Breves observações sobre Protágoras (Sofistas)

Platão escreve um texto tratando de um famoso sofista da "Grécia Clássica": Protágoras. 

De acordo com esta obra, Sócrates recebe o jovem Hipócrates (não o famoso “pai da medicina”), que está ansioso para aprender com o sofista recém chegado em Atenas, Protágoras. Sócrates então ajuda Hipócrates a identificar a ocupação como sofista de Protágoras e aconselha o jovem ter cuidado ao dispor-se a aprender qualquer coisa que venha afetar-lhe a alma. Afinal ensinar técnicas de persuasão e busca por dinheiro, como Protágoras e outros sofistas faziam, não torna uma pessoa melhor. 

Então ambos visitam Protágoras, quando Sócrates começa a questionar o anfitrião: 

…”Hipócrates mostra-se desejoso de estudar contigo e, portanto, declara que gostaria de saber qual o resultado que obterá de tuas aulas”... 

Protágoras responde que Hipócrates se tornará um “homem melhor” após cada dia de aula. 

Sócrates então reformula sua pergunta, dizendo se Hipócrates estudasse com um pintor se tornaria melhor na arte da pintura após cada dia de aula e se estudasse com um flautista se tornaria melhor na arte da música (tocar flauta) após cada dia de aula e questiona Protágoras: …”de que forma ele (Hipócrates) sairá de suas aulas sendo um homem melhor e no que fará progresso a cada dia que passar contigo (Protágoras)?” 

Protágoras então responde não ser como outros sofistas que ensinam matérias/ artes (do grego tekhnas). Ele alega ensinar seus alunos a desenvolverem bom discernimento e a administrarem negócios privados e públicos através do discurso e da ação. 

Sócrates então pergunta: Estarei acompanhando o que dizes? Parece estar se referindo a arte cívica e se propondo a fazer dos homens, bons cidadãos. Protágoras então confirma, ao que Sócrates responde: 

"Que bela arte (ciência) você se apropriou, Protágoras, se é que você a domina! Bem, você não vai ouvir nada diferente do que eu penso. Porque eu, Protágoras, não achava que fosse ensinável, e quando você diz isso agora, não sei como desconfiar. E porque não acho que isso seja objeto de ensino ou suscetível de previsão (ou transmissão) de alguns homens para outros, é justo que vos explique. Eu, dos atenienses, como também dos gregos, afirmo que eles são sábios. Pois vejo que, quando nos reunimos na assembléia, sempre que a cidade (estado) deve fazer algo em construções públicas, os construtores são enviados como consultores na construção, e quando se trata de navios, os construtores navais e assim por diante, o mesmo se aplicando ao que é considerado ensinável ​​e “aprendível”. E se alguém que eles não reconhecem como profissional tenta dar seus conselhos sobre o assunto, mesmo que seja muito bonito e rico e de família nobre, eles não o aceitam de jeito nenhum; mas eles o escarnecem e vaiam, até que aquele que tentou falar se afaste, sendo vaiado, ou os oficiais o retirem e o conduzam por ordem dos presidentes (das assembleias). 

Sobre coisas que eles acham que pertencem a um ofício técnico, eles se comportam assim. Mas quando se trata de algo que diz respeito ao governo da cidade e uma decisão deve ser tomada, sobre essas coisas ele aconselha, tomando a palavra, tanto carpinteiro quanto ferreiro, curtidor, comerciante, navegador, rico ou pobre, o nobre, ou o de origem obscura, e ninguém os repreende, como fizeram antes, que sem aprender em lugar nenhum e sem ter tido professor, então tentam dar seus conselhos. Obviamente, é porque eles acreditam que não é algo que pode ser aprendido. Não só parece que a comunidade cidadã assim pensa, mas, em particular, os mais sábios e melhores dos nossos cidadãos não são capazes de transmitir aos outros a excelência que possuem. Sócrates encerra dizendo, que pode acontecer de um filho (sucessor, discípulo etc) de uma pessoa cheia de virtudes (sábia, justa etc) ser corrompido, não herdando virtude alguma de seu educador."

Protágoras, então, alegando estar idoso (Sócrates então deveria ter entre 40 e 55 anos de idade), propõe duas formas de responder: com uma exposição regular e com um mito. A platéia pede para que ele responda como quiser e ele começa: 

O mito trata de como Epimetheus distribuiu as diversas características às formas de vida de inteligências não desenvolvidas (tamanho, força, agilidade, armas naturais etc). Após Epimetheus terminar o trabalho, seu irmão Prometheus encontrou a humanidade com alguma inteligência, mas “muito vulnerável" em relação às demais formas de vida. Prometheus então rouba a sabedoria das artes práticas de Athena e Hephaistos, juntamente com o fogo, e deu à humanidade, o que fez com estes se desenvolvessem na auto preservação. Porém a humanidade ficou sem a sabedoria para a arte cívica e vida em comunidade e após se agruparem, passaram a cometer injustiças. Zeus então enviou Hermes para instaurar senso de pudor e justiça entre os homens, mas não como o conhecimento dado por Prometheus, que ficava detido sob aqueles que o praticavam - Zeus ordenou que Hermes desse um quinhão de senso de justiça para cada indivíduo de toda a humanidade. Assim, Protágoras usa o mito para estruturar sua teoria relativista: todo ser humano se aconselha com um outro ser humano qualquer, esperando que todos tenham algum senso de justiça. O senso de justiça na terra fica inerente apenas ao ser humano. Ele segue dizendo que as pessoas punem (racionalmente) o malfeitor com a intenção de intimidar este, o que implica no caráter de aprendizado da virtude. 

Sócrates então, faz uma pausa observando seu interlocutor e aguardando uma continuidade, até que alega ter sido convencido por Protágoras exceto por uma pequena dificuldade. A seguir faz uma breve crítica aos oradores políticos que falam do mesmo tema abordado naquela reunião, dizendo que quando indagados por um ínfimo aspecto do assunto discorrido, “permanecem ressoando por muito tempo após receberem uma batida”, prolongando o tema até serem interrompidos ou impedidos. Então conclui seus pensamentos questionando Protágoras: …”há algo que me surpreendeu em seu discurso; preencha-me esse vazio em minha alma. Você disse que Zeus enviou a justiça e o senso moral aos homens, e então repetidas vezes em suas palavras você aludiu à justiça, ao bom senso, à misericórdia e todas essas coisas, como se juntas formassem uma certa unidade: a virtude. Explique-me, por favor, exatamente com raciocínio, se a virtude é uma certa unidade e se dela fazem parte a justiça, o bom senso e a piedade, ou estes que eu agora nomeava são todos nomes de algo idêntico que é único…” 

 Protágoras responde que a virtude é uma coisa única e que as qualidades são partes dela e depois diz que são como as partes de um rosto em relação ao rosto como um todo, explicando que um justo pode não ser sábio, um corajoso pode não ser justo etc. 

Sócrates então diz que tais qualidades são de mesma natureza, exemplificando que a justiça e a devoção (religiosidade) são ambas justas e ambas religiosas. 

Importante notar que a religião que Sócrates menciona é a do Deus justo e sábio que ele menciona em outros diálogos como indica os textos de Platão (seja Nous, a mente cósmica, "um" Zeus justo e piedoso ou Apolo). O Deus mencionado por Sócrates é bom, justo e sábio, se assemelhando ao que Jesus de Nazaré chama de Pai, portanto praticamente não tem semelhança alguma com os deuses caprichosos e violentos dos poemas gregos de Homero e Hesíodo, nem com as seitas meramente ritualísticas (os judeus fariseus, por exemplo) e nem com as igrejas institucionalizadas como ferramentas de poder (as igrejas cristãs após o século 4 por exemplo). 

Protágoras tenta se esquivar do assunto, mas sob certa pressão de Sócrates acaba dizendo que todas as coisas têm alguma semelhança entre si, porém não é correto afirmar que algo é semelhante a outra coisa, quando possuem somente alguma ligeira semelhança entre si. Sócrates "responde" dando exemplos sobre coisas diametralmente opostas entre si, (ou seja, que não podem se assemelhar uma à outra) as quais Protágoras concorda que existem. Ele segue demonstrando que todas as qualidades (sabedoria, sofrosyune* etc) são da mesma natureza, ou seja, são únicas em natureza, tendo um só oposto (ignorância, insensatez etc). Protágoras começa a ficar irritado e Sócrates cogita ir embora, então os membros da plateia insistem para que ambos continuem. Após decidirem como continuariam com o diálogo e exposições de pensamentos, Protágoras e Sócrates discutem um poema de Simônides, que aborda o ser bom e o vir a ser bom. 

*Importante notar que esta palavra grega (sofrosune ou sofrosine) não tem tradução exata para o português: Ela significa moderação, sensatez e autoconhecimento. 

Terminando a discussão sobre o poema, iniciada por Protágoras, Sócrates chega a dizer que o prazer pode ser bom, assim como a dor pode ser boa para algum fim, como correção de algo etc. O que torna as coisas ruins é a falta de moderação (falta de sofrosyune mais precisamente), ou seja, o que corrompe não é o prazer em si, mas sim o exagero (insensatez etc) que torna as coisas ruins. 

Sócrates refutou os argumentos de Protágoras, demonstrando como sua teoria relativista era contraditória, mas não ofereceu uma resposta à questão (sobre a virtude ser ensinável ou não) que ele mesmo trouxe no início do diálogo com o sofista, mesmo porque a resposta de tal questão talvez nem fosse o objetivo de Sócrates.

 

Para que(m) serve e o que é Capitalismo?

Este é um texto mais informal do que científico à rigor. Obviamente certas pessoas podem tratá-lo como meramente opiniático, mas me esforcei em me basear em algumas fontes científicas e principalmente em fontes filosóficas. Este esforço que fiz foi justamente para não expressar só opiniões, pois a filosofia é a área que tenta separar a opinião do conhecimento. A ciência ainda é muito especializada, portanto muito dividida em várias áreas diferentes, carecendo de uma teoria de diálogo entre as disciplinas que valoriza as áreas humanas/ filosóficas/ culturais. 

Vamos às questões básicas: O que é capitalismo? Quando surgiu? De onde veio? 

Existem várias explicações e teorias na academia, algumas naturalizam o capitalismo, enquanto outras criticam. Eu particularmente tento me basear pela etimologia (origem) das palavras, pela história e pela filosofia. 

Capitalismo é qualquer ideologia, complexa ou rudimentar, que incita a priorização do uso e/ ou acúmulo de dinheiro pelas pessoas. Precificar o maior número de produtos e serviços possíveis, por exemplo, é capitalismo! 

Ao estudar a história da humanidade, fica óbvio que houve em algum nível a necessidade de estocar alguns bens para sobrevivência em certos períodos e locais... Estocar alimentos para se prevenir contra uma época de difícil obtenção de alimento, é um exemplo aceitável (certamente isto aconteceu há milênios). Mas nem tudo foi, nem é, só necessidade nas civilizações humanas. 

Discutir o quão certas coisas são necessárias ou não, pode ser assunto complexo e tentarei ser breve nestas questões, então devo limitar o assunto à "era moderna". Porquê? Por que é mais ou menos quando o mercantilismo substitui o feudalismo na Europa... Escolho a Europa não por admirar a cultura de tal região e sim, pelo estrago feito no mundo por causa da ganância de seus líderes, sejam eles líderes econômicos (burgueses) ou políticos (aristocratas em geral no início da era moderna). 

Eu já vi um ou dois professores falarem que o capitalismo trouxe algum progresso para humanidade. Isto é uma distorção dos fatos: O mercantilismo como um sistema (pré) capitalista menos rentista do que outros mais atuais (chame estes mais novos de capitalismo industrial ou neoliberalismo, tanto faz) poderia até colaborar com algum progresso, mas de modo indireto, com outros fatores sendo principais causadores do progresso! Por exemplo, a filosofia mais livre da religião propagada por filósofos neo platônicos (Nicolau de Cusa, Marsílio Ficino, Giovanni Pico, entre outros...) durante a renascença, foi gradualmente tornando menos difícil desenvolver certos estudos (vide Copérnico, Kepler e Galileu).

E falando da renascença, utilizando como base as narrativas comuns das aulas de história do ensino fundamental e médio brasileiro (particularmente dos anos 1992-2000, no meu caso), o que ouvimos falar é que quando o Império Otomano dominou o estado Bizantino em 1453, seus líderes dificultaram o acesso aos produtos da Ásia para os europeus. Essa narrativa por si só tem um viés mercantilista centrado no interesse de certas elites, possivelmente a burguesia e as aristocracias da Europa. Ela não explica o desenvolver do pensamento e dos saberes ocidentais, pois subestima a história da filosofia, mas neste texto ela me serve, pois explica uma ideologia reducionista e objetificadora, que é o capitalismo. 

Priorizar a utilização ou estocagem de dinheiro obviamente não é um fim em si: Quem fomenta isto tem seus objetivos particulares. As elites européias se interessaram por produtos: queriam especiarias da "Índia" e certamente tantos outros produtos típicos das terras ao leste do Império Otomano. Ao buscar rotas alternativas para desviar do "bloqueio" otomano, eles chegam a um enorme continente (América) habitado por povos desprotegidos quando comparados com seus próprios poderios bélicos. Para termos noção de como os europeus estavam longe de ser um povo diplomático e pacífico, vejamos Portugal, por exemplo: Esta foi a primeira nação do mundo a bombardear uma cidade porque os líderes de tal cidade (na "Índia") não fecharam acordo comercial com eles, preferindo negociar com árabes. Outras nações européias passaram a seguir o exemplo de Portugal em alguns anos. Isto mostra os interesses e o modo de agir dos líderes europeus. 

Portanto as elites espanholas e portuguesas, que foram as primeiras nações européias a atravessarem os oceanos na modernidade, ao invadirem a América, não estavam interessadas em criar novos estados e pacientemente desenvolver um mercado tentando conviver em paz com os nativo-americanos. Elas queriam mão de obra barata, mais especificamente mão de obra gratuita, ou seja, escravizada. Além disto, alguns dos primeiros escravagistas portugueses a desembarcarem na África entre os anos de 1441 e 1446, eram consórcios privados de mercadores que raptaram habitantes islamizados da região onde hoje se encontra a Mauritânia. Pela localização em que se encontravam, possivelmente estes primeiros povos africanos escravizados por portugueses eram bérberes (uma etnia saariana não-negra) ou povos negros do "Império" Wolof (há quem considere os Jolofs uma confederação). Nesta região os escravos em geral tinham direito a algumas propriedades e trabalhavam normalmente pagando taxas aos seus superiores. Eles não eram submetidos à violência e condições precárias que os europeus os submetiam, como alguns conservadores gostam de narrar a história. 

A aristocracia espanhola, por sua vez, tentou impor um sistema de "encomiendas" sobre os nativos-americanos, onde estes trabalhariam e os fidalgos espanhóis cobrariam tributos. Obviamente o sistema foi distorcido e transformado numa simples escravização cheia de casos de violência. Como os nativos-americanos estavam em sua terra natal, eles tinham eventuais alternativas de resistirem os europeus: escravizados se rebelavam e fugiam, tribos forjavam alianças entre si, contra-atacando e emboscando os invasores etc. É claro que a solução européia para isto, resumidamente, foi chacinar nações americanas e escravizar africanos, trazendo-os para América. Ou seja, as elites européias em geral, tentaram dominar através da violência os povos nativo-americanos, porque queriam acumular riquezas - não há segredo nem motivo para justificar a violência empregada contra os nativos da América e África. 

Aqui começa umas distorções nas narrativas típicas das instituições de ensino do Brasil (não só no ensino médio, mas no superior também!): Fala-se em uma crescente produção que teria fomentado um aumento do consumo de certos produtos, como se fosse um evento natural (forças da natureza) ou incidental. Só que alguns destes produtos, como o açúcar da cana, começaram a ser plantados cedo pelos escravizados (1506 na "América espanhola" e 1531 no "Brasil" português). Nenhum "patrão" que não quer pagar seus trabalhadores (escravizados) e que prioriza o lucro, vai permitir uma produção baixa ou moderada. Tal tipo de gente obviamente quer produção e lucros crescentes, sem se importar com as dificuldades ou necessidades de seus trabalhadores escravizados. Portanto qualquer "excedente" de produção aconteceria cedo ou tarde - é uma conseqüência lógica dos métodos desumanizados que tinham a finalidade de crescentes ganhos materiais para os escravizadores. Explicados tais fatos, é ingênuo ou malicioso afirmar que simplesmente houve uma "necessidade" de buscar novos mercados ou uma "necessidade" de novos consumidores. Necessidade para quem? Certamente não para maioria dos trabalhadores escravizados - maioria esta que, por exemplo, por um vasto período do "Brasil colônia", era não só a maioria da mão de obra, mas a maioria da população da colônia portuguesa! 

 Continuando, nota-se então, que o mercantilismo da era colonial já se tratava de um sistema social e econômico capitalista. Não havia significante avanço em bem-estar das sociedades, menos ainda em infraestrutura. Outra narrativa duvidosa que ouvi é que durante o mercantilismo as aristocracias taxavam severamente... quem? Os burgueses? Os corsários? Dificilmente, pois aí entra novamente a narrativa enviesada: Se as taxações eram tão severas, como burgueses e corsários enriqueceram tanto neste período da história? Alguém poderia alegar que corsários eram mercenários que trabalhavam para aristocracia... mas isso faz deles partes do estado? Difícil crer nisto. A verdade é que a renascença é um período de transição, e sendo assim, certamente houveram brechas nas leis que permitiam um enriquecimento desregulado das burguesias. Mas este período serve apenas de esboço para o que estava por vir, por isso considero perda de tempo detalhar possíveis taxações desta época neste texto. 

A Renascença termina em meados do século 17; um período de grandes inquietações e conflitos envolvendo religião e práticas místicas, além de crescentes interesses econômicos e políticos por parte de burgueses e aristocratas. Esta foi a etapa de certa forma final, entre os grandes conflitos de católicos contra protestantes com diversas ordens e seitas envolvidas em disputas. O misticismo, que possivelmente se iniciou com a abertura do judaísmo místico/ hermetismo no início da renascença, chegou a seu ápice nas elites intelectuais com o rosacrucianismo para logo a seguir, começar a declinar. Entre classes menos privilegiadas, famílias inteiras que realizavam práticas místicas foram perseguidas, condenadas e cruelmente assassinadas por serem consideradas pagãs/ hereges, no Império Germânico, na Inglaterra, Escócia, Espanha até na Escandinávia. 

Mas a intensificação da ideologia capitalista certamente ocorre na transição do mercantilismo típico da renascença para o liberalismo desenvolvido no início do iluminismo. Isto ocorre de modo paralelo ou interligado com a diminuição das guerras religiosas no fim do século 17, que deu mais espaço às guerras de interesses comerciais e políticos. Por coincidência (ou não), uma das maiores crises surge nos Países Baixos, terra natal das maiores companhias privadas do mundo até então. E também nesta mesma época, é escrito o famoso tratado sobre o liberalismo na Inglaterra por John Locke. Inglaterra esta que rapidamente vira o jogo da corrida colonialista, vencendo a Espanha e Portugal sem grandes dificuldades e enfrentando a França, principalmente na América do Norte. 

Embora interessante, falar desta transição do século 17 ao 18 tornaria o texto muito longo, então vamos à industrialização: Ela basicamente começa com a utilização do vapor e com os "teares mecânicos" na 2ª metade do século 18 e é aí que a Inglaterra parece se dar bem de vez na corrida colonialista/ econômica industrial. A burguesia já estava consolidada na Inglaterra, no mínimo desde as manobras de Henry VIII e seus sucessores, que arrancaram fortunas da igreja católica no século 16, beneficiando não só a igreja protestante, mas também possivelmente uma classe de burgueses. Aqui devem existir inúmeras opiniões e intrigas na academia as quais eu ignoro: Umas opiniões são muito tecnicistas outras são claramente conservadores ou economicamente liberais e defensores do capitalismo. Defender um sistema que propaga iniquidade e prejudica a maior parte da humanidade em prol de uma minoria, é defender o maior caso de charlatanismo da história humana. 

O fato é que por volta de 1780-1790 começam as revoltas luditas naquela nação: Trabalhadores quebrando as máquinas e queimando livros contábeis de seus patrões. As máquinas eram novidades tecnológicas que só os endinherados podiam obter, e, justamente devido aos seus altos valores, os patrões naturalmente acostumados a vida de luxo, não queriam que estas máquinas ficassem paradas. Daí começou-se exigir jornadas de trabalho de 14h diárias dos trabalhadores, bem como a inventar leis para punir destruição de patrimônio e rebeliões. O que há de natural nisto? Que outra forma de vida na Terra mata centenas de mulheres e crianças para manter-se com quantias gigantescas de bens dos quais ele nem consegue usufruir? Para maiores detalhes bizarros desta época vejam esse vídeo com participação do sociólogo Ruy Braga: https://www.youtube.com/watch?v=9Lpnz_0Nrk4&t=2742s 

A revolução industrial e sua respectiva tecnologia é fruto de supostos avanços da construção de conhecimento. Só que esta construção de conhecimento tem um pressuposto filosófico materialista! A filosofia natural que ganha proeminência após o empirismo de Locke (ele de novo...) é uma fonte de conhecimento materialista, portanto especializado, que fomenta um "progresso" basicamente material em determinados assuntos da civilização. A ética entre outras áreas importantes para o desenvolvimento humano (epistemologia, pedagogia, psicologia, sociologia etc) se desenvolveram, mas com menos proeminência e mais vagarosamente do que as tais filosofias (ciências) naturais. 

A tecnologia tem sua finalidade específica de acordo com a área de trabalho e do mercado. Ela não resolve problemas de exploração do ser humano. A exploração do ser humano é feita por quem tem muito poder e é um problema moral e ético como o sociólogo Ruy Braga diz no vídeo do link citado. Quem teve mais poder durante o liberalismo do século 18 e 19 explorou até as crianças e a solução contra tal exploração foi a união de trabalhadores na forma de sindicatos e as respostas do poder público na forma de direitos e leis de proteção ao trabalhador. 

O neoliberalismo pós 1980 é mais uma proposta ideológica de quem tem mais dinheiro: é um projeto político e econômico anti-ético e anti bem-estar (anti welfare), feito por indivíduos multimilionários, que desmanchou sindicatos e retirou direitos dos trabalhadores. Desenvolver esta questão ética é desenvolver valores universais... Um processo pedagógico, filosófico e de construção do conhecimento que se arrasta desde o iluminismo. É o contínuo e difícil processo de conquista (progresso) e desmanche (retrocesso) mostrado no vídeo. 

Todos os processos de desmanche da infraestrutura ou dos direitos das pessoas, são projetos do capitalismo e seus respectivos movimentos (liberalismo e neoliberalismo, por exemplo) que tratam a maioria dos seres humanos como meros objetos. E como um sistema tão nocivo à humanidade persiste? Como tais ideologias objetificadoras prevalecem em grande parte das nações? 

Para entender isto, vamos as últimas fases da ideologia que põe o dinheiro no centro de todos assuntos (capitalismo): Desde o desenvolvimento das mídias de massa no século 20, tal sistema se apoia em discursos, propagandas e afins. Ao lado de empregos precarizados (que pagam mal e exigem muita produtividade do trabalhador), promete-se o enriquecimento e produtos supostamente irresistíveis dos mais variados tipos. Propaga-se as ideias de meritocracia e a "criação de necessidades" como o consumismo: Compre cada vez mais, consuma, obtenha algum prazer sensorial, ou, se puder, muito prazer sensorial. Oras, isso é uma maneira de se ignorar o raciocínio e os sentimentos - estes últimos (os sentimentos) estão por trás da empatia/ do ato de se por na situação dos outros e se sensibilizar. 

O capitalismo, o liberalismo e o neoliberalismo são essencialmente ideologias/ sistemas materialistas e niilistas: Pregam que só a matéria importa e que nada existe depois da morte do corpo. Aqui alguns poderiam afirmar que as religiões são tão ou mais perigosas que o capitalismo, mas isto é outro engano. As religiões nocivas quase sempre escondem um interesse material por trás: Seus líderes querem enriquecer, viver no luxo etc. Uma religião capitalista ou materialista é uma mentira grotesca e contradiz o cerne de todas religiões verdadeiras e de todas espiritualidades. 

Há tantas evidências "científicas" de que o materialismo e o niilismo estejam certo quanto o mentalismo ou o espiritualismo: Nenhuma! Porém as duas primeiras ideologias são reducionistas servindo especificamente para estudar a "matéria" perceptível sensorialmente. Alegar que elas são a única base do conhecimento verdadeiro ou que são a verdade (absoluta), é mera retórica. É negar a mente (e tudo o que puder se relacionar com a mente, como alma etc) pelo simples fato de negar, ou seja, é opinião que nega a filosofia pois nega tudo que é abstrato (ética, valores individuais e coletivos, metafísica etc). Tais ideologias falaciosas não podem ser combatidas por outras ideologias ingenuamente materialistas - o socialismo e o comunismo fracassaram em combater liberais e neoliberais porque não consideram a mente abstrata, ignoram a subjetividade das pessoas e seus sentimentos. Negam a possibilidade de que a mente seja alma, imortal e com toda uma extensão desconhecida de existência. Negar aqui é afirmar a não existência, ou seja, uma falácia. A vantagem de uma visão de mundo e de um pressuposto espiritualista é considerar, no mínimo, uma dimensão além da material: Uma realidade onde são importantes e reais as virtudes, os valores universais como o bem entre outras ideias, a possibilidade da mente com seus respectivos pensamentos, sentimentos e identidade ser ou fazer parte da alma, a possibilidade de haver vidas além desta que vivemos. Uma realidade onde não se consideram culturas espiritualistas como inferiores. Uma realidade onde os saberes de vários povos (celtas, hindus, mazatecas, yourubá etc) não são considerados falsos!

Como o socialismo (ou comunismo) poderiam esperar sucesso sem dar ênfase à importância da ética e seus respectivos valores universais? Como esperar uma conscientização da população, para que esta se identifique como uma sociedade, sem desenvolvimento de fatores emocionais (e sentimentais) como a empatia? Qual é a dificuldade em entender que sem desenvolver estas questões "abstratas" ligadas à filosofia (ética), à psicologia e à construção do conhecimento (epistemologia, pedagogia etc) não há progresso humano coletivo nem individual? Sem a ênfase na ética e sem ao menos tentar fomentar empatia, é óbvio que as ideologias e sistemas mais desumanizados e objetificadores prevalecem. É por isto que o capitalismo sobrevive às crises, regularmente reinventado por elites econômicas/ financeiras. A linguagem das propagandas e ideologias capitalistas, repletas de recortes alienados da realidade e de mentiras, estão em acordo com suas bases reducionistas e desumanizadas. Essa base reducionista é a mera opinião de que o bem não existe e de que a mente é só o cérebro ou reações eletroquímicas do sistema nervoso. Estas opiniões não podem ser provadas cientificamente, por que a ciência não se baseia em negações nem tem a função de negar possíveis fenômenos, relatos de experiências individuais, fatos internos do ser humano etc.[1] 

Toda ideologia materialista quando elevada a uma verdade superior, seja na construção de conhecimento ou no viver/ no cotidiano dos seres humanos, fomenta uma busca por bens materiais e por experiências meramente sensoriais... O raciocínio e a lógica não devem priorizar questões exclusivamente materiais, pois só são completos quando visam o Bem, admitindo que ele é uma ideia abstrata porém superior! Ninguém toca, cheira ou degusta o bem, mas ele é o conceito central na ética. Ele é o conceito central da filosofia ocidental escrita por Platão há cerca de 2400 anos! [2] Esta ideia* do bem é o que há de mais amável! [3] Sim, isto é filosofia ocidental em sua origem - se a ciência despreza conceitos como o Bem e o amor, a filosofia não deve desprezar tais temas tão importantes para o ser humano. Qualquer afastamento destes conceitos é mera retórica: é negar o Bem e sua importância histórica e atual para toda a humanidade. O amor discutido por Platão, como por exemplo, na obra O Banquete, não é mesquinho, nem individualista: ele pode começar com paixões de uma pessoa para a outra (eros), mas deve ser expansivo, perpassando as amizades (filia) até alcançar o amor às instituições com fins coletivos/ sociais e às psiquês (almas ou mentes) da humanidade, em nível coletivo (ágape).

 Mas se a filosofia ocidental fundada por Platão é tão focada no bem e no amor ela é permissiva com a injustiça? Também não: A justiça deve ser aplicada para corrigir a psique de indivíduos corrompidos pelo poder (seja econômico, político etc), mas ela não é o tema central da filosofia em sua origem. A justiça proposta por Platão, e por seu mestre, Sócrates, não é punitivista! Portanto não é uma justiça que se baseia na ameaça e no medo; ela prioriza a melhoria das pessoas partindo de suas psiquês. 

O ponto central é a ideia do bem; ideia porque assim como a psiquê, ela é abstrata. Não é meramente sensorial, pois o que é captado pelos 5 sentidos humanos se decompõe com o passar do tempo e as ideias não são assim: Elas podem ser perpetuadas. 

*Eidos de Platão tem um significado mais profundo que cito em outros textos. 

Assim, fica nítido que o capitalismo não tem nada do cerne da filosofia ocidental, que é socrática/ platônica em sua origem. A filosofia ocidental em sua base é ética e busca a melhoria do ser humano à nível psíquico [4]. O capitalismo sendo uma ideologia materialista, não é nada psíquico: Ele nega o psiquismo, ou seja, nega a subjetividade e a mente humana de modo geral. O capitalismo assim, é uma ideologia reducionista, porém pior do que um materialismo puro e cru, ele trata o dinheiro como questão central na vida humana. O materialismo tem sua utilidade em estudos especializados em fenômenos perceptíveis sensorialmente como eu já mencionei, já o capitalismo foi colocado como uma ideologia que lida com seres humanos a nível coletivo! Ao deixar as questões filosóficas de lado, tal ideologia jamais deveria ser aplicada nas relações humanas! Talvez isto se justificasse na antiguidade devido às limitações de transporte, de estocagem, do desenvolvimento das leis etc. Porém a proposta do capitalismo após a industrialização é de que tudo deve ser mercantilizado, portanto esta ideologia além de materialista, é mercantilista também. Não só isso, ela mercantiliza a própria unidade de medição de valores dos bens e serviços, ou seja, mercantiliza o próprio dinheiro... E isso é um extremismo da mercantilização: Qual é a lógica de se alugar ou vender dinheiro?? O que há de científico nisto? Certamente nada. 

O capitalismo então como uma ideologia materialista e mercantilista-extremista precisou de argumentos para ser colocado em prática na história da humanidade! É aí que surgiram os sistemas "sócio econômicos" do liberalismo (na Inglaterra durante o final do século 17) e do neoliberalismo (nos Estados Unidos em meados do século 20). Estes sistemas, como são popularmente ensinados nas escolas, não ficaram restritos aos seus países de origem: Eles foram colocados em prática por iniciativa de empresários multimilionários através de governantes servis ou interesseiros em várias nações, principalmente as do ocidente. Os "intelectuais" que apoiaram tais sistemas pouco se importavam com ética, valores universais, ou com a subjetividade dos seres humanos. E por se distanciarem destes temas centrais, tais "intelectuais" abandonavam ou mesmo contrariavam o cerne da filosofia ocidental, podendo ser considerados na prática como sofistas que se apresentavam como filósofos entre os séculos 17 e 19 ou como economistas a partir do século 20. Por fim, defensores do capitalismo jamais podem ser verdadeiros construtores de conhecimento. Seus argumentos contradizem a filosofia ocidental desde sua raiz em Sócrates e Platão, impossibilitando a utilização de pressupostos filosóficos para construir um conhecimento aplicável sobre as sociedades e sobre a humanidade em geral. Os pressupostos do capitalismo são meramente "filodóxios": Apoiados em mera opinião. Esta opinião não pode ser considerada filosófica porque se baseia em negações como descrevi anteriormente: Afirma que só a matéria mensurável importa (ou só ela existe) praticamente negando a importância da psiquê e toda sua subjetividade (sentimentos, pensamentos etc), negando valores universais (justiça, piedade, equidade, progresso entre outros tão importantes na construção das leis para convívio em sociedade) e precificando vidas humanas. E se o capitalismo não pode ser defendido filosoficamente, ele não pode ser defendido cientificamente nem religiosamente ou de qualquer outra forma que busque construir um saber. A defesa do capitalismo, ao se apoiar em tantas negações (e reduções, desconexões/ recortes, mentiras etc), nega um diálogo real. O termo diálogo que vem dos antigos termos gregos "dia" e "logos", respectivamente significando "através de/ dois/ completamente" e "estudo/ palavra/ racional" não são adequados aos defensores do capitalismo, pois as negações se configuram mais como o termo grego "diabolos", com o sufixo bolos significando negação. Negar a existência ou a importância da ética, da ideia do bem e da psiquê, é meramente (talvez literalmente) diabólico. 

Sim, a psiquê humana e a ideia do bem são temas de extrema importância para o ser humano, seja a nível individual ou coletivo. A psique é importante por se tratar de toda realidade interna do ser humano, sua subjetividade humana e possivelmente sua alma, já que não existem provas de sua inexistência. Tentar provar inexistências é negação, uma atitude básica de ideologias como o capitalismo. Qualquer ideologia que negue a psique, a possibilidade de melhora e o bem, quando aplicada ao ser humano, é uma ideologia mentirosa e destrutiva.


Referências: (listagem incompleta)

https://www.youtube.com/watch?v=O-QomaXpn_A (Como era a Escravidão na África antes da chegada dos europeus)

[1] https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/12/filosofia-teoria-mente-corpo-e-o.html

https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/11/filosofia-teoria-mente-corpo-e-o_01035175189.html

https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/11/filosofia-teoria-mente-corpo-e-o.html

[2] Platão - A República;

[3] Platão - O Banquete;

[4] Platão - Fedon; 

https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/08/psique-e-importancia-dos-valores.html


Breves observações sobre Hipias (Maior e Menor)

Aqui trago breves observações sobre dois textos de Platão. Embora os dois mostrem uma suposta conversa entre Sócrates e o sofista Hipias, o tema dos 2 textos diferem entre si.

Hípias Maior (Da Beleza) 

Platão mostra o diálogo entre Sócrates e um bem-sucedido sofista chamado Hípias. Sócrates diz à Hípias que precisa dar uma respostas satisfatória para um homem, sobre o que é o belo (kalos, similar à palavra inglesa “fine”). Ao pedir para que Hípias ajude-o a descrever o que é o belo, eles debatem opiniões e Sócrates, como de costume, começa a conduzir o diálogo com seu método (a maiêutica). 

Hípias, notavelmente um materialista, dá respostas insatisfatórias à Sócrates, que para acompanhar o raciocínio de seu interlocutor com certa ironia, também dá exemplos materiais de beleza, causando certa perplexidade no sofista. A partir daí, Sócrates parte para exemplos menos físicos, passando pela capacidade, dos indivíduos, utilidade das coisas, justiça, e, de certo modo, pela estética - o prazer da visão e da audição e finalmente do bem (o que é benéfico e bom). 

Ao mencionar o prazer da visão e da audição, Sócrates destaca que esses prazeres têm beleza, diferente daqueles dos demais sentidos (olfato, paladar e tato), que apesar de prazerosos, diferem de beleza. [297e - 299e] 

Os prazeres captados pelo tato, paladar e olfato embora desejáveis por muitas pessoas, geralmente não são admiráveis de se assistir e isto possivelmente tem relação ao fato de serem oriundos de fenômenos mais químicos, ou seja, mais “corporais” de cada ser individualmente. Quando falamos dos prazeres destes sentidos, é mais comum os gostos individuais e as divergências: Uma pessoa pode apreciar determinados sabores que outros abominam. Esses sabores variam não só em categorias (doce, salgado, amargo e azedo) mas também de alimento para alimento, possibilitando uma variância inumerável de gostos e “repulsas”. Alguém poderia afirmar que existem as culinárias típicas de determinados povos e culturas, porém isto também é baseado em limitações de disponibilidade dos tipos de alimento por região e não só uma questão de gosto "grupal" ou "coletivizado".

No caso dos prazeres táteis há os prazeres geralmente considerados suaves, como as carícias, abraço, cafuné (etc), e os normalmente mais intensos como os sexuais. Só neste último caso, por exemplo, cada pessoa pode ter diferentes zonas erógenas (excitáveis) em seu respectivo corpo. Algumas podem gostar muito destes prazeres, outras podem gostar menos etc. 

Nos “prazeres” da audição e da visão, embora possam haver divergências, há mais consenso, talvez indicando gostos mais coletivos e culturais. Isto pode refletir nas músicas, danças, pinturas/ desenhos, vestimentas e esculturas (com suas respectivas cores, padrões geométricos, texturas etc) de cada cultura ao longo da história da humanidade por exemplo. Assim como existem arquiteturas típicas  de uma nação ou grupo de nações, existem músicas regionais, tribos sociais etc.

Os prazeres da visão e da audição são causados então por uma beleza que o ser humano entende a partir de certas coisas que enxerga e ouve (belas paisagens, melodias etc) a qual Sócrates chama de essência. Hípias se mostra resistente à ideia de que haja algo em comum por trás da beleza captada pela audição e pela visão e tenta argumentar contra Sócrates, porém não é bem sucedido. 

Interessante notar que estes dois sentidos (visão e audição) captam ondas, sendo que algumas delas se propagam pela atmosfera e outras são aparentemente mais independentes do meio (por exemplo a luz, que é um tipo de onda eletromagnética, as ondas de rádio etc). 

Ao final do diálogo, Hípias se mostra irritado e critica Sócrates, pois o sofista despreza a filosofia, e prefere se empenhar em obter ganhos imediatos através de seus discursos políticos ou de seus discursos nos tribunais. 

Hípias Menor (Do Falso) 

No segundo diálogo com Hípias, Sócrates questiona o sofista em relação à sua apresentação de uma obra do antigo poeta Homero. Sócrates mostra que o personagem Aquiles também age como espertalhão, não sendo (apenas) Odisseu que age desta forma. 

Hípias tenta defender Aquiles, alegando que este é melhor porque diz mentiras ou coisas equivocadas involuntariamente, enquanto Odisseu faz isso voluntariamente.

Sócrates então conduz o diálogo com seu método da maiêutica, fazendo Hípias mostrar que melhor é o indivíduo que realiza seus atos voluntariamente tanto em atividades físicas como em atividades psíquicas (lembrando que a palavra psiquê era empregada com o significado de alma, mas de modo abrangente, incluindo o conceito de mente e todos seus aspectos como memória, aprendizado etc). O indivíduo melhor em determinado(s) conhecimento(s) e/ ou o mais capaz, consegue fazer suas obras voluntariamente, seja de maneira boa/ correta ou de maneira má/ errada. Sócrates conclui que a justiça é uma qualidade da psiquê desenvolvida e aquele que comete injustiça voluntariamente tem conhecimento sobre a justiça. Se Aquiles estivesse mentindo involuntariamente como propôs Hípias, ele seria pior do que Ulisses no que se refere ao desenvolvimento da noção do bem, da justiça e do que é correto.

Aparentemente o diálogo leva a uma estranha conclusão: De que os homens bons são os que fazem os atos maus, pois os homens maus, são ignorantes, ou seja, de alma doente ou defeituosa, portanto estes últimos cometeriam a maldade de modo involuntário, enquanto os primeiros cometeriam voluntariamente. 

Porém também é possível entender que Sócrates quis dizer que as almas inteligentes e/ ou sábias devem ter mais responsabilidade devendo também liderar pelo bom exemplo, com justiça, temperança e benevolência - quando não o fazem, caem nos erros mais nocivos, podendo ser esta nocividade (a si mesmo e/ ou aos outros), tanto em intensidade como em amplitude. Isto não é absurdo, tendo em vista que o diálogo começa a tratar personagens semi lendários da Grécia antiga e de seus arredores (Tróia) e possivelmente tais personagens também eram poderosos em algum aspecto, por serem líderes tidos como “filhos de deuses”. 

Neste suposto diálogo entre Sócrates e Hípias, o mentiroso personagem Aquiles só poderia ser considerado melhor do que Ulisses (ou qualquer outro personagem) porque sabia o que estava dizendo, portanto era melhor em alguma coisa: ter noção do que é certo e errado, verdade ou mentira. 

É importante notar que Sócrates não considera admirável a pessoa que comete injustiça voluntariamente, pois Platão indica que ele critica tais tipos de pessoas no diálogo com Górgias e seus companheiros, bem como em sua Apologia. Além disto, Sócrates e Platão entendiam a psiquê como algo indestrutível, portanto, imortal. Sendo assim, a alma do justo logicamente se unirá com outras almas justas após deixar o corpo, enquanto o injusto atrairá injustos para si...

 

Breves observações sobre a obra Parmênides (Das "Formas")

 

Deste ponto em diante pretendo trazer mais leituras de filosofia neste blog. Particularmente darei ênfase as obras de Platão (e de Sócrates), pois são os fundadores da filosofia ocidental - uma filosofia centrada na ética, que abordou questões de comportamento dos indivíduos ante a sociedade, de educação, de construção do conhecimento, de política e de espiritualidade/ religião.

Parmênides (ou, Das Formas) é um texto de Platão que mostra os personagens se recordando de quando Sócrates era jovem ao conhecer Parmênides e Zenon (traduzido para o português como Zenão). 

 Embora o diálogo entre Sócrates, Parmênides e Zenon pudesse ser uma das primeiras “discussões” do mestre de Platão com sábios de seu tempo, sua historicidade não é certa: De acordo com as datas mais aceitas em que ambos filósofos viveram, o diálogo teria acontecido quando Parmênides estava em seus últimos anos de vida e Sócrates tinha só 10 anos de idade... E isto é improvável! Assim, restam duas opções: Esta é uma das obras onde Platão usa de "licença poética" e cria o diálogo entre os  personagens; ou o período em que um dos (ou ambos) filósofos viveram está errado e o encontro realmente aconteceu.

Independentemente da historicidade do diálogo, o seu conteúdo não é dos mais fáceis. O diálogo dos personagens desta lembrança começa sobre o uno (ou Uno, talvez seja a grafia mais correta), e aborda ontologia, numerologia, esbarrando sutilmente em questões científicas descobertas somente no século 21 (2500 anos após a morte de Sócrates). Por exemplo, o que Parmênides diz ao descrever o Uno, dá indícios sobre como ocorrem as relações entre o microcosmo (moléculas e átomos que formam os corpos), o “mundo perceptível” pelo ser humano em seu estado natural e o macrocosmo (galáxias etc). Pode-se até mesmo especular como ocorre uma relação entre a terceira e a quarta dimensões a partir da fala do personagem Parmênides. Isto tudo falando somente em linguagem filosófica; nada de física, de química ou de matemática...

 Parmênides diz que alguém que sustente que para cada coisa há um ser (ousian), ele por ele mesmo, concordaria que nenhum deles residiria em nós. ... Entende-se que esse ser (ousian) é absoluto. Então como poderia ser absoluto se residisse em nós, seres humanos? Nós vivemos entre as coisas que nos cercam e nomeamos tais coisas, por isso (deste ponto de vista, ao menos) somos relativos e não absolutos. 

Neste trecho podemos entender que o que constitui o meio onde vivemos seja essencialmente formado por coisas perecíveis: Plantas, animais, solo, minerais, todos têm moléculas, átomos e sub-partículas, sendo divisíveis, decompondo-se em algum nível etc. Mas se nossos corpos são perecíveis, o que há de absoluto em nós?

Platão, em outras obras, vai dizer que nossa psiquê (seja alma ou mente) é indivisível. Mesmo as coisas mais maléficas para a psiquê, não podem destruí-la. Platão cita como exemplo, os vícios (não exatamente em substâncias psicoativas/ as famosas drogas), que fazem as pessoas a se entregarem aos prazeres sensoriais dos sabores dos alimentos, do sexo, do acúmulo de riquezas materiais (etc). Tais sensações de prazer nunca satisfazem definitivamente a pessoa, e hoje neste início de século 21, possivelmente já existem estudos confirmando isto: A compulsão em prazeres (ao menos os sensoriais, ou os mais químicos, como do paladar, do tato...) parece causar o contrário da satisfação plena ou definitiva: O sistema nervoso de nosso corpo acostuma-se com os efeitos causados por certas substâncias, e, ao invés de "satisfazer-se", tende a "pedir" mais. Obviamente a intenção aqui não é detalhar a parte neurológica, mas apenas indicar que há um nexo ou aproximação entre as explicações "socráticas/ platônicas"de vício e psiquê e as descobertas psico/ neurológicas da pós modernidade.

Nas diversas obras em que Platão discorre sobre a psiquê, ele frequentemente critica a ganância, a avareza e o hedonismo (em Hipias Maior, Filebos e Górgias, por exemplo). Ao mostrar Sócrates utilizando a maiêutica nos diálogos com outros personagens, Platão indica que é possível despertar as virtudes, a noção do que é belo e bom (kalos) nas pessoas.

Seriam estas coisas o que temos de absoluto? A psiquê (mente/ alma) e a noção do bem? É o que parece.

Parmênides continua explicando a importância de se levantar as consequências possíveis caso algo seja e caso algo não seja. (136 a-d) Este parece um modelo de base filosófica onde não se prioriza descobrir se determinada coisa (hipótese, teoria, fenômeno...) é ou não é - Prioriza-se quais serão as consequências disto. Isto já mostra que o importante dos estudos não é descobrir o que é ou o que não é. A finalidade, ou a importância é quais serão as consequências do estudo. Para que a pesquisa servirá?

Embora alguns autores da era moderna chamem isto de teleologia, para Sócrates e Platão,um professor de ontos* deveria buscar a melhor maneira das coisas serem. Assim entende-se que buscar a melhor maneira das coisas serem é a finalidade da busca pelo saber, da construção de conhecimento. Tais questões que estão no ponto de partida de qualquer estudo, são da Ontologia, mas isto eu explicarei melhor ao "falar" da obra Fedon.

Como o texto Parmênides é complexo, eu encerrarei minhas observações e explicações por aqui e talvez eu traga mais comentários sobre ele no futuro... 


*(de ser, do ser, ou seja, professor de ontologia)

Questões de Indivíduo e de Coletivo

 

Prelúdio: Discursos Contraditórios e Manipuladores nas Religiões

Para abordar um problema possivelmente complexo envolvendo "individualidade e coletividade", começarei com o típico conflito entre religião e ciência.

Na "revista espírita/ jornal de estudos psicológicos" de maio de 1862, O fundador do espiritismo, Allan Kardec, (recebeu e) publicou a seguinte carta de autoria de um indivíduo que se identificou como "Gauzy": 

"Li com muita desconfiança, direi mesmo com o sentimento de incredulidade, vossas primeiras publicações sobre o Espiritismo. Mais tarde as reli com enorme atenção, bem como as vossas outras publicações, à medida que apareciam. 

Devo dizer sem preâmbulo que eu pertencia à escola materialista, porque de todas as seitas filosóficas ou religiosas era a mais tolerante e a única que não tomava armas para a defesa de um Deus que disse pela boca do Mestre: “Os homens provarão ser meus discípulos amando-se uns aos outros”. Depois, porque a maioria dos guias que tem a Sociedade para inculcar nos espíritos jovens as ideias de moral e de religião, pareciam mais determinados a lançar o pavor nas almas do que ensinar-lhes a bem se conduzirem e a esperar uma recompensa aos seus sacrifícios e uma compensação às suas aflições. 

 Assim, os materialistas de todas as épocas, e principalmente os filósofos do século passado, a maioria dos quais ilustram as Artes e as Ciências, aumentaram o número de seus prosélitos, à medida que a instrução emancipava as criaturas. Preferiu-se o nada aos suplícios eternos. 

É natural que o infeliz compare. Se a comparação lhe for desvantajosa, ele duvidará de tudo. Com efeito, quando vemos o vício na opulência e a virtude na miséria, se não termos uma doutrina raciocinada e provada pelos fatos, o desespero apodera-se da alma, perguntamos o que é que se ganha em ser virtuoso, e atribuímos os escrúpulos da consciência aos preconceitos e aos erros de uma primeira educação." (...)

O correspondente continua explicando que aceitou o espiritismo porque este procura explicar fenômenos sem as contradições absurdas e as condenações tão comuns no meio religioso. 

Aqui não vou avaliar as qualidades ou defeitos do espiritismo. O fato mais importante da carta de Gauzy é mostrar que muitas pessoas deixaram o cristianismo na Europa dos séculos 18 e 19 por causa de certas contradições na igreja. Estas contradições obviamente são propagadas por pessoas em posição de poder dentro do meio religioso - não se trata de uma propagação feita pelo povo, nem pelas massas dos fiéis. 

A religião/ a espiritualidade geralmente faz parte de uma "visão de mundo", de uma cosmovisão que toda pessoa tem. Isto pode ser notado na história - Cada cultura da humanidade tem uma visão de mundo diferente entre si porque o ser humano se organiza em sociedade/ em coletivos, e cada indivíduo é afetado por esta, mas pode alterá-la com suas próprias interpretações devido suas experiências particulares. 

Contradizer os ensinamentos de amor e piedade propagados por Jesus, defendendo a utilização de armas, e portanto, de violência, pode ser feita por qualquer indivíduo interesseiro, mas quem espalhou tal tipo de mentira por séculos? Os chefes das igrejas (bispos etc) fazem isto no mínimo desde a Idade das Trevas (séc 5...) 

Propagar medo através de discursos de penas eternas, inferno e coisas similares é ato de quem nas religiões? Isto é realmente diferente de um discurso condenatório ou limitador? Quem ao invés de propagar a partilha do alimento, a solidariedade, a piedade, o amor, a humildade, prefere deixar os cristãos amedrontados? Eles novamente: os líderes, os religiosos em posição hierárquica, no mínimo, em posição de autoridade sobre os coletivos de fiéis. 

Diante tal cenário, as pessoas que buscam viver os ensinamentos de Jesus em algum nível (os cristãos, por exemplo), tem poucas opções: Uma é continuar cristão. Neste caso, ou ele vira um cristão independente de igrejas (algo muito raro durante o século 19, época de Kardec), ou ele contradiz o que entendeu de Jesus Cristo e passa aceitar os absurdos de seu líder corrupto. Outra opção é se afastar, buscar outra "visão de mundo". É aí que se encontrava Gauzy - Diante as contradições apresentadas por líderes picaretas, ele havia se tornado materialista que é praticamente um ateísmo e um abandono da visão de que possa existir algo além da mera vida material. Ele passou a negar tudo que não era perceptível sensorialmente, o que é uma reação intensa que extrapola a religião/ o cristianismo - é uma aversão à TODA religião / espiritualidade, uma visão de mundo reducionista, que nega o desconhecido para os sentidos. 

Esta reação exagerada (um "over react") continuou a ocorrer na história da humanidade após o século 19. Cada pessoa pode ter sua cosmovisão ou visão de mundo, mas não é algo ético tentar forçá-la sobre os outros, seja através de ameaças, ou através de métodos mais sutis, como disfarçar sua opinião de alguma forma de conhecimento/ de saber. Utilizar-se de um meio do qual as pessoas esperam alcançar a verdade (ou alguma verdade) para propagar a própria opinião e/ou realizar discursos manipuladores é algo que se espalhou para além da religião já na época desta carta (século 19). E se os discursos/ argumentos mentirosos se propagam, eles podem causar estragos a nível social coletivo das mais variadas maneiras.

160 anos depois ainda temos a propagação de discursos contraditórios e manipuladores 

Ano passado (2022) me entregaram um jornal de uma das inúmeras igrejas evangélicas da capital paulista e eu dei uma olhada para ver do que se tratava as matérias. 

De fato eu não esperava muita coisa, talvez por preconceito, talvez porque eu tivera uma rápida conversa com um pastor daquela igreja que apareceu em um centro de acolhida que eu visitava regularmente. O que eu vi no jornal foi os seguintes tipos de discurso: Que atualmente as pessoas estão se perdendo em questões externas, que olham muito para o que está acontecendo ao seu redor, ou pelo mundo; Por causa disto, as pessoas não prestam atenção em si mesmas, não dedicam tempo a si mesmas; 

Até aqui, há uma verdade (possivelmente vaga) nestes argumentos pouco embasados e pouco conclusivos, porém o seguinte tipo de discurso completava estes dois, mostrando quais eram os "valores" daquela igreja: As pessoas tem que dedicar mais tempo a si mesmas, ou nada muda. Não conseguirão empregos, nem dinheiro, nem os tão sonhados bens básicos que todos querem, como casa e carro... 

O que dizer sobre tal tipo de conteúdo? Ensinamento de Jesus Cristo? Certamente não. 

Meritocracia? Coach corporativista? Conservadorismo? Sim, um pouco de cada uma destas coisas, ou tudo isto junto. É mais do mesmo: Teologia da Prosperidade, ou seja, praticamente um culto ao "deus" dinheiro, uma ideologia precificadora e desumanizadora que vem crescendo há tempos, principalmente dentro de certas religiões ou espiritualidades. 

Esse tipo de discurso asqueroso (feio e nocivo), foi se espalhando na "grande mídia" lá pelos anos 70 ou 80 do século 20 e depois do crescimento das empresas de redes sociais na internet (por volta das duas primeiras décadas deste século 21), obviamente o espalhamento continuou. Nos últimos anos vi este discurso infestar a internet: Grupos de que participei tinham alguns admiradores de religiões orientais (budismo e/ou hinduísmo) que eram "teólogos" da prosperidade. Pregavam que a dificuldade dos outros era karma, mas a de si próprios não. Tentavam manter postura "gratiluz", mas mal superavam seus próprios egoísmos, machismos e outras atitudes nocivas. Um ou outro destes indivíduos que se abria ao diálogo começava a entender a realidade e se corrigir, mas tantos outros se fechavam em suas ideias individualistas. Deixando de lado os ateus de direita e falando só dos religiosos e "espiritualistas", eu vi o mesmo tipo de postura entre espíritas, umbandistas (!) e claro, entre católicos e crentes (evangélicos/ "protestantes"). Mais surpreendentemente encontrei pessoas que (supostamente) admiravam a filosofia de Sócrates e Platão e discursavam argumentos neoliberais/ capitalistas/ de direita... Estes não entenderam nada de Górgias, da Apologia de Sócrates, de Filebos nem da República... 

Por fim, defensores deste tipo de discurso hipócrita e alienado não se limitam às religiões e filosofias, pois se espalharam, invadindo também as ciências. Seguem dois exemplos distintos entre si nas ciências: Olavistas (místicos conservadores e fascistas) distorcendo a teoria (e certamente a prática também) da logoterapia e materialistas utilitários na neurologia e na neuropsicologia, negando a existência da mente (consequentemente da alma também, é claro) e classificando sentimentos e sentido de vida como ilusões, tolices ou ingenuidades... O 1º caso é fácil de ser identificado como pseudociência, ao menos entre pessoas com algum estudo. Já o 2º caso eu tratei em outros textos e é bem mais complicado: Isto porque tal caso está enraizado na ciência tradicional, ou, em outros termos, é uma mera visão de mundo/ opinião vendida como verdade e como pressuposto filosófico no "mainstream" da ciência. 

Mas o que há de errado em se posicionar como neoliberal, ou "à direita na política"? 

Basicamente é a idolatria da ganância e propagação do egoísmo, mas isto eu também já devo ter explicado em outros textos e não vou detalhar mais aqui. 

Referente a "esquerda política" o erro mais comum é propagar o materialismo como verdade absoluta - um reducionismo que acaba servindo grandes líderes da direita que obviamente defendem não só uma "filosofia" (visão de mundo), como também um estilo de vida... materialista.

Porém a questão é mais do que social, política e econômica: Ela não é só coletiva, mas um problema dos indivíduos também; é uma questão psicológica e ética! E sendo ética, é também uma questão filosófica, metafísica e até espiritualista/ religiosa! 

Individualidade e Coletividade 

Alegar que a pessoa não olha para si mesmo é uma afirmação parcial e incompleta. Deve-se questionar, olhar para si mesmo em busca de quê? De se tornar compreensivo? Tolerante, solidário, humilde? Buscar uma postura ética de valores universais que se aplicam a si mesmo e a todos os outros? Isto seria bom, e é o que pregaram, ao longo da história da humanidade, certas espiritualidades e líderes espirituais como (Santa) Teresa d'Ávila, Lahiri Mahasaya, Yogananda entre tantos outros. 

 Porém o que os religiosos do jornal mencionado neste texto (similarmente a outros indivíduos neoliberais/ individualistas) pregam é a busca pelo sucesso material (financeiro, status etc) deixando de lado questões sociais. Parando de olhar os problemas no entorno, na sociedade, a nível coletivo. É um discurso antissocial e anti político que favorece a busca descontrolada por riquezas materiais e portanto de prazeres materiais etc. É um individualismo disfarçado de individualidade, que fomenta a ignorância política, a conveniência com o "cada um por si e ninguém por todos". Não tem nada do Deus que Jesus nos ensina neste discurso... 

Seja de um ponto de vista religioso, filosófico ou científico, cada indivíduo precisa aprender a viver em sociedade. Ele pode tirar o quanto de tempo for em retiro ou isolamento e isto pode lhe fazer algum bem. Mas destes 3 pontos de vista ele tem deveres de convívio - ninguém existe só para si mesmo. Tentar omitir ou distorcer isto é uma falácia: para ser forte não é preciso ignorar o meio, muito menos tirar proveito de outros indivíduos ou coletivos. Esta suposta força invocada por coachs, por pastores do deus dinheiro e por mega empresários é vendida como algo mental, como se abandonar a empatia ou contrariar a empatia fosse um sinal de superioridade intelectual ou força de vontade. Porém, na verdade, é o contrário: qualquer indivíduo que sucumbe a desejos de posse ou de prazer, facilmente faz mal ao próximo e não demonstra força de vontade alguma! 

Força de vontade é resistir impulsos animalescos, desejos mesquinhos e caminhos fáceis de se dar bem prejudicando outros. É não revidar ofensas banais, mas também é não deixar de denunciar quem  prejudica os outros buscando proveito próprio. Esta força de vontade foi atacada em diversos setores da sociedade, particularmente nas áreas do saber, ao menos, desde o início do século passado. 

Nas religiões (particularmente nas "cristãs"), temos a propagação da insensibilidade, do conservadorismo da pobreza e da miséria alheia, criticado por alguns poucos movimentos como a teologia da libertação, por exemplo. 

Na filosofia e na ciência, tivemos movimentos niilistas e materialistas que atacaram e ainda atacam a espiritualidade e a subjetividade dos indivíduos, como nos mostram por exemplo, Rollo May (no livro Love and Will) e Viktor Frankl (em sua obra Vontade de Sentido). 

Com todos estes ataques à empatia e à força de vontade deveríamos entender que para se criticar o que há de errado nas religiões, não é necessário assumir uma postura anti religiosa nem anti espiritualista. Não é a possível existência de espíritos, da imortalidade da alma, nem a presença de uma mente cósmica (Deus) que precisa ser combatida: São os interesses mesquinhos e práticas de extorsão, chantagem e ameaça que devem ser combatidas. 

Eles também mostram que a ciência não precisa impor verdades absolutas, emitindo juízos sobre outros saberes. Não são essas coisas que constroem conhecimento, na verdade é bem possível que tais posturas atrasem ou impeçam investigações e descobertas. Construir conhecimento não é coerente com determinismos nem com relativismos: requer buscar melhoria, seja essa melhoria chamada de progresso, de desenvolvimento ou de evolução.

De fato, como indivíduos, durante a maior parte do tempo é difícil fazer algo em prol do coletivo e isto é óbvio. Porém uma sociedade composta por pessoas de mentes (ou almas) empaticamente, eticamente ou espiritualmente bem desenvolvidas não se compraz na miséria de outros. Pessoas éticas, empáticas ou verdadeiramente espirituais/ religiosas não pensam nem agem de maneira mesquinha, buscando cada vez mais riquezas materiais. Não buscam se sobressair sobre os outros, humilhando-os ou oprimindo-os. Pessoas evoluídas moralmente, socialmente ou espiritualmente desejam o bem dos outros à nível coletivo, em outras palavras, desejam o bem da sociedade e da humanidade. Claro que não só materialmente, pois deve-se desejar o bem-estar psíquico dos outros, e, porque não, espiritual também... Mas desejar que os outros desenvolvam-se moralmente ou espiritualmente é algo que requer paciência e esperança, pois não se pode forçar as outras pessoas neste tipo de evolução ou progresso. Esta evolução humana é interdependente: Há progresso material, social e há progresso moral/ ético. Este último está mais ligado à psicologia, à filosofia e à espiritualidade de cada pessoa. A civilização evolui quando os indivíduos evoluem e vice-versa: uma sociedade justa, com boas leis funcionando, com equidade (acesso aos recursos e oportunidade para todos) e diversidade (cultural/ artística, espiritual, religiosa) causa muito menos entraves no progresso dos indivíduos, pois há menos dificuldades, sejam conflitos/ violência ou miséria. Portanto a evolução individual deve servir a coletiva em algum nível, e a coletiva deve servir a individual. Não há espaço para discurso de enriquecimento individual nem de rivalidade (seja competitividade ou intolerância) nesta evolução.

Para preencher o vazio

Este é texto é uma continuação (feita em 07/2021) mais filosófica do "O Que preenche o Vazio?": 

Um vazio (seja ele afetivo, existencial ou outro) é natural? Possivelmente não enquanto a existência persistir… O natural seria preenchê-los, no mínimo, em algum momento. O vazio é a “falta de” e pode ser ocasionalmente notado desde a “abstrata” mente humana até os confins do “concreto” universo/ espaço-tempo conhecido até então. 

Quando faço a comparação de aquisição e desenvolvimento racional/ empático com o processo de expansão mental ( neste texto, por exemplo: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/05/3-be-ba-da-realidade-o-que-e-ciencia.html ), também considero possível relacionar este fenômeno com o processo de surgimento e desenvolvimento de todos os corpos do universo. Claro, é uma relação bem generalizada, mas há semelhanças entre variados sistemas, biomas e formas de vida, do macro cósmico ao microcósmico: Sistemas estelares nascem e morrem, assim como as florestas, as árvores, as faunas, os animais, as civilizações etc. Os sistemas estelares devem estar distribuídos em um determinado padrão de posição e/ ou de movimento, assim como os planetas têm seus movimentos padronizados por suas órbitas que se relacionam com uma estrela. Nossa estrela, o Sol, relaciona-se com todos biomas da Terra, afetando o clima, causando degelo, inundações ou secas. As florestas e os demais biomas da Terra relacionam-se não só através dos ventos que carregam areia, pólen ou outras partículas entre um e outro, como também relacionam-se com animais que migram de um ponto ao outro. Todas essas trocas relacionadas por plantas e animais relacionam-se com o solo afetando sua composição química também. Por fim, o ser humano é o que mais altera (ou adultera) a composição dos biomas, dos solos, das faunas etc. Em algum nível, tudo relaciona-se. Nada está completamente à parte de tudo. 

Voltando aos corpos maiores como estrelas e buracos negros, sabe-se que eles têm a capacidade de distorcer o espaço-tempo. Tais propriedades devem ter alguma relação com as teorias de dimensões além das três (ou quatro) conhecidas pelo ser humano até então. Confirmando-se estas propriedades, abre-se a chance de entender que as relações mencionadas anteriormente vão além do espaço-tempo, ou seja, além da tridimensionalidade. 

Então, o processo de expansão/ extensibilidade psíquica também pode ter uma relação (como em outros sistemas) com estas dimensões praticamente desconhecidas até então. Isto poderia explicar os inúmeros relatos de experiências transcendentais, sobrenaturais e outras similares a estas. Relatos que se estendem desde a história pré-escrita da humanidade, por todo globo terrestre. 

O mesmo vale para o que é conhecido como alma. Este conjunto de aspectos psíquicos presente nos seres humanos, ou possivelmente, a essência do ser humano, poderia se estender para muito além do que entendemos como vida. 

Todo este texto é descritivo, ou seja, um tanto racional. Isto se deve por se tratar de uma tentativa de mostrar e explicar a relação entre todos estes assuntos tão variados, tidos por grande parte da humanidade, como temas isolados e independentes entre si. Mas, apesar de toda racionalidade, este texto certamente seria considerado como fútil por grande parte da comunidade científica atual. Por enquanto não vou me ater aos possíveis motivos deste julgamento. 

O fato é que essa relação entre assuntos supostamente tão variados entre si, também trata se sentir e de sentimentos, pois também trata desde a empatia de um ser humano até suas relações sociais e o comportamento da sociedade… E muito mais, é claro. Estamos falando de sistemas e de relações. Não de meras medições e quantificações, mas de todos os elementos/ corpos e de suas respectivas relações. E se sentimentos estão nesse processo de expansão/ extensão, em seu ápice, tal processo seria muito vasto. Esta vastidão que se relaciona fisicamente poderia ser chamada de universo ou qualquer coisa assim. Mas no que se diz respeito à inteligência e ao sentimento estamos falando de mente. Uma mente tão abrangente, ou seja, literalmente grandiosa, seria Deus. 

 Com toda essa “viagem”, estou trazendo os sentimentos ao centro de todo um assunto sobre sistemas. Eles existem e se manifestam frequentemente. Estas manifestações as quais podemos chamar de emoções se dão através do que entendemos como matéria, mais especificamente, através dos corpos, como por exemplo, os corpos humanos. Sorrisos, choros, risos, gritos, gestos corporais ou com as mãos, tanto faz. São os meios de manifestação de algo central na existência humana - os sentimentos. Central porque existem há centenas de milhares de anos, desde o surgimento ou desenvolvimento dos homo sapiens, e até mesmo antes disto. Embora as emoções sejam as manifestações, ou seja, as expressões - o que sai através do corpo, sabemos que há mais coisas envolvidas pelos sentimentos. Hormônios saem do corpo pelo ar podendo ser farejados por animais como cães por exemplo. Mas não é só isto: há todos os mecanismos do cérebro e do sistema nervoso: as sinapses e seus impulsos elétricos etc. Mas não devemos confundir estes efeitos e produções com os sentimentos em si. Isto não seria científico. Não seria inteligente nem sábio, nem empático. Seria ignorância ou mera opinião. Entendemos os sentimentos como vários, mas já expliquei rapidamente sobre alguns deles em outros textos. O que quero resumir aqui é: o vazio sendo o mais próximo de uma "não relação" (ou talvez uma “não existência” de algo), na mente humana ele surge para ser preenchido. Não vou falar de um ritmo do qual ele deva ser preenchido, nem de um sentimento específico ou uma possível intensidade deste. Como eu disse em outro texto ( https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2023/12/o-que-preenche-o-vazio.html ), o sentimento positivo é o naturalmente “querido” ou “desejado”. 

Não estou defendendo a ideia esdrúxula típica de alguns coach, que dizem para as pessoas pensarem positivo o tempo todo, ignorando a realidade ao seu redor. Mesmo porque tais ideias parecem oriundas de uma mistura do pensamento meritocrático pregado no mundo empresarial com o “gratiluz” ou “goodvibes'', o que resulta em uma teologia da prosperidade (deus dinheiro transvestido de conceitos de religiões/ filosofias orientais). Quando cito o necessário para se buscar saúde mental ao preencher vazios, me refiro mais a um conjunto de bons sentimentos demonstrados ou direcionados a alguém que possa respondê-lo de maneira “positiva”. E desta forma, eu definiria o amor como o elemento principal e mais ideal para preencher o(s) vazio(s). Claro, é uma generalização, porque falar dele requer um outro texto, este sim, com profundidade e possivelmente com menos racionalidade. 

 


O Sentimento - Uma realidade menosprezada? 

O ser humano pode ter sentimentos vastos, profundos e bem desenvolvidos, assim como podemos ter conhecimento racional desta mesma maneira. Ter sentimentos desenvolvidos não é sinônimo de suprimir a racionalidade. Alegar que o termo sentimental é pejorativo ou usá-lo como ofensa é uma tolice, pois desta forma um ser racional também seria alguém sem sentimentos ou alguém racional em excesso, portanto seria pejorativo também. E sabemos que não é (ou deveríamos saber). Pois bem, quem é minimamente sentimental deve saber: 

Uma grande afinidade com “coisas” (objetos por exemplo) é apego e afinidade com pessoas é afeto. 

De objetos e locais nós gostamos ou não gostamos, geralmente por experiências físicas, embora seja possível associar o objeto ou local a uma memória. 

Porém para gostar de pessoas é preciso conhecê-las e conhecimento vem do aprendizado. Enquanto o afeto (positivo e mais significante, ou mais intenso) é sentimento que surge após o desejo pela pessoa virar confiança. 

É possível dizer que confiar instantaneamente em um indivíduo é uma questão de acreditar, ou seja, de crença, uma vez que não se conhece tal ser. Nas interações sociais (amizades, namoros etc), a confiança tende a se construir gradativamente enquanto aprendemos a nos relacionar, mas é fácil destruir esta confiança rapidamente, principalmente se há omissão ou mentira no relacionamento. Tais omissões e mentiras aqui referem-se desde a esconder uma opinião, até enganar a outra pessoa para fazer coisas sem esta saber. Assim, o sofrimento da pessoa enganada possivelmente tem uma relação proporcional à quantidade de informações escondidas ou a importância desta “informação”. Quando a confiança que uma pessoa tem em outra é destruída, o afeto positivo "desaba'' e seu impacto causa um sofrimento psíquico que pode ser uma anulação do afeto gerando frieza ou vazio, ou uma inversão que o transformaria em um "afeto" negativo como ódio. Tal possibilidade de destruição dos afetos positivos, não deve nos impedir de manifestar sentimentos. Não deve nos paralisar, nem impedir relações. Sejam elas reconstruções ou novas relações. Como tantas coisas que crescem e morrem, sentimentos como o amor podem renascer quantas vezes for preciso. Não se trata de apego e sim de sentir… 

As pessoas que geralmente desprezam afeto e confiança, talvez porque não tiveram exemplos durante a infância e adolescência, não são necessariamente pessoas más, pois geralmente não sentem prazer no sofrimento alheio. Ao invés disto, tendem a ser materialistas e/ ou predominantemente racionais. As emoções destas parecem menos intensas e mais breves do que aquelas dos mais sentimentais. Como mencionado anteriormente, sentimental aqui não tem significado pejorativo e sim de uma pessoa que tem bastante sentimentos ou tem sentimentos mais intensos. 

Uma vez que o “racionalista” (racional em demasia) tem sentimentos subdesenvolvidos, este deve receber prazer, bens ou serviços nos relacionamentos, caso contrário as relações não valerão a pena. Afinal como mencionado anteriormente, tal pessoa deve priorizar outra coisa além do sentimento nas relações: seja bens materiais, sucesso acadêmico ou profissional etc. Tais pessoas não são máquinas, portanto devem possuir sentimentos, sejam breves ou superficiais. Como os sentimentos são notoriamente diferentes da racionalidade, frequentemente eles devem ser considerados fúteis, bizarros ou ao menos abstratos demais. Portanto a pessoa com esta característica, quando recebe afeto e confiança, não pode ou não quer retribuir, porque afinidade com pessoas tende a ser considerada mero apego e com objetos é real e plausível. Tal pessoa “fria” ocasionalmente pode parecer cruel e até pode se aproximar ou ter algumas atitudes sádicas, mas está mais para insensível. Possivelmente mesmo o termo insensível seja impreciso para definir as pessoas com um profundo vazio afetivo: Como tal característica pode ter origem na tenra infância, período em que se forma um "repertório emocional" do indivíduo, é possível que a pessoa "fria" ou "com vazio" direcione a manifestação de seus sentimentos de forma muito particular/ incompreensível para a maioria das pessoas.

Se este vazio afetivo durar um período significativo na vida da pessoa, ele pode “conceder” alta adaptabilidade ao conflito ou à solidão, uma vez que o indivíduo tende a suprimir a empatia e perder a noção dos benefícios gerados por bons sentimentos e por relações saudáveis. As pessoas com tal vazio (afetivo ou existencial), para não se perderem em meio a apatia ou ao isolamento, podem traçar objetivos buscando sucesso profissional ou conquistas financeiras. Se este vazio gerar anseios frequentes na pessoa, ela pode alegar gostar de uma outra pessoa em pouco tempo de convivência e descartá-la com a rapidez proporcional a (breve) duração de seu sentimento. 

Enfim os sentimentos formam uma condição básica do ser humano e de vários outros animais também, geralmente mamíferos. Como a própria palavra mostra, o sentimento está relacionado ao “sentir” e se manifesta na forma de afeto. Isto pode ter surgido por uma necessidade de sobrevivência, como por exemplo, no caso da relação da progenitora (mãe) com seus filhotes. Embora outros animais tenham se desenvolvido sem esta característica, é notável que a maioria (se não todos) dos mamíferos encontraram esta maneira de sobreviver. 

Por fim, o vazio afetivo que pode gerar problemas como a depressão ou a ansiedade, possivelmente afeta a parte química do corpo, por isto em determinados casos é necessário tratamento medicamentoso. A dúvida que fica é: Os medicamentos não tratam só os efeitos causados pelo vazio? O vazio em si permanece já que o indivíduo se desenvolveu com eles. Portanto, se uma pessoa teve a infância sem afeto da mãe e/ou do pai, ela pode adquirir ou aprender a ter este sentimento por outras pessoas depois de adulta? 

Quando penso sobre sentimento, não me limito às emoções, como felicidade, ódio, tristeza etc. Pois também percebo outra possibilidade: A de sentir intenções e emoções de outras pessoas. Neste último caso sentir está mais para intuir. Esta intuição é uma capacidade muito antiga do ser humano, pois entende-se que tal capacidade foi muito utilizada nas sociedades hominídeas primitivas, uma vez que não tinham a racionalidade muito bem desenvolvida e aplicada para a construção de conhecimento e tecnologia. Juntamente com a intuição, sempre esteve o sentimento, desde os primórdios da humanidade e possivelmente dos mamíferos. Assim pode-se entender que o sentimento é uma característica elementar do ser humano, não podendo deixar de existir de maneira alguma. No máximo ele pode ser suprimido como nos casos mencionados acima, trazendo mais malefícios do que benefícios. Sendo uma característica constituinte/ elementar do ser humano, temos a resposta da questão feita anteriormente: O sentimento pode ser desenvolvido na fase adulta. O quão fácil ou difícil é uma outra questão que irá exigir uma análise de cada indivíduo particularmente.

O Que Preenche o Vazio?

 

Este texto (que escrevi em 06/2021) começa com relatos autobiográficos. Ao menos neste primeiro momento, o texto não tem pretensão alguma de ser científico (empirista/ racionalista), pois trata de sentimentos e para expressá-los acho útil me afastar de linguagens muito formais ou acadêmicas:

 Relatos do Passado

As primeiras lembranças de minha vida são da época em que eu tinha aproximadamente 3 anos de idade: Ir para uma tal de Escolinha da Tia Lia, desenhar em papel de pão (em 1984 não havia saco de pão, ao menos não na Vila Esperança, na capital de SP) e brincar com faquinhas coloridas de plástico no chão da sala. Lembro-me vagamente que eu preferia ficar com minha família ao invés de relacionar-me com outras crianças da escolinha. Também lembro-me vagamente de fazer perguntas aos adultos (minha mãe e talvez a mais alguém) sobre de onde eu vim e sobre a morte, mas não lembro das respostas que obtive. 

Aos 4 anos de idade lembro que meus desenhos progrediram: não esqueço que fiz 10 desenhos enumerados e coloridos de paisagens em folhas que pareciam as de um caderno de desenho. Fui elogiado, acho que pela minha mãe e ao menos por um tio meu e fiquei feliz com tais elogios, pois pareciam me incentivar a desenhar mais. Não sei porquê, mas o desenho que mais ficou gravado em minha memória era de um circo rosa-choque (ou vermelho?) e amarelo com algo a mais como um céu azul e nuvens brancas. Durante esta época, minha mãe ensinou-me a rezar, pois ela era bem católica e passamos a ir semanalmente às missas. 

Os anos foram passando e me lembro que continuei desenhando bastante, também me lembro de brinquedos e de brincadeiras que não precisavam de brinquedos, como esconde-esconde, pega-pega e interpretar heróis e vilões imaginários junto de meus dois irmãos. 

 Haviam algumas discórdias, é claro, sobre brinquedos e sobre quem estava certo ou errado nas brincadeiras. Alguns dos mini conflitos eram resolvidos com broncas de minha mãe, outros com chineladas, uma punição coerciva, mas nem tão dolorosa assim, pois obviamente nem chegava a machucar. Broncas, chineladas, palmadas e raros castigos faziam parte da educação, mas nada para se gabar nem para se envergonhar, pois eram medidas corretivas usadas quando as medidas preventivas eram insuficientes. E quais eram as medidas preventivas? O ensino em geral e algumas orientações sobre o que se devia fazer e o que não devia. Não brigar com os irmãozinhos era algo que devia ter sido repetido várias vezes, é claro, afinal a convivência tem seus momentos de dissonância. Mas as orientações, em geral, se limitavam à vida que nossos pais eram capazes de observar. E também eram limitadas de acordo com as experiências que nossos pais tiveram antes de constituir família. 

Quando me recordo de minha infância, percebo minha mãe como uma pessoa braba e carinhosa (mais precisamente amorosa). Meu pai era sério, pouco envolvido no ambiente domiciliar, mas trabalhador e responsável (principalmente do ponto de vista econômico, apesar da fama de sovina). Considero que tive uma boa infância: Recebi afeto (principalmente no sentido positivo da palavra) e educação, além disso meus pais me davam a sensação de uma segurança no mínimo razoável. 

Mas conforme a adolescência chega, transformações são inevitáveis. A minha foi desagradável em vários aspectos: Tive uma série de problemas intestinais que me atormentaram ao longo dos anos, passei a estudar em escola de período integral (a Escola Técnica Walter Belian, da antiga Antártica, onde meu pai trabalhava), sofri com minha timidez diante o cenário de tosca rivalidade escolar, passei a fazer psicoterapia (bancada pela Antártica) e odiava acordar cedo, fazer o trajeto “casa-escola-casa” (bastante longo na maioria dos anos) e carregar mochila pesada quase todos os dias. Na 5ª e nas duas 6ª séries (repeti de ano) tive mais “inimigos” que amigos. Numa linguagem vulgar: Foi uma bosta. Perdi a fama de menino inteligente de uma vez por todas e só não viciei em vídeo game porque minha mãe estabeleceu horários rígidos para jogar, ao menos até minha 7ª série, se não me engano. 

 Da 6ª série em diante os hormônios começaram a dominar a molecada da escola que cada vez mais queria se mostrar “adulta”, um comportamento do qual eu praticamente não compartilhava: Eu preferia meus brinquedos e o vídeo game até terminar minha sexta-série e meus jogos (video game e rpg) até terminar a 8ª série. 8ª série que por sinal, era notável o ápice do comportamento “quero ser adulto” nos colegas de escola. Alguns colegas começavam a falar de músicas, de roupas e se enturmar com o sexo oposto, chegando a se encontrar fora do horário de aula. Outros colegas fracassavam miseravelmente em “ser adulto” e buscavam se sentir melhor procurando alguém para humilhar e/ ou provocar. 

Encerrando esta época, abandonei a psicoterapia, fui reprovado na prova para continuar na ETWB e estudei 6 meses numa escola pública. Durante estes 6 meses continuei quase que incapacitado pela minha timidez, mas o ambiente escolar era um pouco melhor do que a tão conceituada ETWB.

 No fim do semestre passei no concurso (vestibulinho) para fazer o ensino médio-técnico no SENAI (semestral) e finalmente fui resolvendo meus recorrentes problemas intestinais com bastante dificuldade. Candidatas a namoradas não me faltaram, mas continuei só durante todo este período, pois apesar de superar a timidez para falar em público, continuei incapaz em lidar com garotas. Meu desempenho escolar era medíocre, ocorrendo uma melhora significativa apenas em história e geografia. 

 Durante este período, meus irmãos fizeram novas amizades numa “loja de artigos importados”, onde jogavam role playing game (RPG) e eu acabei apresentado para a turma de jogadores que frequentavam o local, apesar de ter pouco tempo disponível, pois o curso do SENAI era de período integral. 

A escola oferecia especialização em 3 segmentos da indústria gráfica: Pré-Impressão, Impressão Offset e Impressão “Roto/Flexo”. Quem tinha as melhores notas escolhia primeiro e eu me lembro que eu peguei a última vaga da pré-impressão. Nada muito útil: O setor estava se digitalizando e eu não tinha os programas de edição gráfica em casa para praticar. Acabei encontrando grandes dificuldades para conseguir emprego, pois além da falta de prática eu não tinha desenvoltura nenhuma para “conquistar” entrevistadores das empresas. 

 Minha adolescência se encerrou assim: Passei a frequentar menos as missas, terminei de estudar em mais uma escola bem conceituada (o SENAI), mas sem notas impressionantes, sem namorada, e praticamente sem me fixar em emprego algum. Eu era um fracassado para os intelectualóides racionalistas (que repetem frases como "você devia estudar engenharia ou medicina"), para os típicos machistas pró patriarcado (que pregam que "homi tem que pegá várias muié") e para os meritocratas (do discursinho "o sucesso só depende de você").

 No âmbito familiar passei a ver minha mãe como uma pessoa mais controladora (ainda bastante carinhosa), mas reconheci que ela fazia muito por mim e pelos meus irmãos e que precisava de ajuda com as tarefas domésticas. Já em relação ao meu pai, desgastamos nosso pífio relacionamento, pois depois que ele se aposentou, mais ou menos durante minha transição da ETWB para escola pública, ele se tornou mais amargurado e difícil de lidar. Com meus irmãos o relacionamento continuou bom, passei a escutar as músicas que eles escutavam, mas eu me recusava a sair para beber como eles faziam, pois pensava comigo mesmo que não precisava ficar bêbado para ser feliz (ou algo assim). 

A Juventude Adulta 

Enquanto eu não conseguia “me colocar no mercado de trabalho”, peguei mais gosto por estudar (variados temas fora das exatas) e desenvolvi meu próprio cenário de RPG. 

Eis que a solidão começou a me incomodar profundamente. Senti falta de meus colegas do ensino médio, e meus “amigos do RPG” estavam me parecendo distantes conforme eles saiam para beber com meus irmãos… Então entre 2002 e 2003 decidi começar a beber com eles e (por coincidência ou não) gradualmente tornei-me ateu nos anos seguintes, ao menos, em prática. Mas deixemos o assunto da religiosidade para outra ocasião. 

Neste período pensei comigo mesmo: não preciso criar grandes expectativas ao sair ou ao beber, só preciso estar com meus amigos/ irmãos e se possível, me divertir. Até me diverti, apesar das roubadas em que me enfiei algumas vezes e achei curioso o padrão de conversas utilizados pelo meu irmão mais novo e por alguns amigos ao se aproximarem de mulheres: As conversas alternavam entre frágeis exibicionismos e lorotas. É compreensível, uma vez que em uma sociedade predominantemente capitalista, o que se cultua são bens materiais e status, coisas que a maioria deles tinha pouquíssimo ou nada. Alguns deles começaram a namorar e passei a sair com alguns colegas literalmente mais novos (que conheci entre 2004 e 2005). Inicialmente os colegas mais novos me conheceram predominantemente bêbado, mas após alguns meses notaram que eu era muito menos extrovertido enquanto sóbrio, ou seja, tornei-me dependente da bebida em algum nível para socializar. 

Estes anos por volta de 2005 e 2012 foram melhores em um conjunto de aspectos gerais: Mantive amizades, estudei mais e fui melhorando minha carreira profissional. Porém houveram dificuldades durante este período: Meu pai faleceu, mais amigos entraram em relacionamento sério e os que já estavam neste tipo de relacionamento, casaram. Esta questão dos relacionamentos não foi nada fora do esperado, na verdade ocorreu tudo nos conformes das regras e costumes sociais. Vendo isto eu finalmente comecei a me esforçar para superar minha timidez com mulheres e após superar comecei a cogitar namorar, mas para isso precisava conhecer mulheres. 

Então durante as manifestações de 2013 tive a talvez não tão feliz ideia de me informar sobre política. Houveram alguns pontos interessantes neste processo, como enxergar a relação deste campo com algumas áreas de estudo, principalmente com a geografia, a economia e a sociologia, porém nesta mesma época perdi meu emprego e demorei vários meses para conseguir outro. 

Em paralelo decidi ajudar uma amiga que aparentemente tinha se tornado drogadicta há pouco tempo. Foi um período bem difícil, mas de grande aprendizado, durante o qual me interessei pela psicologia. Este meu interesse não aconteceu só pelo fato de ter uma amiga passando por uma situação de drogadição, também surgiu ao ver uma espécie de vazio na mentalidade de variadas pessoas. Este vazio se refere mais aos sentimentos do que a qualquer outra coisa. Lembro-me que nesta época li sobre o os casos de overdose do cantor Chorão, além dos casos de suicídio dos atores Fausto Fanti e Robin Williams… 

O que leva as pessoas tão bem sucedidas no sistema social e econômico dominante nos países da América (chame de neoliberalismo ou de capitalismo, tanto faz) a destruírem a própria vida? O ditado “Dinheiro não traz felicidade” parecia fazer mais sentido após esta época, mas não me explicava tudo. Então eventualmente fui pensando sobre este e outros assuntos similares e me lembrei que nunca almejei ser rico / multimilionário. Lembro-me que eu achava importante ter pessoas que eu gostasse por perto e que meus amigos seguindo rumos diferentes, talvez a melhor idéia fosse eu arranjar uma namorada. Ora, então o que mais faz sentido na vida é ter alguém para gostar? Quase isto… mas nos dois ou três anos seguintes fui complementando estes meus pensamentos e reflexões. 

 Reflexões sobre o Vazio e o Sentimento 

O que era o vazio presente em tantas pessoas? Comecei a estipular que era falta de afeto - sentimento direcionado de uma pessoa à outra (de acordo com a psicanálise), ou seja, sentimento expresso. Para fazer uma diferenciação entre o sentimento interno na mente (não expresso) e o sentimento expresso, chamarei este último de emoção e o primeiro de sentimento. Importante mencionar que isto só serve como um vago parâmetro para comunicação. Não é uma verdade rígida nem totalmente segmentada. 

 Sentimento é o ato de sentir, e por isso, está vinculado à intuição e às sensações. Sentir é básico de toda forma de vida, ao menos da vida animal e principalmente dos mamíferos. Mesmo que não for manifesto/ expresso, o sentimento existe e certamente não existe para ficar contido. Como um elemento do aparelho psíquico (a mente, estruturada conforme determinadas abordagens psicológicas), o sentimento é naturalmente direcionado a outros aparelhos psíquicos. Isto porque é onde ocorre uma ação e uma reação: Objetos não retribuem afetos de nenhuma natureza, em geral, eles só reagem às ações físicas, ou seja, necessitam da intermediação do corpo. 

Não é impossível uma pessoa tentar direcionar um sentimento a um objeto, mas a pessoa não obterá resposta e em algum momento tal pessoa irá sofrer a consequência disto. 

Por exemplo, uma pessoa passa a “amar” um objeto, que pode ser uma peça de roupa, um vaso de flores, um bichinho de pelúcia, um carro, ou até mesmo um determinado tipo de comida. A consequência desta falta de relação (ou de resposta) poderia ser crises de ansiedade, depressão ou qualquer outro distúrbio psíquico, pois o sentimento não é correspondido. O sentimento ou a emoção simplesmente não existe para o objeto. Claro, a pessoa poderia desenvolver um sentimento negativo como ódio e atacar fisicamente (corporalmente) destruindo o objeto, mas mesmo assim não dizemos que o objeto foi quebrado pelo ódio da pessoa e sim pelo golpe físico, seja uma paulada, um chute etc. Este ódio manifesto através de um golpe contra o objeto, não cessa a necessidade da troca de sentimentos/ emoções da pessoa. Ela apenas manifestou um outro sentimento (ódio) por não trocar um sentimento positivo que ela desejava (como acolhimento, amor etc). Neste exemplo simplório, também notamos que sentimentos negativos têm como objetivo uma reação destrutiva ou subtrativa. No caso do vaso, por exemplo, este objeto seria despedaçado, ou seja, fragmentado, reduzido a cacos. Portanto, os sentimentos positivos, são o contrário: Eles têm o objetivo de construir, criar ou até de embelezar e aumentar. Sentimentos negativos fazem parte da vida humana e não devem ser simplesmente reprimidos, mas os positivos são notoriamente mais necessários. São eles que possibilitam o desenvolvimento da paciência para tolerar determinadas situações, ambientes ou até mesmo relações. Também possibilitam o desenvolvimento da empatia para compreensão de outros indivíduos e para o convívio em sociedade de maneira menos conflituosa. Obviamente esta importância maior do sentimento positivo não significa que devemos reagir positivamente a um agressor que nos odeie ou que seja uma grande ameaça. Significa que devemos cultivar os sentimentos positivos e difundir sua importância. Mesmo porque manifestações exageradas dos sentimentos negativos resultam em grandes violências, seja contra algumas pessoas em específico, contra um grupo de pessoas ou contra nações inteiras. Discursos e propagação de ódio e intolerância, por exemplo, devem ser combatidos não só pelas leis, e por denúncias, mas também por uma educação humanizada, que não deixe de lado a importância de emoções e sentimentos como a solidariedade e a empatia. 

Então o que são os vazios? Quais são e como podem ser preenchidos? Obviamente o tema aqui refere-se à mente humana (ou aparelho psíquico, chame do que quiser), então este vazio é um vazio de sentimento ou de correspondência de sentimento. Como mencionei anteriormente (creio que não só neste texto), não existem sentimentos neutros: Ou eles são agradáveis ou desagradáveis, benéficos ou maléficos… E por aí vai. O vazio do aparelho psíquico então surge de relações muito fragilizadas, seja por um distanciamento, por uma frieza (não correspondência) ou talvez até por repressão de sentimentos, de expressões, de ideias etc. Desta forma tanto o termo vazio afetivo como vazio existencial estão corretos e ambos são nocivos para as pessoas, seja a curto prazo ou a longo prazo. Embora tais vazios sejam relativamente comuns, e algumas pessoas possam tomar atitudes por se sentirem incomodadas por eles, todo ser humano precisa dos sentimentos e a maioria irá preferir bons sentimentos. Sim, eu sei e já falei que os sentimentos ruins fazem parte de nossa existência, mas também expliquei que de maneira mais evidente ou menos evidente, os sentimentos ruins estão relacionados à dor, à contenção forçada, ao aprisionamento, ao impedimento, à separação, às manifestações destrutivas etc. 

Então são os sentimentos que preenchem os vazios da mente? Essencialmente sim, é claro, e provavelmente apenas os sentimentos positivos podem preenchê-los de maneira mais plena. Afinal, como citei anteriormente, os sentimentos negativos tendem a todo tipo de destruição e redução das coisas. Portanto o ato de preencher vazios com sentimentos negativos, além de potencialmente nocivo, é, no máximo, um fenômeno temporário, uma vez que eles têm estes objetivos de separação / redução/ destruição. Este movimento contrário à união, à expansão e à criação/ criatividade, nada mais é do que uma forma de esvaziamento, seja de relações ou de sentimentos. 

 Por fim, para cultivar os sentimentos positivos é preciso expressá-los ou buscar quem os expresse. É preciso iniciar e construir relações, mas quais destas relações devem passar por uma manutenção e quais devem acabar para outras nascerem, é uma outra história...

Expressões

Esta é uma tentativa de anotar o que é importante para mim. Escrevi muitos textos expondo ideias de maneira predominantemente racional, entã...