Ignorância não se combate só com ciência: É preciso filosofia

Ignorância não se refere só ao desinteresse em conhecimento, mas também o ato de ignorar as necessidades do próximo - de ignorar quem é diferente, ignorar pessoas de outras culturas etc. 
Por milênios o ser humano viveu na Terra de variadas maneiras diferentes - isto faz parte da universalidade humana, independente se o ser humano é mais emocional ou racional, mais curioso ou mais intuitivo. Tais fatores humanos individuais juntamente com suas relações sociais e ambientais, certamente foi o que gerou variadas culturas que viveram em períodos de maior ou menor harmonia.

Vejamos um fator humano e cultural notoriamente influente em nossa história: As religiões são algo muito antigo que existe em variadas sociedades humanas. Independentemente se você considerar o "xamanismo" de povos da "idade da pedra" ou as religiões politeístas após a construção de templos da antiguidade ou as igrejas cristãs que se formaram após os concílios do século 4 em diante na Europa. A diferença mais marcante entre estas religiões citadas é que o xamanismo era uma prática mais ligada à natureza e à ancestralidade enquanto as demais apresentam alguma hierarquia com uma ou mais autoridades religiosas. 
Sim, existiu um "cristianismo primitivo" sem igrejas entre os séculos 1 e 3, mas depois disto, a religiosidade cristã sem instituições sobreviveu de modo esparso em minorias pouco ou nada registradas na história humana, então voltemos a falar das religiões que foram institucionalizadas e cresceram; Estas religiões com autoridade as quais me refiro não incluem a religiosidade mística onde pessoas buscam um contato espiritual ou psíquico com o divino - aqui me refiro às igrejas onde bispos ou quaisquer outros sacerdotes usam sua posição de liderança como ferramenta de poder em grande parte do tempo; Isso não deve ser difícil de se estudar, mas não vou fazer um levantamento histórico mais detalhado neste texto.

Toda vez que vemos religiosos criticando pessoas ou grupos de outra fé ou pregando a sua própria religião como verdade absoluta, há um indício desta autoridade e também de um autoritarismo. Isto ocorre não somente por existir um ou mais líderes manipulando ou pressionando massas de fiéis para obter vantagens e/ ou fortunas, mas também acontece porque as pessoas que seguem tais líderes ou seguem as religiões das quais estes líderes alegam fazer parte, não refletem sobre autoridade, autoritarismo, liberdade religiosa etc. Estes fiéis, geralmente em grandes quantidades, se deixam levar por discursos emocionais que lhes dão uma identidade de grupo, que sustentam suas expectativas ou que lhes entregam um suposto pertencimento a um coletivo. Emoções são uma necessidade humana, bem como algum nível de relacionamento social (grupal, coletivo, seja em um grau  menor ou maior) e tal manipulação de "autoridades" religiosas se aproveita de tais necessidades, oferecendo supostas verdades que não exigem reflexão nem estudo. Isto é um fato, tanto é que muitos religiosos não leem os textos de sua própria fé (bíblia por ex.) ou leem somente com o viés e influência de um líder, seja ele pastor, padre etc. Assim se formam massas de pessoas que reproduzem falas preconceituosas e discursos segregadores ou conflituosos de "nós e eles".

Curiosamente muitos dos que gostam de estudar, ou ao menos, dos que dizem que priorizam o conhecimento, pouco ou nada atacam tais atitudes de religiosos: Praticamente não criticam a falta de ética das ações de manipulação ou de ganância de líderes religiosos nem criticam o fanatismo e as contradições éticas dos fiéis que seguem tais líderes/ religiões. Estes supostos estudiosos preferem afirmar sobre a inexistência de coisas, como de Deus, de uma realidade espiritual, de espíritos, de Jesus, de Moisés (de "profeta X, Y, Z"...) etc. Isto é uma contradição oriunda da falta do estudo filosófico, pois a filosofia que discute como se constrói conhecimento (epistemologia) não trabalha pressupondo inexistência(s) - ela investiga o que ela desconhece e afirma o que existe/ o que foi descoberto e entendido. 
Por um outro lado, recentemente neste final de 2025, um jovem gravou um vídeo na internet explicando que tentou argumentar com evangélicos anticomunistas e de direita. Ele teria explicado a história da política moderna (o surgimento da esquerda e da direita após a Revolução Francesa etc), indicando como os textos do cristianismo não possuem praticamente nada contra as práticas das ideologias e políticas de esquerda modernas. Os evangélicos (em resposta) teriam apelado para a ideia de que se trata de uma "guerra espiritual" para além da política e da vida cotidiana. O jovem aparentemente chocado, entendeu que tanto os líderes evangélicos conservadores de direita como seus respectivos seguidores ou fiéis não se importam mais com os fatos, porque sendo uma "guerra espiritual", nada do que acontece no mundo faria eles mudarem de ideia. De fato, ele tem um ponto, mas vale lembrar que se esses conservadores que compõem a direita religiosa, usam argumentos de suposto teor espiritual, então eles podem e devem ser combatidos dentro do tema espiritual. Nada impede alguém mais ético, ou seja, que respeite a universalidade seja da fé ou do direito à vida etc, refute as falácias de evangélicos de direita/ capitalistas a respeito de temas religiosos ou "espirituais". Os argumentos de guerra espiritual apresentados por conservadores e/ ou capitalistas ("direitistas" assumidos ou não) são obviamente mera retórica esvaziada de ética para defender religiosos enriquecidos, manter fiéis na ignorância e controlados e criar inimigos externos - sendo assim esses argumentos são uma questão filosófica de moral e ética e de discussão sobre o que é verdade e/ ou conhecimento; Não há necessidade de se prender exclusivamente a evidências ou a cientificidade para expor tais farsantes.
No final das contas, os estudiosos que criticam todos elementos da espiritualidade, caem no cientificismo que não é novidade alguma, pois existe ao menos desde o século 19; Se for para criticar as religiões, critique o que há de realmente nocivo nelas: líderes enganando massas para obter riqueza e status, contradizendo os ensinamentos de Jesus e seus apóstolos, "fiéis" se alienando em ignorância e em intolerância à universalidade etc. Indique o que é coerente e benéfico, ao invés de propagar uma "nova" ideologia dogmática baseada em reducionismos com discursos de cientificidade: O componente emocional e social que existe no simples conceito de religião não pode ser apagado exclusivamente por racionalidade nem por supostas evidências materiais - por isso o argumento tosco da "guerra espiritual" convence muita gente. Afinal espiritualidade e religiões existem há milênios sendo quase tão antigos quanto os sentimentos e as emoções, mas pessoas podem manipular tais conceitos impactando em suas expressões e práticas, assim como também podem mentir e omitir sobre qualquer outro tema, argumento ou ideia. A mera negação de todos elementos espirituais descamba no niilismo grotesco, que geralmente fomenta o hedonismo, a ganância, o armamentismo e/ ou mais egoísmos... 

A racionalidade e o estudo empírico (com evidências etc) são importantes sim, pois foram conquistas humanas principalmente da "era moderna" que durou aproximadamente desde 1430, quando a filosofia ocidental foi retirada do domínio da igreja e a imprensa chegou à Europa, até a Segunda guerra mundial (1939-1945). Neste período que durou cerca de 500 anos, a perspectiva racional do ser humano teve maior liberdade para se desenvolver, assim como teve maior responsabilidade: Sem a propagação e a consolidação da ética entre os seres humanos e em suas respectivas interrelações, o que se viu foram vários conflitos dominados por ganância e/ ou por rivalidades. Por causa disto é importante lembrar que foi a partir da combinação do gigantesco acúmulo de bens materiais em poder de poucos multimilionários e da fomentação de ideologias segregadoras (fascismo e capitalismo, por ex.) e de ideologias racistas, portanto biologistas e niilistas (nazismo e darwinismo social, por ex.) que a era moderna acabou em duas guerras mundiais. Ignorar isto, combatendo toda e qualquer religiosidade/ espiritualidade com mero dogmatismo científico sem ética e sem universalidade é retornar ao niilismo, a ideia de que nada existe além dos corpos materiais e do espaço tridimensional e nada importa além disto; Tal ideologia desembocou na criação de armas químicas e de destruição em massa que colaborou com as maiores tragédias humanas da história.
É impossível combater ignorância com tais ideias materialistas-niilistas, porque isto é combater o esvaziamento da solidariedade, da justiça e da equidade, com mais vazios! Não há racionalidade benéfica sem estes valores que são universais. Não há conhecimento ou verdade, sem ética e sem universalidade, portanto não há conhecimento ou verdade sem filosofia.

Análise da epistemologia espírita (continuação)

Esta é a continuação da análise da epistemologia espírita realizado na postagem Amor pelo Saber, Saber Amar: Uma breve análise da epistemologia espírita a partir de um texto da Revue-spirite journal d'etudes psychologiques de 04/1864. Neste ponto do texto, Allan Kardec volta a teorizar sobre a possível ligação entre corpo e espírito - o "perispírito": 

12. ─ Posto que invisível para nós em estado normal, o perispírito não deixa de ser matéria etérea. Em certos casos, o Espírito pode fazê-lo sofrer uma espécie de modificação molecular que o torna visível e até tangível. É assim que se produzem as aparições. Esse fenômeno não é mais extraordinário que o do vapor, que é invisível quando muito rarefeito, e que se torna visível quando condensado. Os Espíritos que se tornam visíveis apresentam-se quase sempre sob a aparência que tinham em vida, pela qual podem ser reconhecidos.

13 ─ É auxiliado por seu perispírito que o Espírito age sobre o seu corpo vivo. É ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte; que produz os ruídos, o movimento das mesas e de outros objetos que ergue, derruba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente se considerarmos que entre nós os mais poderosos princípios motores se acham nos fluidos mais rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade. É igualmente com o auxílio de seu perispírito que o Espírito faz o médium escrever, falar ou desenhar. Não tendo corpo tangível para agir ostensivamente, quando quer manifestar-se, ele se serve do corpo do médium, cujos órgãos ocupa, fazendo-os agir como se fosse seu próprio corpo, e isto pelo eflúvio fluídico que sobre ele derrama.

Sobre a teoria do perispírito abordada nestes tópicos da revista (e de outras obras do autor), mencionei no texto anterior que não se trata de algo gasoso muito menos líquido: o perispírito seria composto de elementos ou energia em um estado muito sutil. É um tema inconclusivo do ponto de vista científico, ou de uma investigação pautada em mensurabilidade, pois apesar do autor especular sobre a possível composição elétrica e magnética do perispírito, em sua época não se conhecia o eletromagnetismo nem os campos eletromagnéticos dos órgãos do corpo. Hoje, no início do século 21, temos poucos estudos que avançaram sobre a relação de campos eletromagnéticos com a biologia: exames como o eletrocardiograma, o eletroencefalograma e a imagem de ressonância magnética foram desenvolvidos na medicina após a descoberta dos campos E.M. do cérebro e do coração, mas teorias sobre a consciência relacionada ao campo eletromagnético do cérebro ainda parecem incipientes ou pouco aceitas no meio científico. E ainda que estudos da relação do campo eletromagnético do cérebro com a consciência ganhem espaço na ciência, não há garantia que a discussão filosófica sobre a relação "mente-corpo" ganhe relevância na construção de conhecimento ocidental, pois ainda é preciso abertura ao diálogo com variadas culturas e como estas percebem/ entendem o ser humano e a realidade. É essencial escutar com equidade relatos de pessoas que passam por experiências entendidas como espirituais, sejam experiências boas ou ruins, particulares ou grupais/ coletivas - e estes relatos, que deveriam adentrar ao menos a psicologia, dificilmente ganham um espaço na construção de conhecimento dominante no ocidente, que é a científica tomada por pressupostos materialistas de metodologia estritamente empírica.
Vale relembrar que já na época de Kardec a ciência estava sendo tomada por um biologismo crescente - Após o positivismo iniciado poucas décadas antes do espiritismo, Charles Darwin (1809-1882) e Alfred R. Wallace (1823-1913) realizaram grandes descobertas na biologia e ideias sobre um ser humano puramente biológico foram espalhadas pelas elites intelectuais do hemisfério norte. O racismo científico já era aceito nas elites europeias pois parte dos intelectuais eram de origem burguesa e a ideia de progresso certamente sofreu influência do mercantilismo desde o século 16 e do liberalismo a partir do século 18. As descobertas sobre a seleção natural e teoria da evolução das espécies do século 19 foram levadas como verdades absolutas por alguns autores que já tentavam reduzir o ser humano ao aspecto biológico. A leitura racial do ser humano já se apoiava nas características biológicas desde os estudos de Carl Linaeus (1707-1778) e se intensificou no século do positivismo. Várias ideias preconceituosas e de viés racista eurocêntrico foram difundidas como se fossem conhecimento durante maior parte do século 19 e algumas chegaram até as duas ou três primeiras décadas do século 20: a localização de todo psiquismo em partes do cérebro (frenologia), a cranoscopia, a drapetomania e o darwinismo social. Kardec então dificilmente escaparia deste viés, e no âmbito do que constitui a relação entre psiquê (espírito neste caso) e corpo, o espiritismo estava dentro dos limites da época. 
As comparações utilizadas por Kardec serviam para dar uma ideia ainda imprecisa e que hoje deveríamos ter um pouco mais de recursos para reconstruí-las: o quarto estado da matéria (plasma) por exemplo pode ser considerado mais sutil que o estado gasoso (o ar etc) utilizado na comparação feita por Kardec. O eletromagnetismo mostra a ligação entre eletricidade e magnetismo que era ainda desconhecida naquela época... 

14. ─ É pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, quer para movê-la sem objetivo determinado, quer para fazê-la vibrar golpes inteligentes indicando as letras do alfabeto, para formar palavras e frases, fenômeno designado sob o nome de tiptologia. Aí a mesa não passa de um instrumento de que ele se serve, como do lápis para escrever. Dá-lhe uma vitalidade momentânea, pelo fluido com que a penetra, mas não se identifica com ela. As pessoas que, emocionadas, ao verem manifestar-se um ser que lhes é caro, beijam a mesa, praticam um ato ridículo, porque é absolutamente como se beijassem a bengala de que um amigo se serve para vibrar golpes. Dá-se o mesmo com as que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na madeira, ou como se a madeira se tivesse tornado Espírito. Quando ocorrem comunicações por esse meio, é preciso imaginar o Espírito, não mesa, mas ao lado, como ele era em vida, e como ele seria visto se no momento se tornasse visível. O mesmo ocorre nas comunicações pela escrita. Ver-se-ia o Espírito ao lado do médium, dirigindo-lhe a mão, ou lhe transmitindo o pensamento por uma corrente fluídica. Quando a mesa se ergue do solo e flutua no espaço, sem ponto de apoio, o Espírito não a levanta pela força do braço, mas a envolve e a penetra de uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza a ação da gravidade, como faz o ar com os balões e papagaios. O fluido de que é penetrada lhe dá momentaneamente uma leveza específica maior. Quando ela está plantada ao solo, está numa situação análoga à da campânula pneumática, sob a qual se faz o vácuo. Estas são comparações para mostrar a analogia dos efeitos, e não a similitude absoluta das causas. Depois disto, compreende-se que a um Espírito não é mais difícil levantar uma pessoa do que uma mesa; transportar um objeto de um a outro lugar, ou atirá-lo em qualquer parte. Estes fenômenos são produzidos pela mesma lei. Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito que corre, pois pode ficar tranquilamente no mesmo lugar, mas que lhe dá o impulso por uma corrente fluídica com o auxílio da qual a faz mover-se à vontade. Quando os golpes são ouvidos na mesa ou noutro lugar, o Espírito não bate com sua mão, nem com um objeto qualquer. Ele dirige um jato de fluido para o ponto de onde parte o ruído, produzindo o efeito de um choque elétrico. Ele modifica o ruído, como podemos modificar os sons produzidos pelo ar.
15. ─ Por estas poucas palavras pode-se ver que as manifestações espíritas, sejam de que natureza forem, nada têm de sobrenatural ou maravilhoso. São fenômenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações entre o mundo visível e o invisível, lei tão natural quanto as da eletricidade, da gravitação, etc. O Espiritismo é a ciência que nos dá a conhecer essa lei, como a mecânica nos dá a conhecer as do movimento e a óptica as da luz. Estando as manifestações espíritas em a Natureza, produziram-se em todas as épocas. A lei que as rege, quando conhecida, explica-nos uma porção de problemas olhados como insolúveis. É a chave de uma porção de fenômenos explorados e amplificados pela superstição.

Seja como tenha ocorrido os fenômenos das mesas girantes no século 19, é impossível ter evidências nos conformes da ciência de pressupostos materialista - O que temos são descrições de diferentes autores e estudiosos observando diferentes casos que aconteceram em variados pontos do "eixo" Europa - América do Norte e as descrições de Kardec parecem ter seriedade e interesse em investigar os fenômenos. Afirmações do tipo "ah, os fenômenos do século 19 envolvendo espiritismo e espiritualismo devem ter sido casos de alucinações coletivas" são generalistas por desconsiderar toda a amplitude e variedade de casos e também são enviesadas nos conformes da pré suposição da inexistência da alma/ de espíritos. Uma construção de conhecimento séria e ética não parte de tal pressuposição excludente e limitante. Kardec então buscou construir conhecimento como pode ser notado no texto da Revista Espírita - o espiritismo não se tratava de uma religião: Admitia que existem coisas desconhecidas, mas não tinha segredos, hierarquia nem liturgias.

16. ─ Afastado completamente o maravilhoso, tais fenômenos nada mais têm que repugne à razão, porque vêm tomar assento ao lado dos outros fenômenos naturais. Nos tempos de ignorância, todos os efeitos cujas causas não eram conhecidas eram reputados sobrenaturais. As descobertas científicas foram restringindo continuamente o círculo do maravilhoso. O conhecimento desta nova lei vem reduzi-lo a nada. Assim, os que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso, provam, por isto mesmo, que falam do que não conhecem.

Neste parágrafo Kardec mostra que buscava extinguir o conceito de sobrenatural, afinal o espiritismo visava explicar toda (um)a série de fenômenos, dos quais as religiões se apropriam e os cientistas simplesmente os negam. Neste ponto entendo que Kardec tentou algo muito à frente de seu tempo - porém não era uma construção de conhecimento com universalidade, devido a estar limitada ao contexto da Europa positivista; Kardec, bem como a maioria esmagadora (ou totalidade) dos pensadores europeus do século 19, não percebia como a ciência não era só uma busca pela verdade, mas era também uma maneira de determinar o que era a verdade. O discurso de "restringir continuamente o círculo do maravilhoso" está relacionado a elevação da ciência (de origem europeia ocidental) como superior aos demais saberes. Sua separação da filosofia ocorrida por volta da primeira metade do século 19 consolidou este fato: A ciência passava oficialmente a menosprezar campos relegados à filosofia e a investigar só os fenômenos naturais com (suposta) "neutralidade" o que incluía tudo o que era perceptível no mundo e no espaço; Desta forma a filosofia ficava somente incumbida a discutir ética, ontologia, teleologia e epistemologia como se tais assuntos fossem separáveis da ciência ou irrelevantes para esta última. Claro que haviam cientistas humildes e/ ou éticos, mas muitas das ideias aceitas na ciência da época de Kardec eram racistas e elitistas e tal fato é indissociável dos pressupostos materialistas que encontraram a desculpa perfeita no biologismo pós Darwin. Como citei anteriormente, a elite intelectual certamente era em grande parte de origem burguesa desde a época de Locke, Newton e Voltaire - época esta onde o empirismo foi determinado como o meio superior de se construir conhecimento na Europa. Quando Kardec realizou suas investigações, os sistemas públicos de educação eram incipientes (a construção de conhecimento ainda era predominantemente burguesa) e além do domínio do empirismo, já haviam sido consolidadas na filosofia natural (ciência) as ideias de 4 raças humanas propagadas por Lineu, o positivismo com a hierarquização das áreas de estudo de Auguste Comte (1798-1857), o racismo científico entre outras ideias nada universais, ou seja, nada éticas (antiéticas). 
Apesar disto, tais limitações seja na ciência ou no espiritismo de Kardec, são passíveis de uma revisão pautada por valores universais: incluir valores universais na construção de conhecimento é uma tarefa da filosofia, portanto a ciência por si só, principalmente a de pressupostos materialistas/ empiristas não é capaz de aplicar a ética e o diálogo horizontal (equidade) na busca pela verdade. Para desmistificar todo tema espiritual, não basta a racionalidade ou a mensurabilidade - é preciso intenção e postura éticas, eis o porquê existem movimentos para descolonizar não só a ciência, mas a epistemologia - a filosofia, a espiritualidade e a construção de conhecimento em geral. Hoje temos autores que defendem as cosmovisões indígenas e da África "subsaariana" que foram quase apagadas por um "epistemicídio", bem como temos espíritas progressistas que realizam uma historiografia do espiritismo criticando e refutando o racismo e outras posturas preconceituosas e obscurantistas dentro do movimento. 

17. ─ Uma ideia mais ou menos geral entre pessoas que não conhecem o Espiritismo é crer que os Espíritos, apenas porque são desprendidos da matéria, devem saber tudo e possuir a sabedoria suprema. Isto é um erro grave. Deixando seu envoltório corporal, não se despojam imediatamente de suas imperfeições. Só com o tempo se depuram e se melhoram. Sendo os Espíritos as almas dos homens, como há homens de todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de maldade, o mesmo acontece entre os Espíritos. Entre eles, há aqueles que são apenas levianos e brincalhões; outros que são mentirosos, trapaceiros, hipócritas, maus e vingativos; e outros, ao contrário, que possuem as mais sublimes virtudes e o saber em grau desconhecido na Terra. Essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos mais importantes pontos a considerar, pois explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebe. É preciso aplicar-se em distingui-las. Disto resulta que não basta dirigir-se a um Espírito qualquer para ter uma resposta justa para cada pergunta, porque o Espírito responderá conforme o que sabe, e muitas vezes dará apenas sua opinião pessoal, que pode estar certa ou errada. Se ele for prudente, confessará sua ignorância sobre o que não sabe; se for leviano ou mentiroso, responderá a tudo, sem se preocupar com a verdade; se for orgulhoso, dará sua ideia como verdade absoluta. É por isto que São João, o evangelista, diz: “Não creiais em todo o Espírito, mas experimentai se os Espíritos são de Deus.” A experiência prova a sabedoria deste conselho. Haveria, pois, imprudência e leviandade em aceitar sem controle tudo o que vem dos Espíritos. Os Espíritos só podem responder sobre o que sabem e, além do mais, sobre o que lhes é permitido responder, porque há coisas que eles não devem revelar, porque ainda não é dado ao homem tudo conhecer

Kardec sabia da importância da ética não só na construção de conhecimento mas também na espiritualidade. Todos precisam despertar e viver os valores universais (que constituem a ética) e por isto ele indica que existem muitos espíritos imperfeitos. 
A necessidade de se distinguir as comunicações espirituais boas e ruins, não é exatamente uma novidade na história da humanidade: Platão aborda parte dela no diálogo Ion, onde ele mostra seu mestre Sócrates ensinando a importância de se estudar os temas que se trabalha (no caso, a poesia) e não depender somente de inspiração "divina/ daimônica"*.
*Daimonica refere-se à palavra grega daemon, que pode ser traduzida como espírito, gênio ou semi deus. Não é consenso se tem relação com o conceito cristão posterior de demônio, pois este último pode ter surgido da união das palavras demos (povo) e onios (medo). Se houver relação, é possível que a igreja tentou difamar o conceito de daemon, já que Platão apresenta uma cosmovisão diferente da instituição religiosa. 
Este espiritismo francês do século 19 então se mostrou diferente do movimento espírita posterior dominante no Brasil - no país sul americano, desde o século 20, aceita-se obras de alguns médiuns de maneira inquestionável, como se fossem verdades absolutas e sagradas, pouco diferindo de dogmas. 

18. ─ A qualidade dos Espíritos é reconhecida pela linguagem. A dos Espíritos realmente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de toda trivialidade, puerilidade ou contradição; respira sabedoria, benevolência e modéstia; é concisa e sem palavras inúteis. A dos Espíritos inferiores, ignorantes ou orgulhosos carece dessas qualidades; o vazio das ideias aí é quase sempre compensado pela abundância de palavras.

19. ─ Outro ponto a considerar, igualmente essencial, é que os Espíritos são livres. Eles se comunicam quando querem e com quem lhes convém, e também quando podem, pois têm as suas ocupações. Eles não estão às ordens e ao capricho de quem quer que seja, e a ninguém é dado fazê-los virem contra a sua vontade, nem lhes fazer dizer o que não querem, de sorte que ninguém pode afirmar que um certo Espírito virá a seu apelo em determinado momento ou responderá a esta ou àquela pergunta. Dizer o contrário é provar a absoluta ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo. Só o charlatanismo tem fontes infalíveis.

Kardec tenta traçar parâmetros para se reconhecer as boas mensagens ou boas inspirações espirituais. De fato a linguagem é um fator importante na vida humana, então quanto menos contraditória e mais alicerçada em valores universais, mais ética e mais verdadeira a mensagem. Uma linguagem ofensiva bem como uma complexidade exagerada na utilização de palavras, certamente não são sinais de universalidade nem de preocupação com o bem coletivo... 
Além disto, os espíritos sendo seres existentes em uma realidade para além da meramente material/ tridimensional, não podem ser constantemente monitorados ou controlados. Neste ponto, Kardec não só desmonta argumentos de espiritualistas charlatães que poderiam vir a alegar ter domínio sobre os espíritos ou sobre temas espirituais e até divinos, mas também abala a ideia de que o conhecimento superior ou universal dependa da reprodutibilidade típica da ciência "mainstream". Isto porque, apesar de Kardec não discutir como a realidade espiritual poderia ser adimensional ou estar para além do mero espaço tridimensional (mencionei no texto anterior sobre a descoberta matemática do conceito de quarta dimensão), é óbvio que a ciência de viés positivista se limita a investigação empírica (sensorial) de pressupostos materialistas (parte da suposição de que não há nada além da matéria perceptível e do espaço tridimensional). Este método de investigação dominante na ciência, juntamente com sua pré suposição, desde o século 19 não é capaz de aceitar a possibilidade de que a psiquê sobreviva após a morte do corpo, nem de que haja algo relevante além do espaço tridimensional e por isso crê que somente o reprodutível é verdadeiro ou importante.  

20. ─ Os Espíritos são atraídos pela simpatia, pela similitude dos gostos e dos caracteres e pela intenção que faz desejada a sua presença. Os Espíritos superiores não vão a reuniões fúteis, do mesmo modo que um cientista da Terra não iria a uma reunião de jovens estúrdios. Diz o simples bom-senso que não pode ser de outro modo; ou, se por vezes aí vão, é para dar um conselho salutar, combater os vícios, tentar reconduzir ao bom caminho. Se não forem escutados, retiram-se. Seria fazer uma ideia completamente falsa pensar que Espíritos sérios se comprazem em responder a futilidades, a perguntas ociosas, que nem provam interesse nem respeito por eles, nem real desejo de instruir-se e, ainda menos, que possam vir dar espetáculo para divertir curiosos. Se não o fizeram em vida, não farão depois de mortos.

Embora possa parecer que o autor, ao falar da simpatia entre espíritos, da comparação com o cientista e de se combater "vícios", abordou diferentes temas aqui, trata-se da relação entre bons sentimentos, raciocínio e interesse pelo conhecimento e ética! Esta lógica mais uma vez é condizente com a filosofia de Platão (e possivelmente com obras de outros filósofos também), pois demonstra para a construção de conhecimento, a importância de aspectos psíquicos e existenciais centrados na universalidade, na justiça e no bem, enfim valores universais/ éticos. 

21. ─ Do que precede resulta que toda reunião espírita, para ser proveitosa, deve, como primeira condição, ser séria e recolhida; que aí tudo deve passar-se respeitosamente, religiosamente, com dignidade, se se quiser obter o concurso habitual dos bons Espíritos. É preciso não esquecer que se esses mesmos Espíritos aí se tivessem apresentado quando vivos, teriam tido por eles considerações às quais têm ainda mais direito depois de mortos. Em vão alegam a necessidade de certas experiências curiosas, frívolas e divertidas para convencer os incrédulos: o que acontece é de resultado negativo. O incrédulo, já inclinado a troçar das mais sagradas crenças, não pode ver uma coisa séria naquilo de que fazem pilhérias; não pode ser levado a respeitar aquilo que lhe não é apresentado de modo respeitável. Assim, reuniões fúteis e levianas, dessas onde não há ordem nem seriedade nem recolhimento, ele sempre leva uma impressão má. O que pode convencê-lo é, sobretudo, a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara. É diante de suas palavras graves e solenes, diante de revelações íntimas que o vemos empalidecer e comover-se. Mas, pelo próprio fato de que há mais respeito, veneração e apego à pessoa cuja alma se lhe apresenta, ele fica chocado de vê-la vir a uma assembleia irreverente, entre mesas que dançam e chocarrices de Espíritos levianos. Por mais incrédulo que ele seja, sua consciência repele essa aliança entre o sério e o frívolo, entre o religioso e o profano, razão por que taxa tudo de palhaçada, e por vezes sai menos convencido do que quando entrou. As reuniões desse gênero sempre fazem mais mal do que bem, porque afastam da doutrina mais gente do que atraem, sem contar que oferecem o flanco à crítica dos detratores, que aí acham fundados motivos para troça.

22. ─ É um erro transformar as manifestações físicas em divertimento. Se elas não têm a importância do ensino filosófico, têm sua utilidade do ponto de vista dos fenômenos, porque são o á-bê-cê da ciência da qual deram a chave. Posto que hoje menos necessárias, ainda ajudam na convicção de certas pessoas. Mas não excluem, absolutamente, a ordem e a compostura nas reuniões onde se fazem experiências com elas. Se fossem sempre praticadas de maneira conveniente, convenceriam mais facilmente e, sob todos os aspectos, produziriam resultados muito melhores.

Eis um desafio para a prática espírita: Kardec propõe que ela não seja superficial e sim que seja profunda e bem intencionada. As práticas devem não somente se pautarem em valores universais, mas também exigem certa concentração, sinceridade na postura e intenção ética. O recolhimento citado pelo autor é uma palavra certamente usada na Europa ocidental ao menos desde a renascença. Ela parece se referir a um estado similar à meditação, que é mais comum nas culturas orientais e se refere a uma prática em grande parte da espiritualidade ou da religiosidade. Aquietar a mente, buscar o silêncio, o autocontrole etc... São fatores importantes não só para a pessoa pausar ou buscar uma saúde mental dentro de uma civilização dominada por um sistema econômico mercantil e uma ideologia capitalista - Na verdade, é um distanciamento de tal superficialidade e objetificação do ser humano, pois é cuidar do sentido existencial, de um nível mais profundo relacionado à psiquê, e a possibilidade da transcendência: este último um elemento da espiritualidade e da religiosidade. 
Certamente praticar as reuniões espíritas da maneira que Kardec propôs traz semelhanças a alguns ensinamentos de Jesus e de mestres/ yogues do sanatana dharma. Salvo as possíveis diferenças teológicas ou filosóficas entre espiritismo e espiritualidade "hindu", ambas trabalham a existência para além da pressuposição materialista e reducionista e requerem por parte de seus praticantes uma combinação de empenho, postura humilde, objetivos solidários e de progresso espiritual; Progresso esse que seus frutos podem ser percebidos não só em um despertar da moral de indivíduos, pois em algum nível é ético (uma moral sem ética tende ao moralismo) e social, colaborando com a formação de sociedades mais justas, equitativas nas esferas ideológica e material.

23. ─ Sem dúvida estas explicações são muito incompletas e necessariamente podem provocar numerosas perguntas, mas não se deve perder de vista que isto não é um curso de Espiritismo. Tais quais são, bastam para mostrar a base sobre a qual ele repousa, o caráter das manifestações e o grau de confiança que podem inspirar, conforme as circunstâncias. Quanto à utilidade das manifestações, ela é imensa, por suas consequências. Entretanto, ainda que só tivessem como resultado dar a conhecer uma nova lei da Natureza e demonstrar materialmente a existência da alma e a sua imortalidade, já seria muito, porque seria uma larga via aberta à filosofia.

Como diz o próprio autor, muitas dúvidas (e questionamentos) podem surgir em relação ao espiritismo, mas vale ressaltar que ele reconhecia uma importância em construir um conhecimento aberto à filosofia. Isto porque a filosofia ocidental por exemplo, desde sua origem no século 4 a.C. com Platão que reuniu várias teorias anteriores em um corpo de obras coeso, trabalha a construção de conhecimento com universalidade, ética e um rigor, ainda que este último elemento seja bem diferente do rigor da ciência que se espalhou do século 19 em diante. Embora a ética platônica possa ser percebida em maior parte dos textos do filósofo, o rigor da construção de conhecimento proposta por Platão pode ser entendido melhor nas obras A República, Crátilo, Teeteto, e, principalmente em Sofista e Parmênides.
A obra de Kardec então não traz uma verdade absoluta e nem é charlatanismo, pois não visa trazer poder ou bens materiais ao autor e seus colegas, prejudicando outrem. O espiritismo francês durante o século 19 se mostrou uma investigação aberta ao diálogo entre ciência e espiritualidade e com algum grau de inter religiosidade. Teve suas imprecisões e limitações? Certamente, mas colaborou com uma visão mais ampla do ser humano do que a proposta pelo materialismo e com uma cosmovisão que possibilita uma construção de conhecimento mais abrangente e menos excludente. 

A saúde mental das pessoas começa na tenra infância

 Imagine um ser que não sabe se comunicar, mas é cercado por seres que sabem. Não só é cercado, mas é cuidado por estes, pois está vulneráve...