Revolução: troca de poder, ou arrancada de desenvolvimento ético?

Em conversas sobre história da sociedade e da economia ocidental que tive com amigos e colegas nos últimos 6 ou 7 anos, percebi que as pessoas acabam caindo em algum nível de pessimismo quanto ao futuro da humanidade. 
De 4 ou 5 conhecidos que se aprofundaram neste tema por longos minutos (ou algumas poucas horas), 4 ou 5 mostraram a opinião que "o mal prevalece sobre o bem", seja por causa da ganância por dinheiro e/ou poder ou devido a ignorância da maioria. As visões variaram um pouco, mas uma possível solução variou entre revolução ou... nenhuma solução - a "humanidade não teria solução". 
Eu poderia discorrer sobre o que descobri sobre "o mal" e o bem na história das civilizações ocidentais, mas deixarei esse tema filosófico para um próximo texto.

Nos últimos 3 anos, após ler vários textos de Platão, ficou nítido que os problemas sócio econômicos que assolam a humanidade têm uma causa que envolve a (falta de) ética. Por isso tendo a crer menos que uma revolução traga grande benefícios: ao menos revoluções armadas, para mim, parecem trazer pequenos benefícios seguidos de muitas retaliações, traições etc.
Na primeira conversa sobre história da sociedade e da economia ocidental, os meus 2 interlocutores pareceram não chegar a uma conclusão, embora um pensou em uma grande revolta direta contra o sistema (capitalista) e o outro duvidou que isso fosse possível, sem apresentar uma possibilidade de mudança ou progresso social/ econômico.
Noutra conversa, com um sociólogo que trabalha com o povo de rua, lembro-me que ele falou que não vê esperança e que o ser humano não tem jeito pois nenhum sistema funciona devido ao fato deles serem impostos (colocados) de uma minoria de poderosos sobre o povo sem poder e devido a democracia (o sistema eleitoral etc) ser uma farsa pouco ou nada útil. 
Apresentei para ele, não em um tom muito sério, a proposta de um governo só de profissionais e cientistas de humanas: pedagogos, sociólogos, geógrafos, psicólogos (um tanto baseado em Platão, acho eu). Ele respondeu-me que seria só mais um governo vertical imposto de cima para baixo e não via como isso poderia gerar bom resultados. Pensei a respeito após nosso papo e lembrei-me que a proposta de Platão certamente foi pensada para uma cidade/ estado, ou seja, um coletivo de pessoas muito menor do que países continentais como Brasil, Rússia, China, EUA, ou outras nações quase tão grande quanto estes (Argentina, México, Índia etc). Na verdade o governo dos filósofos, que seria um governo de poucos construtores de conhecimento pautados pela ética (valores universais: duradouros e coletivos), é uma proposta não só social, mas também individual: moral/ ética e psicológica.
Numa outra conversa, meu interlocutor geógrafo cogitou vagamente que só revoluções poderiam mudar o mundo para melhor. Falei-lhe que revoluções sem educação e conscientização humana e social, já foram feitas e alternaram entre gerar pequenos resultados e ciclos de troca de poder com conflitos mortais, sejam bélicos ou não.

Vendo os problemas atuais, penso que isto está cada vez mais nítido: a maioria dos que têm poder, principalmente poderes econômico e ideológico (religiões e economias inclusas), são abertamente antiéticos. Variam entre psicopatas, fanfarrões e sádicos: basta vermos pastores manipuladores, políticos vendilhões e empresários do agronegócio, de indústrias farmacêuticas, armamentista, de grandes mídias e empreendedores (influencers mercenários), mentindo descaradamente, usando de argumentos chulos e estúpidos com pouca ou nenhuma base nos fatos... e absolutamente sem moral ou ética. 
 Isso denota uma falha miserável na educação, ao menos do Brasil, mas também com certeza em outros países, incluindo um tal de Estados Unidos. 
O sucateamento da educação ao lado de uma mídia que não informa desde a época da tv e do rádio, gera uma maioria de pessoas sem capacidade de análise dos fatos e sem conhecimento de utilidade ética, ou seja, sem conhecimento humano, coletivo e que perpassa o tempo (histórico etc). 
Lembro-me que em minha graduação de psicologia, todos professores que tentaram abordar a história da ciência e profissão tinham dificuldade de expor o assunto. Para completar, tentei fazer um trabalho de conclusão de curso abordando a história de umas poucas áreas da psicologia... e fui impedido: a professora negou-me esta possibilidade.
Pior que isso, alguns dos professores que abordaram história, reproduziram (automaticamente ou ingenuamente) discursos liberais, de "intelectuais" enviesados pela ideologia capitalista que contam só o ponto de vista do vencedor, geralmente o ponto de vista dos colonizadores que espalham desigualdade social e até guerras.

De modo geral não sabemos de onde viemos porque poucos de nós estudam história. Não sabemos o que é nação ou sociedade, porque não nos ensinam sociologia e vemos cada vez menos sobre geografia. Não sabemos que podemos aprender a dialogar com equidade, nem corrigir nossas limitações, porque quase não temos acesso à filosofia/ ética. Não sabemos quem cobrar porque não nos ensinam política...

Eu não sei se a verticalização do poder por si só é o maior de nossos dos problemas. Acho que pode ser problema quando exagerado, ou seja, quando a hierarquia social e/ ou econômica fica enorme e inquebrável para quem está submisso aos poderes. Por um outro lado, me parece que uma sociedade horizontal só é viável em pequenos coletivos... sejam como as dos indígenas da América, da África, da Oceania ou mesmo da Eurásia. Seja como a proposta talvez utópica de Platão para Atenas séculos atrás... 

Como seria então uma revolução capaz de trazer uma melhoria geral da sociedade? Revoltar-se contra multimilionários, eliminando-os? Destruir tudo do sistema econômico neo liberal e implantar um socialismo? Isso já não deu errado? Implantar um anarquismo? Daria certo em que nível? 
A palavra revolução pressupõe evolução... que evolução haveria sem educação? Sem uma civilização que se paute pelos valores universais da ética? Implantar uma educação conscientizadora e humana não seria uma revolução ainda que durasse poucos anos?
Talvez precisamos de algumas eventuais revoluções sim: para quebrar barreiras opressoras que nos impedem de propagarmos saberes humanos e de vivermos com equidade e ética. Porém, mais importante que isso então é o fato de que precisamos de educação... de uma construção de conhecimento equitativo com diálogo. Precisamos entender que o ganho individualista é falso, tosco e/ ou ignóbil... O individualismo é nocivo não só para o próximo e para as multidões; precisamos provar que é nocivo até mesmo para quem pratica crimes econômicos, ambientais, sociais etc... 
Sim, ensinar e propagar isso deve ser muito difícil... mas precisamos.

 

Amor e Constança

Escrevi este texto na segunda semana de maio - semana do "dia das mães". Isto porque me lembrei do amor e como ele é um sentimento importante apesar de parecer haver pouco consenso sobre o que ele é exatamente. No texto anterior critiquei como a psicologia deste início de século 21 ainda menospreza o amor e se submete ao viés biológico da medicina, porém aqui trato um pouco do amor na cristandade (dos ensinamentos de Jesus e seus apóstolos), e mais na relação desse sentimento tão importante com a espiritualidade e com o cotidiano... com a vida.

O amor cobre uma multitude de erros... esse ensinamento atribuído ao apóstolo Pedro, fala do amor ensinado por Jesus. O amor piedoso que faz os seres servirem uns aos outros em uma amizade universal, ou seja, sem mentiras e sem priorizar interesses individuais. Esse amor vivido sinceramente cobre uma multidão de erros porque é o ensinamento central de Jesus de amar o próximo como a si mesmo e a Deus (amar toda a vida)... 
Mas andei pensando: e ser amado por esse amor? Como é? Talvez não seja tão importante se não retribuirmos?... Mas o que esse amor de quem nos serve com tanta sinceridade nos causa? 
Senti que fui amado assim. E descobri que esse amor resiste à morte do corpo. Esse amor então é uma verdade que é quase indizível - É o que realmente vale a pena. Mas falarei essencialmente da porção desse amor perceptível aqui na vida terrestre, mesmo porque discorrer sobre o além não é necessário até o momento. 
Eu tive momentos de tristeza, irritação, dúvida etc... Mas sem dúvida, uma coisa que não esqueço é o quanto fui amado. 
Quando lembro de minha infância, lembro o quanto fui cercado por amor. Minha mamãe foi muito presente. Sempre me lembro de como sorria tão alegremente por minha causa e por causa de meus irmãos. Na verdade isso pouco mudou com o passar do tempo: era um sorriso espontâneo e sincero de um amor por nós, praticamente inabalável. Claro que isso não impediu momentos que ela ficou brava conosco e tantas outras emoções mais conflitivas, mas isso faz parte das relações humanas... 
Também me lembro da presença dos meus tios, particularmente de 2 irmãos de minha mãe, que viveram um tempo conosco quando eu era pequenino (por volta dos meus 2 anos de idade) e depois nos visitaram por anos (quase toda semana): 
Tio Hélio parecia mais fanfarrão ou talvez um brincalhão peculiar. Era meio atrapalhado e estava frequentemente ouvindo música, tomando café e fumando (essa última parte nunca me agradou, mas muitos outros familiares também fumavam). Frequentemente ria uma gargalhada emblemática e me chamava pelo meu apelido prolongando a primeira sílaba por uns segundos. 
Tio Bão foi o tio quase onipresente, pois visitava regularmente todos seus parentes (meus tios, tias e primos) e principalmente minha mãe, eu e meus irmãos. Acho que ele me pôs o apelido o qual meu tio Hélio me chamava. Era o tio que levava eu e meus irmãos para passear (muitas vezes de trem) e fazia muitos brinquedos para nós: ônibus de lata, veículos de madeira, maquetes etc. Também jogava cartas (mais com mamãe), fazia bolinhos fritos para gente e me ensinou a fazer nhoque. Visitou nossa casa frequentemente por mais de 30 anos. 
Alguém poderia me perguntar: mas aonde esteve o amor além o de sua mãe? Como você tem certeza do amor de seus tios? Bom, eu não tenho que ter certeza disso, ao menos não de modo explicável racionalmente... e nem empiricamente acho eu. Não penetro pensamentos e sentimentos alheios, nem leio mentes, mas amor é sentimento para além do material, então é sentir. Sentir nós simplesmente sentimos - é mais visceral que perceber sensorialmente ou explicar com palavras. Quando pequenino, muitas vezes senti o amor; estava no ambiente, nos olhares e sorrisos e sobretudo na presença. Amar é estar presente e se fazer sentir presente. Querendo o bem, fazendo bem... amando. O amor que eu senti não é momentâneo como a emoção: é reconhecível e duradouro, pois também é se sentir feliz, acolhido e seguro, ainda que ameaças compreensíveis ou incompreensíveis possam existir. 
Lembro-me que minha mãe contava que vovó se esforçou muito para fazer com que ela e seus irmãos (meus vários tios e tias) permanecessem unidos ao longo dos anos. Acho que esse esforço deu certo em algum nível. Lembro que ela contava como o tio Hélio gostava de crianças e sempre se fazia presente diante delas. E lembro como ela se dava bem com a maioria de seus irmãos - eles visitavam-se uns aos outros com certa regularidade, apesar de variadas dificuldades envolvendo rotinas familiares, condições financeiras e localização/ transporte. 
 O amor então parece ser presente. Viver o presente de coração com presença... ou seja com consciência. 
 O amor se faz inesquecível quando olho para esse meu passado. E quando tive medo que ele acabasse no futuro, Ele se manifestou de um modo imortal, provando-se mais absoluto que o espaço/ tempo... mas isso eu já não consigo explicar em um mero texto. 
 Se amar é estar presente e o amor provou-me sobreviver à morte do corpo, o presente independe do espaço e de nossa percepção... o que importa é viver esse amor. Quando não amamos estamos incompletos então talvez por isso Jesus centrou seus ensinamentos no amor. Talvez por isso Platão afirmou que os deuses chamam o amor de "o alado"; que nos eleva ao "além céus" (hiper ouranos)... 
Devemos nos manter presentes e conscientes... pois amor não é só gostar e nem simplesmente querer bem; ele envolve algo que nos tranquiliza... como serenidade. E algo que nos move e não nos deixa desistir... como a esperança.

Seja na memória, ou na psiquê, seja esta a alma ou a mente que não pode ser dividida nem decomposta, o amor sobrevive. 

O desprezo pelo bom sentimento nas famílias e na psicologia

De tempos em tempos sou forçado a ouvir ou ver algum adulto mal tratando uma criança - geralmente seu próprio filho(a). Não estou me referindo às broncas ou "palmadas" para educar e sim a tratar mal mesmo: Ignorar chamados de crianças com idade de 2 a 4 anos por vários minutos ou algumas horas, trancafiar uma ou outra no apartamento por dias seguidos brigando quando com a criança quando esta pede para sair/ para brincar, e sim, palmadas e petelecos dados por mera impaciência ou coisas piores. Quando digo com frequência, há uma variável, mas essa variável é o tempo em que essas famílias passam morando ao meu lado como vizinhos: Ao morarem, estes mal tratos são frequentes/ regulares - a variação de intervalos entre os mal tratos é mínima e na maioria dos casos que tive que viver "ao lado" destas famílias, notei que eram e ainda são quase diários. Isto ocorre a minha volta há uns 10 anos: chega um vizinho, trata mal a criança por 2, 3 ou 4 anos e se muda me dando alguns meses de paz. Só que na verdade eu não priorizo a paz de meramente estar longe de gente que maltrata criança: Isto porque eu sonho com um dia que essa merda acabe em toda a humanidade. 
O mal trato à criança não é algo supérfluo. Não é algo passageiro, que terminada a infância, a criança cresce e fica bem então "todos são felizes para sempre". Este mal trato que varia da recusa em dar afeto básico (seja carinho, atenção, lidar com paciência etc) até diversas violências (golpes físicos geralmente sem a criança entender porque está apanhando) tem seu impacto seja por causa que excede a capacidade da criança entender a opressão que sofreu ou porque traumatiza deixando sofrimentos ou limitações psicoemocionais. 
Citei alguns casos neste texto de 2021: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/08/reflexoes-sobre-importancia-da-inocencia.html, onde possivelmente as crianças mencionadas crescerão (algumas já devem ser adolescentes enquanto escrevo este texto) sem referência de boas emoções e expressões de bons sentimentos! Sem terem sentido a segurança básica de um pai e/ ou de uma mãe em que podiam confiar e receber carinho ou ao menos uma atenção sem violência ou sem desprezo. 
Estes mal tratos aos quais me refiro não são eventuais - são frequentes e dominantes na vida de variadas crianças que viveram e vivem próximas de mim. Sendo dominantes, quais serão os parâmetros de sentimentos e emoções que elas terão após crescer? Como essas crianças poderão tratar alguém bem se nem sabem o que é isso? 
Infelizmente estes casos parecem comuns e escrachadamente subnotificados mesmo porque seria muito difícil fazer uma pesquisa precisa com uma amostragem significante explicitando o cotidiano e os detalhes das relações destas crianças com seus cuidadores. Questionários podem ser feitos e aplicados em grandes públicos, mas um acompanhamento com levantamento de informações sobre a criação das crianças seria muito difícil. E como seriam ou serão as respostas de questionários sobre este tema? Certamente omitirão muitas das violências que mencionei, afinal quem responderia que trata suas crianças como estorvo na maior parte do tempo? Ou quem responderia que espanca ou estupra uma criança? Ninguém.
Este é um problema social que certamente deixa marcas na sociedade. E quando vemos pessoas apoiarem ou naturalizarem a violência no dia a dia, seja em qualquer setor da sociedade, deve haver uma ligação com a criação permeada de indiferença e/ ou de violência. Isto denota a necessidade e a importância de uma educação humana abrangente ao mesmo tempo que mostra o quão longe estamos de sermos uma civilização ética.
Seres humanos que desprezam ou torturam crianças certamente estão cagando e andando para falta de direitos básicos, para conquistas sociais, ou mesmo para uma política coerente e uma polícia que cumpra seu papel de defender a população. Ela acha a violência normal porque não aprendeu a gostar de ninguém ou só tem a violência como parâmetro de vida.
Porque candidatos que promovem o autoritarismo e a violência ganham eleições? Porque muitos acham normal a polícia matar trabalhadores sem prova alguma de que tenham cometido um crime? Porque acham normal um pastor pedir dinheiro, enriquecer e ignorar completamente os ensinamentos da própria religião? Porque acham normal um punhado de empresários terem fortunas enquanto muitos não tem nem o suficiente para se abrigar ou para comer? Porque achar normal crianças morrerem numa guerra?
Temos muitos problemas na civilização humana e enquanto aqueles que são os mais dependentes e indefesos forem desprezados ou mal tratados, os avanços éticos e sociais serão MUITO lentos... 
Sentimentos e emoções são necessidades humanas desde a tenra infância - se uma criança não tem acesso aos bons sentimentos e emoções ela não se torna um robô, um réptil ou um inseto - ela NÃO se torna NEUTRA e MUITO MENOS FORTE. Força mental não é violência nem indiferença! Força mental é ter autocontrole e saber conviver com respeito: é não se deixar ser dominado por sentimentos negativos nem por indiferença; é lidar sim com sentimentos negativos, mas também viver os bons sentimentos e expressá-los por meio de emoções saudáveis. 
Eu já tinha alguma noção disto há anos e minha formação em psicologia confirmou minhas suspeitas anteriores de que, ao passar por tais situações indiferença prolongada e/ ou de violência intensa, a criança cresce transtornada, seja com depressão, ansiedade, ou com transtornos de personalidade como por exemplo, o limítrofe (borderline) onde a pessoa tem grandes dificuldades para identificar uma amizade verdadeira e para saber os limites das relações humanas conforme cada ambiente e a realidade de cada pessoa. Uma psiquê torturada desde a infância não se desenvolve de modo saudável porque ela é marcada com sofrimento profundo enraizado em sua história de vida.
Para piorar, acompanhando profissionais de saúde mental nas redes, vejo um amplo abandono das abordagens de base mais humana da psicologia (fenomenológicas, filosóficas) em prol das abordagens "científicas". E qual seria o problema disto? Nenhum se a ciência de fato se propusesse a estudar os sentimentos de maneira ética, ou seja, com diálogo em pé de igualdade com os pacientes e pessoas com sofrimento psicoemocional ou transtornos. Esta igualdade é altamente negada, seja de modo velado ou aberto e isso ocorre porque a ciência está repleta de profissionais medíocres. Mediocridade em lidar com o ser humano que sofre não é mera falta de técnica ou de conhecimento, é principalmente falta de empatia, falta de assumir a própria ignorância/ de deixar de lado pré suposições! É falta de diálogo respeitoso e equitativo e falta de uma finalidade ética que busque o bem do paciente e do maior número de pessoas possível - o bem coletivo não de um mero grupo de pessoas, mas o bem de pessoas com as mais diversas culturas e cosmovisões. 
Só nestes 4 primeiros meses de 2025 eu vi três psicólogos pregando suas visões de mundo como se fossem a ciência em si, ou seja, como uma verdadeira construção de conhecimento que visa o bem estar psíquico do ser humano... Sendo dois destes psicólogos, supostos divulgadores científicos, com muitas dezenas de milhares de seguidores na internet. Estes dois, apesar de prováveis diferenças ente si, praticamente afirmam coisas do tipo "a ciência provou que Deus é uma invenção humana" (ou outras banalidades deste nível), mas... A ciência tem esta capacidade? E tem essa finalidade? 
Um destes "psicólogos" espalha há anos o cientificismo, atacando diversas religiões e até espiritualidades independentes (sem religião) e não, ele não critica, ou raramente ataca, os comportamentos antiéticos de líderes enriquecidos de grandes religiões. 
Para meu desprazer, o terceiro "psicólogo" (ao menos, espero que seja menos influente) veio com o velho discurso biologista: afirmou em uma entrevista para um canal/ site de psicologia, que a carga biológica é dominante no comportamento humano. Voltou um pouco atrás depois, afirmando que há um meio termo entre comportamento de origem genética e de origem social, para depois defender que a promiscuidade masculina é predominantemente biológica porque o homem ao longo da história lutou por várias parceiras sexuais etc... 
Note que ele cita que há um máximo de 50% de dominância de comportamento social no ser humano, sendo o restante de origem biológica... Ele ignora fatores humanos existenciais como busca por sentido e a espiritualidade, mas vamos considerar que ele só quis estudar uma pequena faixa do comportamento humano - assim é importante questionar qual é a finalidade deste estudo "comportamental" que submete o ser humano ao domínio das áreas da biologia? Primeiro vale notar que ele submete a psicologia às áreas biológicas, sejam a genética, a neurologia e/ ou a psiquiatria. Estas áreas já têm prestígio o suficiente na academia então qual é a serventia dessa "explanação"? Em segundo lugar, quais evidências mensuráveis este "cientista" do comportamento tem de que o homem lutou por várias parceiras sexuais ao longo da história? Não existiram sociedades matriarcais na Terra? Ele só fez uma comparação superficial do homem com outros mamíferos e não citou quais são estas espécies nem quais são as semelhanças ou diferenças entre elas e o ser humano! Ele não citou em que época esse comportamento masculino ocorreu certamente porque deduziu que ocorreu na "pré história", mas em qual período dos cerca de 200.000 anos de homo sapiens isto ocorreu? Quantos e quais agrupamentos humanos tiveram uma dominância de homens poligâmicos? Ou ele quis dizer, que líderes machos da maioria das sociedades, sejam elas tribais ou urbanas, tinham múltiplas parceiras sexuais sem existir o caso contrário (de líderes mulheres) ao longo de todos os 200.000 anos do homo sapiens?? Que estudo biológico prova definitivamente que o desejo sexual é mais incontrolável no homem do que na mulher? Oras, se foi analisado o comportamento externalizado de uma grande amostragem de homens (o que eu duvido), o estudo em si foi mais social do que biológico. Sendo comportamento externo/ observável, o estudo deveria levar em conta a criação familiar de cada homem, seus valores, se tais homens tentaram ou não se autocontrolar, quais influências sociais que eles recebem - de amigos, de parentes ou de mídias etc. 
Tendo em vista todas essas informações ignoradas pelo "cientista" do comportamento, nota-se que há pouquíssima mensurabilidade em suas deduções. Um "estudo" que reduz ou ignora a vasta gama de fatores sociais, psíquicos e existenciais, é mera opinião de viés simplista que reduz o ser humano ao seu aspecto biológico!
Em terceiro lugar, há uma finalidade coerente com a ética neste "estudo científico" de baixa mensurabilidade e apoiado em lacunas da história pré escrita, sobre comportamento humano? É um estudo que visa o bem do ser humano a nível coletivo, respeitando a diversidade de culturas e cosmovisões? Levou em consideração a vasta e complexa rede de fatores historicamente psicossociais?
Não é o que parece!
Vivemos numa sociedade ainda permeada por injustiça, indiferença e desigualdade - para que um profissional da "saúde mental" discursa publicamente sobre uma teoria de viés biologista?? Normalizando, ou correndo o risco de normalizar comportamentos como a promiscuidade masculina, que geram conflitos em relações humanas (sejam sociais ou familiares) e que frequentemente também geram sofrimento psicoemocional. 
Por fim, este texto pode parecer um desabafo (e é isso também), mas é um questionamento empático sobre os rumos do ser humano e um questionamento ético e epistemológico sobre as áreas que estudam a saúde mental e o comportamento humano. 
Espero que estes questionamentos sejam úteis ou benéficos... embora eu não espere nenhum alcance significativo com este texto. 

 

Aspectos psíquicos da saúde mental e sua relação com a Filosofia

Decidi escrever este texto após passar por uma série de experiências particulares das quais mencionei um pouco em algumas postagens anteriores, mas não só por causa disto: Escrevo porque vejo uma forte influência das áreas médicas como psiquiatria e neurologia sobrepondo e suprimindo aspectos filosóficos, existenciais e psíquicos do ser humano na psicologia. 
 Pode-se dizer que neste ano de 2025, vivemos um momento de crise social, psicológica e ética, ou talvez, um período de crise que se arrasta há vários anos, mas só foi recentemente escancarada: aumento da utilização da internet e de mídias "sociais" para produção e/ ou consumo de conteúdo de violência ou mentiras, protestos por variados países (revoluções coloridas, "black lives matter", revoltas mapuches, sociais/ trabalhistas etc), crise de saúde mental com aumento de consumo de opioides, alta de suicídios, afastamento em massa do ambiente de trabalho, precarização da mão de obra, entre tantos outros problemas. É difícil separar de maneira definitiva os problemas sociais dos econômicos, dos éticos e dos psicológicos e isso ocorre por um fato que me parece ainda muito ignorado: tudo o que é estudado pelas "ciências humanas" é inseparável da filosofia.
 Filosofia? Para que serve isso? Para explicar sobre filosofia em si, é bom lembrarmos dos seus "períodos de destaque" na história do ocidente: 

Não é muito claro quando a filosofia começa a surgir no ocidente, mas temos algumas evidências históricas das obras de filósofos naturalistas gregos que viveram entre os séculos 7 a.C. e 6 a.C., também chamados de "pré socráticos"; Tais filósofos levantavam uma série de questionamentos num momento de crescimento das cidades gregas, porém nem tudo eram "flores": havia insatisfação popular, revoltas, guerras e muita ganância. Entre esse progresso e essa turbulência, no século 5 a.C. surgiu um filósofo que trouxe a ética para o centro das discussões e da construção de conhecimento: Seu nome era Sócrates e, pelo fato de não ter deixado obra escrita, há quem duvide de sua existência. Porém é certo que seu principal pupilo existiu pois ele deixou o primeiro corpo de obras coeso na história do ocidente: Platão de certa forma é o fundador do que se chama de filosofia ocidental hoje em dia; Ele não só registrou os ensinamentos de seu mestre ateniense Sócrates, como bebeu de outras fontes como do filósofo greco-persa Anaxágoras, do greco "itálico" Parmênides, dos pitagóricos, cujo o suposto Pitágoras teria estudado outras culturas (egípcia, babilônica etc) e talvez de mais alguns outros filósofos. Platão propôs uma construção de conhecimento alicerçada na presunção da ignorância antes de se iniciar qualquer investigação ou estudo. Seu método se dava pelo diálogo que aliado a tal presunção, mostrava-se equitativo e respeitoso, porém crítico em um sentido construtivo. Sua finalidade era a melhoria de todas as coisas, principalmente daquelas que ele considerava que eram (verdadeiras, ou mais importantes): o cognoscível, a psiquê e portanto, as virtudes ou excelências como a justiça, a bondade, a coragem, a moderação etc. As gerações posteriores a Platão tiveram dificuldades e/ ou discordâncias em relação a alguns de seus ensinamentos e assim sua obra foi pouco colocada em prática apesar de preservada. 

Com a ascensão de Roma sobre os gregos entre os séculos 3 e 1 a.C. a filosofia grega (não só a platônica) começa a sofrer altos e baixos devido a oscilação entre aceitação e perseguição por parte dos imperadores romanos. Entre os séculos 1 e 2 d.C. surge o "médio platonismo" em diálogo com outros sistemas filosóficos e espirituais como o cristianismo e pouco tempo depois, os imperadores romanos adotam o cristianismo como religião de estado no final do séc 4 d.C. O platonismo juntamente com outras filosofias e religiões acaba praticamente "varrido" do ocidente com a formação e ascensão da igreja católica na Europa por volta do século 5 d.C. e o "continente" entra na "Era das Trevas". 

A filosofia praticamente só ressurge na Europa no fim do século 11 com a construção das universidades católicas talvez em reação ao contato com a cultura árabe que possuía madraças onde se estudava tanto filosofia como religião. Porém os europeus medievais deram ênfase nos estudos das obras de Aristóteles, e os conteúdos de Platão permaneceram timidamente esparsos e adaptados a uma teologia católica introduzida por (Santo) Augustine no início da era das trevas. 

Com as crises da igreja católica, causadas principalmente pelas contradições (múltiplos papas, afastamento dos ensinamentos éticos cristãos...) e vícios (excesso de luxo, poder, crimes etc) de seus líderes, as críticas vieram de duas frentes: de católicos dissidentes como os cátaros, Wycliffe, os lollards, Jan Hus, os hussitas (entre outros) e de camponeses e trabalhadores insatisfeitos com a pobreza e a opressão que sofriam. Porém essas revoltas e dissidências dos séculos 12, 13 e 14 foram predominantemente esmagadas por alianças entre a igreja e aristocratas ou burgueses e este foi o "início do fim" da era medieval: após a igreja católica romana (do ocidente) ter aparentemente superado seus opositores e questionadores, a igreja católica ortodoxa (do oriente) busca a ajuda dos ocidentais. Os otomanos estavam tomando todo o decadente Império (Romano) Bizantino que era a principal sede da igreja católica ortodoxa e os concílios (reuniões negociando a união) entre as igrejas do ocidente e do oriente foram feitos, mas fracassaram. 

Apesar do fracasso, os concílios também serviram para que filósofos bizantinos (Manuel Crisoloras e Gemisto Plethon, por exemplo) que guardavam grande conhecimento da filosofia grega, passassem a ensinar tais obras nos ducados/ estados da península itálica na primeira metade do século 15 - Possivelmente esse processo de divulgação foi facilitado pela "invenção" dos tipos móveis (a imprensa fundada entre 1440 e 1450) de Gutemberg. Além disto, tratados de paz foram feitos entre os estados itálicos por volta de 1454 e 1494, certamente também por temor à ameaça otomana, e esse ambiente deve ter consolidado ou assegurado o florescer dos movimentos intelectuais: Os estudos da filosofia grega estavam sendo retomados na Europa; principalmente das obras de Platão, Zenão, Epicuro e de autores do médio platonismo. Os estudos destas obras filosóficas serviram para combater argumentos obsoletos e falaciosos da igreja católica ainda muito poderosa apesar de dividida em duas. Em paralelo a isso, o judaísmo místico passa a ser abertamente estudado por alguns destes filósofos, dando origem a um sincretismo religioso certamente afrontoso ao poder da igreja - este florescer de novas ideias sobre o ser humano, sua história e sua espiritualidade e de novos questionamentos sobre (falta d)a ética e sobre a epistemologia dominante na Europa parece ser o início do movimento conhecido como humanismo. Nos estados itálicos vários humanistas, alguns ocupando cargos na burocracia ligada à própria igreja católica, outros financiados por políticos e banqueiros da região, se tornaram conhecidos por divulgar as obras clássicas da filosofia platônica, aristotélica, estoica, epicurista e do médio platonismo: Leonardo Bruni, Poggio Bracciolini, Ambrogio Traversari, Nicolau de Cusa, Lorenzo Valla, Marsílio Ficino e Giovani Pico foram alguns deles e seus questionamentos abriram espaço para outros posteriores, que viriam a reformar ou separar a igreja, criando o protestantismo. 
Deste ponto em diante certamente a filosofia despertou o interesse de alguns burgueses, mesmo porque dissidentes da igreja naturalmente procurariam aliados fora do clero: seja nas aristocracias ou nas burguesias e isso parece estar de acordo com a gradual substituição da economia feudal, pela mercantil. Também nesta mesma época, navegadores itálicos como o genovês Cristóvão Colombo (1451-1506), o florentino Américo Vespucci (1451-1512) e o veneziano Giovanni Caboto (1460-1498), iniciam a exploração naval pelo globo à serviço da Espanha, de Portugal e da Inglaterra (seja pelo interesse pelas especiarias da "Índia" ou devido à divulgação de obras clássicas como as de Eratóstenes e Crates de Mallus) e a arte surge como uma área de estudo rigorosa aliada à matemática, perceptível nas obras de artistas como Da Vinci e Rafael, que mostravam alto refinamento do uso da perspectiva e da volumetria (luz e sombra) marcando um interesse humano pela tridimensionalidade e pelo espaço. Infelizmente o interesse pelo "espaço" e seus respectivos recursos naturais juntamente com as navegações, serviram a ganância tanto das classes aristocráticas (reis etc) como das classes mercantis (burgueses) e acabaram resultando em diversas violências contra nativos da América e da África. 
Nos anos seguintes, a filosofia foi ganhando espaço na Europa com altos e baixos: Copérnico, Kepler e Galileu estiveram entre os famosos filósofos renascentistas devido ao seu estudo da natureza e hoje são considerados precursores da ciência moderna; Alguns destes filósofos (e outros como Giordano Bruno) estudavam não só o espaço e suas leis naturais, mas também a psiquê humana, a ética e a espiritualidade. Porém nesta época praticamente não havia psicologia e a única espiritualidade disponível em maior parte da Europa fora das igrejas era o neoplatonismo e o misticismo judaico - esse sincretismo mencionado anteriormente deve ter dado origem ao movimento Rosacruz que atingiu seu ápice entre 1614 e 1617. 

 Porém é com René Descartes no século 17 que um tema parece dividir a filosofia: como se dá a relação entre psiquê (mente ou alma) e corpo? A reação às obras de Descartes foi diversa, mas a visão empirista foi se tornando dominante principalmente a partir da Inglaterra; Essa preferência pela filosofia natural, ou seja, o estudo da natureza e do espaço estava crescendo entre britânicos enquanto o movimento Rosacruz que tinha alguns (ou muitos) intelectuais declinava. Talvez este declínio tenha relação com os seguintes fatos: Apesar do florescer da filosofia, a renascença foi o maior período de inquisições e caça às bruxas: durante o século 16 na península ibérica, os monarcas e a igreja romana perseguiram os judeus (aproximadamente no mesmo período em que o misticismo judaico foi "aberto"), enquanto no século 17 no Império Germânico, na Grã Bretanha e até na Escandinávia, vários grupos e famílias de camponeses, principalmente mulheres foram injustamente julgadas e executadas. Embora a maioria destas execuções tenham sido ordenadas por sacerdotes da igreja que se debatia para manter o poder ne Europa, na Grã Bretanha, as mais famosas das matanças foram lideradas por aristocratas: o rei James "VI e I" que chegou a escrever uma obra como "lidar com demônios" e o "Witchfinder General" auto intitulado membro do parlamento inglês (há controvérsias sobre isso) que escreveu obras alegando "como identificar bruxas". 

O movimento intelectual que começa a surgir a partir deste momento pode ser entendido como uma versão menos mística do rosacrucianismo e voltada a um aspecto humano mais racional-naturalista do que espiritual: O iluminismo passa a ser fomentado entre as "elites intelectuais" da Europa criticando a religião de modo geral e "cutucando em algum nível" o poder das aristocracias... Enfim, a filosofia natural que começou a crescer neste período passou a priorizar a experiência sensorial (empírica) ante a investigação mais racional (cognitiva, reflexiva) de Descartes, iniciando um lento processo de divisão da filosofia que viria a se consolidar por volta da primeira metade do século 19 com o surgimento do positivismo e a criação da palavra "cientista"; Sobre a história da relação "mente-corpo" eu já abordei em outros textos: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/11/filosofia-teoria-mente-corpo-e-o.html 

Essa filosofia natural centrada na investigação empírica surge na mesma região (Inglaterra) e época do liberalismo (transição do século 17 ao 18). Aqui não estou dizendo que estava tudo conectado, mas sim indicando as típicas correntes de pensamento dos intelectuais europeus "iluministas", principalmente dos britânicos/ ingleses, mas também marcadamente dos franceses que cunharam o termo "laissez faire" ("deixe ser", denotando um mercantilismo desregulado). Este também é o período inicial do "racismo científico" (vide algumas ideias de Petty sobre os africanos subsaarianos e de Linaeus sobre as "raças" humanas) e o período de intensificação da escravização: Com o banimento dos jesuítas pelas coroas da Espanha e de Portugal, houve uma substituição massiva de mão de obra indígena por negros escravizados levados para a América. Longe de suas nações, os negros tinham mais dificuldades de se comunicarem entre si e de organizarem revoltas contra seus escravizadores e isso aumentou a produtividade não de modo incidental como alguns contam por aí... Esta escolha feita pelo governo português por exemplo, aumentou os lucros da produção de arroz e de algodão na colônia do Grão Pará e Maranhão em cerca de 3000 a 4000%. Isso certamente é um indicador que os negros eram mais forçados e/ ou violentamente pressionados do que os indígenas catequizados pelos jesuítas no trabalho do cultivo de tais produtos. 

Mas qual a relação entre a as mudanças na filosofia seguida pela expansão da filosofia natural e as políticas comerciais europeias? Numa análise fria e reducionista elas não devem ter relação entre si, mas considerando quem determina como se constrói conhecimento, quem determina o que é verdade e quem tem direito ao estudo e à liberdade, é possível ver que a ideologia dominante nas elites europeias era de superioridade de seu próprio povo ante nativos da América e África - Uma superioridade racial, intelectual e de direitos não só comerciais, mas de propriedade sobre terras, bens e até sobre outros humanos! Embora houvessem alguns progressos sociais/ políticos ocorrendo na Europa, como o lento surgimento de ideias democráticas, as mudanças mencionadas anteriormente (expansão da filosofia natural e da economia liberal laissez faire) "coincidem" com a intensificação do mercantilismo: já não bastava só explorar a terra utilizando mão de obra escravizada: O escravo tinha que ser alguém não reconhecido como humano - algo biológico, mas sem alma, sem chances de lutar e sem direito de expressar sua cultura, sem direito de viver a cosmovisão de sua sociedade ou de se integrar à sociedade eurocêntrica. Claro, que isso não se deve só à elite intelectual e econômica europeia do século 18, mas também à posição das igrejas que permitiam a escravização dos negros negando-lhes até a opção de se converterem ao cristianismo. 

Analisando este período da história, peço para que o leitor note como o "desenvolvimento" da filosofia europeia moderna priorizando tecnicidades e biologismo e se afastando de questões psíquicas, morais e éticas (ciência) não fazia um enfrentamento real ao que havia de mais desumano nas igrejas: suas contradições em relação aos ensinamentos de amor ao próximo (do fundador do "cristianismo") e o poderio religioso discriminatório e opressor. Quando surgem o positivismo e o termo cientista então, mencionados anteriormente, o racismo científico já estava enraizado na epistemologia europeia: De pré suposição materialista niilista (o homem era um corpo sem alma) a ciência racista da Europa do século 19 desembocou em absurdos como as ideias de cranoscopia, drapetomania e darwinismo social! Essas ideias absurdas da ciência eu expliquei no texto https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/12/filosofia-teoria-mente-corpo-e-o.html
Assim os pressupostos da ciência, que não passam de mera visão de mundo, não garantiram a ética nas relações humanas, pelo contrário, se escondendo atrás de uma suposta "neutralidade", foram até coniventes com as atrocidades mencionadas e também explicadas mais sucintamente neste outro texto:  

Voltemos ao nosso século 21 então: porque a psicologia está sendo engolida pelas áreas médicas? 
Primeiramente é digno de nota, que para isso ocorrer é preciso alguma aceitação dentro da própria psicologia seja como área profissional ou como área acadêmica/ de estudos e construção de conhecimento. E porque existe tal aceitação? Por uma série de motivos não muito difíceis de entender, pois são todos perceptíveis para quem é da psicologia: Tomarei como exemplo minha vivência na área, já que dificilmente conseguiria emplacar um trabalho de pesquisa sobre tal tema logo no bacharelado; Durante o curso eu acompanhei opiniões de psicólogos nas redes sociais e notei que um possível motivo para que alguns estudiosos e profissionais da área buscassem maior rigor referente à prática da profissão, era a existência e propagação de terapias alternativas (algumas de eficácia dúbia) e a desregulação e permissividade do Conselho de Psicologia em relação a quem pode oferecer psicoterapia no Brasil. Além disto, quando comecei o curso de psicologia, logo no primeiro semestre, eu e os demais noventa e poucos colegas de turma (e possivelmente várias ou todas outras turmas de psicologia da faculdade em questão) fomos ensinados que ciência é o campo de estudo que se baseia no rigor metodológico, que busca compreender e explicar os fenômenos da natureza observável... Esse rigor supostamente é investigar o perceptível sensorialmente e conseguir reproduzir o fenômeno estudado, ou seja, o rigor é o método empírico - O que contradiz a psicoterapia ao menos em parte já que o paciente pode eventualmente omitir informações sobre si mesmo e o psicoterapeuta, ao se utilizar do diálogo, trabalha mais com a racionalização e com reflexões do que com reprodutibilidade. Talvez a reprodutibilidade possa ser alcançada parcialmente em estudos coletivos de pacientes, mas é praticamente impossível de ser alcançada em casos psicológicos individualmente e essa contradição não foi explicada em aula alguma! 
Também mostra-se importante questionar: que professores passaram tal conteúdo e/ ou reafirmaram tais regras para se construir conhecimento? Na faculdade onde estudei, recebemos esse conteúdo sobre o que é ciência e quais são seus pressupostos e métodos, via um professor de direito (não sei porque ele deu aula sobre tal tema no curso de psicologia) e também de dois professores da psicologia comportamentalista (behaviorista). Faz sentido que os behavioristas reproduzam esse discurso, pois era o que um ou mais fundadores desta abordagem da psicologia defendia. Porém há 2 problemas em propagar tal informação como uma verdade absoluta que serve para toda a psicologia: O primeiro é reduzir toda a área a essa visão de mundo de que é possível estudar o ser humano e sua psiquê (memórias, valores individuais, sentimentos, pensamentos etc) se pautando com ênfase no método empírico, pois isto exclui todas as abordagens fenomenológicas e a psicologia analítica que parte de uma base psicanalítica; O segundo problema de impor tal visão de ser humano e de construção de conhecimento é que isso se configura como um biologismo: Anuncia a certeza de que o ser humano é meramente biológico (sem provas definitivas) e com isso automaticamente dá poder à narrativa dominante nas áreas médicas, tais como a neurologia e a psiquiatria. Note que elevar esse pressuposto biologista que é um paradigma materialista como se fosse uma verdade absoluta na psicologia, não se trata de um diálogo verdadeiramente interdisciplinar entre a área em questão e a medicina, muito menos, se trata de uma abertura ao estudo transdisciplinar. Se trata de elevar a medicina e a biologia como áreas superiores à psicologia, reduzindo esta última praticamente à condição de uma sub área da medicina!

Com a alegação que a ciência é só o estudo do observável e do reproduzível, cria-se um impasse ou uma exclusão, isto porque a psicoterapia é centrada no diálogo com o paciente e os relatos deste são a base da construção de conhecimento sobre o tratamento psicoterapêutico! O verdadeiro estudo interdisciplinar deve considerar os aspectos psíquicos, sociais, biológicos até os existenciais e espirituais do ser humano. Considerar não é dar um sorriso diante o paciente e depois tratar tais aspectos como banalidades, mentiras ou até mesmo como meros processos psicopatológicos. O estudo interdisciplinar da psicologia deve considerar os aspectos existenciais e espirituais como possibilidade destes últimos serem tão reais quanto os aspectos biopsicossociais! Não se trata de ser religioso nem de admitir teorias religiosas na psicologia, na psiquiatria nem na neurologia; se trata de não impor visões de mundo sobre o paciente e seus relatos, quando estes envolvem os temas em questão! 
A mescla irresponsável de teorias religiosas, místicas e afins deve ser devidamente combatida, com análise e possível refutação pautada pela ética como finalidade e não meramente pautada por uma pré suposição/ paradigma ou pelo mero método de investigação e de construção de conhecimento. 

A ética pressupõe valores universais, ou seja, que fazem bem à toda a humanidade a nível coletivo, mas ainda é praticamente uma "área" de estudo da filosofia e eu nem tentaria impor que seja diferente disto; Afinal a ciência "mainstream", ou seja, a maioria dos cientistas e "acadêmicos" se apoiam no pressuposto "filosófico" materialista e consequentemente niilista, o que automaticamente classifica a ética como uma ideia impalpável ou até mesmo relativa. Até aí "tudo bem", se as demais áreas da ciência (física, biologia, química etc) não realiza estudos interseccionados com a filosofia; porém assumir tal postura na psicologia é contradizer a história da própria área.  
Se as demais áreas da ciência se posicionarem como estudos estritamente materialistas, será preciso questionar: A ciência abandonou a ética? Afinal o argumento de que há neutralidade na ciência é obsoleto e análises históricas já mostram que essa ideia é falsa. 
Ou a ciência aceita autoridade da filosofia para que se paute pela ética? Não parece haver um consenso do que exatamente é ciência hoje, mas imagino que a maioria dos cientistas não aceitariam a autoridade da filosofia, mesmo que esta se prove aberta ao diálogo transdisciplinar e com uma finalidade ética. 
Se for feita a primeira escolha então (a de abandonar a ética), não é de se espantar: já citei as atrocidades da física, da química e da medicina (principalmente psiquiatria) ao longo da história em outros textos e tal escolha só provaria que a ciência não colabora com o desenvolvimento de uma humanidade mais ética, justa e equitativa. 
Porém a psicologia deve permanecer inseparável da filosofia e isso não é defender só as abordagens fenomenológicas da área: é defender sua coerência proposta desde Wilhelm Wundt no século 19.
Não é preciso estabelecer o pressuposto filosófico de Wundt como um paradigma da psicologia, mas é urgente manter o aspecto filosófico de nossa área - ele serve para preservarmos um diálogo verdadeiramente equitativo não só com os pacientes mas também com os tratamentos integrativos e com os estudos multidisciplinares. Psicologia é ciência, mas também é filosofia! E todas as ciências humanas deveriam ser assim. Só assim manteremos uma epistemologia ética e inclusiva que não exclua cosmovisões!

Para a análise histórica deste texto me baseei nas obras The Ever Present Origin de Jean Gebser, nas leituras históricas de Francis Yates envolvendo o platonismo e o rosacrucianismo, no conteúdo de história geral que tive no ensino médio que coincidiu parcialmente sobre a história da psicologia que vi no bacharelado em psicologia da Universidade São Judas no ano de 2019... e por fim em textos da Wikipedia, aos quais prefiro em inglês que geralmente têm mais citações de fontes do que as páginas em português, porém talvez eu cite o "apud" posteriormente. 
As considerações sobre a psicologia são essencialmente minhas impressões parcialmente apoiadas na obra de Platão e de Wundt (traduzida por Saulo de Araújo) - elas visam uma construção de conhecimento com a inclusão de cosmovisões indígenas, afrodescendentes e possivelmente outras que tenham similaridades com estas.

O fundamentalismo religioso e o cientificismo: Alternância de fanatismo?

O Brasil foi "fundado" por um povo resumidamente católico: os portugueses no século 16, porém outras religiões ou espiritualidades já existiam aqui, afinal o território que hoje chamamos de Brasil, era ocupado por cerca de 900 povos diferentes entre si, com um total aproximado de 1.000 idiomas; Essas religiões/ espiritualidade foram oprimidas pelos colonizadores portugueses, sejam com a catequização feita por jesuítas, ou por meios mais toscos e brutais como ataques dos sertanistas paulistas (bandeirantes) etc. Com o aumento do tráfico de escravizados da África, outras religiões surgiram no Brasil, mas foram alvo de perseguições de modo não muito diferente dos indígenas... Em suma, até o século 20 a religião dominante do Brasil foi a mesma de Portugal: a católica apostólica romana. Esta é uma visão geral da história da religião no Brasil; existem uma série de pormenores dos quais não devo abordar em um único texto, pois não quero escrever uma tese de mestrado aqui, nem um livro. 

O assunto que está me chamando atenção no momento é o retorno do cientificismo, mas o que ele tem a ver com religião? Bom, ele é, ao menos aparentemente, uma resposta compreensível para o fundamentalismo típico de religiões que se tornaram ferramenta de poder há muito tempo. Obviamente, as religiões ou espiritualidade de minorias ou de massas sem poder algum, dificilmente podem se tornar ferramenta de poder, então é compreensível que o cientificismo seja uma resposta às influências do catolicismo ou do protestantismo na sociedade (embora existam cientificistas que ataquem outras religiões também). Mas o que é cientificismo? Eu gostaria que a maioria das pessoas já soubessem o que é isso neste início de século 21, mas acho que devo apresentar um breve resumo: Cientificismo é o movimento de cientistas, "acadêmicos" ou admiradores da ciência, que prega que a ciência é o único meio de se construir conhecimento, ou o meio mais confiável e portanto, superior a todos outros. E ele pode parecer natural para qualquer um que goste de estudar ou procura entender o mundo, o universo etc, porém o problema é que o cientificismo geralmente prega a visão dominante de ciência como dogma e seus difusores raramente reconhecem ou assumem que estão propagando esta idéia enviesada. O cientificismo ao pregar a superioridade da ciência, geralmente despreza ou nega os elementos das religiões, tais como espírito, fenômenos não explicados pelo empirismo, divindade, universalidade do bem e elementos da filosofia, como a presunção da ignorância/ suspensão de pressupostos, o diálogo, chegando às vezes a ignorar ou deturpar até mesmo a ética. O cientificismo geralmente se apoia em uma visão de mundo / pressuposto materialista que tende a convergir com o niilismo (o argumento de que não há nada além da "matéria" perceptível/ mensurável) e alguns exemplos de cientificismo na história também se apoiaram no biologismo. Por este último motivo ele deve ser comum entre estudiosos de áreas como medicina e biologia, mas também pode ocorrer em qualquer área da ciência. 

Enfim, já expliquei sobre os perigos de tais movimentos em vários textos, então vamos à sua relação com o fundamentalismo religioso: O fundamentalismo religioso surge em religiões que são ferramentas de poder, ou seja, são autoritárias de um modo velado, ou de modo notório; São doutrinas dogmáticas, ou seja, cheias de certezas e leis inquestionáveis de um suposto Deus todo poderoso. Estas religiões não necessariamente concordam entre si de modo unânime sobre Deus: O Deus da Igreja Universal por exemplo, como explicado em seus programas de rádio (que escuto quase diariamente à contra gosto), está sempre prometendo "unções" aos seus fiéis. Esta unção seria uma suposta proteção e "selo de aprovação" de que você faz parte da igreja deles caso participe de seus eventos, sejam cultos ou qualquer outra coisa que eu desconheço. Proteção contra o quê? Não tenho certeza, porque não acompanho mais do que os repetitivos programas de rádio que frequentemente convocam seus fiéis para unções e apresentam "milagres" operados por seus pastores. Estes milagres são supostas soluções de problemas familiares, dificuldades profissionais ou financeiras etc (nada de novo, pois muitos pastores espalham tais discursos desde meados do século passado). 
Outras religiões protestantes estão mais empenhadas em propagar o fim do mundo e citam com elevada frequência "o demônio", "satanás", enfim, o opositor de Deus... Praticamente um dualismo ao invés de um monoteísmo, pois o capiroto para estes, parece tão poderoso quanto Deus (a última vez que vi esses, foi quando retirei meu "ex" carro de uma oficina em 2023 e me deram um livretinho desta religião). Mas porquê falam tanto do fim do mundo e do rival de Deus? Esse não é um discurso novo, mas não sei dizer exatamente quando surgiu. Imagino que tal doutrina seja uma ferramenta de poder sim, para deixar os fiéis com medo constantemente, pois isso combina com o velho discurso de que "se você não seguir nossas regras rigorosamente, o diabo vai te pegar" e com a acusação que todas outras religiões estão em erro ou são "obras do inimigo". Assim como teologias da prosperidade e do domínio, essas doutrinas religiosas têm uma finalidade: manter o poder de um pequeno grupo de líderes religiosos - seja através do enriquecimento e acúmulo do dinheiro, ou através da criação do discurso "nós e eles" evidente na idéia de "unção" dos fiéis.

Eu poderia buscar discursos manipuladores de outras religiões, mas já deu pra sacar o porque surgiu uma reação à tanto absurdo e além do mais o catolicismo pela 1ª vez na história do Brasil está sendo ultrapassado pelo protestantismo ("evangelismo") de acordo com fontes atuais das quais não anotei e não as citarei por enquanto. (embora o fenômeno seja aparente...) As igrejas evangélicas dos pastores mais enriquecidos detém um poder enorme: influenciam não só a política e as mídias, como já têm muita força na economia e até em setores de segurança do país, como a PM paulista, por exemplo (policias que deveriam servir o estado e à sociedade, fazem a segurança de templos evangélicos, assistem cultos e palestras de pastores em expediente etc). Então é natural que uma classe de estudantes, cientistas, intelectuais reajam a este movimento conservador e/ ou obscurantista crescente: Isto não é novidade, apesar do Brasil ter suas particularidades; O cientificismo já existia por exemplo no século 19 e teve seu apogeu com o positivismo, movimento que durou praticamente até as duas ou três primeiras décadas do século 20! Embora no século 19 as igrejas fossem mais poderosas devido a uma possível falta de instrução das pessoas, o que gerou os maiores conflitos do mundo, pouco tem a ver com religiões, pois foram as crises do liberalismo, um sistema econômico e "social" charlatão (que causa prejuízo às massas beneficiando uma minoria), aliadas a um saber completamente apartado da ética: A ciência que gerou armas químicas na primeira guerra mundial e armas de destruição em massa na segunda! Essa ciência antiética era positivista, biologista, racista e materialista-niilista! Poucos foram os cientistas (Einstein, entre eles) que criticaram a pesquisa para fabricação de armas! Armas existem com um só objetivo e não é o de proteção: é o de matar! 

Após as duas guerras mundiais, a ideia de modernidade começou a ruir: Tal ideia de base iluminista, pregava que o homem tinha alcançado seu ápice com a filosofia natural que passou gradativamente a ser chamada de ciência com a invenção da palavra cientista, mais ou menos na mesma época do positivismo (primeira metade do séc 19); Apesar do abalo, as classes dominantes ainda tentavam suas cartadas: com o advento dos meios de comunicação em massa, os protestantes/ evangélicos passam a utilizar cada vez mais a televisão para promover suas igrejas e o cientificismo ganha um novo fôlego com as descobertas na área de genética (biologia) - seguindo esse movimento, o comportamentalismo ganhou força nos EUA, indicando uma aproximação da psicologia com a medicina/ biologia. 

Porém, nos anos 60, são realizados uma série de movimentos e reivindicações populares que marcam o que alguns estudiosos chamam de pós modernidade: o racionalismo frio e niilista por trás das duas guerras mundiais era combatido com o movimento "paz e amor", lutas anti-racistas, feminismo, movimento pela liberação do uso de psicoativos, sincretismo religioso entre ocidente e oriente (new age) entre outras manifestações. Apesar de tantas manifestações, muitas reinvindicações foram ignoradas ou suprimidas, enquanto outras foram ganhando espaço lentamente. As igrejas protestantes/ evangélicas agora dominadas pelo movimento neopentecostal não perderam poder algum com o passar dos anos - pelo contrário passaram a crescer no Brasil e em outros países. E aqui começo minha crítica à inutilidade do cientificismo: O que ele fomentou? Uma construção de conhecimento ética? Não; porque como vimos, na guerra fria, a química e a física foram capitaneadas pela criação de armas; A psiquiatria (medicina) continuava repleta de atrocidades desde a escravização existente no séc 19 até mais da metade da Guerra Fria no séc 20... O que o cientificismo combateu então? O abuso de autoridade de pastores e padres? Suas violências, seus interesses em enriquecer às custas das massas? Também não!

Desde por volta de 2019 estive vendo o crescimento (ou retorno) do movimento cientificista no Brasil e este, seja uma resposta ao fundamentalismo religioso ou não, é um movimento que prega a velha visão de uma elite européia decadente e arrogante - uma visão que propaga indiferença e egoísmo, tanto é assim que atualmente ela já ganha uma força apartada de movimentos pró sociedade, e de movimentos contra preconceito e a favor de oprimidos. Aqui vejo alguns perigos: como psicólogo de formação, o espalhamento da visão biologista na psicologia ataca abordagens humanistas e existenciais, seja diretamente ou indiretamente. O cientificismo, priorizando o método de investigação, acaba deixando em segundo plano a finalidade dos estudos ou da profissão, correndo o risco de até mesmo separar a construção de conhecimento da ética, uma vez que esta não é da área de estudos da ciência; Cheguei a ouvir um professor falar isso abertamente numa palestra: que a psicologia (comportamental) como ciência não se ocupa (e não deve se ocupar) da ética. Minutos depois ele citou a importância da finalidade social da psicologia... Então me perguntei: "Ué, finalidade social não é ética? Existe um fim social "neutro" ou antiético?" Pois bem, então se isso não for cientificismo, é porque a ciência mais aceita na academia se propõe a ser "neutra", permitindo o retorno das atrocidades mencionadas anteriormente e de outras também. Todas atrocidades na história da ciência mostram que nunca houve neutralidade na construção de conhecimento nem em qualquer outra área da civilização humana. 
O "cientista" que prioriza o método acima de tudo, esquece ou ignora a finalidade da construção de conhecimento que deveria ser ética! Ele se ocupa de discursos de finalidade dúbia como (exemplos simplificados): "Deus é uma invenção"; "Profeta x ou y não existiu", entre muitas insinuações de que a questão da relação entre mente e corpo está resolvida, alma não existe, espíritos não existem, campos eletromagnéticos dos orgãos humanos são só efeitos colaterais ou residuais (como se não tivessem causa nem finalidade), psicologia de verdade é só comportamental, fora tantas outras banalidades que miram em práticas culturais, religiosas etc.

E o que é a ética da qual os cientificistas se afastam, tanto voluntariamente como involuntariamente? 
Com certeza não é o que fundamentalistas religiosos falam, nem o que neoliberais amantes do dinheiro acham... Um dos maiores estudos sobre ética foi feito no período inicial da filosofia ocidental: Platão trata dela em grande parte de suas obras: para o autor, a construção de conhecimento verdadeiro não pode ser apartada de valores imutáveis e unos - apesar da linguagem talvez esquisita de sua época e local, é notório que o autor prioriza o conhecimento que busca o bem de todos (universal), do coletivo, ou do maior número de pessoas possível. Tudo isso através do diálogo alicerçado na presunção da ignorância - esta postura que a fenomenologia traz de volta à construção de conhecimento na virada do séc 19 ao 20, sob o nome de ausência (ou suspensão) de pressupostos - afinal pressuposição em prática, é preconceito. O fundador da filosofia ocidental então dialogava criticamente, mas não destrutivamente com cosmovisões (em Sofista e Fédon), mitos populares (em Político e A República) e com práticas espirituais e experiências místicas (em Fedro e Ion). Platão condenava o interesse particular na construção de conhecimento (em Górgias, Apologia, A República, Fédon, Filebo entre outros textos) e na política, traçando uma relação entre a epistemologia e sua serventia pública, para o estado e a sociedade. Se a ciência deve se apartar de tudo isso... O que ela se tornou? Uma arena de intelectualistas? Clubes de ditadores de regras sobre o que é a verdade, sem buscar a melhoria da humanidade. Sem ética e sem função social? Ignorando o que há de humano... no ser humano?

 

 

Sobre lembranças, esquecimentos e o sono

Este é mais um texto envolvendo o que entendo por sentido de vida e espiritualidade e comecei a desenvolvê-lo a partir de questões como: Porque esquecer das coisas? O que esqueço e o que me lembro?

Muitas vezes lembro-me de coisas imprestáveis tais como velhos gostos musicais, jogos eletrônicos e eventos históricos fúteis de minha vida; Outras vezes lembro-me de coisas que parecem oscilar entre o descartável e o útil como conteúdos de história que estudei; alguns são construtivos, enquanto outros são muito pontuais e difíceis de se encaixar num contexto atual. Lembro também de algumas outras coisas que são mais importantes, como por exemplo, o amor e a educação que recebi em minha infância e determinados assuntos da psicologia...

Mas o que eu esqueço? Não deveria esquecer só o que é inútil, nocivo ou coisas assim? Bom... não é o que acontece. Esses dias me lembrei de pensamentos esdrúxulos que eu tinha no passado: variados entre si. 

Porquê? Não tenho certeza, mas espero que seja para aprender e me afastar completamente de tais coisas podres. A palavra "podre" aqui (que tem uma carga sentimental negativa, de aversão) se refere a gostos materialistas de coisas passageiras, coisas que podem viciar e coisas que envelhecem/ morrem/ apodrecem, e também se refere a preconceitos, sentimentos inúteis como os vingativos que eu tive por muitos anos etc.

Além de lembrar de tais coisas, frequentemente esqueci vários assuntos que se referem a mim mesmo; a minha melhoria como ser humano, para desenvolver paciência, tolerância, atenção em mim e nos outros etc. São "valores" que fazem sentido para mim...

Talvez outras pessoas também passem por isso, mas só posso falar com precisão sobre mim mesmo; minha mente se parece algo muito inoperante com certa frequência: lerda e traiçoeira com os próprios objetivos. Às vezes parece chegar a um ponto de contradição que me faz perguntar se sou eu mesmo que me afasto das coisas que almejei ou se sou arrastado por outros... mas que outros?

Passo por um período bastante solitário, então por a culpa nos outros não me parece convincente; E mesmo que tivesse interferência de outros, eu não seria capaz de resistir tamanhas imbecilidades?

Tentemos ressaltar alguns exemplos: Se ouço em um bar ou mercado, um homem pronunciar falas fascistóides (pró violência, repressão e militarismo) como se conhecesse do assunto de política externa dos EUA ou de Israel... Eu deveria ficar irritado? Qual é a relevância disso? E se há alguma relevância, como por exemplo, se tal homem convencesse o grupo de pessoas que frequenta o estabelecimento? Eu deveria ficar indignado? Acho que não, mas mesmo assim, eu fiquei...

Se conheço uma pessoa com um ou mais transtornos psicológicos e essa pessoa tem um comportamento rude que seria inesperado para um leigo, mas que não é para mim (psicólogo de formação)... Porque não me submeter à rudeza de tal pessoa que não põe minha saúde em risco algum? Porque retrucar de modo quase ou tão rude quanto? Eu deveria me submeter à rudeza que, no caso, era praticamente dar as costas à pessoa e ir embora.

Se um ou mais vizinhos (todos adultos) não possuem bom senso e durante o dia ouvem música que não gosto em um volume de estremecer as janelas do meu apto... Eu posso me incomodar e até tentar reclamar (preferencialmente no diálogo), mas preciso ofendê-los mentalmente? Há grande diferença em ofender mentalmente e fisicamente? Não, a diferença é pequena, porque sei que a mentalidade não é menos importante do que ações perceptíveis pelos sentidos humanos.

Pois bem, estive falhando em todas essas questões e decepcionando a mim mesmo. O que me falta? Força de vontade? Alguma atitude? Ambas as coisas? Só sei que permanecer em tal inércia psíquica e moral para mim é bem angustiante. 

Em algumas noites (não contei quantas, embora eu fiz um diário sobre meu sono e meus sonhos) eu tive experiências psíquicas bem intensas que parecem relacionadas a minha busca por sentido existencial... ao que tem valor para mim. E estas experiências as quais me refiro foram ruins, como tentarei explicar:

Numa noite dos meados de 2024 por exemplo, esforcei-me para manter-me consciente ao deitar-me... até quando conseguisse... e o resultado foi bem desagradável: Não parecia um mero sonho e sim minha essência ou eu mesmo deixando esta realidade corporal típica que percebemos sensorialmente. Tinha alguns aspectos de sonho como eu ter um "corpo" ao menos visivelmente, em aparência. Eu fui interagir com outros os quais nem me lembro porque uma coisa me chocou muito: Eu percebia meus próprios sentimentos e intenções com uma clareza que parecia mais nítida do que em vigília, e não gostei do que senti sobre mim mesmo! Não detalharei aqui por considerar um fato um tanto íntimo...

Mais ou menos na mesma época um sonho meu irrompe numa cena mais real do que minha atividade onírica dominante ou típica em maior parte de minha vida... Eu entrei em diálogo com uma colega de estudos e ela me falou de quantas vezes eu rejeitei ela... Aquilo martelou em minha cabeça como se fosse ela mesma falando comigo por algum meio telepático ou espiritual. Tal experiência trazia conteúdos que relacionavam-se com situações em que passei ao lado dela e que eu tinha dúvidas em meu estado de vigília. 

Por fim, numa experiência noturna mais recente, eu sonhei que acordei em meu quarto e olhei meus arredores. Eu não gostei nada do que eu vi e percebi que havia um culpado por aquela minha visão. Aí começou uma experiência que não era simplesmente um sonho: Eu "imaginei" o culpado em minha frente e ao imaginar, eu sabia que era mais do que uma imaginação. Eu invoquei o indivíduo, que tinha uma aparência praticamente irreconhecível porque ele apareceu sentado cabisbaixo em minha frente e utilizando um boné. Golpeei a face dele que parecia se deformar conforme meu punho violentamente a atingia e eis que ele reage saltando em minha direção e me enforcando. Eu acordei sentindo o ataque dele: nos primeiros centésimos ou décimos de segundos ao despertar parecia algo mais real como se eu acabasse de ser atingido. Me pergunto se a dor e o breve formigamento não teria relação com os campos eletromagnéticos de órgãos do meu corpo como os do cérebro ou do coração... Não terei a resposta tão cedo, já que a ciência dominada pelo biologismo despreza o estudo dos "campos em." do corpo humano. Nos segundos seguintes parecia mais aquela impressão psíquica mesmo... o susto passando e a dúvida surgindo.

Mas descrevi tais fenômenos não para buscar algo fantástico nem para meramente criticar o conhecimento humano até este ano de 2025, e sim para analisar a importância de meus sentimentos e  de meu sentido de vida...

Platão menciona a importância de orar antes da noite de sono, não por uma religiosidade cristã, mesmo porque o autor viveu na 'Grécia" 4 séculos antes de Jesus. O filósofo em sua obra "A República" indica que o anoitecer é um período onde podem surgir desejos ruins e recomenda a oração como algo auxiliar no combate a tais fenômenos. Certamente trata-se de orações racionais, não meramente mecânicas/ ritualísticas; a oração como exercício psíquico de desejar se afastar da mentalidade mesquinha, inconsequente, egoísta e/ ou desrespeitosa, enfim, afastar-se da mentalidade anti ética.

Mas porque à noite? Porque é quando o corpo precisa descansar... e a psiquê continua com algum nível de atividade. Independentemente se continua ativa "presa ao cérebro" ou se numa cosmovisão espiritualista como a de Platão, a psiquê se desprende do corpo, como em um estágio de "semi morte"... à noite colhemos as consequências mentais de nossas vivências durante o dia. Talvez na noite de sono somos lembrados de nossos valores, sejam individuais ou mais universais... 

Não se trata de afirmar que os sonhos são reveladores para todo o ser humano, mas sim de lembrar que, como qualquer atividade psíquica, eles podem indicar ou esconder nossas conquistas, dúvidas, expectativas, sentimentos e contradições. Por trás deles, nossa psiquê, seja mente ou espírito, continua existindo, pois continuamos a ter uma identidade, um histórico e um contexto. Continuamos presentes, seja onde e como for e se continuamos presentes, as coisas que fazem sentido para nós não desparecem e reaparecem do nada; Durante o sono e por trás dos sonhos em algum nível sabemos o quanto estamos próximos ou distantes do nosso sentido existencial.


Observações sobre Fédon (Da Psiquê); Parte 2

Continuo aqui um resumo sobre a obra Fédon, com algumas observações.

95c Em reação a Cebes, que perguntou se a alma não poderia desgastar-se ao longo da metempsicose (similar à reencarnação em corpos), Sócrates faz uma pausa absorto em pensamentos antes de seguir; 96a Até que ele continua o diálogo com um relato, dizendo: “Então, ouve o que passo a relatar-te. O fato, Cebes, é quando eu era moço sentia-me tomado do desejo irresistível de adquirir esse conhecimento a que dão o nome de História Natural. 

Para mim, se afigurava realmente maravilhoso conhecer a causa de tudo, o porquê do nascimento e da morte de cada coisa, e a razão de existirem. Vezes sem conta me punha a refletir em todos os sentidos, inicialmente a respeito de questões como a seguinte: Será quando o calor e o frio passam por uma espécie de fermentação, conforme alguns afirmam, que se formam os animais? É por meio do sangue que pensamos? Ou do ar? Ou do fogo? 
Ou nada disso estará certo, vindo a ser o cérebro que dá origem às sensações da vista, do ouvido e do olfato, das quais surgiria a memória e a opinião, e, da memória e da opinião, uma vez, tornadas calmas, nasceria o conhecimento? De seguida, ocupei-me com a corrupção das coisas e com as modificações do céu e da terra, para chegar à conclusão de que nada de proveitoso se tirava de minha inaptidão para considerações dessa natureza. 
Vou dar-te uma prova eloquente disso mesmo. Para as coisas que, segundo meu próprio parecer e de outras pessoas, eu conhecia bem, a tal ponto me deixaram cego semelhantes especulações, que cheguei a desaprender até mesmo o que antes eu presumia conhecer, entre outras, por exemplo, por que o homem cresce”(...) 
97b Ao ouvir, porém, certa vez alguém ler num livro de Anaxágoras – segundo dizia – que a mente* é organizadora e causa de tudo, fiquei satisfeitíssimo com semelhante causa, por parecer-me de algum modo, muito certo que a mente* fosse a causa de tudo, tendo imaginado que, a ser assim mesmo, como coordenadora do Universo, a mente disporia cada coisa particular pela melhor maneira possível. Se alguém quisesse explicar a causa de como alguma coisa nasce ou morre ou existe, teria apenas de descobrir qual é a melhor maneira para ela de existir, sofrer ou produzir seja o que for. Segundo esse critério, só o que importa ao homem considerar, tanto em relação a si mesmo como a tudo o mais, é o modo melhor e mais perfeito. Desse jeito, ficaria necessariamente conhecendo o pior, por ambos serem objeto do mesmo conhecimento. Depois dessas reflexões, alegrei-me ao pensar que havia encontrado em Anaxágoras um professor da causa das coisas (de didáskalon tís aitías perí tón ónton, também traduzido como "professor das coisas que são") como havia muito eu desejava, que começaria por dizer-me se a Terra é chata ou redonda, e depois me explicaria a causa e a necessidade dessa forma, recorrendo sempre ao princípio do melhor, com demonstrar que para a Terra era melhor mesmo ser assim. No caso de dizer que a Terra se encontra no centro, explicaria porque motivo é melhor para ela ficar no centro. Se ele me demonstrasse esse ponto, decidir-me-ia, de uma vez por todas, a não procurar outra espécie de causa. O mesmo faria com relação ao Sol, à Lua, e aos outros astros, no que diz respeito à sua velocidade relativa, o ponto de conversão e demais acidente a que estão sujeitos, bem como a razão de ser melhor para cada um deles fazer o que fazem ou sofrer o que sofrem. Um momento sequer não podia admitir que, depois de afirmar que tudo está ordenado pela mente*, indicasse outra causa que não a de ser melhor para tudo proceder como procedem. Ao atribuir uma causa particular a cada coisa e ao conjunto, estava certo de que no mesmo ponto demonstraria o que para cada um era melhor e em que consistia para todos o bem comum. Por nada do mundo abriria mão dessa esperança. Por isso, havendo tomado do livro com sofreguidão, li-o de um fôlego, para poder ficar conhecendo, o mais depressa possível, tanto o melhor como o pior. 
Assim Sócrates mostra o que seria preciso para o estudo “do ontos”, ou para um professor de "onto-logia": Apurar qual a melhor maneira das coisas serem. Isto complementa a visão “teleológica” (finalidade dos estudos ou da construção de conhecimento, no caso, da filosofia) socrática/ platônica apresentada em Parmênides
A postura, ou conjunto de posturas de Sócrates ao longo dos diálogos (que certamente é a mesma postura de seu pupilo, Platão) é ética e leva em consideração a epistemologia, ontologia, psicologia e a metafísica. Obviamente a psicologia da antiguidade clássica parecia lidar mais com questões morais, éticas e de espiritualidade, devido a fatores histórico-culturais. Tal psicologia lida com pensamentos, intenções, valores, praticamente não se aproximando de possíveis problemas neurológicos - mesmo porque a neurologia é outra área de estudos. 
De todo modo, em nenhum momento Platão ou Sócrates impõem limites ao saber, à filosofia ou a qualquer um de seus campos. Com a postura de presumir a própria ignorância, mas sem aceitar qualquer argumento imediatamente e utilizando-se o método da maiêutica, Sócrates buscava o saber trabalhando a noção do que é bom (e consequentemente do que é ruim também) em seus interlocutores
Porém, não demorei, companheiro, a cair do alto dessa maravilhosa expectativa, ao prosseguir na leitura e verificar que o nosso homem não recorria à mente* para nada, nem a qualquer outra causa para a explicação da ordem natural das coisas, senão só o ar, ao éter, à água, e uma infinidade mais de causas extravagantes. Quis parecer-me que com ele acontecia como com quem começasse por declarar que tudo o que Sócrates faz é determinado pela inteligência, para depois, ao tentar apresentar a causa de cada um dos meus atos, afirmar, de início, que a razão de encontrar-me sentado agora neste lugar é ter o corpo composto de ossos e músculos, por serem os ossos duros e separados uns dos outros pelas articulações, e os músculos de tal modo constituídos que podem contrair-se ou relaxar-se, e por cobrirem os ossos, juntamente com a carne e a pele que os envolvem. 
Sendo móveis os ossos em suas articulações, pela contração ou relaxamento dos músculos fico em condições de dobrar neste momento os membros, razão de estar agora sentado aqui com as pernas flectidas. A mesma coisa se daria, se a respeito de nossa conversação indicasse como causa a voz, o ar, os sons, e mil outras particularidades do mesmo tipo, porém se esquecesse de mencionar as verdadeiras causas, a saber: pelo fato de haverem acordado os Atenienses em condenar-me, pareceu-me, também, melhor ficar sentado aqui, e mais justo submeter-se neste local à pena cominada. 
*Esta mente citada nas traduções é nous, possivelmente a mente cósmica citada por Anaxágoras. Tal Mente ou Inteligência, além de ser a causa de todas as coisas, é tratada como O Deus, ou a divindade de Sócrates, em Filebo. O teor monoteísta não é novidade nas obras de Platão, vide Parmênides.
A seguir Sócrates critica claramente as explicações mecanicistas e sensoriais que os filósofos naturalistas geralmente apresentavam como verdades. Sócrates exemplifica que ele toma suas decisões não por causa de seus nervos ou ossos, mas por causa de sua inteligência (de sua psiquê). Ele foi preso e condenado por decisões de outros indivíduos, que tinham intenções próprias, interpretaram as atitudes de Sócrates e emitiram suas respectivas opiniões. Assim Sócrates traz a proeminência da psique por trás dos fatos. E continua: 
99. Imagine não conseguir distinguir a causa real, daquela sem a qual a causa não seria capaz de agir, como causa. É o que a maioria parece fazer, como pessoas tateando no escuro; chamam-lhe causa, dando-lhe assim um nome que não lhe pertence. 
A filosofia socrática-platônica traz a importância das áreas de estudo citadas anteriormente. Ela indica e fomenta a atividade mental/ psíquica: O pensar, decidir, expressar/ dialogar, interpretar etc. Para que haja estudo sobre a psiquê, seja alma ou a mente, com seus pensamentos, sentimentos, valores, intenções (etc), as experiências mentais devem ser relatadas ao estudioso (geralmente o psicólogo, a partir do séc 20) que trabalhará com métodos reflexivos e talvez comparativos, raramente um método objetivo devido a própria natureza das experiências mentais. Isto explica, ao menos parcialmente, as origens da psicologia dentro da filosofia; Qualquer estudo que force o enquadramento das experiências mentais dentro de um método meramente objetivo, sensorial/ de repetição (reprodutível), está fadado a graves distorções dos fatos. Distorções estas que facilmente levam ao erro e não constroem um conhecimento verdadeiro e completo sobre o(s) indivíduo(s) estudado(s). Um exemplo clássico é que o método de investigação empírico em sua origem considera toda experiência subjetiva como irrelevante, falsa ou inexistente - principalmente as ditas “místicas”, “sobrenaturais”, transcendentais e similares. É claro, que na história das ciências e da psicologia, houveram tentativas e alegações de que o método empírico funciona para construir um conhecimento psicológico, mas isto se deu distorcendo/ modificando o significado do termo (ou do próprio método) empírico. O que se entende do ser humano, através de um estudo empírico à rigor, é seu comportamento observável, não suas intenções, opiniões e outros elementos mentais internos, que não foram expressos. Ainda que através do comportamento seja possível obter evidências sobre o psiquismo ou mentalidade do indivíduo, em geral, tais informações são parciais ou superficiais. A causa disto é óbvia: métodos sensoriais, como o empírico, trabalham só uma pequena porção da realidade: a perceptível pelos sentidos. 
É por isso que um homem envolve a terra com um vórtice para fazer com que os céus a mantenham no lugar, outro faz com que o ar a sustente como uma tampa larga (uma gamela, do grego kardópoi plateiai). Quanto à sua capacidade de estar no melhor lugar que poderiam estar neste exato momento, isso eles não buscam, nem acreditam que tenha alguma força divina (daimonian iskhyn), mas acreditam que um dia descobrirão um(a) Atlanta (Edson Bini, traduz como o titã da mitologia, embora esse se chame Atlas) mais forte e mais imortal, para manter tudo mais unido, e eles não acreditam que o que é verdadeiramente bom e 'vinculativo' os une e os mantém unidos. 
Sócrates explica que em seu ponto de partida, supõe a existência do belo em si mesmo, do bom e si mesmo* e do grande em si mesmo.
*[kalon, relacionado à kalos, o bem, a bondade; uma virtude/ excelência...]
Assim, quando Sócrates ouve alguém dizer que algo é belo por causa de sua cor, de sua forma e coisas desse gênero (por causa do que é perceptível sensorialmente), ele ignora e agarra a si mesmo de forma simples na ideia (eidos) de que as coisas são belas porque participam/ comungam da beleza em si mesma - é a presença do belo em si mesmo nas coisas que as fazem belas. 
Sócrates não discute diretamente a possibilidade do desgaste e da dissolução da psiquê/ alma, mas indica a existência das eidos, como o bem/ o belo, existindo de modo imutável e uno. Sendo algo alcançável pela psiquê/ alma humana, é mais próxima desta do que do corpo, e sendo mais próxima e alcançável, possivelmente Sócrates convence seus interlocutores de que a psiquê é indestrutível.
Sócrates traz a ênfase no bem/ belo (kalos, um valor não meramente individual, mas universal) para a construção do conhecimento. Ele entendia que a Terra deveria ser redonda porque este deveria ser “o melhor jeito dela ser” (vide A República). Buscar entender o melhor jeito dos seres existirem e das coisas serem, era a função ontológica da filosofia. Isto não é separável da busca pelo bem: a filosofia, como todo o saber, deve ser ética - se pautar sempre por valores universais. Embora alguém possa atacar a ideia de valor universal alegando que eles são relativos, a verdade é que os valores universais são de utilidade coletiva e devem ser desenvolvidos individualmente, para que cada indivíduo trate todos com justiça, ou seja, com equidade. Quando Sócrates critica os indivíduos que favorecem os amigos e prejudicam os demais, na obra A República, certamente ele estava buscando propagar a ética como parte da amizade pelo saber (filosofia). 
103b-107a Sócrates realiza uma investigação racional dialética com seus interlocutores, onde faz comparações entre os números pares e ímpares, o frio e o calor a vida e a morte, concluindo que a psiquê (alma) é imortal e o corpo, mortal; 107c "Porém devemos senhores, considerar também o seguinte: se a alma for imortal, exigirá cuidados de nossa parte não apenas nesta porção do tempo que denominamos vida, senão o tempo todo em universal, parecendo que se expõe a um grande perigo quem não atender esse aspecto da questão. Pois se a morte fosse o fim de tudo, que imensa vantagem não seria para os desonestos, com a morte livrarem-se do corpo e da ruindade muito própria juntamente com a alma? Agora, porém, que se nos revelou imortal, não resta à alma outra possibilidade, se não for tornar-se, quanto possível, melhor e mais sensata. Ao chegar ao Hades, nada mais leva consigo a não ser a instrução e a educação, justamente, ao que se diz, o que mais favorece ou prejudica o morto desde o início de sua viagem para lá." 
107d O que contam é o seguinte: ou morrer alguém, o daemon (espírito) que em vida lhe tocou por sorte se encarrega de levá-lo a um lugar em que se reúnem os mortos para serem julgados e de onde são conduzidos para o Hades com guias incumbidos de indicar-lhes o caminho. Depois de terem o destino merecido e de lá permanecerem o tempo indispensável, outro guia os traz de volta, após numerosos e longos períodos de tempo. Esse caminho não é o que diz Télefo, de Ésquilo, ao afirmar que o caminho do Hades é simples; a meu ver nem é simples nem único. Se fosse o caso, seria dispensável guia, pois ninguém se perde onde a estrada é uma só. O que parece é que ele é cheio de voltas e bifurcações. Digo isso com base nos ritos sagrados e cerimônias aqui em uso. De qualquer forma, a alma prudente e moderada acompanha seu guia, perfeitamente consciente do que se passa com ela; mas, como disse há pouco, a que se agarra avidamente ao corpo esvoaça durante muito tempo em torno dele e do mundo visível, e depois de grande relutância e de sofrimentos sem conta, é por fim arrastada dali, à força e com dificuldade pelo daemon incumbido de conduzi-la. Uma vez alcançado o lugar em que se encontram, outras almas, a que se acha impura pela prática do mal, de homicídios injustos ou de crimes semelhantes, irmãos daqueles e iguais aos que soem praticar almas irmãs, de umas alma como essa todas se afastam, evitam-na, não havendo guia nem companheiro de jornada que com ela se associe. Tomada de grande perplexidade, vagueia por todos os lugares até escoar-se certo tempo, depois do que a arrasta a Necessidade para a moradia que lhe foi determinada. A que atravessou a vida com pureza e moderação e alcançou deuses por guias e companheiros de jornada, obtém moradia apropriada. 
Na sequência Sócrates especula que a Terra seja redonda e que esteja localizada no mesmo "céu" dos demais astros, onde haveria o que outros filósofos chamavam de "éter". Para Sócrates (e certamente Platão), a água, o vapor e o ar eram sedimentos desse éter do "céu" onde situam-se os astros, e estes "sedimentos" fluiriam para a Terra e suas concavidades (certamente o formato irregular da geomorfologia: desde as montanhas, passando pelos continentes, até as partes mais profundas/ o oceano). Os povos do mediterrâneo são comparados com pequenos animais vivendo em torno de um poço, pois a Terra seria muito maior do que aquela região (Europa, norte da África e oriente médio) onde viviam. Embora tais argumentos pudessem parecer uma especulação sobre física (a circunferência da Terra só foi calculada cerca de 150 anos após Platão, por Erastóstenes), Sócrates segue explicando, que devido à fraqueza (certamente psíquica: mental e espiritual) e a indolência, os seres humanos são incapazes de alcançar a superfície além da Terra: Aqui o filósofo já não fala em mero espaço físico, ao menos, não no espaço tridimensional: Ele se refere a um "céu verdadeiro" e uma "luz verdadeira" de onde poderíamos ver que a nossa Terra onde vivemos não passa de um mundo rústico e imperfeito. Nesta realidade mais verdadeira haveria a beleza superior às coisas de nosso mundo, e ali, seria possível ver uma Terra mais perfeita: Sócrates menciona um mito onde haveria uma "Terra" mais bela e perfeita (teria relação com o hiper ouranos mencionado em Fedro? Ou com o mundo das eidos mencionado em outras obras?) e todos minerais de nossa terra seriam feitos de fragmentos daquele mundo mais puro. Comparado com aquela Terra mais pura, no mundo onde vivemos normalmente, as coisas são maculadas ou corroídas, causando deformidades e enfermidades tanto nos animais, como nos vegetais e nos minerais. Os seres daquele mundo mais puro teriam tudo mais aperfeiçoado que os humanos da Terra: os sentidos, a saúde e a inteligência - o tanto quanto o ar é mais puro do que a água e o éter do que o ar, diz o filósofo (seria uma alusão aos estados da matéria, considerando mais puro, o mais sutil, ou literalmente mais "etéreo"?). Estes seres se comunicariam com os deuses e veriam os astros (por exemplo, o sol e a lua) como realmente são e a seguir, Sócrates arrisca-se a descrever o lugar de julgamento das almas, os rios por onde estas navegam ou são jogadas e o Tártaro (local mítico de punição). Ao anunciar o fim de sua narrativa, Sócrates é indagado por Críton como proceder. O filósofo responde para Críton fazer como sempre e viver conforme explicado na recente conversa, pois se não fizer assim, de nada adiantaria fazer juramentos e nenhum avanço seria realizado. Críton então pergunta sobre o que fazer com o corpo de Sócrates após sua morte. O filósofo sorrindo, diz que por mais que explique sua situação, seu amigo Críton continua achando que ele é só o corpo e que discursou apenas para tranquilizar a todos (como se a alma de Sócrates não fosse partir).
116b Por fim, após Sócrates receber a visita de seus 3 filhos e das mulheres de sua família, o agente/ comissário dos arcontes anuncia: 
Sócrates, de ti não terei de queixar-me como dos outros, que se zangam comigo e rompem em palavras e pragas, quando os convido a tomar o veneno por determinação superior. No teu caso, pelo contrário, durante todo este tempo e em várias outras oportunidades, pude reconhecer em ti o homem mais nobre, mais gentil e melhor de quantos para aqui têm vindo. Hoje, especialmente, tenho certeza de que não te zangarás comigo, pois sabes muito bem que é dos outros a culpa. E agora, já que ficaste ciente da mensagem (angelon) que vim anunciar-te: Adeus. Tente suportar o inevitável o mais tranquilamente possível. E colocando-se a chorar, deu as costas e retirou-se. 
Sócrates olhou para ele disse: Adeus, também para ti; faremos isso mesmo. Depois, voltando-se para o nosso lado, disse: Que homem delicado! Durante todo este tempo, vinha sempre ver-me e várias vezes conversou comigo. Excelente criatura. Agora mesmo, quanta generosidade revela com esse choro por minha causa! Porém vamos, Críton; obedeçamos-lhe; tragam logo o veneno, se estiver pronto; senão, cuide de prepará-lo o encarregado disso.
Críton então tenta convencer Sócrates para não se apressar, argumentando que outros condenados pedem por um último momento de prazer e muitas vezes são atendidos. 
Sócrates lhe responde: É natural, Críton, que esses tais procedessem conforme disseste, por imaginarem que disso ganhassem alguma vantagem. Mas certamente eu não procederei dessa maneira, pois não vejo o que posso vir a ganhar em beber o veneno um pouco mais tarde. Só me tornaria ridículo a meus próprios olhos, por agarrar-me dessa maneira à vida e tentar economizar o que já não existe. Vamos, continuou: obedece-me e só faças o que eu digo.
117a Ouvindo-o, Críton fez sinal ao menino que se encontrava mais perto. Este saiu e voltou depois em companhia do encarregado de lhe dar o veneno, que já o trazia espremido na taça. Ao ver o homem, Sócrates perguntou-lhe. E agora, meu caro: já que entendes destas coisas, que precisarei fazer?
Nada mais, respondeu, do que andar depois de beber, até sentires peso nas pernas, e em seguidas deitar-te. Assim o veneno atuará.
Depois dessas palavras, estendeu a Sócrates a taça, que a tomou das mãos dele com toda a tranquilidade, sem o menor tremor nem alteração da cor ou das feições. Fitando o homem, com aquele seu olhar de touro (olhos bem abertos), perguntou-lhe: 
Que me dizes? E se eu fizesse uma libação com um pouquinho disto aqui? É permitido ou não?
O homem respondeu: Só preparamos, Sócrates, a quantidade que nos parece suficiente.
Compreendo, retrucou. Mas pelo menos é permitido, e até um dever, pedir aos deuses que façam feliz a passagem deste mundo para o outro. É o que peço. Prouvera que me atendam!
Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar, bebeu até à última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Críton levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.
Que é isso, ó gente incompreensível (thaumasioy)? Perguntou. Mandei sair as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos (silenciai-vos) e sedes corajosos (pacientes)!
Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. (...), mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras: 
Críton, exclamou, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças e dê (salde essa dívida)!* 
Assim farei, respondeu Críton, vê se queres dizer mais alguma coisa.
A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção.
O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Críton fechou-lhe os olhos e a boca.
Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo. 

*(traduzido de: "ó Kríton, éfi, tó Asklepió ofeílomen alektryóna: allá apódote kaí mi amelísite") Interessante notar que na língua grega atual, galo é kókkoras e não alektryóna; Na mitologia havia um personagem chamado Alektryon: um soldado designado como guarda por Ares, deus da guerra (considerado mais selvagem e estrangeiro em comparação com Atena); Após Alektryon falhar em sua missão de alertar Ares contra Hefesto (deus da forja e das invenções), ele acabou transformado em um galo. O mito, porém, não é mencionado em obra alguma de Platão.
Enfim, ao mostrar possíveis consequências da imortalidade da alma no diálogo Fédon, Platão traz mensagens de responsabilidade, mas de sabedoria e esperança também. 
Em "O Banquete", quando Platão diz que devemos amar o bem (as psiquês coletivamente e as leis que fazem bem ao coletivo etc) ele indica que o bom sentimento deve nos guiar para o bem coletivo e também transcendente. Isto porquê o bem/ belo (kalos) é a ideia/ forma (eidos) sublime que não é meramente sensorial/ corporal, mas sim cognoscível/ psíquica. É assim que se alcança o "hiper ouranos" (além céus, mencionado em Fedro), o reino divino onde não há espaço para malevolência. O bem e as demais eidos então são virtudes humanas/ são o que pode nos fazer excelentes e são mais reais que o mundo sensorial, pois são ligados ou oriundos desta realidade superior, seja qual for seu nome. 

Combater Charlatanismo requer só Ciência? Ou é problema Ético?

 Escrevo este texto após ser bombardeado por sugestões um tanto decepcionantes do algoritmo: particularmente vídeos sobre ciência que as red...