Neste texto trago um pouco da história da filosofia e sua importância, com enfoque no iluminismo; período da era moderna posterior à renascença e anterior ao positivismo e à pós-modernidade.
O iluminismo é tido como um movimento intelectual e filosófico de base europeia; Seus autores propagaram ideias sociais centradas no valor do conhecimento construído pela investigação racionalista e empirista, em ideais políticos de "direito natural", "liberdade", "progresso", tolerância, fraternidade e governo constitucional, e na separação formal entre estado e igreja.
Não há um consenso absoluto de quando foi o início de tal movimento, mas entende-se que ele tenha começado na Europa durante o final do século 17.
Um filósofo que se destacou no período de transição da renascença ao iluminismo foi René Descartes (1596-1650). Tido como um racionalista, Descartes deu ênfase à importância da matemática e da ética. Em seus estudos sobre o ser humano, além de abordar o tema da ética, também investigou o corpo humano e seu funcionamento. Conhecido pela frase "Penso, logo existo" (ou "Penso, logo sou"), Descartes indica que o ser humano é em essência o psiquismo, mas que age em relação (ou em) seu próprio corpo que tem uma extensão passiva de ser medida etc. Este foi um dos possíveis motivos pelo qual o filósofo foi considerado um dualista: Descartes é conhecido por classificar o ser humano como "dual": mente e corpo. Seus estudos causaram grande impacto na Europa e posteriormente no ocidente em geral - Vários pensadores de seu tempo e das décadas seguintes passaram a estudar, comentar e criticar sua obra. Embora a crítica nem sempre seja destrutiva, há evidências de que muitos pensadores discordaram da visão de ser humano e da existência apresentada por Descartes. Um dos principais motivos seria a "necessidade" de uma visão monista, ou seja, de que o ser humano era uma coisa "una" e não "dual". Wozniak em "Mind and Body: René Descartes to William James" aborda este período da história: o livro foi aceito pela American Psychological Association (APA), pois seu conteúdo faz parte da história da filosofia e, consequentemente, da ciência e da psicologia.
Entre as várias vozes que discordaram significantemente de Descartes, esteve o britânico John Locke (1632-1704), conhecido como fundador do liberalismo e um dos principais precursores do empirismo. Locke é unanimemente aceito como um autor inserido no movimento iluminista da Europa. Em linhas gerais Locke costuma ser lembrado por defender que todo indivíduo nasce com os seguintes direitos naturais: vida, liberdade e propriedade. Os conceitos de liberdade e propriedade porém devem ser discutidos buscando-se uma prática ética: que respeite a universalidade do ser humano... algo bem difícil de ser alcançado pela maioria dos pensadores europeus daquela época (séculos 17 e 18). Tentarei explicar tal fato sucintamente:
O iluminismo certamente não surge como algo uno, coeso e pensado por todos os filósofos classificados como iluministas. O movimento iluminista indiscutivelmente teve sua importância na história humana, mas ele naturalmente teve seus defeitos desde o início com as propostas de seus primeiros pensadores. Sua origem é predominantemente burguesa, pois na época, a maioria das pessoas de baixas classes sociais não tinham acesso aos estudos e ao conhecimento e nem recebiam espaço para expressar suas ideias etc. A mesma exclusão valeu para membros de nações não-européias: Nativo-americanos, africanos e asiáticos, por variadas razões, não eram aceitos entre os pensadores europeus. Existiram exceções a esta regra, mas estes raros indivíduos expressaram seus pontos de vista por curtos períodos de tempo entre os europeus (geralmente só durante suas respectivas vidas) e acabaram silenciados de alguma forma - seja por perseguições ou por uma massiva quantidade de opiniões e visões das elites europeias.
Os pensadores iluministas praticamente em sua totalidade, aceitavam a divisão do ser humano em diferentes raças, pois consideravam características físicas como sendo de grande relevância - supostamente elas determinavam não só a aparência, mas também o comportamento e a capacidade intelectual dos seres humanos e isto passou a ser refutado somente muitos anos após o iluminismo, durante a década de 60 do século 20. Essa postura da maioria dos pensadores iluministas estavam de acordo com as opiniões e anseios das elites europeias: enxergavam a colonização e a exploração de terras e populações estrangeiras (escravização etc) como algo aceitável, afinal tais povos eram considerados "selvagens" e/ ou "ignorantes e ingênuos" . A postura dos pensadores iluministas de questionar e enfrentar as monarquias e regimes absolutistas eram válidas enquanto se demonstrassem éticas: buscando a universalidade... porém como citei anteriormente, o pensamento europeu predominante só conseguia defender os povos europeus, pois o estrangeiro era tido como imperfeito e alguns autores faziam declarações ainda mais destrutivas do que a média dos pensadores, sobre os asiáticos e africanos (Petty, por ex. taxava os negros como uma raça desprezível). A visão racializada alicerçada em elementos físicos/ corporais do ser humano não contradizia o empirismo proposto por autores como Locke - na verdade colaborava com tal visão reducionista de ser humano e de realidade. Isto porque apesar do empirismo se mostrar eficaz como rigoroso método investigativo para o desenvolvimento da vindoura ciência, Locke não propôs tal ideia somente para realizar investigações e construir conhecimento: o autor britânico chega a insinuar que o empirismo é uma visão da realidade, ou uma forma de se viver e de se chegar à verdade. Isto por si só é negar grande parte do desconhecido e também é negar as experiências tidas como espirituais, místicas e similares, taxando-as de mentiras ou de meras alucinações. Oras, é compreensível que tal pensamento fosse propagado na Europa que foi dominada pela ideologia religiosa das igrejas por séculos, porém é inegável que tal pensamento nega estudos e teorias históricas da filosofia, bem como nega a universalidade de pensamento e seus diferentes modos de viver. Mais do que isso, propor o empirismo como o método mais verdadeiro de se alcançar o conhecimento ou a verdade, é em prática um dogma e colabora com a exclusão de cosmovisões, também colaborando com a taxação de variados povos da Terra como se estes fossem "primitivos" por integrarem uma realidade espiritual em seus modos de viver e de construir conhecimento.
O iluminismo teria durado até a ascensão de Napoleão (ou sua queda), talvez porque o império napoleônico derrubou a república/ "democracia" francesa tida como principal fruto do iluminismo. Porém o sistema liberal proposto por autores como Locke, que se provou mais econômico do que político ao longo dos anos, e a maneira dominante de se construir conhecimento (estritamente empírica/ racionalista), permaneceram em grande parte as mesmas do iluminismo após o século 18: O racismo científico, como citei, atravessou todo o século 19 durando até por volta de 1960 e a economia liberal (mercantil laissez faire) sobreviveu às crises financeiras da industrialização, ao crescimento dos bancos privados e às guerras mundiais. Tal sistema econômico que tanto influenciou a política, não foi extinto e sim só ganhou uma nova roupagem durante o século 20: o neo liberalismo continuou defendendo os bens e propriedades dos grupos mais enriquecidos das sociedades em detrimento da classe trabalhadora e da maioria dos empobrecidos.
Servindo de argumento científico em defesa do liberalismo com pouca ou nenhuma regulação do estado (um tipo de continuação da ideologia laissez faire), o darwinismo social surgiu no final do século 19, entre as elites intelectuais da Europa. Desprezando fatores sociais e psicológicos do ser humano, tal ideologia disfarçada de construção de conhecimento colocou a culpa da pobreza e da desigualdade sócio econômica nas massas de pessoas mais pobres das nações e teve sua origem no biologismo - uma visão científica reducionista do ser humano, de seu comportamento e de suas relações. Tal reducionismo se mostrou interligado com a propagação do empirismo como se este fosse o melhor método de construção de conhecimento ou o mais verdadeiro. Afinal, se a investigação sensorial dos fenômenos e a reprodutibilidade determinavam o que era verdade (ao menos entre as elites, sejam elas intelectuais, econômicas ou ambas), a conclusão natural desta forma de "construir conhecimento" era de que os seres vivos eram somente materiais/ corporais e que o psiquismo era estritamente fruto dos corpos. O positivismo surgido na Europa do século 19 e rapidamente espalhado pelo ocidente, é claramente fruto da construção de conhecimento empírica. A consolidação e propagação deste pressuposto na construção de conhecimento possivelmente teve sua importância para reduzir o poder das igrejas na Europa, mas criou uma narrativa dos fatos oposta não necessariamente à falta de ética, seja nas igrejas ou nas elites, mas sim oposta a toda forma de religiosidade e espiritualidade. Tanto que a ciência foi mais claramente apartada da filosofia no início do século 19 com o surgimento do positivismo. Um dos ícones do positivismo, Auguste Comte (1797-1857), propagou a idéia simplória de uma história linear onde a humanidade passou por uma era religiosa que durou da antiguidade até a renascença (!), seguida por uma era supostamente metafísica até a virada do século 18 ao 19, onde estaria nascendo a "era científica". Para o autor o pensamento científico de sua época (racional e estritamente empírico) deveria substituir completamente a era anterior, ou seja, conscientemente ou inconscientemente, Comte desprezou as conquistas filosóficas que embasaram sistemas políticos representativos. suas constituições, leis, códigos morais e éticos. Certamente tais ideias abriram espaço para uma construção de conhecimento supostamente "neutra" (a ciência separada da filosofia), que argumentava não tratar da ética, mas na verdade se afastava desta, permitindo a propagação de variadas teorias desumanizadas e antiéticas como o racismo científico, a drapetomania, o darwinismo social etc.
Após ganhar força ao longo dos anos, o darwinismo social surgido da ciência positivista reforçou a intensificação da desigualdade social e econômica, defendendo o enriquecimento irrestrito das elites e relativizando a justiça ao excluir por completo os valores como a equidade e a universalidade da construção de conhecimento dominante. Esta ideologia desumanizada possivelmente ganhou força na ciência porque foi aceita como se fosse "neutra" em relação ao ser humano, o tratando como a biologia entendia os demais seres vivos na época - aplicou conceitos como a adaptação biológica, à sociedade, fomentando e apoiando a ideia de "lei do mais forte" nas civilizações humanas.
Não estou dizendo aqui que o iluminismo foi um movimento coeso e totalmente interligado com os sistemas políticos e econômicos modernos e nem afirmo que foi o grande fomentador de ações antiéticas como o racismo ou o elitismo, mesmo porque muitas das ideologias reducionistas e antiéticas surgiram no período posterior - o séc 19 dominado pelo positivismo no ocidente. O movimento iluminista é complexo pelo simples fato de ter variados autores: Alguns como Locke se mostraram mais enraizados na cultura de seu local e tempo: A Inglaterra, que de tempos em tempos passava por cercamento de terras, enfrentava disputas por propriedades e na época de Locke até um século depois estava numa "ascensão" econômica devido às suas ações imperialistas que retirava recursos naturais e humanos de outras nações em prol de si mesma. Outros autores iluministas como Jean Jaques Rousseau (1712-1778), conhecido por influenciar o direito e defender o interesse coletivo, observou o potencial do ser humano ser bom e as influências sociais neste. Também abordou a importância da educação, dando abertura a uma universalidade de pensamento e acesso ao conhecimento, talvez influenciada por autores anteriores do final da renascença como Jan Amós Comenius (1592-1670).
Outros autores do iluminismo também tiveram sua importância, como, por exemplo, Henry More (1614-1687), Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778) e Diderot (1713-1784), mas não vou abordá-los aqui, pois além de conhecer só resumo sobre suas ideias, um texto abordando todos estes autores ficaria muito extenso para uma postagem de blog.
Enfim o iluminismo não foi a desgraça que alguns conservadores dizem que foi (devido ao fato de criticar a religião etc), nem foi um movimento ético de excelência ou virtudes humanas que salvaria a humanidade da ignorância. Foi um racionalismo mais ou menos útil que descambou em várias ideologias reducionistas; O iluminismo colaborou muito para o surgimento da ciência nascida do positivismo no início do século 19 - suas especializações, descobertas etc. Colaborou também para a prática de governos representativos e menos autocráticos do que as monarquias e para uma renovação dos conceitos de democracia e república. Mas também são inegáveis suas limitações resultantes de suas origens nas elites da Europa dos séculos 17 e 18.
Considerações
No final dificilmente haverão "ismos" que salvem a humanidade enquanto esta não se tornar mais ética, com mais universalidade, equidade etc. Universalidade inclui relações equitativas entre pessoas com diferentes cosmovisões, bem como a vivência e a propagação de valores universais, ou seja, valores que unem as pessoas e beneficiam o maior número possível delas, numa busca constante por melhoria não só material, mas intelectual, comportamental e ética dos seres humanos e suas relações com a vida em geral. Uma postura e vivência que respeite todas as perspectivas da consciência humana, sejam estas racionais, simbólicas (míticas) ou transcendentais (místicas), se pautando pela ética e seus valores e não por meros métodos ou por uma suposta neutralidade que provou não existir na construção de conhecimento, na política e na economia.
Infelizmente, como humanidade, ainda nos desenvolvemos mais rapidamente na esfera tecnológica do que na ética. Talvez por isso a história humana após o surgimento do iluminismo seguiu com tensões sociais, econômicas, guerras etc...
Nestas considerações finais citei brevemente a importância da ética na construção de conhecimento e nos sistemas políticos/ econômicos, mas um aprofundamento sobre tal tema requer um outro texto.
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