A importância da Vida Psíquica e dos Valores (universais)

 Você imagine viver uma vida onde nada pareça ter sentido, ou, uma vida que em alguns momentos você vê algo que faz sentido, mas nunca consegue viver aquilo - está sempre ocupado com tarefas que lhe impõem - sejam tarefas solicitadas por pessoas próximas como pais e parceira(o) ou por tarefas impostas por regras da sociedade, via um sistema econômico, político, religioso etc. 

Oras, você pode responder que isso é normal: que desde "sempre" a humanidade vive sob imposição de alguma regra ou sistema de regras que lhe exige a realização de tarefas. Mas não se trata disto - estou falando do sentido (existencial, de vida), mais precisamente da falta dele ou da impossibilidade de experimentá-lo/ vivê-lo. 

Quando jovem minha vida não parecia ter sentido e eu não procurava isto... Por outro lado, o que fazia sentido para mim era viver com quem eu amava e onde me sentia amado: com minha mãe, com meus irmãos... e por alguns anos viver a amizade... com meus amigos. Mas o tempo passou e muitas coisas foram mudando: caminhos trilhados por mim e pelas outras pessoas que conheci foram divergindo cá e acolá... Relacionamentos, carreiras e trabalho ditam regras, escolhas e prioridades. Neste processo, observando a realidade em meu entorno, fui descobrindo dificuldades e contradições de pessoas que fui conhecendo e da sociedade em geral - este último caso, mais amplo ou coletivo, eu entendi através de notícias e estudos.

Após anos destas observações e estudos confirmei o que eu suspeitava: o mundo precisa do bem, da solidariedade, pois a maioria das pessoas está correndo atrás do próprio sucesso ou da própria segurança. Na maioria das vezes, incentivado por discursos segregacionistas ou meritocráticos, seja de religiões, de empresas, de influenciadores etc. Então vivi um pouco do que me fazia sentido: pratiquei a solidariedade que estava a meu alcance em alguns anos... mas eu tinha que cuidar de mim também e agora não só de meu corpo (da minha segurança alimentar, econômica etc) mas também de minha mente: de minhas percepções, sentimentos, de meu sentido existencial, de minha profundidade psíquica. Profundidade aqui não é nada conciliável com me adaptar às regras dominantes da sociedade onde vivo: O Brasil, uma nação sul-americana (de democracia representativa) presidencialista e de sistema econômico (neo) liberal. Uma sociedade onde escolhem-se alguns líderes para determinar o que é importante a cada 4 anos e onde o sistema organizador de recursos para a vida prioriza o mercado o mais livre de regulação possível - um mercado onde aqueles que acumularam mais bens (dinheiro etc) tem mais facilidade para acumular mais enquanto os demais (a maioria) se esforçam para adquirir o mínimo enquanto são incentivados pelos discursos que mencionei anteriormente. 

As regras dominantes na sociedade são a "realidade" em meu entorno - em geral elas não fazem sentido para mim e não fazem parte da profundidade que senti em minhas experiências significantes. Minhas experiências significantes são minha realidade e relacionam-se com sentimentos que me fazem bem: o amor que vivi de minha mãe, a amizade que vivi com meus irmãos e com meus amigos e os sentimentos que senti ao praticar a solidariedade. Estas coisas nada têm a ver com tentar ganhar dinheiro ou participar de um grupo que critica e ataca os demais. 

Bom, você poderia dizer: Mas sua "realidade" é a tua opinião ou os teus valores e devem obedecer leis exteriores, se adaptar a elas para que você sobreviva... 

Primeiramente então eu destacaria a diferença de opinião e valores: Opinião nós emitimos em relação às coisas que não conhecemos - coisas que no máximo tivemos um contato superficial e que não temos certeza dos fatos, pois estes não foram averiguados ou confirmados. E isto não é o meu caso.

Em segundo lugar, teríamos que avaliar o que são valores. Eles podem ser valores individuais, onde cada pessoa tem alguns: É possível que uma pessoa dê valor (priorize) à amizade, a amar uma parceira(o), os filhos, os pais, que dê mais valor a um trabalho, aos bens materiais ou mesmo a um sistema de regras comportamentais etc. São exemplos de valores individuais... mas existem valores universais também: valores que independem de locais e épocas. Estes últimos valores são temas da ética e da filosofia e não deveriam ser algo super complexo ou inalcançável para as pessoas... Mas é um tema que parece despertar interesse de pouca gente por variados motivos. 

Falemos dos supostos interessados em filosofia e ética então: Como saber se tais pessoas realmente se interessam? Tentemos ir por etapas: O interessado não pode se apoiar em mera opinião. Opinião não é conhecimento como citei anteriormente. Mas como todos tem ou deveriam ter o direito de filosofar, então mesmo aqueles sem conhecimento devem buscar o saber e ser amigável ao saber. Para ser amigável, é preciso abertura: aceitar descobrir coisas novas e aceitar dialogar - só assim se inicia uma investigação sem viés e que não seja opiniática. E isso não é novidade: tanto a filosofia clássica fundada por Platão parte da presunção da própria ignorância, como a filosofia moderna de Russerl (fenomenologia) parte da suspensão dos pressupostos. São formas de possibilitar um conhecimento universal e universalidade é um elemento essencial da ética (por isso falei de valores universais e não de valores individuais).

Os valores universais então já se mostram abertos a todos, sem favorecer um em detrimento de outro. 

Todas essas coisas que citei - buscar conhecimento para evitar se basear em mera opinião, ser amigável, ter abertura (para escutar e considerar cosmovisões), assumir a própria ignorância, dialogar com universalidade, investigar, valores universais etc, são essencialmente mentais. E isso reforça a importância da vida mental, ou ao menos, de minha vida psíquica. 

Entendo a vida psíquica como mental e também espiritual - um nível mais profundo da mentalidade, que está ligado não só a sentimentos, sentido de vida e saúde mental, mas também está ligado à espiritualidade. 

A saúde mental é um tema delicado que, no meu caso, tentei tratar via psicoterapia algumas vezes entre os anos de 2017 e 2021 com um sucesso que considero apenas parcial. A espiritualidade por sua vez pode ou não ser baseada em religião, mas em minhas experiências, já passei por esta fase voltada à religião: frequentei a igreja católica desde missas até ações de caridade, visitei terreiros de umbanda, passei por desobsessões e iniciei um curso em um centro espírita e fui iniciado na Krya Yoga (uma linha do sanatana dharma, vulgo "hinduísmo"). Não desprezo nenhum destes caminhos espirituais, mas tive dificuldade de permanecer simplesmente em um deles. Minha vida psíquica é muito importante e talvez esta seja a dificuldade de eu me manter em só um (ou dois, que seja) destes caminhos.

O que (re)descobri recentemente após anos de dificuldade tentando terapias e práticas espirituais, foi que viver o amor é muito importante. Sei que "amor" é um termo subjetivo muito relativizado na civilização humana, mas aqui me refiro ao sentimento profundo que deve ser expresso... experimentado. Acho muito difícil definí-lo racionalmente, afinal é natural expressarmos sentimentos via emoções e não via palavras ou escrita. Mas sei que este amor ao qual me refiro não é só gostar, pois está relacionado ao bem / praticar alguma bondade... com felicidade e devoção, portanto com veracidade. 

Particularmente sei que devo ser grato por minha vida, pois sei que sou amado e todos são amados... mas isto eu experimentei via experiências "místicas" ou "mediúnicas". Então o amor que posso viver no cotidiano é com os seres que conheço. Particularmente estou (re)aprendendo a lidar com adultos desde minha crise espiritual que durou aproximadamente de 2019 até um ano ou alguns meses atrás, mas tenho alguma facilidade para gostar de e lidar com crianças. Tenho uma boa oportunidade de viver o amor com meu sobrinho que tem quase 3 anos de idade, assim como também tive oportunidade ao trabalhar numa clínica para crianças com TEA há poucos anos.

Inclusive o contato com uma criança me faz lembrar de quanto fui feliz e amado em minha infância - um período estrutural de nossa vida. Tal período forma a base de como experimentamos os sentimentos, como lidamos com eles e como expressamos eles ao lidar com outros seres humanos. Isto por si só é uma das maiores provas da importância dos sentimentos e da psiquê humana, seja você um materialista, um ateu, um religioso ou um espiritualista independente de religiões. A psiquê e os sentimentos são o que forma nosso ser, ou ao menos o essencial de nosso ser - Não é uma camisa de força, mas é uma estrutura básica do ser humano que não desaparece, pois serve de base das nossas intenções, do que pensamos, do que priorizamos, de como lidamos com a vida e do que carregamos até o fim desta, ou até o "além"...

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