não detectáveis sensorialmente nem reprodutíveis nos conformes do rigor científico padrão: Os sentimentos, pensamentos, memórias, desejos, intenções, valores, a personalidade, enfim todo um "aparelho psíquico" ou "psiquismo". Com o avanço da neurologia, alguns destes fenômenos passaram a ser rastreáveis em algum nível, tornando-se possível ver partes do cérebro, do sistema nervoso ou do coração ativadas. Mas seja em prol da saúde mental ou da ética, é impossível manipular um sentimento humano ou um valor (individual ou universal), com a mesma reprodutibilidade utilizada para estudar células, tecidos, partículas etc. Embora cada autor e abordagem da saúde mental possa usar um termo diferente para denominar tal fato, Frankl, reconhece as 3 dimensões do ser humano citadas anteriormente (biológica, psicológica e noética) e utiliza-se de uma analogia à geometria para explicar o ser humano, seu psiquismo e seu aspecto existencial/ espiritual. Um cilindro por exemplo, que recebe uma luz que incide diretamente sobre sua parte circular, vai projetar uma sombra circular. Mas se receber uma luz diretamente em sua lateral, irá projetar uma sombra retangular.

Com tais exemplos Frankl indica o cuidado que devemos tomar ao abordar questões psicológicas dos pacientes que podem estar parcialmente ocultas, ou ainda, o cuidado que devemos tomar ao abordar questões culturais, existenciais, religiosas e espirituais. O que pode parecer irreal, inútil ou absurdo ao psicoterapeuta, pode não ser para o paciente, mesmo porque o terapeuta não consegue acessar todo o psiquismo do paciente e seu respectivo histórico como ele fosse uma mera célula a ser dissecada. Tais questões que tocam os pressupostos das ciências, a visão de realidade (cosmovisão) e o problema da relação mente-corpo, são polêmicas, mas incontornáveis como o autor mostra ao falar da psicoterapia:

O psicoterapeuta, ao lidar com o paciente ou cliente, não deve impor sua visão de mundo (também chamada de Weltanschauung por Frankl) sobre este e tal atitude vale tanto para um profissional de saúde mental ateu, materialista ou niilista como também para um cristão ou religioso. Impor tais visões é uma postura antiética que pode oprimir o paciente, até mesmo a agravando os seus sofrimentos ou problemas psicológicos ou psicossociais. Como exemplos temos casos de profissionais cristãos conservadores que induziram pacientes mulheres a permanecerem sofrendo violências de seus parceiros em relacionamentos abusivos e profissionais cientificistas que prescreveram medicações ineficazes e até internações involuntárias para pacientes que estavam em contextos espirituais (lidavam com espíritos seja por que entendiam tais fenômenos deste modo ou porque seguiam uma religião). Aqui me refiro aos que entendem que passaram por experiências de teor espiritual ou que estão mais propensos a tal interpretação, mas por vergonha acabam aceitando uma visão exclusivamente neuro/ biológica, e consequentemente são submetidos a procedimentos pouco ou nada eficazes.

Mesmo a logoterapia, "abordagem" psicoterapêutica centrada no sentido de vida, não serve como meio para o terapeuta impor uma cosmovisão nem um suposto sentido ao paciente, pois o paciente deve encontrar seu sentido (existencial etc) ao longo do processo terapêutico. Isto porque tanto a Logoterapia, como a Psicanálise, a Psicologia analítica, a Gestalt terapia, a Daseinanálise, a Abordagem Centrada na Pessoa entre outras abordagens, utilizam um método dialético de tratar o paciente, e, consequentemente de se construir conhecimento sobre a psiquê humana. As diferentes abordagens psicoterapêuticas servem ao profissional de saúde mental de acordo com o que ele entende por ser humano e/ ou por realidade, mas todas elas devem (ou deveriam) sempre respeitar a cosmovisão do paciente. Tal postura é fundamental para evitar absurdos como ocorrem em muitas comunidades terapêuticas geridas por religiosos e também para o caso de pessoas que passam por dificuldades de contexto espiritual mas têm vergonha de falarem sobre o assunto e acabam aceitando medicalizações ou internações prescritas pela suposta autoridade médica (psiquiátrica, neurológica etc) / científica. Note que este último tipo de caso não se refere às pessoas que relataram ter alucinações ou que aceitaram o diagnóstico psiquiátrico por concordarem mais com esta interpretação das experiências pelas quais passaram.

 Existem alguns meios de um estudioso/ profissional da saúde mental respeitar tais tipos de contexto e de relatos (espirituais): Um deles é com uma suspensão de pressupostos, ou seja, o próprio profissional de saúde mental deve suspender suas pré suposições que inclui uma visão de mundo ou cosmovisão. Esta suspensão foi proposta pela fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1939) e difundida por diversos estudiosos e profissionais das abordagens da frente fenomenológica. Porém como há quem diga que é impossível o observador, seja um cientista, um terapeuta ou qualquer outro indivíduo, não partir de uma pré suposição, Husserl sugeriu que a suspensão não fosse uma supressão ou negação do pressuposto e sim, a tentativa de se investigar um fenômenos a partir de todos pressupostos possíveis. Embora possa parecer um processo trabalhoso e/ ou demorado, há de se admitir que ele tem universalidade, portanto ética. Mas a aproximação filosófica da ciência que Husserl fez não foi algo totalmente inovador nem inesperado na construção de conhecimento com universalidade - Com algumas possíveis diferenças, tal ideia já permeava a "epistemologia" há muitos séculos: Platão (428 aC - 347 aC) ao propor a filosofia como construção de conhecimento de finalidade ética (pautada em valores universais), indica que a postura ideal para se iniciar qualquer investigação é a presunção da própria ignorância. Inclusive o método de diálogo com os pacientes propostos pelos modelos psicoterapêuticos mostrados acima, pouco ou nada diferem da maiêutica apresentada por Platão: o (psico)terapeuta geralmente não dá ordem alguma ao paciente - não faz recomendações diretas e sim faz o paciente refletir através do diálogo ao longo das sessões. Conforme o paciente vai mostrando suas queixas e dificuldades ao psicoterapeuta, este vai tentando ajudá-lo de forma cooperativa, indagando-o sobre os possíveis eventos importantes de sua vida e relembrando-o de seus relatos, também levando em consideração todas expressões deste (postura corporal, gestos, emoções) e o seu contexto (social, econômico, étnico, cultural e existencial ou espiritual). 

O pressuposto da psicologia bem como o da psicoterapia então deveria ser o mais amplo possível para abarcar uma universalidade - elemento essencial da ética. A metodologia da psicoterapia que parte deste "pressuposto" ou cosmovisão deve ser dialética como a maiêutica e a finalidade é o bem estar do paciente, sua melhoria não só a que se refere às emoções ou possíveis transtornos, mas se for desejado pelo paciente, no que se refere ao seu sentido de vida/ existencial também; Esta finalidade não deve priorizar um determinado tipo de cultura, nem de narrativa - ela deve buscar ser o mais equitativa possível, portanto, universal - sem afirmar que uma área de estudo, um saber ou uma religião é superior à outra(o). 

Estes fundamentos de suspensão de pressupostos, dialogo equitativo e finalidade de melhoria servem não só para tratar dos pacientes com universalidade (ética), mas também para construir conhecimento da psicologia com coerência em relação à prática psicoterapêutica. Além disto, esta coerência evita tanto que um viés religioso se infiltre na psicologia, como também evita reduzir à área de estudo ao biologismo típico de neurologistas e da medicina em geral. Afinal se este reducionismo dominar a psicologia, ele fará com que este vasto campo de estudos seja em prática um mero tipo de especialização da neurologia e/ ou da psiquiatria, isso sem contar os outros problemas mencionados neste texto, tais como a propagação da hiper medicalização etc... 

Fontes:

Frankl, A Vontade de Sentido;

Platão, A República;

A saúde mental das pessoas começa na tenra infância

 Imagine um ser que não sabe se comunicar, mas é cercado por seres que sabem. Não só é cercado, mas é cuidado por estes, pois está vulneráve...