Ensaio sobre Conhecimento, Ética e Política

Nos meus últimos 10 anos de vida, dos 33 aos 43 anos de idade, quando comecei a refletir sobre a humanidade e sobre a minha vida, percebi algumas características da inércia do comportamento humano. Mais do que isso, suspeito que haja uma grande e generalizada inércia psíquica, mental. Apesar que só consegui pensar em críticas construtivas após estudar psicologia na graduação e filosofia por conta própria. 

Sobre os outros posso falar somente do que pude observar e ouvir, já sobre mim eu poderia falar de meus pensamentos e sentimentos, mas já fiz isto em alguns textos anteriores, então vou me ater a uma observação geral sobre as pessoas. 

Particularmente vou falar da ética porque a humanidade precisa conversar sobre isso. A ausência de tal assunto na vida do ser humano fez e faz estrago - já abordei um pouco sobre este tema aqui: https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2024/08/a-anti-etica-etica-e-psique-humana.html e (mais voltado a história das religiões) aqui: https://novotemplodauniao.blogspot.com/2024/09/qual-e-idade-da-religiao-monoteista.html. A ausência deste assunto sobre a ética não só faz estrago no convívio humano, mas também parece relacionada à inércia comportamental/ psíquica que mencionei. Pessoas que não pautam seu comportamento pela ética, pouco se importam com problemas de níveis relacionais, profissionais ou com problemas mais amplos e coletivos, sejam eles sociais ou ambientais, por exemplo.

A ética inevitavelmente trata da ideia do bem, de um bem necessário, mas não meramente particular, pois é universal: o bem para o convívio humano, para seu cotidiano, progresso etc. E, infelizmente, o bem parece ser tratado como um assunto muito relativo, ou de pouca importância, ou mais estranho ainda: pode ser considerado "subjetivo". 

Porém vamos destrinchar esses termos: Subjetivo pode parecer sinônimo de relativo por quaisquer razões, mas não é! Subjetivo é tudo que está SOB algo, que não está no ambiente perceptível pelos nossos sentidos humanos (visão, audição, tato, paladar, olfato). Na construção do conhecimento, notoriamente na filosofia, o termo subjetivo se refere a algo interior do ser humano, como os pensamentos, sentimentos etc. 

Relativo é tudo que é relativo a outra coisa no ambiente, ou seja, no espaço tridimensional, o meio perceptível pelos sentidos, ou seja, o objetivo! A velocidade dos corpos ("materiais", por exemplo) é relativa, mas a velocidade da luz não é relativa, possivelmente por ela estar além do tempo, que desde a teoria da relatividade, pode ser considerado integrado ao espaço como uma só curvatura (a curvatura espaço-tempo parece devaneio, mas é física). 

O bem então não se mostra nem meramente subjetivo, muito menos relativo, já que ninguém consegue interagir sensorialmente com o bem. O bem é uma ideia, mas não é particular de um indivíduo porque é um valor universal. Valores individuais são o que importa para determinadas pessoas em determinados momentos de suas vidas - estes momentos podem ser períodos de tempo curtos ou longos, sendo que algumas abordagens da psicologia os estudam, como a psicologia analítica de Jung. Porém o valor universal está mais relacionado às virtudes e a ideia do bem, temas amplamente e profundamente discutidos nas raízes da filosofia ocidental, particularmente nas obras de Platão. 

Negar a importância da ética é negar o bem, um valor universal e por mais que pareça difícil, relativo ou subjetivo falar deste tema, ele deve ser trazido para o convívio humano - da construção do conhecimento até a política. 

Isso porque se a questão do bem e do mal fosse levada só como uma "questão de perspectiva" não haveria ética e ética é a base das leis da sociedade, enfim de todas as nações. Alegar que a ética e o bem são uma questão meramente relativa, subjetiva ou de perspectiva, é relativismo e o relativismo é tão perigoso quanto um absolutismo só que de maneira diferente: ele fomenta indiferença às questões sociais e éticas enquanto o absolutismo impõe só um ponto de vista como verdade. Esta indiferença não é neutralidade, principalmente em uma realidade onde recebemos informação e temos acesso à informação - Ela é uma escolha com intenção e finalidade, e assim, se não é ética, ela é antiética... Portanto, ao longo da história humana, a ética nunca foi "questão de perspectiva" e foi debatida por lideranças, sejam elas políticas, religiosas ou econômicas. Conforme as sociedades ou nações foram democratizadas ao menos em parte, esse debate se expandiu, ou deveria ter se expandido, ao público geral.

Ao estudarmos história, é possível notar que houve um progresso moral/ ético na humanidade, por mais sutil ou pequeno que seja. Seguem alguns breves exemplos: Na Grécia "pré clássica" o perdedor das olimpíadas declarava guerra ao vencedor e o povo se juntava à matança, em certas pólis (cidades estado) bebês doentes eram jogados à morte; Roma tinha um número de escravizados maior que os libertos por um significante período e dissidentes do império eram jogados para serem devorados por feras diante o público, na era medieval até o fim da renascença houveram inquisições e caça às bruxas, no liberalismo mercantil houve o tráfico negreiro, na era moderna, duas guerras mundiais com utilização de armas químicas e de destruição em massa etc. O fim (ou diminuição) dessas atrocidades marca um progresso ético, ainda que tenhamos muitos problemas para se resolver até hoje. O processo é gradual e não-linear: tem altos e baixos. Não é porque esse processo é lento que deve-se abandonar a ética e sua busca por um bem/ valor universal. Isso seria abandonar uma questão central da filosofia ocidental desde sua fundação por Platão

Este bem é mencionado por Platão com o termo "kalos" (sem tradução exata, seria algo como "bom e belo, porém belo mais do que corporalmente - psicoemocionalmente") a ideia mais elevada / benéfica para todos, ou seja, um valor universal. Tal valor foi central na filosofia ocidental fundada por Platão, porque ele é importante desde a espiritualidade (tema também abordado pelo filósofo) até a vida da sociedade humana, ou seja, no estado, na política (um dos temas centrais das obras "A República" e "O Político"). E se o valor universal abrange da psiquê (mente e/ ou alma) dos indivíduos até os estados/ nações, entende-se que ele é mais que um valor individual, expandindo ao coletivo e assim, ele também é subjetivo e objetivo - Difundir esse valor entre as pessoas é defender a vida, a liberdade com respeito a nível da civilização (social e ambiental), sem abuso psíquico ou corporal, sem atacar o direito de viver.

Este tema trazido para o centro da construção de conhecimento (episteme) e da política, pelo fundador da filosofia ocidental, foi abordado eventualmente ao longo da história, mas dificilmente foi tratado com a importância dada a ele por Platão. Um dos motivos principais e um dos mais notórios, é que o conhecimento se trata de algo muito vasto, e, por isso, é fácil estudar qualquer outra coisa que não seja a ética em si. Soma-se a este fato, a ignorância ao alerta dado por Platão em seu livro 4 da "República", de que a classe mercantil deveria regulada e controlada pelas classes governantes e de defesa das nações. Essa crítica aparece em outras formas nas obras do autor: como em "Górgias" e "Apologia de Sócrates", onde ele critica a priorização da busca pelo sucesso financeiro e acúmulo de bens materiais etc; Hoje a classe mercantil liderada por empresários multimilionários que mal precisam se expor, dominam praticamente todos setores da sociedade e não só a economia/ o empresariado - mas também influenciam pesadamente a política, a religião e até mesmo a ciência. 

Platão alertou para que o dinheiro não adentrasse as classes governantes/ construtoras de conhecimento e de defesa do estado (também em "A República"), mas isso também é geralmente ignorado ao longo da história: Quando o feudalismo foi derrubado na Europa no século 15, o que se sucedeu foi o mercantilismo e desde lá é a mera intensificação desse sistema de ideologia capitalista: liberalismo e neoliberalismo são meras intensificações da atividade comercial/ mercantil que objetificam vidas humanas e precificam tudo. Cultura, bem-estar e sentimentos são gradativamente esmagados por essa ideologia não desde sempre, mas há cerca de 6 séculos. E isto é um problema ético. 

Peguemos de maneira resumida o período anterior ao mercantilismo e ao capitalismo, por exemplo: O feudalismo não era melhor do que o mercantilismo porque também era anti ético: não priorizava o bem como um valor universal, pois priorizava autoridade e obediência! A religião desvinculada da ideia do bem e do amor só leva a esse caminho de autoridade e obediência, onde não se estuda nem a natureza nem a ética, nem ciência e nem filosofia... E além disso, sem ética não há sequer espiritualidade. Qual é a diferença de uma espiritualidade sem ética diante uma atitude materialista sem ética? Em termos de resultados, não haveria diferença alguma: ambas fazem mal, seja para um grupo pequeno ou grande de pessoas.

Quando a humanidade se pautar pela ética haverá um aumento significativo da justiça, do bem-estar e da busca por um sentido na vida das pessoas. Por enquanto vivemos a era da injustiça, do mal-estar e do vazio existencial. Qualquer indígena da América, da Oceania ou da Sibéria sabe o quão nocivos são um estilo de vida prioritariamente mercantil e uma ideologia objetificadora e precificadora como o capitalismo. Ainda que esses povos tenham possíveis "problemas ou imperfeições éticas" como quaisqer outros, eles sabem deste fato, mas a maioria da "civilização" "moderna/ pós moderna" parece não saber, ou (talvez mais precisamente) parece continuar enganada por uma minoria de multimilionários que pregam a ganância, a destruição e/ ou a desesperança. Sendo que o na verdade precisamos do oposto dessas coisas: precisamos compartilhar/ cuidar de todos, precisamos construir cuidando de toda a vida e precisamos de esperança. Utópico? Talvez, mas necessário.

 

Considerações sobre Platão e suas propostas de estado e de episteme

 Trago aqui algumas considerações sobre as propostas da filosofia de Platão, mais centradas nos 4 primeiros livros da República, mas também contando com algumas ideias apresentadas em outras obras do autor, afinal há (bastante) coerência entre os diferentes textos do filósofo.

Platão destaca a importância da educação para as duas classes que constituíam seu modelo de governo/ estado - Eles teriam que, além de cuidar da saúde de seus corpos, estudar as "artes das musas" (a grosso modo filosofia, história e artes, como indico neste texto: https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2024/09/observacoes-sobre-politeia-republica_01303578338.html)... Este estudo de filosofia, história e artes serviria para trabalhar as virtudes na psiquê das classes guardiãs (governantes e guerreiros), desenvolvendo os valores universais nestes (sabedoria, moderação, coragem e justiça), portanto desenvolvendo a ética. Desta forma eles deteriam a episteme (conhecimento ou ciência) para servir a todos no estado e regular a classe mercantil/ artesã, evitando que esta cresça em riquezas e tente tomar o poder. Além disto, o autor proíbe as classes responsáveis pela segurança do estado de participarem de toda e qualquer atividade mercantil. E como esta educação e leis valem para os filósofos também (a classe governante ideal), o dinheiro e as propriedades privadas, ficam proibidos de circularem entre estas classes que abrangem todo o governo/ todo o estado. Para compensar, estas classes teriam os recursos compartilhados entre si, suficientes para uma sobrevivência digna e saudável. Isto resulta em um estado apartado da economia, onde nenhum interesse comercial pode adentrar ou influenciar o governo e as forças armadas. Platão ainda cita no livro 3 da República que os praticantes de atividades comerciais (mercadores etc) tornam-se inimigos uns dos outros, odiando e sendo odiados, e conspirando uns contra os outros. Assim o autor indica que se as classes dos "guardiões" (de defesa, militar etc) e a classe de governantes (no caso os filósofos, detentores e construtores de episteme/ conhecimento) participassem da atividade mercantil, eles seriam distraídos e imersos nos problemas recorrentes deste tipo de atividade, desta forma acabariam disputando entre si. Isto porque a atividade mercantil é própria da classe trabalhadora que devido ao fato de executarem seus respectivos serviços ou produzirem itens para o consumo, não devem se ater à gestão geral da sociedade/ do estado que organiza as relações humanas e protege o coletivo.

Obviamente, um ponto criticado na proposta de governo de Platão, é o fato da classe governante ser composta de "reis filósofos". De fato o autor indica em alguns textos seus, como no "Político" e na "República", que o governo ideal seria composto por poucos (ou um) filósofo(s). Mas é importante fazer algumas ressalvas: É verdade que Platão teve uma má experiência com a "democracia" de seu tempo, pois seu mestre foi executado injustamente sob esse tipo de governo. Porém a democracia que temos hoje parece um meio termo da oligarquia e da aristocracia explicadas pelo autor em sua obra "Político", com vagos traços de democracia, pois a eleição (presidencial ou parlamentarista) escolhe poucos governantes e não impede a intromissão dos interesses privados/ comerciais na política. Além disto, o autor denota a importância dos governantes (e em algum nível, a classe defensora/ "guardiã" da nação) deterem uma episteme. Esta palavra nas obras de Platão, traduzida como ciência ou como conhecimento, se refere à "tekhnes" (arte ou profissão) de governar (as pólis, ou seja, as cidades/ estado, na época e local do autor). Platão se pautou na ética não só neste tema isoladamente, mas em toda sua obra, apesar de algumas restrições sócio culturais de seu tempo, algumas destas que perduram em nações até os dias de hoje (a pena de morte etc). Essas minúcias podem ser discutidas e melhoradas, mas o essencial é que a episteme ética de Platão é voltada à construção de conhecimento e à execução da arte/ profissão de governar e essa arte é realizada por alguém que tem a finalidade de servir a todos em seu respectivo estado/ nação.

Um resumo: Houve espaço para as propostas de Platão na história da civilização?

A partir daí, torna-se nítido que sua proposta de sociedade e economia, nunca (ou quase nunca) foram colocadas em prática na história da humanidade: Após a morte de Platão, seu pupilo mais famoso, Aristóteles, modificou algumas de suas ideias e os macedônios (sob Filipos II e Alexandre) conquistam todas as cidades/ estado gregas, unindo-as em um império absolutista. Seu governante, Alexandre, o Grande, pouco ou nada tinha de filósofo (se tinha, estava mais alinhado à Aristóteles do que à Platão) e após sua morte, o Império se dividiu em estados menores, governados por militares. Em seguida, Roma torna-se a maior potência do ocidente, e a maioria de seus governantes estavam envolvidos em conspirações por poder e riquezas. A Academia de Platão foi destruída pelo general romano, Susa, e os filósofos platônicos foram recorrentemente desprezados ou perseguidos. Um dos poucos governantes amigáveis à filosofia, foi Marco Aurélio que criou cátedras para diferentes filosofias em seu governo. Com o passar dos anos, Roma sucumbe devido a corrupção dos governantes e dos militares, além de sofrer investidas de diversos povos "bárbaros". O feudalismo passa a ser adotado na Europa e a filosofia é praticamente enterrada, tendo tímidas aparições entre os séculos 5 e 11 neste continente. Tais "aparições tímidas" da filosofia eram dominadas pela igreja católica já institucionalizada. Assim, somente após o contato com a civilização árabe entre os séculos 11 e 12, a filosofia grega volta aos poucos para as nações da Europa: As obras de Aristóteles tornam-se aceitas nos altos círculos da igreja católica que era o maior centro de poder do continente. 

No século 15, a filosofia ressurge na Europa, desta vez abalando o poder da igreja, por via da divulgação de obras de Platão, do estoicismo e do epicurismo. Mas as propostas feitas por Platão, de um estado governado por uma classe apartada do comércio e que construía conhecimento pautado pela ética, ainda eram muito distantes da mentalidade européia moderna: Prevaleceu o mercantilismo em favor da burguesia que vinha crescendo desde o fim da era medieval. Desde então se passaram cerca de 600 anos e "o mercado" ainda não deixou de interferir nos estados/ nos governos das nações. Na verdade este modelo ideológico por trás do mercantilismo, do liberalismo e do neoliberalismo foi imposto (muitas vezes com violência) sobre todos outros modos diferentes de pensar, de sonhar, de se comportar, enfim de existir. Sejam estes modos de existir um dos muitos das nações nativas da América, da África, da Ásia e da Oceania, ou mesmo um modo de existir de minorias da Europa. 

O modelo ideológico ao que me refiro é o que está ligado às intenções dos que querem acumular riquezas materiais incessantemente, ou seja, é o capitalismo. Ele vem ditando cada vez mais as regras da sociedade humana desde que intensificou o mercantilismo europeu dos séculos 15, 16 e 17 e o transformou no liberalismo. Sim, a revolução industrial ocorrida entre o fim do século 17 e o início do século 20 tem relação com essa mudança, mas é um reducionismo negar as intenções, as escolhas e atitudes humanas que ditavam o que era comercializável antes das inovações tecnológicas do iluminismo e seu período posterior. Estas intenções e escolhas de elites européias intensificaram a utilização, o tráfico e o comércio de seres humanos escravizados nativos do continente da África. Este momento pouco mencionado da história, foi onde ocorreu um dos maiores aumentos da lucratividade da produção de vários insumos, como açúcar, arroz, algodão, cacau e café. Estes lucros foram obtidos por burgueses e aristocratas da Europa a partir do trabalho de povos retirados de sua terra natal, obviamente mal tratados e não remunerados por seu trabalho exaustivo. Esta escravização dos povos africanos sob poder das elites europeias, em geral, eram bem mais opressoras e violentas do que as exercidas entre os diferentes povos da África e também mais opressoras e violentas do que os tratamentos dados aos indígenas americanos, pelos jesuítas. Dois exemplos deste período de aumento da exploração da força de trabalho e da lucratividade de tal ação violenta são a invasão da Xamaica (Jamaica) espanhola pela Inglaterra e a substituição da mão de obra indígena/ jesuítica ("ameríndios convertidos") do Brasil pela mão de obra de povos africanos escravizados. Este período que abrangeu aproximadamente de 1650 a 1770 marcado por esta intensificação do mercantilismo é a aplicação do liberalismo como sistema sócio econômico e foi feito a custa de vidas humanas tratadas como objetos. Este portanto é o 1º período de intensificação da ideologia capitalista em si e não a "era industrial" que viria se iniciar a seguir. O que é pouco ou nada mencionado em aulas de história, é que neste período muitos bancos cresceram e o "racismo científico" começou a ser gradativamente propagado entre as "elites intelectuais". 

Resumidamente na Europa, segue um período de revoltas, pois apesar do enriquecimento de pequenos grupos de burgueses e aristocratas, a maioria do povo europeu continuou na pobreza. Como exemplos temos revoltas nas indústrias têxteis da Inglaterra ("pré luditas"), a Revolução Francesa, a revolta dos escravizados do Haiti, até então colônia da França, o surgimento de pensadores socialistas ("utópicos") como Charles Fourier, Robert Owen e Johann G. Fichte etc. Entre o fim do século 18 e início do 19, talvez o que mais tenha se aproximado das ideias de Platão em priorizar a "episteme" e a educação desde a infância, foi o pensamento e obras de Pestalozzi, um dos precursores da universalização do ensino na Europa.

No século 19 então, a ideologia capitalista e seu sistema sócio econômico liberal já estavam considerados naturais entre as elites da Europa e um dos poucos opositores a esta política, foi o pensador socialista Karl Marx. Suas propostas certamente não são muito parecidas com as de Platão, mas serviram de crítica a uma classe da sociedade ocidental que enriquecia continuamente de modo similar ao que o filósofo da Grécia Clássica fez em obras como Górgias e Apologia de Sócrates

Ainda neste século, houve o movimento pela abolição da escravidão, porém os povos indígenas e negros já eram considerados como inferiores pelos intelectuais europeus: isto por si só é um afastamento do diálogo, e assim, um distanciamento da ética também. Tratados de paz com indígenas foram quebrados por autoridades descendentes de europeus da América do Sul à América do Norte e a África foi invadida pelos poderosos da Europa.

No século 20 algumas nações, principalmente no oriente, tentam praticar o modelo socioeconômico proposto no século anterior: o socialismo (suposta etapa para o utópico comunismo). Porém, depois deste período, houve uma nova intensificação do liberalismo e este é transformado no neoliberalismo - resumidamente a desintegração de infraestrutura das nações e das leis de regulação das empresas e de proteção ao trabalhador. Isto somado ao fato das falhas internas da nações socialistas, acaba na derrota do socialismo ante o neoliberalismo. Embora o socialismo, em teoria, visasse o bem comum e possivelmente o achatamento da economia (portanto do mercado em algum nível, porém não estudei a fundo o pensamento dos líderes socialistas), nenhum destes sistemas "socioeconômicos" tem a ética como tema central porque eles se baseiam quase que exclusivamente na realidade exterior, medível e observável sensorialmente - assim, nestes sistemas a ética pode ter seu valor, mas fica em segundo plano. Sim, os elementos mensuráveis são importantes, mas são resultados de intenções e ações, não sendo a intenção em si - eles não têm finalidade de tornar o ser humano mais ético, chame de mais "bonzinho" ou de "menos egoísta". Tais sistemas então ignoram ou menosprezam os conceitos platônicos em que a classe governante do estado se pauta na construção de conhecimento por via da presunção da ignorância, na finalidade (ontologia) de melhoria de todas as coisas, na maiêutica (investigação pelo diálogo e reflexão) e na ideia de kalos (o bem e belo) como o que há de mais desejável para o ser humano.  

A importância da filosofia na política e na construção de conhecimento

Seria possível atualizar as propostas de Platão, analisando o que há de útil nos sistemas que foram propostos como alternativa aos sistemas mercantil, liberal e neoliberal? 

Estes sistemas que dominaram as nações e a humanidade na era moderna têm uma ideologia tão tosca e afastada da ética como a ideologia do período anterior: o feudalismo que era resumidamente centrado em autoridade e obediência irracional. Porém a ideologia desumana por trás dos sistemas modernos/ pós modernos, diferente do feudalismo e sua ênfase na obediência, é o capitalismo, que ao centrar a vida humana no mercado e no acúmulo de bens, objetifica e precifica vidas. Então não seria necessário uma "ideologia" (ou melhor, a filosofia proposta por Platão e sua construção de conhecimento) pautada na ética, no diálogo, ao invés de tal ideologia objetificadora e precificadora?

Um sistema alicerçado na filosofia que visa esta ética e este diálogo, não teria a mera finalidade de melhoria das condições de vida, mas da também da melhoria da psiquê humana. Esta melhoria se dá pela construção de conhecimento, ou seja pela educação e pela conscientização e por este caminho também trabalharia as relações humanas sociais e culturais.

Só para ter uma ideia da disparidade entre o mercantilismo e a filosofia platônica, analisemos o capitalismo nesta sua fase mercantil que é o menos desenvolvido, menos poderoso e menos agressivo de seus estágios: Os europeus saem de seu continente em meados do século 15 buscando variadas riquezas materiais, desde as tais especiarias "da Índia", passando a se interessar por madeira, minerais de valor, até mão de obra gratuita, ou seja, escravizada. Com esta ideologia mercantil, o contato com os indígenas americanos (e com muitas das nações africanas) foi predominantemente conflituoso - portugueses e espanhóis (depois outros europeus, como franceses, ingleses etc) obviamente queriam tirar vantagem sobre o indígena e isso já impossibilita relações de confiança mútua e de respeito. Não há nada de filosófico nas intenções dominantes dos europeus - Platão critica abertamente a priorização da busca pelo enriquecimento como nas obras mencionadas anteriormente. O fundador da filosofia ocidental, por mais que seja considerado racionalista, também dialogava com culturas espiritualistas (diferente da maioria das lideranças europeias) - isto é explícito em sua obra Fedro, onde cita o valor das profetizas e tenta explicar alguns estados alterados da psiquê (manike) como os transes místicos e a inspiração por "entidades sobrenaturais" (daemons, ninfas etc). O tema também é abordado em Ion (da Ilíada) onde o autor faz uma crítica construtiva da inspiração, defendendo a importância da reflexão e da busca por conhecimento. É verdade que Platão citava povos estrangeiros pouco ou nada urbanizados como "bárbaros", mas se não o fizesse assim, ele não conseguiria dialogar com as elites intelectuais e sociais da "Grécia" de seu tempo, 4 séculos antes de Cristo. Os pontos da filosofia de Platão a serem mais atualizados e humanizados são quase óbvios, pois são pautas de nosso tempo: a luta pelo direito das mulheres, a luta contra a pena de morte, contra o trabalho escravo/ análogo à escravidão etc. De resto é trazer a ética para o centro da construção de conhecimento e da política. Trazer o diálogo (e não os discursos de ódio, as fake news, o obscurantismo, o etnicismo e o cientificismo deste século 21) trabalhando estas construções.

 

Observações sobre "Politéia" (A República); Livro 4

Livro IV (419a - 445e) 

Aqui continuo de maneira resumida o conteúdo da Politéia (A República), de Platão: 

Após ouvir os direitos e deveres da classe guardiã, Adimanto pergunta a Sócrates se os guardiões da polis (cidade/ estado) não serão considerados infelizes, pois não poderão ter grandes casas nem móveis luxuosos e nenhuma regalia típica de quem juntou riquezas materiais. Sócrates explica que a finalidade de sua proposta política (a classe dos guardiões e dos governantes das cidades) é priorizar o bem e a felicidade de todos do estado, ou seja, do coletivo, o mais próximo possível da totalidade de habitantes. E assim, atribuindo a cada um o que lhe pertence, forma-se um todo belo - caso contrário, ao ceder regalias sem relações com o objetivo da classe guardiã a esta, ele estaria fazendo com que tal classe se parecesse com qualquer coisa, menos com guardiões da cidade/ estado. 

Os interlocutores então saem em busca das virtudes necessárias para a cidade/ estado ideal: sabedoria, temperança (sofrosine), coragem (andreias) e justiça. A sabedoria seria a episteme (“ciência”) que a classe ideal para se governar o estado detém: os filósofos; 

A coragem seria a capacidade desenvolvida pela educação desde a infância, de resistir aos desejos, prazeres, desgostos e temores. Por isso os guardiões são educados por via da ginástica e das artes “musicais” (das musas etc). 

A temperança/ moderação sendo o equilíbrio na obtenção de prazeres e na realização de desejos, não se limitaria a uma classe em específico. Ao ser governada pelos sábios e corajosos, a moderação estaria presente nos governantes e governados do estado, ou seja nas multidões. Em seguida, Sócrates conclui que ao definir as funções e virtudes de cada classe do estado, ele encontrou a justiça: 

Sócrates — Mas não podemos nos esquecer de que a cidade era justa pelo fato de cada uma das suas três classes se ocupar da sua própria tarefa. 

Os autores concluem que o modelo ideal de cidade/ estado, é uma sociedade dividida em 3 classes: Os governantes (depois descritos como filósofos), os guardas/ soldados e a classe artesã/ profissional/ mercantil. Conforme o conceito de justiça desenvolvido por eles, cada classe desempenharia suas devidas funções, sem almejar coisas da outra classe. 

Portanto, ao proibir o ouro e a prata para as duas classes estruturais (“superiores”) da sociedade (pólis), o comércio ficaria proibido para governantes e soldados, impedindo também a compra de cargos, seja na segurança da cidade ou no governo dela. Assim, os guerreiros e os filósofos não poderiam ter nem carregar moedas, mas obviamente não só isso: Eles estariam proibidos de carregar qualquer objeto feito dos metais mencionados, pois Sócrates sabia que ouro e prata eram considerados preciosos, tendo um valor material acima de qualquer “outro valor” na Grécia e em diversas civilizações próximas (Roma, Cartago, Egito, Pérsia etc). 

Apesar de impossibilitados de enriquecer, os soldados e filósofos teriam certos privilégios de uma vida comunitária / compartilhada. Isto tudo é lógico, pois o valor material só deve ser aplicado no comércio, e nas “tekhnes” (artesanatos, profissões) realizadas pela classe de artesãos/ comerciantes: A segurança e a filosofia, regidas pela episteme e “artes das musas” não devem ser negociáveis com ouro, prata nem com qualquer outro bem material. 

Interessante notar que a episteme regente destas classes, como será mostrada nos livros seguintes da obra Politéia (A República), é predominantemente humana. Platão prioriza a ética, a finalidade de melhoria de todas as coisas (a tarefa de um professor de ontos citada no diálogo Fédon) e as artes das musas, onde o autor inclui a filosofia para além das áreas difundidas popularmente como musicais na cultura grega clássica: música, poesia, teatro e história. Assim, a episteme (“ciência”) priorizada por Platão é humana, e, portanto, um direito de todos os seres humanos. Ainda que Platão não enxergasse a necessidade ou a possibilidade da classe artesã/ profissional estudar tal episteme/ ciências humanas, este conhecimento foi proposto como central na política de Platão e de serventia para toda a nação, o coletivo, para todo o povo.

Sócrates continua o diálogo dizendo que se a cidade era justa porque existiam 3 naturezas as quais cada uma delas realizava sua respectiva tarefa, respectivamente guiadas pela sabedoria, coragem (andreas) e temperança (sophrosyne), então essas 3 naturezas estão presentes na psiquê humana. A partir daí o autor formula sua famosa teoria tripartite da psiquê (“alma”/mente). 

Esta teoria é semelhante à explicação que o autor usa em Fedro, quando cita a parábola da biga, onde o auriga (condutor da biga) deveria deixar o cavalo bom e puro conduzir ao invés do cavalo bruto e selvagem. A parábola da biga compara o condutor com a pessoa em si, ou a psiquê do ser humano, sua essência; O cavalo bom ou puro por sua vez representa as virtudes como a temperança e o desejo pelo bem e o cavalo selvagem representa os desejos rudimentares e os vícios. Aqui, no diálogo da “República”, Sócrates explica que o elemento inferior da psiquê é o responsável pelos desejos e a busca de satisfação e prazer. O elemento superior então é o racional que toma decisões, podendo fazer com que a pessoa ceda ao desejo, ou impeça este. Estes elementos seriam de certo modo ligados respectivamente à classe dos artesãos (que lidam com seus desejos por bens materiais etc) e à classe dos filósofos, os governantes ideais (os que desenvolveram as virtudes e, por isso, servem à sociedade). Porém, após abordar o desejo por satisfação e prazer e a capacidade de autocontrolar-se e raciocinar, Sócrates percebe mais um elemento na psiquê [439d-e]: 

Sócrates — “ou dí alógos, ín d᾽ egó, axiósomen aftá dittá te kaí étera allílon eínai, tó mén ó logízetai logistikón prosagorévontes tís psychís, tó dé ó erá te kaí peiní kaí dipsí kaí perí tás állas epithymías eptóitai alógistón te kaí epithymitikón, pliróseón tinon kaí idonón etaíron.” Pietro Nassetti, entre outros tradutores, fazem a tradução da seguinte maneira: “Com razão, pois, não estaremos equivocados ao considerar que se trata de dois elementos diferentes entre si e ao denominar aquele pelo qual a alma raciocina seu elemento racional e aquele por causa do qual ela ama, tem fome, tem sede e se atira com ímpeto a todos os outros desejos o seu elemento irracional, que desperta a concupiscência, amigo de certas satisfações e de certos prazeres.” 

De acordo com esta tradução, o elemento mais rústico da psiquê “ama, tem fome, tem sede” (etc)... Só que este termo “ama” refere-se à palavra grega epithymías, não ao típico “eros” mencionado por Platão em outros textos, nem à ágape, que após a propagação do cristianismo, passou a significar amor incondicional. Em seguida, os tradutores parecem utilizar a palavra “desejos” para definir o termo grego “epithymitikón” (..."e se atira com ímpeto a todos os outros desejos o seu elemento irracional”…); Eles deveriam usar respectivamente dois termos de uma única raiz/ origem, como por exemplo: ama e amores, ou, deseja e desejos. Baseando-se na ideia que as palavras gregas “epithymías” e “epithymitikón” tenham a mesma raiz, uma outra possível tradução seria: Nós não estaremos equivocados se diferenciamos estas duas coisas uma da outra, a saber, aquela que é considerada racionalmente como premonições (admoestações) da alma, e aquela que chega a ter fome, sede e outros amores, temendo irrefletidamente e amorosamente, as necessidades de coisas e de parceiros de prazer.” O termo “amorosamente” empregado aqui não se refere ao meigo, mas sim ao gosto por algo, talvez à amizade também. 

O diálogo segue com Glauco — Não. Estaremos orgulhosos ao pensar assim. 

Sócrates — “tafta mén toínyn, ín d᾽ egó, dýo imín orístho eídi en psychí enónta: tó dé dí toú thymoú kaí ó thymoúmetha póteron tríton, í toúton potéro án eíi omofyés?” De acordo com os tradutores, este trecho ficou assim: "Admitamos então que distinguimos estes dois elementos na alma; mas a cólera (ira, traduzido de thymoú), com o concurso da qual nos indignamos (thymoúmetha), constitui um terceiro elemento ou é da mesma natureza que um dos outros dois, e de qual deles?"

 Glauco — “ísos, éfi, tó etéro, tó epithymitikó”. A tradução típica (novamente): “Creio que da mesma natureza que o segundo, o que desperta a concupiscência.” 

Assim as palavras “epithymías”, “epithymitikón”, thymoú e thymoúmetha, foram traduzidas com termos bem distintos entre si mencionadas anteriormente: "ama, desejos, cólera (ira), indignamos e concupiscência"! A confusão não é totalmente sem motivo, pois inicialmente Sócrates está falando  somente de 2 elementos da psiquê, para depois explicar um 3º elemento. Este 3º elemento útil à classe guerreira (guardiã, protetora, militar etc), se refere a um intermediário entre a razão e os desejos mais relacionados às necessidades biológicas e prazeres sensoriais. Ele certamente foi traduzido como “ira e cólera”, por estar relacionado a tal classe de guerreiros, porém Sócrates diz que esse “desejo, ira ou amor” (que se originam no termo grego thymo), às vezes pode e deve ser utilizado contra o desejo, ao lado da razão e das virtudes (sabedoria, moderação, coragem etc), o que o caracteriza mais como a emoção - Um sentimento não interiorizado nem duradouro, mas expressivo e/ ou imediato, ou talvez, a expressão de sentimentos.  

Certamente Platão se mostrou tolerante com a emoção ou sentimento de ira, raiva (e similares) para defender a classe dos guerreiros, uma classe dificilmente dispensável na época e sociedade em que o autor viveu, nas cidades gregas e seus arredores 4 séculos antes de Cristo. Assim, a teoria tripartite da "alma" (psiquê), proposta por Platão indica que o ser humano teria 3 “níveis” de psiquismo, ou mentalidade: O mais rústico, voltado aos desejos por prazer, ou meramente às necessidades básicas/ biológicas; O intermediário, ou emocional, que apesar de permitir a ira, também permite a honra, a amizade e a busca por justiça. E por fim, o superior, que pensa, reflete, se autocontrola, busca o saber, a sabedoria e as ideias mais sublimes, como o bem, que o autor explica nos livros seguintes da obra “A República”. 

 Sócrates então faz a relação entre os 3 elementos encontrados na psiquê humana, com as 3 classes sociais de seu estado ideal, dizendo [440e]: Ou então, assim como três classes compunham a cidade — mercadores/ artesãos, guerreiros e magistrados/ legisladores —, assim também, na alma, o "impulso irascível" (thymoides) constitui um terceiro elemento, aliado natural da razão, a menos que uma má educação o tenha corrompido? 

Glauco — Existe necessariamente um terceiro elemento. 

[441c-e] (...) Sócrates — Conseqüentemente, já não é necessário que o indivíduo seja sábio do mesmo modo e pelo mesmo princípio que a cidade? 

Glauco — Sim, sem dúvida. 

Sócrates — E que a cidade seja corajosa pelo mesmo princípio e do mesmo modo que o indivíduo? Enfim, que tudo o que diz respeito à virtude se encontre igualmente numa e noutro? 

Glauco — É necessário. 

Sócrates — Então, amigo Glauco, afirmaremos que a justiça tem no indivíduo o mesmo caráter que na cidade. 

Glauco — Concordo também com isso. 

Sócrates — Mas não podemos nos esquecer de que a cidade era justa pelo fato de cada uma das suas três dessas se ocupar da sua própria tarefa. 

Glauco — Não creio que o tenhamos esquecido. 

Sócrates — Lembremo-nos então de que se cada um de nós desempenhar a sua tarefa própria, será também justo e desempenhará a tarefa que lhe é própria. 

Glauco — Sim, precisamos nos lembrar disso. 

Sócrates — Portanto, não compete à razão mandar, por ser sábia e possuir a responsabilidade de velar pela alma, e à cólera obedecer à razão e defendê-la? 

Glauco — Sim, com certeza. 

[442] Sócrates — Mas não é, como afirmamos, um misto de música e ginástica que conciliará estas partes, fortificando e alimentando uma delas com belos discursos e com os conhecimentos científicos, acalmando, abrandando a outra pela harmonia e pelo ritmo? 

Glauco — Sem dúvida. 

Sócrates — E estas duas partes assim criadas, realmente educadas e instruídas para desempenhar o seu papel, dominarão e conterão o elemento concupiscente, que ocupa o maior espaço na psiquê e que, por natureza, é mais insaciável de riquezas; irão vigiá-lo para evitar que, saciando-se dos prazeres físicos, se desenvolva, fortaleça e, em vez de se ocupar da sua tarefa, busque subjugá-los e dominá-los — o que não convém a um elemento da sua espécie — e subverta toda a vida do conjunto. 

O autor é claro aqui, em sua comparação da psiquê humana com a sociedade: Se a parcela mais sedenta de riquezas materiais cresce e domina/ escraviza a restante, ela está fora de sua função e causa grandes males por isso. Ou seja, no nível social/ nacional, se a classe mercantil/ comerciante cresce ao ponto de dominar a classe responsável por defender a nação e a classe responsável por legislar e governar o estado, ela causa estrago e ameaça a vida de todos. Platão propõe assim, que o mercado seja devidamente regulado pelos governantes, legisladores e defensores do estado. 

Glauco — Com toda a certeza. 

Sócrates — E nos defenderão melhor dos inimigos externos, com toda a alma e todo o corpo, a primeira decidindo, o segundo lutando sob as ordens da primeira e executando corajosamente os projetos elaborados por esta. 

(...) Sócrates — Pela mesma razão, engendrar a justiça não significa estabelecer, conforme a natureza, as relações de comando e submissão entre os diferentes elementos da alma? E engendrar a injustiça não significa permitir-lhes comandar ou ser comandados um pelo outro ao arrepio da natureza?
Assim Sócrates indica a seus interlocutores, que a justiça, seja a nível individual ou coletivo, é um tipo de regulação de um todo e que esta regulação é saudável/ faz bem, notoriamente diferente do desejo de adquirir riquezas materiais e prazeres sensoriais, que quando crescem podem causar os estragos mencionados anteriormente no texto.


Observações sobre Politéia (A República); Livro 3

Livro III (386a - 417b) 

Neste livro Platão mostra Sócrates fazendo uma crítica às obras mitológicas/ de poesia e explicando que deve-se descartar os contos de violência, incontinência, oportunismo e indiferença dos deuses, selecionando os que dão importância ao bem (à sophrosyne: a moderação, temperança, autoconhecimento). Se um personagem dos mitos helênicos (gregos) cometeu um ato hediondo como assassinato, sequestro ou traição, ele não tem relação com os deuses. Se o personagem tem relação com os deuses, ele não tem mentalidade ou comportamento violento nem mesquinho. Segue um trecho da crítica feita pelo filósofo (até 392b): 

“Sócrates — Por conseguinte, não devemos acreditar nem permitir que se diga que Teseu, filho de Poseidon, e Pirithos, filho de Zeus, praticaram tão hediondos raptos (o sequestro de Helena, por exemplo), nem que outro qualquer filho de deus e herói tenha cometido os atos horríveis e ímpios de que são acusados. Ao contrário, obriguemos os poetas dizer que não tiveram tais atitudes ou que não foram os filhos dos deuses, mas que não afirmem ambas as coisas ao mesmo tempo, tampouco que procurem convencer os nossos jovens de que os deuses realizam coisas más, e de que os heróis não são em nada melhores do que os homens. Conforme já dissemos, estas não passam de idéias ímpias e falsas, pois demonstramos que o mal não pode ser oriundo dos deuses.” 

Platão propõe regras de maneira crítica, principalmente aos imitadores / atores. Embora o autor apresente seus argumentos buscando uma ética, o texto obviamente tem limitações de sua respectiva época e nacionalidade/ cultura. 

Para a educação "musical" da classe guerreira (guardiã/ militar), Platão sugere artes com tema de coragem e guerra, mas também de ações voluntárias pacíficas, como o rogo, a oração aos deuses e os ensinamentos e admoestações aos homens. Vale lembrar que os deuses aqui não são meramente os mesmos da religião popular grega da época: Eles não são vingativos, violentos, incontinentes nem traiçoeiros: Platão os descreve como seres bons, justos, moderados, sábios e corajosos. O autor explica que a música com seus respectivos elementos (ritmo, harmonia etc) segue as palavras e estas seguem o caráter de quem as pronuncia. Isto vale como parâmetro para as demais artes também (pintura, escultura etc) e por isso Platão condenou as artes que dão ênfase às lamentações tristonhas, às tragédias, às traições, às punições cruéis, ao deboche e aos prazeres dos banquetes e das bebedeiras. 

401b-e (...) “Sócrates — Não devemos procurar artistas de mérito, capazes de seguirem a natureza do belo e do gracioso, a fim de que os nossos jovens, a semelhança dos habitantes de uma terra sadia, tirem proveito de tudo que os rodeia, de qualquer lado que chegue aos seus olhos ou ouvidos uma emanação das obras belas, tal como uma brisa transporta a saúde de regiões salubres, e predispondo-os insensivelmente, desde a infância, a imitar e a amar o que é razoável / correto e bom/ belo? 

Glauco — Seria uma excelente educação. 

Esta última frase de Sócrates, em grego, acaba do seguinte modo: “filían kaí simphonían tó kaló”, o que significa algo como “a filiar-se ao (tornar-se amigo do) que é sinfônico (harmonioso - que age bem junto aos outros) e kaló” (bom e belo - não só fisicamente, mas principalmente psiquicamente, eticamente). Assim, Platão (e Sócrates) indicavam que a psiquê e o caráter das pessoas são moldados desde a infância: Se educarmos as crianças com ética, ensinando-lhes serem justas, moderadas, corajosas e boas, elas crescerão com estes valores. Tais valores não são meramente individuais, pois também fazem bem ao convívio social - era a formação idealizada para os guardas das cidades/ estados, que se assemelhava à educação para os filósofos. 

Interessante notar como a arte fazia parte do cotidiano das cidades estado gregas: não só tradições que ditavam costumes, mas obras sobre os deuses, ou seja, de teor religioso eram propagadas por poetas, rapsodos etc. Esta classe “artística/ religiosa” deve ter perdido sua influência parcialmente com a ascensão dos filósofos naturalistas (pré socráticos) nos séculos 6 a.C. e 5 a.C. Pouco tempo depois destes filósofos surgem os sofistas que não priorizavam a construção de conhecimento, pois focavam nos interesses particulares das relações políticas/ econômicas das cidades. Estes últimos são os mais combatidos por Sócrates e Platão durante os séculos 4 a.C. e 3 a.C

Sócrates — E, decerto, por esta razão, meu caro Glauco, que a educação musical (arte das musas, inclui música, poesia etc) é a parte principal da educação, porque o ritmo e a harmonia têm o grande poder de penetrar na psiquê* e tocá-la fortemente, levando com eles a graça e cortejando-a, quando se foi bem-educado.” 

*Embora "psiquê" seja comumente traduzido como alma, em vários trechos das obras de Platão, é possível notar que o termo abrange a mente humana, não ficando restrito só a um "significado" mais espiritual.

Sócrates então explica que nem eles (os filósofos) nem os guardiões (a guarda da cidade estado, o exército) serão músicos se não reconhecerem e dominarem as virtudes e a grandeza da alma, como a generosidade, a coragem e a moderação. Perguntado a Glauco em seguida, se uma pessoa que reunisse tais disposições na psiquê e, harmoniosamente, no seu exterior (nas ações etc), não seria um belo espetáculo. Glauco concorda com isto e que também seria o mais amável e honrável. Sócrates continua: 

402 (...) “Eis porque o músico se encantaria o mais possível com homens desta espécie; Mas se fosse privado dessa harmonia não se encantaria. 

Glauco — Não se fosse a psiquê que deixasse algo a desejar, mas caso seja o corpo que não tenha tal harmonia, o músico será capaz de manter-lhe afeição. 

Sócrates — Compreendo que tens ou já sentiste um amor desses e concordo contigo, mas diz-me uma coisa: o prazer excessivo harmoniza-se com a temperança? 

Glauco — Como poderia isso acontecer, visto que o excessivo prazer não perturba a psique menos que a excessiva dor? 

(...) Sócrates: — Sabes de um prazer maior e mais penetrante do que o do amor sensual*? 

Glauco — Não, não conheço nenhum mais violento (manikotéran). 

403 Sócrates — Porém, em sua natureza, o amor autêntico ama com harmonia e medida a ordem e a beleza? (“o dé orthós éros péfyke kosmíou te kaí kaloú sofrónos te kaí mousikós erán?”) 

Glauco — Por certo. 

Sócrates — Logo, nada de violento nem de parecido com a devassidão (libertinagem) deve aproximar-se do amor autêntico (ou desejo correto, de “orthos eros”). 

Glauco — Nada. 

Sócrates — Portanto, a volúpia não se deve aproximar dele; não deve entrar no comércio do amante e da criança que se amam com amor verdadeiro. 

Glauco — Não, por Zeus, Sócrates, não deve se aproximar!” 

*Traduzido da palavra grega aphrodysia, referente não ao prazer sensorial de modo genérico, mas especificamente ao prazer sexual e ao prazer da sedução que provoca desejo. O autor também critica a atitude “erótica com furor”, a paixão (eros) violenta ou “maníaca” - Esta última palavra é uma tentativa de traduzir sem distanciamento do termo original em grego "manike", que não tem uma tradução exata. 

Depois de traçar a importância dos cuidados com o corpo, como a ginástica (exercícios físicos) e a dieta (uma alimentação balanceada e sem embriaguez), o filósofo fala da medicina na cultura das cidades estado gregas. Ela teria surgido com o personagem semi-lendário, Asclépio, um médico e político da época da guerra de Tróia, que acabou sendo cultuado como divindade com o passar dos anos. No diálogo, Sócrates diz que durante a época de Asclépio não se faziam acompanhamentos terapêuticos dia após dia de pessoas que permanecem doentes por longos períodos: Geralmente tratava-se dos ferimentos e doenças pontuais daqueles que mantinham algum cuidado do próprio corpo através da dieta e do exercício físico, e que mantinham um cuidado da própria psique, através da moderação, do autocontrole e das demais virtudes. O autor então conclui que, por mais ricos que sejam, os indivíduos que corromperam sua psiquê por terem se entregado aos vícios e aos prazeres excessivos, são os mais indignos de serem tratados. 

Glauco então pergunta: — Tens toda a razão, Sócrates. Mas não devemos ter bons médicos na cidade? Ora, os bons médicos são, principalmente, os que trataram o maior número de indivíduos saudáveis e não saudáveis; Da mesma maneira, os bons juízes são os que têm convivido com homens de todos os caracteres, certo? 

Sócrates concorda, porém faz a distinção entre os médicos e os juízes: Os primeiros tratam do corpo, mas devem ter a psiquê em boas condições. Isto porque o médico não trata dos corpos de seus pacientes meramente através de seu próprio corpo - ele usa seu conhecimento para exercer sua profissão. Já os segundos, os juízes, utilizam suas respectivas psiquês para tratar da psiquê de outros indivíduos. Por esta razão o juiz não só deve ter a educação baseada na moderação e nas demais virtudes mencionadas anteriormente, como deve se manter sem se misturar com aqueles que cometem exageros, crimes e/ ou que vivem uma vida de vícios. Sócrates diz que o juiz deve passar anos apenas observando tais tipos de psiquês/ comportamentos, e assim, se tornará um bom profissional quando tiver alguma idade mais avançada, por via da experiência adquirida. O diálogo segue a cerca dos exageros: 

(410) “Sócrates — Já notaste, certamente, qual é a disposição de espírito dos que se entregam à ginástica durante toda a vida e não se interessam pela música? Ou dos que fazem o contrário? 

Glauco — De que disposição falas? 

Sócrates — Da rudeza e dureza de uns, da moleza e brandura dos outros. 

Glauco—Já notei que aqueles que se entregam unicamente à ginástica contraem demasiada rudeza e que os que cultivam os omitiria a decência. 

Sócrates — Entretanto, é o elemento generoso da sua natureza que provoca a rudeza; bem dirigido, tornar-se-ia coragem, mas, demasiado tenso, degenera em dureza e mau humor, como é natural. 

Glauco — Assim me parece. 

Sócrates— E a brandura não faz parte do caráter do filósofo? Demasiado frouxa, amolece-o mais do que o permitido, mas, dirigida, abranda-o e ordena-o.” 

Sócrates conclui que as pessoas que vivem só pela arte, exagerando e deixando de cuidar do próprio corpo, tornam-se desequilibradas emocionalmente. Muito sensíveis, mas facilmente irritáveis e covardes. 

Já os que se dedicam apenas às atividades físicas, como por exemplo alguns atletas, tornam-se rudes e seus desejos por aprender quaisquer ciências ou artes tornam-se fracos. Assim eles ficam incapazes de sentir e de entender assuntos diferentes das atividades físicas, frequentemente desejando resolver problemas com grosseria e violência (esta educação deficiente parece a típica da "cultura" militar dominante nos séculos 20 e início do 21: onde ensina-se a obediência cega, sem ensinar sobre a sociedade, sua história e suas leis voltadas ao bem de todos habitantes da nação). 

Para Sócrates, os guardas de uma cidade devem ter um equilíbrio em sua educação, recebendo os dois elementos: A música/ poesia (as artes “das musas”*) e a ginástica. 

*As artes das musas, ou seja, as artes musicais, não se limitava só à música, nem para Platão, nem para diversos outros autores gregos. Como exemplos de "artes musicais" temos a poesia, a história, a comédia e a tragédia (teatro) e a astronomia/ astrologia (estas são algumas das artes musicais populares difundidas por via das obras de Hesíodo), a meditação, memorização (exemplos de Pausânias) e a prática (exemplo de Varro). Além destas, Platão entre outros autores, inclui a filosofia nas artes das musas. A filosofia de Platão é centrada na psiquê, no bem (kalos, como é mais detalhado nos capítulos seguintes da República) e na finalidade de melhoria (enfim na ética e em sua inferência e prática). Esta educação auxiliaria aos guardas compreender sua função de proteger o estado e o povo da cidade. Vale lembrar que a civilização helênica (grega) não constituía um reino nem um império, era composta de cidades-estado que ocasionalmente se juntavam em ligas. Daí o nome da obra: Politéia. 

A seguir, o filósofo sugere que os mais velhos são melhores para governar devido a experiência e que os indivíduos escolhidos para formarem a classe guardiã da cidade devem ser aqueles que têm inteligência, autoridade e dedicação à cidade/ estado (à nação e toda sua respectiva sociedade). Estes que irão compor a classe dos guardas/ soldados da cidade, devem ser treinados desde jovens em situações que lhe testem suas respectivas psiques, para que, com força de vontade, não sejam guiados pela opinião falsa e sim pela verdade: De acordo com o autor, a opinião falsa sai voluntariamente do intelecto quando a pessoa vê que está enganada e a abandona, mas a opinião verdadeira só sai involuntariamente, através de 2 processos: Quando a pessoa é dissuadida e perde a razão sem perceber ou quando esquece com o tempo. 

Sócrates — Afirmo que se é vítima quando o desgosto ou a dor forçam a mudança de opinião. 

Glauco — Também compreendo isso e é exato. 

Sócrates — Portanto, acredito que se fica iludido quando se muda de opinião sob o encanto do prazer ou a opressão do medo. 

Glauco — De fato, tudo o que nos engana parece seduzir-nos.” 

Neste trecho, o autor indica que podemos expressar uma opinião verdadeira, mas quando se é iludido (e quando se hesita) podemos passar a ter uma opinião falsa sobre as coisas. O diálogo, além de tratar da educação e da ética, mostra a importância do intelecto humano e da opinião, portanto aborda a psiquê que consequentemente afeta as ações, ou seja, as intenções nas interações humanas, e também as decisões e a determinação das pessoas, no caso da classe guardiã da cidade/ estado. 

Tratando da psiquê humana, tanto como mente, como alma, o tema abrange desde questões psicológicas e sociais, passando pela ética até possíveis questões espirituais: Os dois elementos citados por Platão, que geram as falsas opiniões, têm semelhanças com os citados na obra de Kardec, durante o séc 19: Os espíritos desencarnados egoístas usam da sedução (fascinação) ou do medo (obsessão) para influenciar os humanos - O funcionamento da psique pouco ou nada difere ao interagir com pessoas por via de diálogos, consigo mesma em pensamento ou com supostos espíritos.  

Sócrates e os demais, após concluírem sobre a importância da ética em todas artes "musicais", passando pelas poesias, mitos e pela educação dos habitantes da cidade/ estado, seguem argumentando a respeito de uma cidade/ estado ideal. Sobre as classes de governantes e de defesa (filósofos e militares), Platão propõe o seguinte: 

…"primeiramente, nenhum deles possuirá nada em exclusivo, exceto os objetos de primeira necessidade; em seguida, nenhum terá habitação nem loja onde toda a gente possa entrar. Quanto à alimentação necessária a atletas guerreiros sóbrios e corajosos, recebê-la-ão dos outros cidadãos, como salário da guarda que asseguram, em quantidade suficiente para um ano, de modo a não sobrar e a não faltar; tomarão as refeições juntos e viverão em comum como soldados em campanha. Quanto ao ouro e à prata, dir-lhes-emos que têm sempre na alma os metais que receberam dos deuses, que não têm necessidade dos homens e que é ímpio macular a posse do ouro divino acrescentando-lhe o ouro mortal, porque muitos crimes foram cometidos pelo metal em forma de moeda do vulgo, ao passo que o deles é puro; que só a eles, entre os habitantes da cidade, não é permitido manipular e tocar ouro, nem ir a uma casa onde ele exista, nem usá-lo, nem beber em taças de prata ou ouro; que assim se salvarão e salvarão a cidade. Ao contrário, logo que sejam proprietários de terra, casas e dinheiro, de guardas que eram transformar-se-ão em mercadores e lavradores e, de aliados, em déspotas inimigos dos outros cidadãos; passarão a vida a odiar e a ser odiados, a conspirar e a ser alvo de conspirações, receando muito mais os adversários de dentro do que os de fora e correndo a passos largos para a ruína, eles e o resto da cidade. Por todas estas razões, diremos que é preciso garantir aos guardas habitação e bens, como indiquei."


 

Observações sobre Politéia (A República); Livro 2

Livro II (357a - 376e)

Aqui continuo as observações sobre a obra "A República" de Platão, onde são discutidas a justiça, a cidade e os mitos. (357-358): Glauco pergunta se Sócrates quer convencê-los de que mais vale a pena ser justo do que injusto, então o filósofo responde afirmativamente, pois entende que a justiça leva à felicidade. Glauco continua explicando que cansou-se de ouvir pessoas com discursos similares ao de Trasímaco, mas não achou o discurso à favor da justiça feito por Sócrates, suficientemente convincente. Glauco diz que a injustiça é defendida por muitos devido a uma série de fatores como ambição, desejo de impunidade e de se vingar da injustiça de outrem. Para isso ele conta o mito de Gyges (359-360) que utilizava um anel capaz de conferir-lhe invisibilidade. Com tal item o personagem ficava livre para cometer injustiças sem sofrer punições e assim o fez buscando realizar seus desejos. Glauco então diz que se tal anel existisse, ninguém resistiria seu poder para preferir uma vida justa: todos que tivessem o "poder de se tornar invisíveis" acabariam escolhendo uma vida de injustiças. Ele completa seu argumento explicando que o supra-sumo da injustiça é ser injusto parecendo justo. Tal tipo de indivíduo faz de tudo para esconder seus crimes, e, quando falha, consegue "reparar" tal falha, persuadindo os outros ou eliminando seus denunciantes e opositores, quando necessário, com andreas (coragem/ virilidade, um termo patriarcal explicado em textos anteriores) e força (violência). Glauco conclui que, o contrário deste tipo de indivíduo seria o justo que não quer parecer justo - quer apenas ser justo. Se este tiver a aparência de justo, receberá honrarias e recompensas, mas se não tiver a aparência de justo, acabará perseguido, punido, castigado, torturado e, por fim, morto empalado. Adimanto então interfere no diálogo dizendo que os argumentos de Glauco não abordam o que mais importa discutir (362-367). Adimanto explica que muitos indivíduos na sociedade pregam a importância da justiça sem elogiar a coisa em si. Isto porque eles valorizam muito as honrarias e recompensas. Tal "ideologia", de acordo com Adimanto, aparece até mesmo nos mitos e poesias helênicas: promete-se recompensas prazerosas e/ou materiais no "além vida" para os justos e punições para os injustos. As pessoas então temeriam parecer injustos, mas continuariam perseguindo recompensas chegando a barganhar não só com outros indivíduos, mas com os próprios "deuses" dos mitos (oferecendo-lhes sacrifícios etc). Conforme algumas obras de poetas famosos da "Grécia" clássica (Homero, Hesíodo etc...) os deuses seriam passíveis de serem persuadidos e alguns até impuseram penas aos justos, para estes viverem como infelizes ou miseráveis. De acordo com Adimanto, a partir daí surgiriam os adivinhos e feiticeiros batendo na porta dos ricos, prometendo purificação dos crimes, libertação e outras recompensas. Com isso tudo, as pessoas que acreditavam nos deuses, poderiam cometer crimes e se livrarem da culpa oferecendo sacrifícios e outros rituais, enquanto os que "não soubessem" (não acreditassem) sobre os deuses, poderiam praticar seus crimes formando conluios para escondê-los das pessoas de modo geral (da sociedade), como mencionado por Glauco.

Para encontrarem as origens da justiça e da injustiça então, os personagens começam a dialogar sobre a cidade (pólis)

Sócrates — A justiça é, como declaramos, um atributo não apenas do indivíduo, mas também de toda a cidade? 

Adimanto — Sim. 

Sócrates — E a cidade não é maior que o indivíduo? 

Adimanto — Claro. 

Sócrates — Logo, numa cidade, a justiça é mais visível e mais fácil de ser examinada. Assim, se quiserdes, começaremos por procurar a natureza da justiça nas cidades; em seguida, procuraremos no indivíduo, para descobrirmos a semelhança da grande justiça com a pequena. 

Adimanto — Estou de acordo. 

Sócrates — Porém, se estudarmos o nascimento de uma cidade, não observaremos a justiça aparecer nela, tanto quanto a injustiça? 

Adimanto — E possível. (...) 

Sócrates — Construamos em pensamento uma cidade cujos alicerces serão as nossas necessidades. 

Adimanto — Certo. 

Sócrates — O primeiro deles, que é também o mais importante de todos, consiste na alimentação, de que depende a conservação do nosso ser e da nossa vida. 

Adimanto — Sem dúvida. 

Sócrates — O segundo consiste na moradia; o terceiro, no vestuário e em tudo o que lhe diz respeito. 

Adimanto — Isso mesmo. 

Sócrates — Mas como poderá uma cidade prover à tantas necessidades? Não será preciso que um seja agricultor, outro pedreiro, outro tecelão? Poderemos acrescentar um sapateiro ou qualquer outro artesão para as necessidades do corpo? 

Adimanto — Certamente. 

Sócrates — Então, cada um deverá desempenhar a sua função para toda a comunidade. O lavrador, por exemplo, garantirá sozinho a alimentação de quatro, gastando quatro vezes mais tempo e trabalho em fazer a provisão de trigo que terá de repartir com os outros. Mas não seria preferível que, trabalhando apenas para si, só produzisse a quarta parte dessa alimentação na quarta parte do tempo, destinando as outras três quartas partes a procurar moradia, vestimentas e calçados, tratando ele mesmo das suas coisas, sem se importar com a comunidade? 

Adimanto — Talvez seja mais fácil trabalhar de acordo com a primeira maneira. 

Sócrates — As tuas palavras me sugerem o seguinte raciocínio: em primeiro lugar, a natureza não fez todos os homens iguais, mas diferentes em aptidões e aptos para esta ou aquela função. Em que circunstância, então, se trabalha melhor, quando se exerce um só ofício ou vários ofícios de uma só vez? 

Adimanto — Quando se exerce só um. 

Sócrates — Parece-me também que, quando se deixa passar a oportunidade de fazer uma coisa, essa coisa perde-se. Porque o trabalho a ser realizado não se acomoda às conveniências do operário, mas este à natureza do trabalho, sem perda de tempo. De onde se deduz que se produzem todas as coisas em maior número, melhor e mais facilmente, quando cada um, segundo as suas aptidões e no tempo adequado, se entrega a um único trabalho, sendo dispensado de todos os outros. 

Adimanto — É como dizes. 

Sócrates — Neste caso, são necessários mais de quatro cidadãos para satisfazer as necessidades a que nos referimos. Com efeito, o lavrador não deve fazer o próprio arado, se quiser que seja de boa qualidade, tampouco a enxada, nem as outras ferramentas agrícolas; também o pedreiro não fará a sua ferramenta; o mesmo se dará com o tecelão e o sapateiro, não concordas? 

Adimanto — Concordo. 

Sócrates — Desta forma, temos carpinteiros, ferreiros e muitos outros operários aumentando a população de nossa pequena cidade. Mas seria ainda maior se lhe juntássemos boiadeiros, pastores e outras espécies de criadores de gado, para que o lavrador tenha bois para a lavra da terra; o pedreiro, animais de carga para transportar materiais; o tecelão e o sapateiro, peles e lãs. 

Adimanto — Mas uma cidade que reunisse todas essas pessoas já não seria tão pequena. 

Sócrates — E tem mais: seria impossível fundar uma cidade num local onde não houvesse necessidade de importar nada. 

Adimanto — Sim, seria impossível. 

Sócrates — Haveria, pois, necessidade de outras pessoas que, de outras cidades, trouxessem o que lhe falta. Porém, se essas pessoas fossem de mãos vazias, não levando nada daquilo de que os fornecedores demandam, também partiriam de mãos vazias, não é? 

Adimanto — Penso que sim. 

Sócrates — Será necessário, então, que a nossa cidade produza não apenas aquilo de que precisa, mas também aquilo que lhe é exigido pelos fornecedores. Por conseguinte, será necessário um maior número de agricultores e de outros artesãos. 

Adimanto — Logicamente. 

Sócrates — E inclusive de pessoas que se encarreguem da importação e da exportação das diversas mercadorias. Ora, estas pessoas são os comerciantes, certo? 

Adimanto — São. 

Sócrates — Logo, também precisaremos de comerciantes. E, se o comércio se fizer por mar, ainda precisaremos de gente versada na arte da navegação. Mas, no interior da própria cidade, como os homens irão permutar os produtos do seu trabalho? Já que foi com esse propósito que os associamos ao findarmos uma cidade. 

Adimanto — Evidentemente que será através da venda e da compra. 

Sócrates — Neste caso, necessitaríamos de um mercado e de moeda, símbolo do valor das mercadorias permutadas. 

Adimanto — Sem dúvida. 

Sócrates — Mas, se o lavrador ou qualquer outro operário que leva ao mercado um de seus produtos não conseguir se encontrar com aqueles que querem fazer permutas com ele, interromperá o seu trabalho para ficar sentado no mercado esperando-os? 

Adimanto — De jeito nenhum. Existem pessoas que se encarregam desse serviço; nas cidades bem organizadas, são geralmente as pessoas mais fracas de saúde, incapazes de qualquer outro trabalho. O seu papel é ficar no mercado, comprar a dinheiro aos que vendem, e depois vender, também a dinheiro, aos que desejam comprar. 

Sócrates — Logo, esta necessidade dá origem à classe dos mercadores na nossa cidade; damos este nome — não é mesmo? — àqueles que se dedicam à compra e à venda, com estabelecimento aberto no mercado, e o de negociantes aos que viajam de cidade em cidade. 

Adimanto — Perfeitamente. 

Sócrates — Existem também outras pessoas que prestam serviços: aquelas que, sem talento para outro tipo de serviço, são, pelo seu vigor corporal, aptos para os trabalhos pesados; vendem o emprego da sua força física e, como denominam salário o preço do seu trabalho, damos-lhes o nome de assalariados, não é assim? 

Adimanto — Exatamente. 

Sócrates — Esses assalariados, no meu entender, representam o complemento da cidade. Então, a nossa cidade já não cresceu suficientemente para ser considerada perfeita? 

Adimanto — Talvez. 

Sócrates — E onde encontraremos a justiça e a injustiça? De qual dos elementos que mencionamos julgas que elas se originam? 

Adimanto — Eu não o sei, Sócrates, salvo se for das relações mútuas dos cidadãos. 

Sócrates — Talvez tenhas razão. Mas convém que analisemos o caso sem desanimar. Comecemos considerando como viverão as pessoas assim organizadas. Não produzirão trigo, vinho, vestuário, calçados? Não edificarão moradias? Durante o verão, trabalharão quase nuas e descalças, e, no inverno, vestidas e calçadas. Para se alimentar, prepararão farinha de cevada e de frumento, cozinhando esta e apenas amassando aquela; colocarão seus estupendos bolos e os seus pães em ramos ou folhas frescas e, deitadas em camas de folhagem, feitas de teixo e de murta, regalar-seão com seus filhos, bebendo vinho, com a cabeça coroada de flores, e cantando louvores aos deuses; passarão assim agradavelmente a vida juntos e regularão o número de filhos pelos seus recursos, para evitar os incômodos da pobreza e os temores da guerra. 

373a - 383c Glauco interfere dizendo que é preciso de mais conforto, insinuando que os habitantes desta cidade ideal de Sócrates podem ser comparados com animais… Sócrates responde que sua cidade é sã, e entende que Glauco refere-se a uma “necessidade” (busca, ambição) por luxo e diz que uma cidade com luxo deve ser cheia de excitação podendo ser ideal para encontrar as origens da justiça e da injustiça. 

Os interlocutores então chegam à conclusão que a cidade seria cheia de coisas pouco ou nada necessárias: caçadores, imitadores, artistas ambulantes, empresários de teatro, cabeleireiros e fabricantes de adornos femininos e de vários outros artigos. Com elevado número de cidadãos se ocupando de tais negócios, tal cidade também exigiria servidores como pedagogos, governantas, amas (cuidadoras), criadores de porcos, cozinheiros e mestres de cozinha, permitindo os hábitos dos estilos de vida mais luxuosos. Sócrates e os demais entendem que tal cidade precisaria crescer tomando territórios vizinhos principalmente para criar animais (para o abate e consumo) e por isso  entraria em guerra com outros povos:

 Sócrates — Então seremos obrigados a tomar as pastagens e lavouras dos nossos vizinhos? E eles não farão a mesma coisa em relação a nós, se, ultrapassando os limites do necessário, se entregarem, como nós, a uma insaciável cupidez (cobiça)?
Glauco — E bem provável, Sócrates.
Sócrates — Iremos então à guerra, ou faremos outra coisa?
Glauco — Iremos à guerra.
Sócrates — Ainda não chegou o momento de dizer se a guerra acarreta bons ou maus resultados; Notemos apenas que descobrimos a origem da guerra nessa paixão que é, no mais alto grau, geradora desse flagelo tão funesto para o indivíduo e a sociedade.
Glauco — Exatamente.
Sócrates — Então, meu amigo, a cidade precisa aumentar ainda mais, e não em pouca coisa, pois redamará todo um exército que possa entrar em campanha para defender todos os bens a que nos referimos e fazer frente aos invasores.
Glauco — Mas como? Os cidadãos não podem fazer isso?
Sócrates — Não, se tu e todos nós concordamos com o princípio, quando fundamos a cidade, de que é impossível a um único homem exercer satisfatoriamente vários ofícios.

Como a maioria das pessoas domina só uma profissão, a cidade crescente (em luxo etc) proposta por Glauco e desenvolvida em diálogo com Sócrates, precisaria de toda uma classe de guardas/ soldados treinados no combate e na defesa da cidade/ estado. A partir daí Sócrates e os demais conjecturam uma educação ideal para os guardas da cidade/ estado

375b-376e: Sócrates: Já percebeste que a cólera é algo indomável e invencível e que o espírito que a possui não pode temer nem ceder?
Glauco — Percebi.
Sócrates — São estas, pois, as qualidades que deve ter o guardião no que concerne ao corpo?
Glauco — Sim.
Sócnates — E no que concerne à psiquê (alma), deve ser de temperamento irascível?
Glauco — Sim, também.
Sócrates — Mas então, Glauco, não serão ferozes uns com os outros e com o restante dos cidadãos que tiverem os mesmos temperamentos?
Glauco — Por Zeus! Só poderá ser dessa maneira!
Sócrates — Entretanto, é preciso sejam mansos com os seus e rudes com os inimigos; caso contrário, não esperarão que outros destruam a cidade: eles mesmos a destruirão.
Glauco — Receio que sim.
Sócrates — Que fazer, então? Onde encontraremos um temperamento ao mesmo tempo manso e irascível? Pois um temperamento manso é o oposto de um temperamento irascível.
Glauco — É o que parece.
Sócrates — Contudo, se faltar uma destas qualidades, não teremos um bom guardião. Tê-las a ambas é impossível de onde se conclui que um bom guerreiro não se encontra em parte alguma.
Glauco — Receio que estás com a razão.
Hesitei por alguns instantes, refletindo no que acabávamos de dizer, e depois continuei: (Sócrates) — Bem que merecemos estar em embaraço, meu amigo, por termos abandonado a comparação que havíamos proposto.
 

Sócrates então conclui que, para contrapor a natureza bélica (guerreira e/ou violenta), seria necessário a educação de um filósofo para o exército/ guardas da cidade. Tal educação além da ginástica para o corpo, incluiria música e literatura para psiquê (alma). Certamente a arte dos discursos e/ou da literatura era agrupada com a poesia e a música por serem consideradas atividades relacionadas à inspiração, ou seja, às musas - espíritos que inspiravam os "mortais"/ os seres humanos na cultura (e mitologia) grega. Porém Sócrates identifica 2 tipos de literatura (também traduzido como 2 tipos de discursos): as falsas e as verdadeiras.

377a-377e: Sócrates — Ambos (discursos/ literaturas) entrarão na nossa educação ou começaremos pelos falsos?
Adimanto — Não estou entendendo.
Sócrates — Nós não começamos contando fábulas às crianças? Geralmente são falsas, embora encerrem algumas verdades. Utilizamos essas fábulas para a educação das crianças antes de levá-las ao ginásio.
Adimanto — É verdade.
Sócrates — Este é o motivo por que eu dizia que a música deve preceder a ginástica.
Adimanto — E tens razão.
Sócrates — E não sabes que o começo, em todas as coisas, é sempre o mais importante, principalmente para os jovens? Com efeito, é sobretudo nessa época que os modelamos e que eles recebem a marca (matriz) que pretendemos imprimir-lhes.
Adimanto — Com certeza.
Sócrates — Sendo assim, vamos permitir, por negligência, que as crianças ouçam as primeiras fábulas que lhes apareçam, criadas por indivíduos quaisquer, e recebam em seus espíritos entender, quando forem adultos?
Adimanto — De nenhuma forma permitiremos.
Sócrates — Portanto, parece-me que precisamos começar por vigiar os criadores de fábulas, separar as suas composições boas das más. Em seguida, convenceremos as amas e as mães a contarem aos filhos as que tivermos escolhido e a modelarem-lhes a alma com as suas fábulas muito mais do que o corpo com as suas mãos! Mas a maior parte das que elas contam atualmente devem ser condenadas. Sócrates conclui que as fábulas grandes e as pequenas devem ter o mesmo molde e poder (efeito).

Adimanto — (...) não sei quais são essas grandes fábulas de que falas. 

Sócrates — São as de Hesíodo, Homero e de outros poetas. Eles compuseram fábulas mentirosas que foram e continuam sendo contadas aos homens.

Adimanto — E com razão que se condenem tais coisas. Mas como dizemos isso e a que estamos nos referindo? 

Sócrates — Em primeiro lugar, aquele que criou a maior das mentiras a respeito dos maiores dos seres criou-a sem beleza, quando disse que Urano fez o que relata Hesíodo e como Cronos se vingou. Mesmo que o comportamento de Cronos e a maneira como foi tratado pelo filho fossem verdadeiros, penso que não deviam ser narrados com tanta leviandade a seres desprovidos de razão e às crianças, mas que seria preferível enterrá-los no silêncio. 

Adimanto — De fato, essas histórias são abomináveis. 

Sócrates— E não devem ser contadas na nossa cidade. Não se deve dizer diante de um jovem ouvinte que, cometendo os piores crimes e castigando um pai injusto da forma mais cruel, não faz nada de extraordinário e age como os primeiro se os maiores dos deuses. 

Adimanto — Não, por Zeus! A mim também parece que tais coisas não se devam dizer! 

Sócrates — Deve-se também evitar contar que os deuses fazem guerra entre si e que armam ciladas recíprocas, porque não é verdade, se quisermos que os futuros guardiães da nossa cidade considerem o cúmulo da vergonha discutir levianamente. E ainda menos se lhes deve contar ou representar em tapeçarias as lutas dos gigantes e esses ódios de toda a espécie que armaram os deuses e os heróis contra os seus parentes e amigos.” 

(...) Que jamais se lhes conte a história de Hera acorrentada pelo filho, de Hefesto precipitado do céu pelo pai, por ter defendido a mãe, que aquele maltratava, e os combates de deuses que Homero imaginou, quer essas ficções sejam alegóricas, quer não. Pois uma criança não pode diferenciar uma alegoria do que não é, e as opiniões que recebe nessa idade tornam-se indeléveis e inabaláveis. E devido a isso que se deve fazer todo o possível para que as primeiras fábulas que ela ouve sejam as mais belas e as mais adequadas a ensinar-lhe a virtude.
Adimanto — Tudo que dizes é profundamente sensato. Porém, se alguém nos indagasse o que entendemos por isso e que fábulas são essas, que responderíamos?
379: Sócrates — Mas, Adimanto, nem tu nem eu somos poetas, mas fundadores de cidade. Compete aos fundadores conhecer os modelos que devem seguir os poetas nas suas histórias e proibir que se afastem deles; mas não lhes compete criar fábulas.
Adimanto — Está bem. Mas, ainda assim, gostaria de saber quais são os modelos que se devem seguir nas histórias (também traduzido como teologias) que se referem aos deuses.
Sócrates — Vou dizer-te. Deve-se representar Deus (Theos) sempre tal como é, quer seja representado na epopéia, na poesia lírica ou na tragédia.
Adimanto — Perfeitamente de acordo.
Sócrates — Não é certo que Deus é essencialmente bom e não é assim que se deve falar dele?
Adimanto — Sem dúvida. 

(...) Sócrates — Então, o bem não é a causa de todas as coisas; é a causa do que é bom e não do que é mau.

380-383: Sócrates então separa o bem do mal, explicando que o que é bom não pode gerar o mal. Assim o filósofo combate os mitos que atribuem a causa dos males aos deuses, bem como também faz uma crítica aos argumentos mitológicos (da religião grega) que os deuses determinaram destinos aleatórios aos seres humanos. Sócrates indica desta maneira que o Deus criou o bem, as coisas boas, e que os males têm origem e causa no próprio ser humano e em suas relações. Platão indica aqui o livre arbítrio do ser humano, ou seja, sua intenção e responsabilidade por seus atos - Sua capacidade de fazer o bem e de buscar o saber/ o conhecimento e também sua ignorância, suas falhas, incompetências ou erros. Assim se combate também a falácia de por a culpa nos deuses, quando uma pessoa ou uma sociedade sofre as consequências de seus atos mesquinhos, ignorantes etc. 

 Sócrates — Pois bem, as coisas melhor constituídas não são as menos sujeitas a ser alteradas e movidas por uma influência alheia? Pensa, por exemplo, nas alterações causadas no corpo pelo alimento, pela bebida, pela fadiga, ou na planta pelo calor do Sol, pelo vento e por outros acidentes que tais; o indivíduo mais são e vigoroso não é o menos atingido?
 Adimanto — Sim.
Sócrates— E, da mesma maneira, não é a alma mais corajosa e sábia a que menos é perturbada e alterada pelos acidentes exteriores?
Adimanto — Por certo.
(...) Sócrates — Em geral, todo o ser perfeito, que tira a sua perfeição da natureza, da arte ou das duas, está menos sujeito às transformações vindas de fora.
Adimanto — Assim é.
Sócrates — Mas se Deus é perfeito, tudo que se refere à sua natureza é em todos os aspectos perfeito?
Adimanto — Sem dúvida.
Sócrates — Assim, pois, Deus é o menos sujeito a receber formas diferentes.

Aqui Sócrates explica que Deus não mudaria de forma se apresentando sob variadas aparências como conta alguns mitos. 

Em seguida o filósofo pergunta a Adimanto se ele acha que Deus mentiria e este não sabe o que responder. Sócrates explica que ninguém aceita de bom grado ser enganado, nem almeja uma ignorância total, deixando sua psiquê (alma) alheia à verdade. Sócrates diz que os humanos mentem basicamente devido a 2 tipos de motivos: Por desconhecimento sobre o passado (que gera fábulas e mitos errôneos/ nocivos) ou para lidar com inimigos ou amigos que estão em algum estado de desatino. Nestas situações o mentiroso é levado por mainon, (certamente referindo-se à loucura, ódio ou paixão sensorial) ou por alienação (tolice, insensatez), objetivando alguma ação má. Adimanto diz que o divino não tem amigos desatinados nem malignos e nem desconhece o passado. Sócrates conclui assim, que o divino (théion) e o espiritual (daimónon) são alheios à mentira. "Assim, Deus fala clara e verdadeiramente em atos e palavras, e não se embriaga (altera) nem engana os outros, nem por imaginação, nem por palavras, nem por sinais de procissão (envios de sinais, sonhos), nem em vão nem em nome."

A poesia (seja ela literatura, discurso. música etc) sobre o divino, para autor, deve ser centrada na ética e assim deve ser útil para todos indivíduos nos estados/ nações alcançado resultados bons aos coletivos/ para sociedade.

A Anti ética, a Ética e a Psiquê Humana

Neste texto trago alguns assuntos que já abordei em outras "publicações" (posts), mas dando maior ênfase na importância da ética para além da filosofia.

A utilização das religiões como ferramenta de poder: 

A religião de um modo geral tem suas origens antes da história escrita, há milênios atrás, se levarmos em conta o xamanismo.

Desde a invenção da escrita por volta de 3.500 a.C., uma parte significativa da classe religiosa assumiu uma posição de prestígio ou de poder em variadas civilizações (Egito, Acádia, Babilônia etc). Estas religiões politeístas influenciavam grandemente os governantes, fossem eles faraós do Egito ou patesis dos estados da Mesopotâmia. 

O período de surgimento da primeira religião monoteísta é controverso: ela, conhecida como judaísmo, pode ter surgido das tribos hebraicas entre os séculos 15 e 18 antes de Cristo, mas alguns judeus atribuem sua origem tradicional entre o final do 4º milênio a.C. e início do 3º milênio. O judaísmo manteve-se muito próximo/ vinculado à nação/ etnia judaica sucessora das tribos hebraicas e dificilmente deve ter se tornado uma significativa ferramenta de poder "mundano ou estatal" (talvez só entre os séculos 10 e 9 antes de Cristo, sob o reinado de Davi e/ou de Salomão), mas não me aprofundarei sobre a antiguidade neste texto.

Considerando que a palavra espiritualidade só passa a ser propagada a partir do século 20, pode-se dizer que antes disso, existiam religiosos com poder sobre grupos e até sobre uma sociedade, e outros religiosos sem poder mundano - estes últimos simplesmente se dedicam às práticas espirituais.

Muito tempo depois das religiões mencionadas acima, o cristianismo surge entre as baixas classes sociais (Jesus e seus apóstolos) durante o século 1 na Judéia sob domínio do Império Romano. O governo romano então se aproxima do cristianismo e este começou a ser institucionalizado no ano de 325, passando a se chamar igreja católica e atingindo um auge de poder por volta do ano 1054 quando esta religião monoteísta se divide em duas: A católica romana (do ocidente) e a ortodoxa (do oriente). Em 1517 surge o protestantismo propondo uma reforma da igreja católica do ocidente e isto gera mais uma separação na história das religiões cristãs. Com um olhar histórico resumido, é possível perceber que argumentos de promessas de riqueza dentro das religiões monoteístas começaram depois do surgimento do calvinismo, um movimento protestante do século 16 que defendia um "valor sagrado" do trabalho e, ao menos de certa forma, do acúmulo dos bens. 

Porém, talvez as teologias da prosperidade como a mencionada acima (entre outras) podem estar ficando desgastadas por uma série de motivos, mas isso não quer dizer que as religiões estão necessariamente se tornando mais espiritualizadas ou solidárias: Mais atualmente, neste inicio de século 21, propaga-se a teologia da dominação baseada na promessa de "proteção espiritual". Essas promessas surgem como a idéia de "unção" nas igrejas evangélicas: Pastores convocam "fiéis" para receberem a unção como valor principal da religião. Recebida a suposta proteção divina chamada unção, os ensinamentos de Jesus baseado no amor à todos, passam a ser ignorados. Este conceito de unção foi adaptado ou distorcido de textos do velho testamento e isso faz sentido, pois nas igrejas cristãs, os religiosos conservadores ou reacionários pregam mais o velho testamento e algumas cartas de Paulo, do que os evangelhos com as passagens de Jesus. Desta forma os líderes religiosos conseguem priorizar passagens da bíblia voltadas à respectiva época a qual os textos foram escritos. Com esta priorização, os líderes escolhem argumentos nitidamente arcaicos e desatualizados próprios da antiguidade e os trazem como se fossem verdades absolutas para nossa época, sobrepondo até mesmo muitos dos ensinamentos de Jesus mencionados anteriormente. Chamam a Deus de "Senhor dos Exércitos", como era chamado séculos antes de Cristo, para defender a violência e se afastar do Deus piedoso explicado por Jesus. Chamam os membros de suas respectivas igrejas ou comunidades de "filhos de Abraão" para incitar a ideia de escolhidos, considerando-se melhores ou mais puros do que pessoas ateias ou de outras religiões, e assim se apoiam em vários outros termos e passagens dos textos da bíblia retirados de seus contextos originais da antiguidade*. Se escondendo atrás destas falácias, os líderes religiosos e suas respectivas igrejas podem propagar racismo, submissão das mulheres e transfobia facilmente. Podem criar inimigos fora de suas igrejas ou de suas religiões, fomentando rivalidade, conservadorismo, ignorância e obscurantismo. 

No espiritismo, o conservadorismo e o reacionarismo (ignorância do presente e veneração do passado), cresceram no Brasil ao longo do século 20 com a propagação exagerada de obras mediúnicas nada comprováveis. São romances sobre o além, descrições de realidades particulares como se fossem regras absolutas e contos que inspiram incerteza e medo! Além disto, os centros espíritas conservadores freqüentemente inventam explicações sobre qualquer sofrimento alheio culpando as vítimas, alegando que elas estão sofrendo por erros cometidos em outras encarnações (em vidas anteriores). Através deste afastamento dos ensinamentos de Jesus, eles incitam a veneração dos médiuns mais sensacionalistas e manipuladores**. Assim, o espiritismo conservador/ reacionário também se afasta das obras originais de Kardec, pois o fundador do movimento espírita da França do século 19 analisava criticamente as mensagens recebidas, fossem elas de médiuns ou de espíritos. 

Ambos movimentos (das igrejas cristãs e do espiritismo brasileiro) se apoiam na oratória e na retórica, ou seja, no sofismo que foi tão combatido pelos fundadores da filosofia ocidental, Sócrates e Platão. Esses movimentos religiosos conservadores/ reacionários então se mostram altamente anti éticos. Pois a filosofia ocidental em sua origem foi centrada na ética, na ideia do bem e na finalidade da melhoria (vide a função da ontologia na obra Fêdon). 

Os discursos religiosos que parecem "hipnotizar" grupos de pessoas possivelmente têm relação com o fato das pessoas não possuírem muito tempo para estudar as áreas "de humanas" (história, filosofia etc), ou, em alguns casos, os discursos manipuladores simplesmente servem bem aos que não querem pensar muito. Sentimentos não são opostos da racionalidade, mas são diferentes entre si. É difícil desenvolver os dois (a racionalidade e os sentimentos) voltados ao humanismo, à empatia, enfim, à ética. E o sentimento é uma necessidade humana que muitos líderes manipulam, não só nos meios espirituais, mas nos meios políticos e econômicos também. 

Analisando tais fatos, poderíamos concluir de maneira simplista, para não dizer errônea, que para combater tanto charlatanismo (logro, enganação) e obscurantismo, a humanidade deveria abandonar toda a religião, priorizando a ciência. Esta conclusão é errônea não só por que muitas pessoas querem ter uma religião ou uma espiritualidade, mas porque a ciência surge na era moderna praticamente se separando da filosofia no século 19, "buscando maior objetividade" (certamente houve outros motivos também). Objetividade é útil para entendermos os fenômenos sensorialmente perceptíveis, entre eles, algumas das ações humanas. Porém a ciência surge desta separação da filosofia com 2 problemas: Seu pressuposto é predominantemente materialista niilista - Ou seja,  a ciência tradicional se apoia numa visão de mundo reducionista e extremista de que só existe o que se percebe no ambiente/ no espaço e por isso o método de investigação utilizado pela maior parte dos cientistas é praticamente todo externalizado - não se avalia sentimentos, pensamentos, autocontrole, intenção, valores éticos etc. A ética, tema central da filosofia em sua origem, permaneceu na filosofia que foi significantemente encoberta pela ciência. Desta forma, afastada da ética, a ciência gerou o racismo científico (ou seria pseudocientífico?) que de certa forma serviu para inventar que indígenas e negros eram inferiores ou mais primitivos do que os brancos, "justificando" movimentos como a Partilha (invasão e tomada) da África pelas elites da Europa. Essa "construção de conhecimento" distanciada da ética, também gerou o biologismo das ciências que resultou no darwinismo social da virada do século 19 ao 20. Resumidamente o darwinistas sociais (multimilionários e alguns "estudiosos" da Europa e América do Norte), a partir da interpretação de que o animal mais forte devorava o mais fraco, inventaram uma série de argumentos mentirosos que afirmavam que os mais ricos deveriam ficar cada vez mais ricos e os pobres deveriam ficar cada vez mais pobres, porque isto seria uma lei da natureza. Este absurdo afetou todas ciências humanas da época, naturalizando a violência, a iniquidade, a injustiça e (enfim) a antiética. Todo esse movimento de desumanização dos saberes serviu bem para a intensificação do liberalismo econômico e sua ideologia capitalista - Com a classe intelectual predominantemente dessensibilizada, naturalmente se espalham a busca incessante por enriquecimento e pelo acúmulo de bens materiais, o individualismo, a "superioridade" racial e étnica (racismo e nacionalismo) desde o final do século 19, passando pela 1ª guerra mundial até por volta dos anos de 1930 e 1940 do século 20, quando o nazismo e o fascismo ganham força na Europa e eclodem na 2ª guerra mundial.

Para piorar, a pré suposição (materialista niilista) mencionada acima, tenta afirmar que a ciência é um campo do saber "neutro", como se não houvessem interesses envolvidos no que se pesquisa e para onde se destinará os resultados da pesquisa. Essa neutralidade na construção dos conhecimentos/ dos saberes portanto não existe, pois todo ser humano tem intenções, consciência etc. Tudo que o ser humano faz tem intenções por trás, sejam individuais ou universais, boas ou más, justas ou injustas. 

Assim como alguns religiosos usaram táticas para ganhar fortunas e poder, alguns intelectuais se beneficiaram ou serviram alguém que se beneficiou de seus estudos e de suas descobertas (geralmente é o segundo caso, onde proprietários de grandes empresas se beneficiam): Ao longo da história as armas químicas, as armas de destruição em massa, o confinamento em manicômios e até a escravização foram utilizadas para que determinados indivíduos se aproveitassem de outros "em nome da ciência", seja ela a química, a física, a medicina/ a psiquiatria, a biologia ou qualquer outra. A diferença das manipulações por trás da ciência, para as manipulações por trás da religião, é que estas últimas geralmente incitam medo de "punições eternas" e um grande afastamento dos ensinamentos de amor, piedade, solidariedade etc. 

Estas táticas de um modo geral não são novidades nas igrejas. Elas apenas mudam seus argumentos falaciosos ao longo dos anos. São táticas de dominação que funcionam por meio da intimidação e de promessas de recompensas sem relação alguma com amor, solidariedade, tolerância, equidade ou piedade. É óbvio que tais táticas visam favorecer líderes religiosos, sejam eles pastores, bispos, ou quaisquer outros - concedendo-lhes status, dinheiro e poder sobre grandes grupos de pessoas. A intenção de líderes que utilizam-se da religião para tais fins é tirar proveito de outros, favorecendo a eles mesmos. Lograr em cima de grupos ou mesmo de multidões. Inclusive as palavras proveito e lograr, ambas têm origens e significados muito semelhantes entre si: a primeira está relacionada à palavra inglesa "profit" (lucro) e a segunda, logro, que significa enganar, tirar proveito de outrem, está relacionada à palavra lucro. Portanto seus objetivos diferem muito da finalidade espiritual ensinada por Jesus e tantos outros líderes que viviam na humildade propagando o bem de modo universal - para que as pessoas pensem o bem e pratiquem o bem com todos. 

Como combater o mal na ciência e na religião? Qual seria a solução para tal problema? 

A solução não deve ser simples de ser colocada em prática: É a aplicação da ética na educação, na construção de conhecimento e na comunicação. A ética não é carisma, não é ser superficialmente simpático, nem meramente convincente ou polido - trata-se de valores universais, ou seja, que fazem bem para todas as pessoas, para o coletivo. É respeito, solidariedade, empatia, equidade etc. 

A ética, ou "seus valores", também devem ser inferidos, despertada individualmente, pois a ética faz bem para o indivíduo até mesmo psiquicamente. 

Os mais céticos poderiam contra argumentar dizendo que isso é ingênuo, ou impossível porque sempre haverão pessoas querendo tirar vantagens de outras. Porém estas pessoas que constantemente ou insistentemente tentam se aproveitar dos outros, estão satisfeitas? Permanecem satisfeitas? Certamente não, pois se fosse assim, parariam de tentar tirar vantagens das situações e das pessoas e ficariam satisfeitas com o que elas tem ou, mais precisamente, com o que elas são. Então, se elas nunca estão satisfeitas, elas são felizes? Óbvio que não. A satisfação de tais pessoas é fugaz e sempre passa, pois assim é o prazer - não é felicidade. Isto foi explicado na filosofia por Platão, em sua obra Filebo por exemplo, no século 4 a.C. e alguns estudos neurológicos recentes parecem indicar resultados numa direção similar a de Platão: Prazeres sensoriais como os do tato e do paladar, por exemplo, nunca podem ser definitivamente satisfeitos. (uma pena eu ter perdido a fonte destes estudos) 

Esta insatisfação consequente de uma busca incessante, não é boa, portanto é um mal. Como exemplo disto, basta ver como um típico multimilionário se comporta sempre em busca de enriquecimento: sua insatisfação é como um vício. Enquanto continua em sua busca nunca será feliz. No caso destes multimilionários eles podem prejudicar coletivos/ sociedades inteiras e por isso devem ser expostos, para que haja mais equidade e justiça entre as pessoas. É claro, que não vou detalhar tais assuntos aqui, pois neste texto abordo mais a ética e sua relação com a psiquê (seja mente ou alma). 

A felicidade então não está nos objetos - está em nossa psiquê e é boa, faz bem... 

Portanto deixo a questão: É possível ser feliz ou sentir-se plenamente bem, fazendo o mal? A resposta já está no texto e não fui eu quem a inventou. 

Fontes: (listagem incompleta)

 Platão, Fédon. Tradução de Edson Bini, Edipro (2020)

 [1] https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/12/filosofia-teoria-mente-corpo-e-o.html

https://youtu.be/QH0J4X-GGgE?si=nyL2Q9H_skwXiJY0 acesso em 20/05/2024  

Revue spirite - journal d'etudes psychologiques (vários números de 1858 a 1869)

*trecho retirado de diálogos de frequentadores da Igreja Universal no bairro do Brás, em São Paulo - SP;

**trecho baseado em conteúdos "espíritas" publicados na plataforma YouTube e  nos relatos de alunos do curso de Pedagogia Espírita da ABPE, frequentadores de variados centros espíritas pelo Brasil; 

Combater Charlatanismo requer só Ciência? Ou é problema Ético?

 Escrevo este texto após ser bombardeado por sugestões um tanto decepcionantes do algoritmo: particularmente vídeos sobre ciência que as red...