Observações sobre Crátilo (Da Correção dos Nomes) Pt. 2

Após uma investigação da etimologia (origem, constituição...) de várias palavras, Hermógenes e Sócrates começam a especular como seria um alfabeto ideal e como seriam feitas as escolhas das letras para dar significado/ formar as palavras. Existiriam consoantes que representariam adequadamente o movimento, o repouso, a lisura, entre outras características, bem como vogais que representariam grandeza, continuidade, redondo etc. Desta forma o "nomeador" (às vezes traduzido como legislador), nomearia as coisas.


Hermógenes então pede para que Crátilo dê seu parecer e o mesmo mostra que discorda de Sócrates no ponto em que alguns legisladores produzem nomes melhores enquanto outros produzem piores.
 Para Crátilo só há nomes e não-nomes, pois o nome produzido de maneira pior, ou menos adequada, ao qual Sócrates se refere (no exemplo do personagem Hermógenes, que não é filho de Hermes) seria o nome de outra coisa (pessoa) com outra natureza. Em diálogo com Sócrates ele tenta explicar que não há nomes escolhidos que representam as coisas de maneira mais adequada ou menos adequada, mas há nomes que se referem aos fatos/ às verdades e nomes que são como meros ruídos sem sentido. 

Sócrates pergunta se é possível um pintor mostrar uma pintura a alguém que a perceberá por meio da visão, e então afirmar que tal arte é seu retrato por guardar alguma semelhança com ele. E pergunta também se não é possível alguém mostrar um nome a outrem que o perceberá por meio da audição, para então afirmar que esse é seu nome. Crátilo concorda que tais fatos são possíveis de ocorrerem. 
 Porém, se fosse possível apresentar uma "cópia" de Crátilo, com todas suas características incluindo a psiquê (alma e/ ou mente...), já não haveria só um Crátilo e uma mera representação ou imagem sua, e sim, dois Crátilos. Assim Sócrates demonstra o quão longe estão as imagens (e sons) de possuírem características idênticas ao original que imitam. 

Após esta demonstração de que os nomes não são as coisas em si, Crátilo tenta argumentar que os nomes são o conhecimento em si, porém Sócrates indica que é possível que um "nomeador" nomeie inadequadamente certas coisas, e que as gerações seguintes trabalhem a partir dos nomes imprecisos, propagando imprecisão e não conhecimento. O mesmo poderia ocorrer na geometria onde comete-se um pequeno erro no cálculo inicial e todos os cálculos subsequentes estariam coerentes entre si, mas errados por serem continuação de um 1º cálculo errado. 

 Crátilo então lembra que a maioria dos nomes (na língua grega clássica) que Sócrates mencionou no diálogo indicam movimento, ao que o filósofo responde que uma maioria errada não faz algo certo. Afinal Sócrates indicou anteriormente como a maioria dos estudiosos pensava que todas as coisas estão em movimento e por isso teriam nomeado muitas palavras desta maneira, ignorando ou deixando em segundo plano os conceitos de essência (ousian) e ser (ontos). 

 É notável que Platão, ao trabalhar os conceitos de virtude/ excelência e de valores universais, centraliza o conhecimento mais próximo à teoria de Parmênides (sobre "o uno"), como indica em sua obra homônima. Apesar disto, ele não descarta completamente as explicações de filósofos como Protágoras e Heráclito; apenas as colocam, ora como imprecisas, ora como limitadas ao estudo do sensorial que tem a finalidade a construção e/ ou preservação de corpos. Este tipo de estudo não busca necessariamente a verdade e pode ser facilmente separado da ética (valores universais).

 Não podendo se pautar pela maioria dos nomes, Crátilo então diz que acha que os nomes em sua origem, foram dados às coisas por um poder que transcende os humanos. Assim haveriam (uma maioria de) nomes corretos, que se referem à verdade.

Sócrates diz que então seria necessário se pautar pelas coisas que são (tá onta, de ontos), pois existindo esse fator citado por Crátilo, ainda dever-se-ia buscar a verdade da maneira mais legítima e natural na conexão entre as coisas que são. Afinal os nomes continuariam sendo meras representações (imagens, sons), só que agora dadas por daemons ou por deuses e recebidas por humanos de variadas nações/ etnias.

Sócrates então diz para supor que os criadores da maioria dos nomes, aqueles que acreditam que todas as coisas estão me movimento, "caíram" em uma espécie de vórtice e por isso arrastam aqueles que investigam a origem/ correção dos nomes com eles. 

O filósofo então diz que uma questão lhe toca em seus sonhos: é que o belo existe em si mesmo e que existe algum bem em si mesmo. Crátilo concorda, pois também pensa que há (o que faz sentido, já que ele não concordava com Hermógenes que achava que os nomes eram dados somente por gostos ou opiniões particulares, sendo sempre irrelevantes ou imprecisos).

De acordo com Sócrates então, se todas as coisas estivessem fluindo, como se escorressem continuamente, elas não poderiam ser aprendidas. Toda vez que alguém se aproximasse da verdade ou tentasse construir conhecimento, essa verdade se modificaria e não haveria um/ o conhecimento, pois tudo está se transformando o tempo todo.

Mais uma vez Platão parece se aproximar dos estudos da matemática e da física do início do século 20, porém com uma abordagem filosófica, ou seja, através do diálogo e da reflexão, ao invés do cálculo e das fórmulas matemáticas.

Assim como em Parmênides, o autor, demonstra um estudo dialético sobre o que é a unidade, onde acaba indicando a existência da quarta dimensão, aqui em Crátilo, o autor indica que há algo além do universo sensível (perceptível, sensorial). Ao estudar a etimologia das palavras de seu tempo (a "Grécia Clássica" dos séculos 4 aC e 3 aC), Platão notou como muitas palavras/ nomes tinham o significado de movimento. Esta percepção (de movimento) teria alguma relação com uma força ou princípio celeríssimo e sutilíssimo que preenche e atravessa o universo. Poderia isso ter alguma relação com a velocidade da luz? Afinal a teoria da relatividade de Einstein indica que o espaço-tempo é relativo e que só a velocidade da luz é absoluta. Ora, se o próprio espaço-tempo é relativo, ele pode ser relativo a algo além de si, indicando a existência de algo além do espaço-tempo, seja uma ou mais dimensões que não percebemos, ao menos, não sensorialmente. 

Entre os livros 5 e 7 da ""República", Platão mostra como as imagens bidimensionais (sombras e reflexos em superfícies) são menos reais do que a tridimensionalidade. Embora faça isso principalmente para demonstrar como era necessário o ser humano/ as civilizações construir(em) conhecimento e buscar(em) a ética, há uma comparação geométrica-matemática-filosófica entre dimensões. Esta comparação está em diálogo com seu estudo sobre a unidade em Parmênides: seguindo a  mesma lógica, é plausível que o autor entendesse que uma quarta dimensão, ou a realidade quadrimensional, fosse mais real do que a realidade tridimensional onde percebemos e agimos com nossos corpos. Sendo mais real, ela também seria mais perfeita, pois a realidade tridimensional seria meramente como as sombras ou como imagens refletidas em uma superfície ante a quadrimensionalidade ou "4ª dimensão". Essa realidade superior então seria mais psíquica como o autor parece demonstrar ao afirmar que a realidade cognoscível é superior à sensível (em "A República" por exemplo) e sendo superior seria mais bela, ou teria a beleza em si mesma (kalos).

Assim, na teoria de que tudo está em movimento (negando ou deixando de lado uma possível realidade superior) não havendo uma verdade, um bem ou beleza em si, não haveria conhecimento, pois tudo abandonaria sua "forma" (eidos, também denotando ideia). 

Sócrates conclui que deve-se investigar tal assunto com afinco, ao que Crátilo responde que crê na teoria de Heráclito por já ter estudado o assunto. Sócrates então, se despedindo dos interlocutores, sugere que Crátilo não desista de estudar tais questões pois ainda é jovem. Crátilo também diz para Sócrates não parar seus estudos sobre o tema.


... Natal

É véspera de natal: o último feriado do ano.
Há quem só descanse no feriado e há quem comemore para comer farturas e trocar presentes. 
Há quem vá encher a cara, ouvir música alta e/ ou se reunir com amigos ou família. 
Há os que não têm condições de celebrar...
Há religiosos rigorosos que não gostam da comelância e há os mais relaxados. 
Há ateus que festejam e há os que desprezam.
Há quem diga que natal é aquela data que se comemora a colheita antes do início do inverno, mas no hemisfério sul do mundo está começando o verão.
Há quem se lembre de um tal Papai Noel, uma versão mercantilizada e bem descaracterizada de São Nicolau, bispo que viveu na época do primeiro concílio de Nicéia por volta do século 3.
Há quem se lembre de Jesus. Mas se lembra do que de Jesus? De quais ou quantos ensinamentos?
Há quem diga que ele é Deus. Outros dizem que é o mais elevado espírito. Outros, o consideram um personagem histórico do século 1. E há quem acredite que ele nem existiu. 
Desde que passei por experiências espirituais muito fortes há alguns anos, eu passei a reler os evangelhos os quais apresentam a história e feitos de Jesus. Dos quatro propagados pelas igrejas até alguns outros.
A leitura só confirmou algo que eu já entendia como uma obviedade desde minha adolescência ou juventude: Fazer o bem faz bem. Não um bem individual, para uma ou outra pessoa, mas um bem universal que é realmente bom para toda e qualquer pessoa. Ignorando o que outros acham sobre o assunto, eu tive variadas dificuldades de viver isso... o bem. Seja por preguiça, por mesquinharias ou por outros motivos.
Porém depois do que eu chamo de experiências espirituais, esse "negócio" de fazer o bem ficou sério. Na verdade urgente. E ainda que o bem ao qual eu me refira seja universal, eu falo de uma importância individual aqui, pois raramente eu poderia ou conseguiria convencer os outros a fazerem o bem. 
Eu tive períodos egoístas em minha vida e não só em atitudes, mas também em mentalidade, pensamentos e sentimentos. Preciso compensar, mas não só isso, preciso viver a obviedade que Jesus ensinou: O bem é mais importante do que as preocupações mundanas.
Esse bem é essencialmente movido por amor como Jesus ensinou e esse amor não é só "gostar", é querer bem, é sentir... bom sentimento.
Muita gente não teve esse bom sentimento. Não teve amor durante maior parte de sua vida... Pessoas que não sentiram que alguém se importasse com elas.
Mais do que isso, quando falo em experiências espirituais, sinto mentes sem corpos: presenças, almas, enfim, espíritos, não importa o quanto digam que tais coisas não existam.
Não vou discutir existência aqui, pois isto faz parte da construção de conhecimento filosófica que anda bem desprezada hoje em dia.
Quando percebo tais espíritos, geralmente, mas não sempre, à noite e/ ou entre sonhos, sinto variados sentimentos, mas um dos mais comuns é discórdia. De certo modo tais experiências não diferem da minha realidade psicossocial: Eu me adapto mal à sociedade, seus costumes, seu mercado de trabalho etc. Me adapto mal ao sistema social e econômico que prioriza o ganho e acúmulo de dinheiro. Me adapto mal ao consumismo e à precificação de tudo. Me adapto mal à rotina de trabalhar pelo menos metade do tempo em que passo acordado.
Essa má adaptação não começou só depois de "minhas experiências espirituais" e sim há muito tempo, desde que terminei o ensino médio há mais de 20 anos.
As experiências espirituais só escancararam isso: O quão sem sentido é a rotina desse sistema social e econômico que começou a ser inventado no período das navegações das nações da Europa no século 16, foi consolidado com o liberalismo, o crescimento da monocultura e o crescimento dos bancos entre os séculos 17 e 18 e intensificado após a industrialização dos séculos 19 e 20. 
É claro muita gente acha que esse sistema que começou com uma ideologia mercantilista, e se tornou capitalista, é natural e sempre esteve aí, só que não é: Existem povos indígenas da Oceania, da África, da América, do Ártico e da Sibéria que não vivem dependendo dessas invenções dos endinheirados da Europa, porém tais povos vem sendo atacados de variadas maneiras há séculos e por isso se tornam cada vez mais raros. Existiram povos que viviam do escambo na China até a expansão socialista do século 20 naquela região... Enfim, citei esses fatores externos/ sociais só para mostrar que adaptar-se a um sistema de regras sociais e econômicas dominante não é necessariamente lógico nem bom.
Mas a questão aqui tem fatores psíquicos e espirituais meus e isso tem relação com que eu citei anteriormente. Além da discórdia que parece ter essa relação com fatores sociais, eu sinto a dor da falta de viver o amor. Não exatamente a falta de ser amado por que eu fui muito amado e sei que Deus ama a mim e a todas formas de vida. Mas a falta de amar e expressar o amor - o bom sentimento. Este amor me parece ser muito mais o amor que Jesus viveu do que esses "amores" um tanto materialistas e voláteis da "modernidade". Esse amor me parece mais urgente de ser manifesto para aqueles que tiveram pouco ou nada dele em suas vidas - pessoas mais carentes do amor que faz bem a todos.
Quando sinto esta falta de amar é uma dor horrível, pois é mais do que psicoemocional: é no mínimo um vazio existencial... Algo que indica o quanto estou me contradizendo, errando e de certo modo... pecando.
Este pecado não parece bem aquele descrito por religiosos conservadores: é algo ligado a um sentido de vida ou uma busca espiritual... 
O bom sentimento é tão importante quanto o sentido de vida e eles formam o que entendo por espiritualidade...
O amor de Jesus então é mais do que querer bem; é serenidade e esperança para todos e principalmente para os que mais precisam... e é sentido de vida.
Acho que se eu tentar descrever mais o que andei sentindo, este texto ficaria mais cheio de lamentações então o que devo fazer é desejar um feliz natal a quem ler isto aqui.

Feliz nascimento do amor. Feliz encontro com a serenidade e com a esperança... feliz encontro com um sentido de existir.

 

Observações sobre Crátilo (Da Correção dos Nomes) Pt. 1

 Esta obra de Platão pode ser considerada um dos primeiros estudos sobre etimologia e linguística. No diálogo apresentado nesta obra, Hermógenes e Crátilo discordam sobre a origem dos nomes e convidam Sócrates para dar seu parecer. Hermógenes começa o diálogo com Sócrates, explicando que Crátilo crê que haja uma causa natural para todos os nomes - um nome real para cada coisa. Porém Hermógenes diz que Crátilo não consegue explicar tal teoria de modo que lhe convença e que ele crê que os nomes são basicamente convenções, ou seja, invenções humanas pouco propositadas. 
 Sócrates pergunta a Hermogénes se ele ouviu a teoria de Protágoras, de que “o homem é a medida de todas as coisas”. Hermógenes responde afirmativamente, mas não sabe se leva tal teoria totalmente a sério. Sócrates então conduz o diálogo, fazendo Hermógenes comprovar como tal teoria é exagerada e imprecisa, assim como a teoria de Eutidemo de que “todas as coisas dizem respeito igualmente à todos indivíduos simultaneamente e perpetuamente”. Hermógenes então entende que há coisas que não são e coisas que são. Todas coisas têm alguma “natureza que é” e também tem uma ação correspondente, portanto “toda ação também é”. Esta explicação tipicamente filosófica pode parecer difícil ou até mesmo determinista, mas se apoia nos argumentos apresentados por Sócrates no diálogo: Se um carpinteiro precisa fazer uma peça que serve para costura/ produção têxtil porque tal peça (chamada lançadeira) quebrou, então ele conseguirá fazer uma nova lançadeira a partir da ideia/ forma que tem dela em mente, não precisando de uma observação sensorial da peça quebrada. Isto se dá pelo processo da psiquê* que tem a “Eidos” (que significa simultaneamente “ideia” e “forma”) da peça memorizada/ aprendida. 

 * Psiquê: a palavra que abrange os significados de alma e mente nos textos de Platão. 

 É possível se nomear erradamente, mas também é possível nomear as coisas corretamente. A nomeação das coisas tem a função de informar, comunicar um significado entre as pessoas, assim como outras técnicas (conhecimentos ou artes) têm suas respectivas funções. Além disto, a nomeação das coisas (sejam objetos, pessoas etc) também têm uma ferramenta como as demais artes. No caso da nomeação, sua ferramenta são as leis (“nomos”), num sentido não exclusivamente jurídico, mas sim genérico, mais amplo, referente à criação de regras. Assim, nomear estaria vinculado ao ato de criar regras (no caso, linguísticas, de comunicação). Existe então uma forma ideal para que cada ferramenta cumpra sua finalidade, sejam tais ferramentas produzidas em um determinado tipo de madeira, de metal ou de qualquer outro material. Sócrates explica que o mesmo vale para nomes: independentemente se os nomes foram criados a partir de sílabas diferentes, ou se foram empregados de maneira errônea, existem nomes ideias, ou adequados, para cada tipo de coisa, independentemente se for na língua helênica (grega) ou em um idioma “bárbaro”*. 

 *(quaisquer nações não urbanizadas na opinião dos gregos da época de Sócrates e de Platão). 

 Na nomeação, ou na “correção de nomes”, como em toda arte/ conhecimento então, deve haver um diálogo entre quem produz a ferramenta e quem a utiliza. Desta forma Crátilo teria alguma razão, pois para se incorporar a forma ideal (Eidos) em cada nome, é preciso que haja comunicação entre o indivíduo que dá os nomes (“nomothetoy”) e o que utiliza os nomes: o dialético, ou dialogador. Hermógenes, apesar de concordar com Sócrates até então, diz não saber mais o que responder-lhe, pois acha difícil mudar de opinião repentinamente. 
 Os interlocutores traçam uma investigação filosófica sobre o tema então. Sócrates diz que os nomes das pessoas e de heróis tendem a serem enganosos, pois cita como exemplo disto, o fato deles serem escolhidos devido a um ancestral/ uma linhagem familiar e devido a serem escolhidos como uma expressão de orações (Teófilo etc). O ideal é buscar o nome dado às coisas eternas, como por exemplo, aos deuses (theoi), pois seriam escolhidos com mais cuidado; O filósofo então, seguindo um estudo da língua grega e suas possíveis origens, explica que a palavra “deuses” (theoi) tem relação com o termo “correr” (thein), pois os antigos veneravam os astros como se fossem deuses, e os viam “correr” pelos céus em seus movimentos cíclicos (o Sol, a Lua etc).
 Hermógenes então indaga sobre a palavra “daimons” (espíritos, ou “gênios”, às vezes traduzido como “semi-deuses”). Para responder a questão, Sócrates cita o trecho de um poema de Hesíodo e indica que “daemon” parece estar ligado à lendária raça de ouro - guardiões que afastam o mal dos seres humanos. Esta raça era tida como os “primeiros seres humanos” de um período muito antigo nos mitos gregos.
 Já a palavra heróis poderia vir de “Eros” (amor sensual) porque tais personagens supostamente nasceram de deuses que se apaixonaram por humanos. Porém a palavra herói também poderia vir da palavra da língua ática, “erein”, que quer dizer falar, pois os heróis da antiga Ática eram oradores, como os sofistas, explica Sócrates. 
 Sócrates então diz seguir inspirado pelo encontro com Eutífron (possivelmente o personagem citado em outro diálogo) e investiga as origens da palavra “antropos” (homem). Ele entende que a palavra surgiu para fazer distinção entre os humanos e os demais animais, pois sua etimologia viria de algo como “aquele que examina e considera o que viu” (seu sufixo viria da palavra “opope”).
 Atendendo o pedido de Hermógenes para investigar as palavras “alma” (psiquê) e “corpo” (soma), Sócrates diz que a primeira deve vir de “revitalizado” (anapsykhon), mas em seguida opta por dar mais uma explicação sobre a origem desta palavra: Ele relembra que Anaxágoras (filósofo naturalista grego, ou, “pré-socrático”) teorizou que é a inteligência que move todas as coisas (Nous, a inteligência, ou mente, cósmica). Daí, citando que é a alma (psiquê) que veicula e sustenta (okhei kai ekhei) a natureza (physin), a palavra poderia vir de uma alteração ou corrupção da união destas (physin + ekhei = psyche);

 É válido notar que Pitágoras e/ ou os filósofos pitagóricos propagaram a teoria da metempsicose, a transmigração da alma, antes mesmo de Anaxágoras, portanto era uma forma (anterior ao século 5 a.C) de explicar e entender que a psiquê (alma) anima o corpo. Os pitagóricos não seguiam a cosmogonia (“mitologia”) de Hesíodo e Homero que eram as mais populares da Grécia antiga - o pitagorismo tem semelhanças com teorias do orfismo e traça sua origem nesse movimento “religioso filosófico” que certamente é mais antigo que os famosos poetas e suas supostas obras. É possível então que a ideia da alma animar o corpo seja mais antiga do que os filósofos “pré socráticos”, já que o orfismo pode ser tão ou mais antigo do que os poemas de Homero e Hesíodo (cerca de 800 aC - 650 aC).

 As possíveis etimologias ou origens da palavra “soma” (corpo) seriam “semá” (túmulo, indicando onde a alma fica sepultada), “sema” (sinal, pois o corpo seria um sinal da alma, representando seu significado) ou, de acordo com os poetas órficos, diz Sócrates, poderia ser “sóizetai” (preservada com segurança, ou seja, o local onde a alma deve cumprir sua pena).
 Os interlocutores seguem investigando a etimologia dos (nomes dos) deuses; 
Foi explicado sobre a etimologia de "Zeus" que teria uma origem nos nomes Zena e Dia. O nome desta divindade então significaria algo relacionado à vida (zís), pois Zeus seria o deus de toda a vida, de acordo com o filósofo. Conforme Sócrates, Zeus seria filho de um grande intelecto e assim ele é (Zeus ou seu progenitor) koron, que quer dizer pureza. Kronos, considerado pais de Zeus na cosmogonia principal dos mitos da Grécia antiga/ clássica, por sua vez, seria o filho de Urano ("deus dos céus"). Sócrates, porém, insinua que o nome correto é Urania (Oyrania, ou Ourania), o que dá a entender que seria uma entidade feminina.
Retomando a investigação dos nomes dos deuses gregos, Sócrates explica que Héstia (deusa do lar, do fogo doméstico etc) tem seu nome oriundo da antiga palavra "essia" que significava essência/ ser (oysia, ousia, na língua grega do tempo de Platão). Isto teria relação, explica Sócrates, com o fato de que tudo que participa do ser, é (estin). Além disto, estaria conectado com o fato dos antigos fazerem seus sacrifícios primeiramente à Héstia, para só depois fazer aos outros deuses.

Esta parece mais uma prova da relevância de Héstia, estando de acordo com que Platão cita nas obras Eutífron e Fedro. Teria isso relação com o fato do "culto" à Héstia ser feito nas casas, diante as lareiras, sem a necessidade de grandes templos? Seria por esses motivos, Héstia uma deusa literalmente popular? Teria relação com Vesta (deusa equivalente à Héstia), cultuada pelos romanos?

Sócrates então aborda a esposa de Kronos, a divindade Rhea: A origem de seu nome viria de corrente (reymáton em grego), pois está relacionada às velhas palavras de sabedoria que comparam o universo com a correnteza de um rio. Tal fato também relaciona-se tanto aos mitos de deuses primordiais marinhos/ aquáticos (Oceanus e Tétis, de acordo com o semi lendário Orfeu, ou com o orfismo) como aos ensinamentos de Heráclito que explicava que tudo está em movimento (e sua emblemática frase dizendo que "ninguém pode entrar no mesmo rio duas vezes").

 A seguir eles discutem sobre os nomes Poseidon e Hades. O primeiro estaria associado ao fato do mar atrapalhar o movimento do caminhar, ou seja atrapalhar o movimento dos pés, como se os amarrasse (posídesmos); Porém Sócrates entende que o nome desta divindade também pode ter vindo de Pollieídotos (o que conhece muitas coisas) ou de hoseion (o agitador, ou seja, que causa maremotos/ terremotos).

Sócrates acredita que o nome Hades, "deus da residência" das almas dos mortos, possa ter vindo da palavra Aides (Invisível) e que o nome Plutão viria do fato dele dar a riqueza (ploutou ou ploytoy). Porém, a seguir, o filósofo deduz outra origem ao nome desta divindade: Ele diz que Hades prende as almas com um dos mais fortes grilhões, que é o desejo de se associar com alguém que nos faria melhores. Isso porque Hades só permite que se associem a ele, aquelas almas mais puras que se livrarem de todos os males e desejos corporais. Ele assim o faz porque sabe que livre de seus corpos, as almas podem ser presas pelo desejo da virtude ou da excelência (ética etc). Por isso seu nome deve vir de "eidénai", aquele que conhece todas as coisas boas (allá poly mallon apó tou panta ta kalá eidénai).

Após falar sobre o nome de mais alguns deuses, os interlocutores começam a falar sobre a etimologia das virtudes; Sócrates diz que as virtudes mencionadas por Hermógenes foram nomeadas sendo tratadas como coisas se movendo, fluindo e/ou vindo a ser: Phronesis (sabedoria), por exemplo, viria das palavras "compreensão" (noesis) do "fluxo" (phoras). Entendimento (gnóme) viria de exame e observação da geração (gonés sképsin kai nómesin) enquanto compreensão (noésis) seria desejo (hésis) pelo novo (toy neoy). Sócrates explica que o desejo da alma pelo "vir a ser" é expresso por aquele que atribuiu o nome "neohésis" (noesis), que antigamente, numa época anterior a Sócrates, era escrito com 2 épsilons (neoeesis). Continuando, Sócrates diz que autocontrole/ moderação (sophrosyne) é salvação (soter) da "sabedoria" (phronésis) e que "conhecimento" (episteme), denota que a alma tem algum valor quando acompanha (epoménes) as coisas em seu movimento, sem precedê-las e sem ficar para trás delas.

Interessante como a moderação é um fator para compreensão e sabedoria e como o conhecimento não deve preceder nem ser ultrapassado pelas coisas; Assim, pré suposições não fazem parte do conhecimento, bem como fazer as coisas sem estudá-las também não deve ser um conhecimento.

Ainda nesta categoria das etimologias que consideram as coisas em movimento, Sócrates comenta sobre as palavras "entendimento" (synesis), "cômputo" (syllogismos), "entende" (synienai), "sabedoria" (sophia), "admirável" (agáston) e "o bom" (t agathon). O filósofo então diz que justiça (dikaiosyne) refere-se ao conhecimento (synesis) do justo (toy dikaíoy). 

Sobre o justo (dikayon) em si, Sócrates diz que é mais difícil descobrir sua origem e começa uma hipótese/ explicação: (...) "os que pensam que o universo está em movimento creem que sua maior parte tem uma tal natureza que não passa de um receptáculo, e que existe algo que atravessa tudo isso, que é pelo meio de que todas as coisas criadas vêm a ser. E esse algo deve ser celeríssimo e sutilíssimo, porquanto não poderia atravessar o universo a menos que fosse muito sutil, de sorte que nada poderia impedir seu ingresso, e é necessariamente muito célere, de modo que todas as demais coisas estão relativamente em repouso"...

Esta curiosa teoria do universo diz que sua maior parte é um receptáculo, ou seja, que recebe algo, seja uma energia, força etc. Em seguida mostra que algo super célere e sutil atravessa todo ele, logo esse algo que atravessa é maior ou mais expansivo que o universo "receptáculo", indo além deste. Este algo que atravessa deveria ser praticamente imperceptível e/ ou indetectável (pois é sutilíssimo) e sua velocidade é tão alta que relativamente todas as coisas do universo estão paradas, ou seja, em repouso relativo a essa coisa super célere e ultra penetrante (nada pode impedir seu ingresso ou sua passagem no/ pelo universo receptáculo).

... "Desde, portanto, que ele governa e "atravessa" (diaión) todas outras coisas, é designado corretamente por meio do nome "dikaion", o som do kappa (k) sendo acrescido por uma mera questão de eufonia (soar bem). Até este ponto, como eu disse há pouco, há consenso entre muitas pessoas sobre o justo (dikaion). E quanto a mim, Hermógenes, conservando o máximo de seriedade em relação a isso, persisti com minhas indagações e recebi ensinamentos em segredo de que isso é o justo, ou a causa - e alguém a mim disse que foi por esta razão corretamente chamado Zeus (Día)." Sócrates então diz que continuou perguntando após esse ensinamento e recebeu opiniões divergentes [de que esse Zeus ("Día") seria o Sol, o calor ou a inteligência (Nous)], por isso permaneceu perplexo.

Interessante notar que Dia tem alguma proximidade com outros nomes através de diferentes pronúncias: se pronunciarmos o "dê" (d) com som de "dj", teremos Dja, que também pode ser falado "Djia" e daí poderia ir sendo alterado para Já e Ya ou até mesmo para Ea. Este último o nome de um deus mesopotâmico. "Ja" é a inicial de Japetus que também pode ser pronunciado Iapetus, o titã criador da raça humana, pai de personagens famosos da mitologia grega: Atlas, Prometeus e Epimeteus. A etimologia do nome Japetus é incerta, alguns propuseram que o nome possa vir de uma palavra grega equivalente a "perfurador", mas outros acham que o nome não tem origem grega. Poderia Japetus/ Iapetus vir de "Ea Ptah", a junção do nome de um deus criador mesopotâmico com um egípcio? Ou poderia ter alguma relação entre os nomes Japetus e Júpiter, deus romano equivalente a Zeus? Além destas possibilidades, Ya ou Ia é a inicial de Yhwh, ou seja, Javé. Por fim, se retornarmos o "Z" de Zeus ao som de Dj, teríamos Djeus, um nome bem próximo de Deus. 

A história das religiões (e dos "nomes divinos") é praticamente não-rastreável: ela se inicia muito antes da escrita em práticas espirituais primitivas como o "xamanismo". Ao longo dos milênios, podem ter ocorrido variadas adaptações nomenclaturais, reinterpretações de nomes, além de sincretismos, separações de práticas religiosas etc.

Sócrates então relaciona a palavra "coragem" (andreia), não diretamente com "homem" (andros), mas com "anreia", ou seja, contra fluxo. A coragem então seria ir contra o fluxo que é contrário ao justo, pois justo é o fluxo relacionado a Dia (Zeus), criador da vida, que atravessa/ preenche todo o universo. Em seguida, o filósofo relaciona "macho" e "homem" (arren e anèr) com "fluxo ascendente" (anoi roêi) e "mulher" (gynè) com "nascimento" (goné) e com "florescer", no sentido de dar vida.

Ao explicar a palavra "arte" (tekhne), Sócrates diz que sua origem deve ser "ter inteligência" (ekhonoe) e explica que muitos nomes foram "sepultados" por acréscimos ou subtrações de letras, seja por uma priorização da vocalização/ pronúncia/ eufonia, ou seja por ação do tempo (desuso ou esquecimento de palavras com o passar dos séculos).

Investigando a palavra "mal" como sinônimo de "vício" (kakía), Sócrates diz que todo o mal ou vício trata-se de um mau movimento da psiquê em relação a teoria do fluxo que adentra/ atravessa o universo. "Covardia" (deilia) também seria um mau movimento e sua "etimologia grega" viria de "demasiado" (lian) e "grilhão" (desmos). Outro mal do mesmo tipo seria a perplexidade/ dificuldade (aporia) e por isso, a virtude/ excelência (aretê ou arete) seria contrário a esse mal - uma "facilidade de movimento" (eyporían ou euporían). Isto porque a boa (agathês) psiquê é sempre livre e "sempre flui" (aei réon). Deste último termo teria surgido a palavra "aretê".

Sócrates responde a Hermógenes que a palavra aiskhron (vil/ feio/ asqueroso) vem de aei iskhonti ton royn (sempre tolhe o fluxo), isto porque algo vil/ feio/ asqueroso é contrário ao fluxo que preenche e atravessa o universo, pois este é justo e divino (de Dia, Zeus). A palavra que designa o contrário de aiskhron, kalos (bom, belo, nobre) viria do termo "nomear" (kalésan), pois o que dá os nomes verdadeiros às coisas é belo, pois é produto da inteligência, seja humana ou divina. A palavra usada pelo filósofo para definir inteligência aqui é phronésis (traduzida como sabedoria anteriormente).

Após investigarem mais alguns nomes, Hermógenes sugere a busca pela origem da palavra lysiteloyn, que parecia ser empregada como sinônimo de "proveitoso". Sócrates diz que tal palavra originalmente não foi designada como na linguagem dos comerciantes, mas sim referente aquele elemento mais rápido do que todas coisas que são (certamente relacionado ao "algo" justo celeríssimo e sutilíssimo que preenche e atravessa o universo etc).

O tradutor Edson Bini explica que o autor se refere a "agathon" (bom) neste trecho, ao invés do "dikaion" (justo/ justiça) anteriormente citado no texto. O texto trata desta teoria incomum ou complexa de Platão e o original grego (de acordo com o site https://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Plat.+Crat.+417&fromdoc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0171), parece citar a palavra psyquê neste trecho, a qual não encontrei na tradução.

O diálogo continua com Sócrates dizendo que o "algo" (justo ou bom) celeríssimo libera (a psiquê, presumo) de um cessar do movimento ou de um "fim" (telos). Esta "liberação" (lyei) rumo ao incessante/ ao imortal, seria a origem e verdadeiro significado da palavra lysiteloyn ("proveitoso").

Após relacionar a palavra "prejudicial" (blaberon) com aquilo que deseja "prender" (blapton) ou "agrilhoar" (háptein) o fluxo (da teoria já mencionada), Sócrates diz que esta palavra foi simplificada com o passar do tempo, enquanto outras como "zemíodes" (danoso) foram pouco modificadas, mas tiveram seu significado invertido. O filósofo explica que todas as palavras relacionadas aos aspectos bons (déon ou diion) abordadas no diálogo, lidam com o princípio da ordem e movimento (dikaion que é justiça, Dia que é Zeus etc) que sempre foi objeto de aprovação, enquanto as palavras que são contrárias a essas, lidam com o constrangimento e agrilhoamento deste princípio.

Sócrates então faz uma breve relação entre as palavras "epithymias" (traduzido geralmente como "desejo") e "thymous" (traduzido como iraindignação etc). Apesar da origem da palavra ser utilizada como indignaçãocólera e sinônimos, como expliquei nas "observações sobre A República", a palavra thymous e todas suas correlacionadas parecem se referir a sentimento ou emoções. Afinal Platão sugere que o "thymous" é o elemento intermediário da alma que deve se unir com o superior, da reflexão, razão, busca pela sabedoria (etc) e ninguém raciocina ou faz reflexões em fúria ou tomado por raiva. Ela deveria ser empregada com esse significado de sentimento explosivo ou destrutivo devido a fatores históricos e culturais da Grécia antiga (séculos 9 aC até 3 aC), típicos de uma sociedade patriarcal e notoriamente machista para os padrões "euro-americanos" deste início de século 21.

Após investigarem brevemente uma série de palavras, Sócrates explica que "doxa" (opinião) viria das palavras "dioxei" (busca) e "toxoy" (arco). A relação com a palavra "arco" indicaria que opinar é uma tentativa, um disparo sem a reflexão intelectual e sem previdência.

Sócrates então explica que "voluntário" (hekoyson) expressa o que não resiste, mas sim, submete-se ao movimento (princípio da ordem...), enquanto "necessidade" (anágken) refere-se ao compulsório e "resistente" (antítipon) ao movimento. Por isso "anagkaîon" encontra-se em analogia ao caminhar por um desfiladeiro.

 Respondendo a Hermógenes sobre as palavras mais nobres, Sócrates diz que "ónoma" (nome) vem de "onomastón" abreviado de "òn hoy másma estin" (ser do qual é a investigação). "Alétheian" (verdade) viria do movimento divino já mencionado, pois é uma "theía ále" (perambulação divina). Tò òn (ser, relacionado à ontos) significaria iòn (ir) sem a letra inicial "iota" (i), similar à oysia (essência) - do mesmo modo "não ser" (oyk on) viria de "não ir" (oyk ion). A seguir ele pergunta a Hermógenes se o momento ideal para se parar a investigação da origem dos nomes não seria quando se chega em uma palavra que não é mais composta de outras. Hermógenes concorda com o filósofo.


A partir daí eles começam a especular como seria um alfabeto ideal e como seriam feitas as escolhas das letras para nomear as coisas formando as palavras. Crátilo então tentará defender que os nomes correspondem à(s) verdade(s) e Sócrates irá contra argumentar mostrando como eles (os nomes) são representações mais ou menos precisas, praticamente refutando o jovem colega de Hermógenes.


Breves Observações sobre "Eutífron" (ou, Da Piedade)

Eutífron (Da Piedade, ou, Da Religiosidade) 

 
Sócrates, após ser processado por Meleto, encontra o adivinho (um tipo de sacerdote ou "profeta" da cultura helênica clássica) chamado Eutífron e inicia um diálogo com este. 
Eutífron pergunta a Sócrates, porque Meleto o processou. Sócrates responde que não foi por uma causa banal, pois o jovem Meleto supõe saber como os jovens são corrompidos e quem são os seus corruptores. Assim o jovem se dirigiu ao estado para o acusar de corruptor. 
Sócrates diz que assim como um bom lavrador cuida primeiro de suas plantas mais jovens, Meleto deve estar militando pelos mais jovens para que sejam melhores possíveis. Sócrates continua já com evidente ironia, afirmando que, depois de militar pelos mais jovens, Meleto deve militar pelos mais velhos para ser o culpado por produzir inumeráveis bens (ou bençãos) para o estado.
Eutífron então mostra alguma admiração por Sócrates, respondendo que Meleto, ao fazer tal acusação contra o filósofo, está atacando a cidade/ estado em sua própria "héstia"*.
*Edson Bini traduz a palavra grega héstia como "lar", enquanto André Malta traduz como "lareira". Entende-se que era comum na Grécia antiga e/ou clássica, as casas terem um altar e santuário onde o fogo era alimentado para o culto de divindades domésticas. Héstia deusa do lar e do fogo sagrado que representava estabilidade era uma das mais conhecidas (ou a mais conhecida) destas divindades. Platão parece ressaltar a importância desta divindade em suas obras Crátilo, e mais brevemente em Fedro.
Sócrates então pergunta o que Eutífron está  fazendo e este responde que está movendo um processo contra seu próprio pai, devido a um (suposto) crime que este cometera. 
O tema do diálogo então gira em torno sobre o que é ser pio (piedoso) ou ímpio (impiedoso) e sobre o que é ser religioso ou irreligioso. Estes termos são alternados ao longo da obra, indicando uma equivalência ou semelhança entre eles. Assim a palavra piedade (eysebes) poderia ser um "sinônimo" de religiosidade (hosíoy) enquanto impiedade (asebes) seria "sinônimo" de irreligiosidade (anosíoy).
No diálogo, Sócrates diz que o piedoso é sempre idêntico em sua ação, mas o impiedoso não, pois é contrário ao piedoso. (há muitas maneiras de atacar, julgar, punir etc). Eutífron concorda com o filósofo e adiciona: Piedoso é processar quem age mal, pois conforme a mitologia grega, Cronos puniu seu pai Urano por maltratar Gaia e impedir que os titãs vissem o Sol e Zeus puniu Cronos por ter devorado seus próprios filhos. Por isso, Eutífron vai processar o seu próprio pai que teria (supostamente) sido responsável pela morte de um servo. 
 Sócrates diz que em toda discórdia sobre temas perceptíveis pelos nossos sentidos (usa os exemplos da quantidade de itens e da altura e peso de um corpo), é possível recorrer a uma análise/ medição para se chegar a concórdia. E completa dizendo que não é possível usar tal resolução de medir/ analisar mecanicamente, quando a discórdia é sobre o bem e o mau, o belo e o feio e o justo e o injusto. Eutífron concorda e Sócrates completa dizendo que neste caso, a discórdia, seja entre deuses ou entre humanos, se dá sobre uma mesma coisa (um mesmo tema, um único assunto) e que por isso, piedoso e ímpio seriam iguais entre si. Os deuses citados por Eutífron estariam em conflito porque um achava suas ações justas, o outro, considerava-as injustas. 
 Eutífron tenta explicar que (todos) os deuses não tolerariam uma pessoa que matou injustamente. Então Sócrates pergunta a Eutífron se ele já ouviu alguém discutindo se uma pessoa que matou injustamente deve ser punida ou não. Ele explica que, ao invés disso, as pessoas simplesmente negam que agiram mal e afirmam que não devem ser punidas, convencendo Eutífron a concordar com seu argumento. 
 Sócrates propõe então corrigir a ideia de que deuses discordam entre si, e que todos eles devem concordar que um ato ímpio/ injusto é detestável e deve ser punido (como citado em “A República”).
 Eutífron então completa: Piedoso é aquilo que todos os deuses apreciam e o contrário, o ímpio, é o que todos os deuses detestam. 
 Sócrates discorre longamente para separar o piedoso do apreciável, até que Eutífron entenda (ou alegue entender). Afinal nem tudo que é apreciável, é piedoso. 
 Sócrates continua, dizendo que a piedade é parte da justiça, mas não o contrário e pede para Eutífron dar seu parecer sobre que coisas são piedosas (e religiosas, atualmente espirituais). Eutífron separa os temas trazidos por Sócrates, dizendo que a piedade (religiosa) é o cuidado com os deuses enquanto a justiça (ou a piedade justa) é o cuidado com os homens. Sócrates fica insatisfeito e pede para Eutífron explicar que “cuidado” é esse. 
 Quando Eutífron tenta explicar que o cuidado (da piedade religiosa) é servir os deuses, Sócrates indaga-o. O filósofo relaciona o ato de servir, ao serviço: Qual é o serviço de cada pessoa? O serviço determina para que aquela pessoa “serve” na sociedade, ou seja, sua função e utilidade. 
 Para os médicos, servir é cuidar da saúde das pessoas; 
 Para o arquiteto, servir é construir casas, estabelecimentos e afins; 
 Para o construtor naval, servir é construir embarcações etc. 
 Quando a pessoa realiza seu serviço, ela efetua um desses feitos capitais (principais, centrados numa função/ objetivo). Sócrates pergunta então á Eutífron, qual feito capital é efetuado ao se servir os deuses? 
 Eutífron com dificuldade em responder, se esquiva da explicação de Sócrates sobre servir, e diz que servir aos deuses é orar e realizar sacrifícios. Isto também seria gratidão aos deuses. 
 Sócrates diz que na oração os humanos pedem aos deuses e nos sacrifícios eles dão aos deuses. Sendo assim, como toda troca ideal, pedimos o que precisamos e damos o que os outros (no caso, os deuses) precisam. Mas como os deuses são superiores aos humanos, eles não precisam de nada, então Eutífron diz que os deuses não obtêm o que precisam nesta troca, apenas recebem agrados. 
 Sócrates diz que ele está se contradizendo, pois Eutífron havia concordado que agradável e piedoso eram coisas diferentes. Eutífron então se retira, abandonando o diálogo… 
 Embora abordado timidamente no diálogo, a justiça é explicada como algo superior por Sócrates: Ela excede a lei dos homens, sendo uma lei da natureza e uma lei divina. A piedade seria uma parte desta lei: o ato de perdoar faz parte da lei divina e portanto deveria fazer parte da lei humana. Piedade é um ato religioso (espiritual, e não exclusivo de uma ou mais religiões), assim como a justiça que transcende a piedade e a lei dos homens.

 

Sobre uma Educação pautada na vivência e na relação com o Ambiente

Escrevo este humilde texto a pedido da jornalista, educadora e escritora, Dora Incontri, após eu ter observado alguma semelhança entre as "ideias e práticas pedagógicas" de Eurípedes Barsanulfo (1880-1918) e a construção de conhecimento dos povos indígenas do Brasil. Tentarei demonstrar algumas destas semelhanças à seguir: 

Barsanulfo, professor, jornalista e político mineiro, fundou o colégio Allan Kardec e ministrou aulas utilizando práticas pedagógicas centradas nos alunos, estimulando nestes, a liberdade e a vontade de conhecer. Desta prática, as aulas passeio marcaram memória dos estudantes do colégio, pois segundo os próprios alunos, as crianças adoravam sair da escola para passear e aprender. Entre os indivíduos que estudaram no colégio, Novelino e Germano, contam que Eurípedes considerava as aulas passeio fundamentais ao processo de ensino aprendizagem, pois eram oportunidades de conhecimento, curiosidade, socialização, observação, conversas e debates. 

 Além da utilização do meio ambiente e da cidade, no caso, o local onde se vive, para educar os alunos, a abolição dos castigos e a consideração da possível realidade espiritual, são alguns elementos de naturalidade no ensino que remetem à um estilo de vida indígena, claro que com suas devidas diferenças. O sistema educacional de Barsanulfo mostrou seu diálogo com a educação e cultura européia por suas devidas razões, mas também rompeu significantemente com o modelo dominante de sua época que era rigidamente disciplinar com enfoque na formação para a sociedade dominada pelo sistema sócio econômico liberal que estava começando a se industrializar. 

Os indígenas em seu contato milenar com a natureza desenvolveram não só um modo de vida livre das pressões psicológicas típicas dos sistemas sócio econômicos modernos predominantemente europeus e estadunidenses, mas também construíram conhecimento com base na observação, experiência e vivência. Artigos acadêmicos indicam que os regimes tradicionais de conhecimento indígenas orientam modos de vida amplamente e minuciosamente conectados com as dinâmicas ambientais. Esta conexão é enfatizada pelo princípio de interdependência arraigado nos saberes e práticas que envolvem as relações entre seres humanos, ambientes e seres não humanos. Esse tipo de conexão com o ambiente propiciou e propicia níveis de percepção e de reflexão muito refinados sobre processos de mudanças e de transformações ambientais. 

Portanto os indígenas também utilizam o meio ambiente para construir conhecimento, embora tal construção tenha características de uma especialização em determinados biomas onde cada povo vive. Isto difere das "aulas passeio" ministradas por Eurípedes Barsanulfo somente no aspecto do estilo de vida indígena não contar com as tecnologias e normas sociais de raízes predominantemente européias. 

Além disto, várias, para não dizer todas, culturas indígenas possuíam uma prática espiritual que era parte de sua visão de mundo, ou seja, de suas cosmovisões. Vale lembrar que os seres não humanos citados por indígenas não são apenas animais, plantas e minerais, mas também seres espirituais, embora haja diferenças entre as várias culturas indígenas. 

Mesmo mantidos por tradições passadas através das gerações oralmente de modo geral, tais conhecimentos não eram apartados de seus estilos de vida nem de seus conhecimentos: faziam parte destes. Tirar-lhes estes elementos de suas vidas para adaptá-los aos sistemas sócio-econômicos de ideologia capitalista, não geram apenas conflitos inter-geracionais entre os povos indígenas, mas também lhes expõem às pressões psicológicas de nossa sociedade. 

A partir dos anos 2000, com o avanço da crise ambiental que aflige o planeta, as preocupações dos cientistas se voltaram para aquilo que foi classificado como mudanças climáticas e seus efeitos globais. No início, os espaços de discussão foram ocupados por cientistas e especialistas das ciências naturais, para somente depois as ciências sociais e humanas, adentrarem nesses debates. Isto ocorreu primeiramente a partir da sociologia e da geografia humana, até que então a antropologia focada nestas mudanças climáticas trouxe outras possibilidades para o debate ao considerar os conhecimentos, narrativas, ontologias e cosmovisões de povos indígenas e tradicionais sobre as transformações ambientais que estão ocorrendo nos seus territórios. 

A experiência pedagógica de Barsanulfo infelizmente foi de curta duração e mesmo se houveram algumas outras experiências com características semelhantes, elas tiveram pouca oportunidade de dialogarem entre si, pois o sistema educacional dominante no Brasil e nos demais países de cultura européia (ou influenciada por esta) é hegemonicamente adaptado ao sistema sócio econômico como eu já mencionei. Resumidamente o sistema educacional adaptado aos sistemas liberal e neoliberal, desde a época de Eurípedes Barsanulfo, até este início de século 21, deu enfoque na formação profissional, qualificando os estudantes para o mercado de trabalho e a realidade industrial ou empresarial. Com isto, tal sistema deixou em segundo plano as questões sociais, as questões históricas, as questões ambientais e até as questões humanas, sejam estas últimas, questões culturais, filosóficas ou psicológicas. 

Ainda que o texto não tenha intenção de ressaltar a importância do conhecimento indígena para lidar com a "crise da mudança climática", achei interessante mencionar tal fato. Isto porquê a questão trás a importância de se romper com, ou ao menos, de controlar, o modelo dominante de construção de conhecimento eurocêntrico não só da educação de base, mas também da narrativa acadêmica/ científica que por tanto tempo desprezou (e ainda despreza, apesar de alguns cientistas começarem o diálogo) as culturas indígenas e suas respectivas epistemologias. 

Defender tais epistemologias (a proposta por educadores como Eurípedes Barsanulfo e as das etnias indígenas) faz-se necessário não só para preservar o meio ambiente, mas também para preservar a diversidade das culturas incluindo suas práticas espirituais. Tal defesa não é fazer proselitismo, nem pseudociência - é defender uma construção de conhecimento pautada pelas relações éticas das sociedades em relação umas às outras e em relação ao meio ambiente, ou como diriam os indígenas, em relação ao seres não humanos. Defender tais epistemologias é reviver a importância da filosofia: do diálogo e da ética para as relações mencionadas, pois ética trata de valores universais e estes valores buscam o bem não de certos indivíduos ou de meros grupos, mas buscam o bem do coletivo, da civilização humana e do meio onde ela vive. 

Por fim, o que trago aqui não é só minha opinião: Eu me apoiei no conteúdo de aulas de psicopedagogia e de pedagogia espírita das quais não tenho todas as fontes e também utilizei o artigo "Percepções locais sobre transformações ambientais na região do Oiapoque: reflexões a partir da experiência de formação de pesquisadores indígena" de Igor Alexandre Badolato Scaramuzzi, Rita Becker Lewkowicz, Rosélis Remor de Souza Mazurek e Vinícius Cosmos Benvegnú. 

Para quem interessar, também existem vídeos sobre o tema em canais na internet de ativistas indigenistas e de líderes indígenas, que trazem este tipo de questionamento da epistemologia eurocêntrica/ estadunidense tão adaptada aos sistemas liberais e neoliberais e sua respectiva ideologia capitalista centrada na extração, consumo e acúmulo de recursos materiais. 

Este texto foi originalmente publicado em: https://blogabpe.org/2024/11/18/a-pratica-de-euripedes-barsanulfo-entre-a-educacao-colonial-e-a-indigena/

 

Observações sobre Politéia ("A República"); Livro X

Segue a última parte das observações sobre Politéia, ou "A República" de Platão. 


 Livro 10: Sócrates começa falando da importância de não se aceitar a arte mimética na cidade/ estado ideal e inicia o diálogo sobre o que é o mimetismo; Ele explica que os artífices fabricam coisas partindo de uma ideia e esta ideia refere-se unicamente ao objeto a ser produzido, como por exemplo uma mesa ou uma cama. Isto porque nenhum artesão (kheirotekhnos) começa a projetar a partir de uma mera parte do objeto, pois se fosse assim ele teria que imaginar uma perna da cama por exemplo, então outra perna ou outra parte e ir adicionando partes em pensamento/ idealização, antes de produzir o objeto em si. O filósofo então diz que há um criador (demiurgo) que faz o trabalho de todos artesãos e é o criador de todas as coisas, o que faz Glauco ficar espantado e duvidando de Sócrates. O filósofo então fala para ele e os demais participantes da conversa imaginarem estar andando com um espelho em mãos e pergunta se tal item não produzirá imagem de tudo em seu caminho. Glauco diz que são apenas fenômenos (imagens, aparências) e chega no ponto que Sócrates quer. 

O filósofo diz que Deus (Theos, possivelmente o demiurgo) cria todas as coisas, portanto os exemplos dados anteriormente, como a cama por exemplo, também é sua criação. Depois o artesão cria o tal objeto (a cama) e por último o pintor cria uma cama que é só uma aparência (imagem da cama). A pintura então é imperfeita por captar apenas uma parte da essência do objeto reproduzido - ela estaria 3 pontos distantes da verdade. 

Embora tradutores como Pietro Nassetti interpretam isso como uma maneira de contar os extremos na cultura helênica da época de Platão, parece também ser uma aplicação filosófica da matemática, seja a geometria ou o cálculo, regularmente presente nas obras do filósofo: No livro anterior, Platão diz que, sequencialmente, cada sistema de governo é exponencialmente 3 vezes pior do que o governo dos filósofos, fazendo da tirania e do tirano 729 vezes mais infeliz(es) do que sua “(filo)sofocracia”; Em sua parábola sobre o governo de Kronus durante a mítica “Era de Ouro”, Platão faz insinuações matemáticas sobre os ciclos cósmicos, seus inícios e fins. Na parábola da caverna, Platão utiliza-se da comparação entre o bidimensional (sombras e imagens refletidas) e o tridimensional (os corpos iluminados pelo sol etc). 

Sócrates diz que a pintura pode representar um objeto visto de frente, de lado ou de cima (bem como o desenho técnico onde mostra-se as 3 vistas de um objeto tentando remontar sua tridimensionalidade) e pergunta a Glauco se estas vistas são verdadeiramente diferentes entre si ou se são diferentes no que se refere só a aparência do objeto. Assim, ambos concluem que só há diferença na aparência, pois a pintura é uma arte que reproduz só a aparência dos objetos. Seguindo a mesma linha de classificação para as demais artes miméticas, o filósofo classifica a poesia e a tragédia da mesma maneira da pintura. 

[598 d] Sócrates — Aí está! No meu modo de ver, o que se deve pensar de tudo isto é o seguinte: quando um indivíduo vem nos dizer que encontrou um homem conhecedor de todos os ofícios, que sabe tudo o que cada um sabe do seu ramo, e com mais exatidão do que qualquer outro, devemos assegurá-lo de que é um ingênuo e que, ao que parece, deparou com um charlatão e um imitador, que o iludiu a ponto de lhe parecer onisciente, porque ele mesmo não era capaz de distinguir a ciência,a ignorância e a imitação. 

Apesar de estar explicando como a pintura pode simular várias coisas, nesta fala Sócrates parece fazer uma alusão crítica também aos mestres da retórica e da oratória, os sofistas. 

A seguir Sócrates explica como Homero ao falar de vários temas em suas poesias, pouco sabia sobre os temas em questão. Isto está de acordo com a construção de conhecimento proposta por Platão onde para se conhecer um assunto deve-se estudá-lo e produzir algum resultado bom para outrem: a serventia das artes e profissões (tekhnes) explicada nos 2 primeiros livros da República e que está de acordo com a função de um professor de ontos (ontologia) apresentada no diálogo Fédon.Vale a pena lembrar que na Grécia clássica (a época de Platão) e antes disso, artes como a pintura e a poesia eram utilizadas para propagar os mitos, que, embora alguns pudessem ter um significado alegórico, muitos traziam exageros e conteúdo dúbio, como o autor explica entre os livros 2 e 3 da “República”.

Os interlocutores então concluem que um homem comedido resiste melhor do que outros homens (não comedidos), à dor da perda de alguém querido ou de algo importante. Eles também concordam que tal homem comedido não estaria imune ao desgosto, mas apenas sofreria menos do que outros e que resistiria e lutaria mais com a sua dor quando observado por outros do que quando só, pois nesta última situação poderia dizer coisas inaceitáveis ou vergonhosas. Assim, é necessária a razão como força para resistir as aflições, pois a razão é contrária da aflição, assim como o autocontrole é contrário ao descontrole sobre si mesmo. Parece estranho contrapor razão e aflição, mas cabe lembrar que nos livros anteriores Platão classificou o prazer verdadeiro como os prazeres da finalidade da filosofia (prazer pelo bem/ belo, pela justiça, as virtudes imutáveis etc) e estes prazeres mais puros são contrários da aflição, da inquietação e da dor. Assim como o autor também criticou a ignorância indicando que esta é o oposto do intelecto e da razão que busca a sabedoria. 

[604 c-e] Sócrates — A lei diz que não há nada mais belo do que manter a calma, tanto quanto possível, na infelicidade, e não se afligir, porque não se pode distinguir com clareza o bem do mal que ela comporta; não se ganha nada em indignar-se, nenhuma das coisas humanas merece ser tomada muito a sério, e, numa ocasião dessas, agindo com destempero, seria impossível ver o que estaria vindo em nosso socorro, porque nosso desgosto nos impediria. 

Glauco — Do que falas? 

Sócrates — Reflito sobre o que nos aconteceu. Como num lançamento de dados, devemos, de acordo com o lote que nos toca, restabelecer os nossos assuntos pelos meios que a razão nos prescreve como sendo os melhores e, indo de encontro a qualquer coisa, não agir como as crianças, que, agarrando-se à parte magoada, perdem o tempo a gritar, mas, pelo contrário, lutar por habituar a nossa alma a ir o mais depressa possível tratar o ferimento, erguer o que está por terra e fazer calar os lamentos mediante a aplicação do remédio. 

Glauco — Temos aí, com certeza, o melhor a fazer nos acidentes que nos ocorrem. 

[605 b-c] Sócrates: ...Diremos o mesmo do poeta imitador que introduz um mau governo na psiquê de cada indivíduo, lisonjeando o que nela há de irracional, o que é incapaz de distinguir o maior do menor, que, pelo contrário, considera os mesmos objetos ora grandes, ora pequenos, que só produz fantasias e se encontra a uma distância enorme da verdade. 

Glauco — Certamente. 

Sócrates — E vê que ainda não acusamos a poesia do mais grave dos seus malefícios. O que mais devemos recear nela é, sem dúvida, a capacidade que tem de corromper, mesmo as pessoas mais honestas, com exceção de um pequeno número. 

Já foi observado que Platão defendia o autocontrole, a calma e a razão e foi um crítico da poesia trágica e da imitação de personagens e de contos da Grécia antiga/ clássica. Neste trecho da obra ele cita como o caráter irascível (ultrajante) possibilita variada e numerosa imitação por parte dos artistas (poeta, ator etc). enquanto o calmo e sensato é sempre igual a si mesmo, portanto oferece menos variedade. Assim, as artes de imitação e seus respectivos artistas tendem ao caráter provocável e instável/ variável para se destacarem diante seus observadores/ diante da multidão. Tais artistas julgam acerca das mesmas coisas (de um determinado tema), ora como se fosse maiores, ora como se fossem menores, induzindo o espectador a um relativismo. Por fim, o autor relembra como estas artes (que muitas vezes abordavam os mitos gregos) geralmente ignoravam a verdade ao priorizarem emoções irracionais e destrutivas, histórias exageradas etc. Isto afasta consideravelmente a filosofia socrática, a academia de Platão e o platonismo da mitologia grega fundamentada pelos poetas Homero e Hesíodo. Ainda que com diferenças entre si, a filosofia fundada por Platão e Sócrates, assim como a pitagórica e o evemerismo, se afastam da vertente principal e popular da religião politeísta helênica (grega). 

As críticas à pintura, à poesia e à tragédia (teatro), se levadas à risca, ou seja, se ignorarem como era a sociedade grega na época de Platão, podem parecer meros argumentos conservadores, ou mais precisamente, argumentos repressores. Temos exemplos na história de grupos de ideologia repressora que proibiram o teatro e não apresentaram nenhuma proposta para a difusão do conhecimento e da ética filosófica de Platão - foi o caso da ascensão do puritanismo na Inglaterra quando os protestantes (evangélicos) puritanos durante o século 17 predominaram no parlamento inglês e impuseram uma série de leis repressoras à sociedade. Inclusive uma das mais conhecidas caça às bruxas foi realizada por um puritano nesta mesma época, resultando na morte de dezenas de mulheres. 

O filósofo termina suas críticas às poesias/ representações trágicas e cômicas, apontando como elas alimentam um gosto por tais emoções nas pessoas: A pessoa que pega gosto por assistir tragédias, entrega-se às emoções de tristeza e similares, acostumando-se a ver desgraças alheias. Por outro lado, aqueles que passam a adorar as imitações cômicas e o riso oriundo destas, passam a considerar aceitável dizer coisas patéticas ou vulgares das quais outrora teriam vergonha. Essas pessoas que priorizam tais emoções e eventos emocionantes (tragédia, tristeza trágica, comédia, riso cômico), bem como os indivíduos que tornam rotineiras as paixões (afrodisíon, de sedução, sensualidade), deixariam a razão e a moderação de lado. 

[608-609] Sócrates — Tínhamos isto a ser dito, visto que voltamos a falar da poesia, para nos justificar de termos banido do nosso Estado uma arte desta natureza: a razão obrigava-nos a isso. E digamos-lhe também, para que ela não nos acuse de dureza e rudeza, que é antiga a dissidência entre a filosofia e a poesia. Testemunham-no os seguintes aspectos: “a cadela arisca que ladra para o dono”, “o homem que passa por grande nas palavras vãs dos loucos”, “o magote das cabeças magistrais”, “as pessoas que se atormentam a subtrair porque estão na miséria” e mil outros que marcam a sua velha oposição. Declaremos, porém, que, se a poesia imitativa puder provar-nos com boas razões que tem o seu lugar numa cidade bem policiada, vamos recebê-la com alegria, porquanto temos consciência do encanto que ela exerce sobre nós, mas seria ímpio trair o que se considera a verdade. 

[...] Sócrates — Com efeito, é um grande combate, amigo Glauco, sim, maior do que se pensa, aquele em que se trata de nos tornarmos bons (christon) ou maus (kakon); Por isso, nem a honraria (glória), nem as riquezas (dinheiro), nem poder algum (a dignidade), nem mesmo a poesia, merecem que nos deixemos resvalar para o desprezo da justiça e das outras virtudes. 

Glauco — Estou de pleno acordo, e julgo que não há ninguém que deixe de concordar também. 

Sócrates — Mas ainda não falamos das recompensas maiores e dos prêmios reservados à virtude. 

Glauco — Devem ser extraordinariamente grandes se são maiores ainda do que os que enumeramos! 

Sócrates — Mas o quê, sendo tão grande, poderia ter lugar em pouco tempo (oligo chróno), visto que todo esse tempo que separa a infância da velhice é bem curto em comparação com a eternidade? 

Glauco — Não é nada. 

Sócrates — Ora! Achas que um ser imortal deva inquietar-se com um período tão curto como esse, e não com a eternidade? 

Glauco — Claro que não. Mas aonde queres chegar com esse discurso? 

Sócrates — Não observaste que a nossa alma (psiquê) é imortal? 

Glauco — Por Zeus, não! E tu poderás prová-lo? 

Sócrates — Sim, com certeza, mas creio até que tu poderias fazê-lo, pois não é difícil. 

Glauco — Para mim é, mas gostaria de te ouvir demonstrar essa coisa fácil. 

Sócrates — Reconheces que há um bem e um mal? 

Glauco — Sim. 

Sócrates — O que destrói e corrompe as coisas é o mal; o que as conserva e desenvolve é o bem. 

Glauco — De acordo. 

Sócrates então pergunta à Glauco se os vícios como a ganância e a injustiça (etc) destroem a psiquê, fazendo com que ela murcha e morra ou com que saia do corpo, ao que o interlocutor responde que não. Em seguida, Sócrates indica como os corpos podem apodrecer e morrer e que as más qualidades alheias não destroem outros corpos. Elas poderiam se destruir na interação entre corpos no exemplo de um alimento podre, este causaria algum mal ao corpo que o consumisse, pois esse corpo que consome tem suas respectivas necessidades e vulnerabilidades. Sócrates seguindo a mesma linha de comparação, diz que os males do corpo também não podem destruir a psiquê/ alma sem que esta não tenha seu próprio mal; Se o corpo ficar febril ou doente, a psiquê/ alma não perece nem se torna injusta ou ímpia. 

[610e - 612] Sócrates — Estás certo. Se a perversidade própria da alma, se o seu próprio mal, não a pode matar nem destruir, um mal destinado à destruição de uma coisa diferente levará muito tempo a destruir a alma ou qualquer outro objeto que não seja aquele a que está ligado. 

Glauco — Sim, assim vejo. 

Sócrates — Então, quando não existir apenas um único mal, próprio ou estranho, que possa destruir uma coisa, é evidente que essa coisa deve existir sempre. Assim, se existe sempre, é imortal. 

Glauco — Certamente. 

Eles concluem desta forma, que o corpo então é passível de apodrecer, decompor-se e morrer, mas a psiquê (seja alma, mente ou ambas) não. Mesmo os males da psiquê, sejam eles morais/ éticos ou quaisquer outros, não podem destruí-la. Pensamentos, sentimentos, identidade e visões da realidade,  não podem ser destruídas, pois não podem ser decompostos. Neste início de século 21 isso certamente seria questionado (ou recusado) pelos cientistas materialistas. Na época de Platão talvez houvessem menos argumentos disponíveis para se combater a visão reducionista materialista predominante na ciência desde o empirismo de Locke e o positivismo de Comte, mas em um dos diálogos, Sócrates diz ao seu interlocutor, que não deve-se fazer como os indivíduos que acreditam somente no que se pode tocar (perceber sensorialmente): Não se deve confundir efeitos com causas; Esta confusão parece começar a se intensificar após estudos de anatomia do iluminismo como os feitos por René Descartes, onde são notadas reações instintivas do corpo humano em relação a fenômenos que lhe ferem e/ ou que lhe causam dor. Vários outros estudos que tratam de temas similares foram feitos depois, mas nunca provaram a inexistência da psiquê. 

Sócrates diz então, através da comparação de um “Glauco marinho”, que a alma é irreconhecível do ponto de vista da vida terreno: sendo imortal, sofre e adquiriu muitas coisas de outras existências - “desgastes pelas ondas, acúmulo de algas, de conchas etc”. Para que a alma saia desta condição de sujeira e desgaste, é preciso olhar buscando a sabedoria, pois ela é aparentada do divino (como mostrada na obra Fedro) e imortal. Mesmo que a alma possua o “anel de Gyges” mencionado no livro 2 da República, ou seja, mesmo que a alma seja invisível e possa esconder pensamentos durante a vida terrestre, ela deve praticar a justiça e se pautar por esta. 

[613-615] Sócrates relembra que no início do diálogo foi dito que a pessoa injusta pode se passar por justa e conseguir benefícios em vida; Porém, agora que concluíram que a justiça e as demais virtudes fazem bem para a alma, que é imortal e semelhante aos deuses, fica claro que as divindades não podem ser enganadas. Além disso, os semelhantes tendem a se unir, o que faria que os indivíduos justos, mesmo que sofram na Terra, estão destinados à recompensa de se unir aos deuses que são justos, moderados, corajosos e bons. 

Concluindo sobre o destino da alma, Sócrates parece sugerir que há possíveis recompensas para os justos na vida terrestre, mas as melhores recompensas estariam por vir depois disso. Ele diz que os injustos (que se entregam aos atos egoístas, vícios nos prazeres e aos excessos que fazem mal à psiquê etc) se decepcionarão no fim de suas jornadas, provavelmente aludindo também ao "pós vida". Estes não passariam mais desapercebidos e seriam apanhados no fim, sofrendo os "suplícios selvagens" ditos por seus interlocutores no início do diálogo (Glauco ou Adimanto, entre os livros 1 e 3, falam do justo que é apanhado por seus adversários injustos e consequentemente castigado).

[615-621] Em seguida, Sócrates encerra o diálogo contando a história (possivelmente um mito) de Er (Iros), um soldado da região da Anatólia/ Ásia Menor (atual Turquia) que teria morrido e visto “a realidade espiritual”, para depois retornar aos vivos (encarnados) e contar seu relato.

Tal história é praticamente uma experiência de "quase-morte" (EQM). Existem inúmeros casos na história das diversas culturas humanas, sobre experiências transcendentais ou de "EQM" desde antes do desenvolvimento da medicina moderna. Então, voltando a questão sobre provar a inexistência da psiquê (seja a alma, a mente etc): Conforme a filosifia ocidental, tal prova seria anti dialética e, assim, anti epistemológica como Platão indica na "República" e em outras obras também, como Protágoras, Teeteto etc. Afirmar que a ciência com certeza irá provar tal inexistência no futuro é um messianismo; uma promessa baseada no dogma materialista antropocêntrico surgido no fim do século 17 e intensificado no século 19. Isto rompe com a base da epistemologia, pois ignora toda a raiz e o cerne da filosofia ocidental. A epistemologia, deve ser dialética para permitir o diálogo entre diferentes áreas da ciência (epsitemes, indicada no livro 8 desta obra) e se pautar pelo bem como valor universal, ou seja, pela ética, e não por determinismos ou reducionismos, como a visão de mundo e o pressuposto materialistas/ niilistas. O estudo baseado na investigação sensorial e reprodutível (empírica) é útil apenas para as descobertas voltadas à produção e preservação dos corpos, ou seja, da matéria, como explicado por Platão nesta e em outras obras. Isto porquê, tal tipo de estudo não é alicerçado na ética, pois ética não é percebida sensorialmente. Assim, os estudos empíricos e a pré suposição materialista, têm sua importância, mas deixam em 2º plano (quando não ignora) os valores universais e sua relação com a psiquê humana. Para se ter noção do estrago desta postura na construção de conhecimento, ela possibilitou o racismo científico desde a transição da Renascença ao Iluminismo: A escravização e os maus tratos dos povos negros e indígenas recebeu apoio da ciência quando esta afirmou que estas "raças" eram inferiores aos "brancos", baseadas simplesmente em questões biológicas. Com o racismo científico ainda em voga, surgiu o darwinismo social entre o fim do séc 19 e início do séc 20, fomentando mais desigualdade social ao afirmar que as pessoas empobrecidas eram menos adaptadas ao meio social, ignorando questões sociais e éticas em prol de um biologismo. Durante toda primeira metade do séc 20 então propagou-se uma psiquiatria desumanizada alicerçada na ideia niilista de que nada existe além do corpo, bem como, com base nas mesmas idéias, foram feitas as armas químicas e de destruição em massa das duas guerras mundiais (vide os relatos de Viktor Frankl, que sobreviveu aos campos de concentração nazistas)*. Enfim, não se coloca "fins sociais" na construção de conhecimento nem na convivência em sociedade/ na política, sem se pautar pelos valores universais/ éticos - por isto por mais particularidades que as propostas de estado feitas por Platão tenham, elas são voltadas ao coletivo - a questão social é filosófica e ética porque é uma questão de valores universais - ignorar isto é permitir o domínio de interesses privados e de fins lucrativos, sem serventia pública e sem ética. Por esses motivos, a postura ética de um cientista frente a questão da psiquê, no mínimo, deveria ser de dúvida, ou seja, no mínimo deixar a questão em aberto.

Sócrates — Não é a história de Alcino que te vou contar, mas a de um homem valoroso: Er, filho de Armênio, originário de Panfília. Ele morrera numa batalha; dez dias depois, quando recolhiam os cadáveres já putrefatos, o seu foi encontrado intacto. Levaram-no para casa, a fim de o enterrarem, mas, ao 12º dia, quando estava estendido na pira, ressuscitou. Assim que recuperou os sentidos, contou o que tinha visto no além. Quando, disse ele, a sua alma deixara o corpo, pusera-se a caminhar com muitas outras, e juntos chegaram a um lugar divino onde se viam na terra duas aberturas situadas lado a lado, e no céu, ao alto, duas outras que lhes ficavam fronteiras. No meio estavam sentados juízes, que, tendo dado a sua sentença, ordenavam aos justos que se dirigissem à direita na estrada que subia até o céu, depois de terem posto à sua frente um letreiro contendo o seu julgamento; e aos maus que se dirigissem à esquerda na estrada descendente, levando, eles também, mas atrás, um letreiro em que estavam indicadas todas as suas ações. Como ele se aproximasse, por seu turno, os juizes disseram-lhe que devia ser para os homens o mensageiro do além e recomendaram-lhe que ouvisse e observasse tudo o que se passava naquele lugar.  Viu as almas que se iam, uma vez julgadas, pelas duas aberturas correspondentes do céu e da terra; pelas duas outras entravam almas que, de um lado, subiam das profundezas da terra, cobertas de sujeira e pó. Do outro, desciam, puras, do céu, e todas essas ai que chegavam sem cessar, pareciam ter feito uma longa viagem. Chegavam à planície com alegria e acampavam aí como num dia de festa. As que se conheciam desejavam-se as boas-vindas, e as que vinham do seio da terra informavam-se do que se passava no céu.

Cada grupo passava 7 dias na planície. Ao 8º, devia levantar o acampamento e pôr-se a caminho para chegar, 4 dias mais tarde, a um lugar de onde se via uma luz direita como uma coluna estendendo-se desde o alto, através de todo o céu e de toda a terra, muito semelhante ao arco-íris, mas ainda mais brilhante e mais pura. Chegaram Lá após um dia de marcha; e aí, no meio da luz, viram as extremidades dos vínculos do céu, porque essa luz é o laço do céu: como as armaduras que cingem os flancos das trirremes, mantêm o conjunto de tudo o que ele arrasta na sua evolução. A essas extremidades está suspenso o fuso da Necessidade, que faz girar todas as esferas; a haste e a agulha são de aço, e a roca (contrapeso), uma mistura de aço e outras matérias. É a seguinte a natureza da roca: quanto à forma, assemelha-se às deste mundo, mas, segundo o que dizia Er, deve-se representá-la como uma grande roca oca por dentro, à qual se ajusta outra roca semelhante, mas menor, do modo como se ajustam umas caixas às outras, e, igualmente, uma terceira,uma quarta e mais quatro. Com efeito, há ao todo 8 rocas inseridas umas nas outras, deixando ver no alto os seus bordos circulares e formando a superfície contínua de uma única rosa em torno da base, que passa pelo meio da 8ª. O bordo circular da 1ª roca, a que fica no exterior, é a mais larga,depois seguem esta ordem: na 2ª posição o da 6ª, na 3ª posição o da 4ª; na 4ª posição o da 8ª, na 5ª o da 7ª, na 6ª o da 5ª, na 7ª o da 3ª e na 8ª o da 2ª. O 1º círculo, o maior de todos, é o mais cintilante; o 7º brilha com o mais vivo esplendor; o 8º tinge-se da luz que vem do 7º; o 2º e 5º, que têm mais ou menos a mesma tonalidade, são mais amarelos que os anteriores; o 3º é o mais branco de todos; o 4º é avermelhado; e o 6º é o segundo mais alvo. Todo o fuso gira com um mesmo movimento circular, mas, no conjunto arrastado por este movimento, os sete círculos interiores realizam lentas revoluções de sentido contrário ao do todo. Destes círculos, o 8º é o mais rápido, depois seguem-se o 7º, o 6º e o 5º, que ocupam a mesma posição em velocidade; nesta mesma ordem, o 4º ocupava a 3ª posição nesta rotação inversa; o 3º, a 4ª posição, e o 2º, a 5ª. O próprio fuso gira sobre os joelhos da Necessidade. No alto de cada círculo está uma Sereia*, que gira com ele fazendo ouvir um único som, uma única nota; e estas oito notas compõem em conjunto uma única harmonia. Três outras mulheres, sentadas ao redor a intervalos iguais, cada uma num trono, as filhas da Necessidade, ou seja, as Moiras, vestidas de branco, com a cabeça coroada de grinaldas. Elas cantam acompanhando a harmonia das Sereias, e são três: Láquesis canta o passado, Cloto, o presente, e Atropo, o futuro. E Cloto toca de vez em quando com a mão direita no círculo exterior do fuso, para fazê-lo girar, enquanto Atropo, com a mão esquerda, faz girar os círculos interiores. Quanto a Láquesis, toca alternadamente no primeiro e nos outros, com uma e outra mão. 

*A tradução parece imprecisa: O termo em grego é Seirena, certamente referindo-se não às sereias ("mulheres peixe"), mas à Sirene. As sirenes foram descritas ao longo da história como psicopompos (guia de almas), como mulheres mitológicas com o canto sedutor ou como "mulheres ave".

Talvez a descrição dos fusos e dos círculos feita por Platão tenha relação com a teoria da “música das esferas” que perdurou até meados da Baixa Idade Média e do início da Renascença. Já a descrição das 3 moiras lembra um pouco as 3 nornas da mitologia nórdica que ficavam juntas a um poço sob Yggdrasil, a árvore da vida/ cósmica. Este poço das nornas, "deusas" ou "espíritos" do destino e do tempo, deu nome ao sábado nórdico: Lördag, que significa "dia do lago".

Assim, quando chegaram, tiveram de se apresentar imediatamente a Láquesis. Antes disso, um hierofante os pôs por ordem; depois, tirando dos joelhos de Láquesis destinos e modelos de vida, subiu a um estrado elevado e falou assim: 

“Declaração da virgem Láquesis, filha da Necessidade (Ananke): Almas efêmeras, ides começar uma nova carreira e renascer para a condição mortal. Não é um gênio que vos escolherá, vós mesmos escolhereis o vosso gênio. Que o primeiro designado pela sorte seja o primeiro a escolher a vida a que ficará ligado pela necessidade. A virtude não tem senhor: cada um de vós, consoante a venera ou a desdenha, terá mais ou menos. A responsabilidade é daquele que escolhe. Deus não é responsável”. 

A estas palavras, lançou os destinos e cada um apanhou o que caíra perto dele, exceto Er, porque não lhe foi permitido. 

Cada um ficou então sabendo qual a posição que lhe tinha cabido por sorte. Depois, o hierofante estendeu diante deles modelos de vida em número muito superior ao das almas presentes. 

Havia de toda espécie: todas as vidas dos animais e todas as vidas humanas; viam-se tiranias, umas que duravam até a morte, outras, interrompidas a meio caminho, que acabavam na pobreza, no exílio e na mendicância. Havia também vidas de homens famosos, quer pelo seu aspecto físico, beleza, força ou aptidão para a luta, quer pela sua nobreza, e grandes qualidades dos seus antepassados. Havia também as obscuras em todos os aspectos, e o mesmo acontecia para as mulheres. Mas essas vidas não implicavam nenhum caráter determinado da alma, porque esta devia por lei mudar consoante a escolha feita. Todos os outros elementos da existência estavam misturados com a riqueza, a pobreza, a doença e a saúde, e também os meios-termos entre eles. Parece que é aqui, Glauco, que reside para o homem o maior perigo. Aqui está a razão por que cada um de nós, pondo de lado qualquer outro estudo, deve, sobretudo, preocupar-se em procurar e cultivar este, ver se está em condições de conhecer e descobrir o homem que lhe dará a capacidade e a ciência de distinguir as boas e as más condições e, na medida do possível, escolher sempre as melhores. Tendo em mente qual é o efeito dos elementos de que acabamos de falar, tomados juntos e depois em separado, sobre a virtude de uma vida, conhecerá o bem e o mal que proporciona uma certa beleza, unida à pobreza ou à riqueza e acompanhada desta ou daquela disposição da alma; quais são as conseqüências de um nascimento ilustre ou obscuro, de uma condição privada ou pública, da força ou da fraqueza, da facilidade ou da dificuldade em aprender e de todas as qualidades semelhantes da alma, naturais ou adquiridas, quando se misturam umas com as outras, para que, confrontando todas estas considerações e não perdendo de vista a natureza da alma, possa escolher entre uma vida má e uma vida boa, chamando má à que possa tomar a alma mais injusta e boa à que a torne mais justa, sem atender ao resto. Na verdade, vimos que, durante esta vida e depois da morte, é a melhor escolha que se pode fazer. E é preciso defender esta opinião com absoluta inflexibilidade ao descer ao Hades, para que também lá não se deixe deslumbrar pelas riquezas e pelos miseráveis objetos desta natureza; não se exponha, lançando-se sobre tiranias ou condições afins, causando, assim, males sem número e sem remédio e sofrendo, por conseguinte, outros ainda maiores; para saber, pelo contrário, escolher sempre uma condição intermediária e evitar os excessos nos dois sentidos, nesta vida, tanto quanto possível e em toda a vida futura, porque é a isto que se liga a maior felicidade humana. 

Pois bem, segundo o relato do mensageiro do além, o Hierofante dissera, ao lançar os destinos: “Mesmo para o último a chegar, se fizer uma escolha sensata e perseverar com ardor na existência escolhida, há uma condição agradável, e não má. Que o primeiro a escolher não se mostre negligente e que o último não perca a coragem”. 

(...) Depois que todas as almas escolheram a sua vida, avançaram para Láquesis pela ordem que a sorte lhes fixara. Esta deu a cada uma o gênio que tinha preferido, para lhe servir de guardiã durante a existência e realizar o seu destino. O gênio conduzia-a primeiramente a Cloto e, fazendo-a passar por baixo da mão desta e sob o turbilhão do fuso em movimento, ratificava o destino que ela havia escolhido. Depois de ter tocado o fuso, levava-a para a trama de Átropo, para tomar irrevogável o que tinha sido fiado por Cloto; então, sem se voltar, a alma passava por baixo do trono da Necessidade; e, quando todas chegaram ao outro lado, dirigiram-se para a planície do Lete, passando por um calor terrível que queimava e sufocava, pois esta planície está despida de árvores e de tudo o que nasce da terra. Ao anoitecer, acamparam nas margens do rio Ameles, cuja água nenhum vaso pode conter. Cada alma é obrigada a beber uma certa quantidade dessa água, mas as que não usam de prudência bebem mais do que deviam. Ao beberem, perdem a memória de tudo.  

Mais uma curiosidade: no candomblé, religião afro-brasileira mais próxima da cultura Yoruba da África ocidental, o conto da encarnação da alma tem algumas semelhanças com o mito de Er registrado por Platão, como o ato da alma de se apresentar diante entidades e o processo de esquecimento das memórias de outras vidas.

Então, quando todas adormeceram e a noite chegou à metade, um trovão se fez ouvir, acompanhado de um tremor de terra, e as almas, cada uma por uma via diferente, lançadas de repente nos espaços superiores para o lugar do seu nascimento, faiscaram como estrelas. Quanto a ele, dizia Er, tinham-no impedido de beber a água; contudo, ele não sabia por onde nem como a sua alma se juntara ao corpo: abrindo de repente os olhos, ao alvorecer, vira-se estendido na pira.

E foi assim, Glauco, que o mito foi salvo do esquecimento e não se perdeu, e pode salvar-nos, se lhe prestarmos fé; então atravessaremos com facilidade o Lete e não mancharemos a nossa alma. Portanto, se acreditas em mim, crendo que a alma é imortal e capaz de suportar todos os males, assim como todos os bens, nos manteremos sempre na estrada ascendente e, de qualquer maneira, praticaremos a justiça e a sabedoria. Assim estaremos de acordo conosco e com os deuses, enquanto estivermos neste mundo e quando tivermos conseguido os prêmios da justiça, como os vencedores que se dirigem à assembléia para receberem os seus presentes. E seremos felizes neste mundo e ao longo da viagem de mil anos que acabamos de relatar.

Observações sobre Politéia ("A República"); Livro 9

Platão começa o livro 9 "da República" abordando os desejos e prazeres, especialmente os desnecessários. [571] O autor mostra seu mestre Sócrates, explicando que alguns destes podem ser controlados pelas leis e por desejos melhores, porém outros desejos surgem particularmente à noite. Para combater estes últimos que induzem o ser humano à insensatez, ao impudor e aos sonhos anômalos, o filósofo sugere que antes de dormir as pessoas devem alimentar-se dos pensamentos belos/ bons (kalon), meditando interiormente, afastando o desejo sem ser por carência nem por excesso. Depois fazer igual com o elemento "irascível" (thymous) da alma, para por em movimento a terceira "parte" da alma, a da reflexão, que atinge a verdade. 

Curioso como a teoria tripartite da alma (psiquê) proposta por Platão tem semelhanças com a "alma asteca". Embora o filósofo grego utilize a palavra psiquê para designar os conceitos tanto de alma como de mente, tratando alma como sinônimo de mente, os tradutores das obras de Platão são quase unânimes ao traduzirem a palavra grega como alma. Isto deve ter ocorrido porque Platão considerava que a psiquê sobrevivia à morte do corpo, deixando este na morte do mesmo, e possivelmente deixando-o até mesmo durante o sono.

Resumidamente os astecas também dividiam a alma em 3 partes, uma rudimentar e mais nociva, uma relacionada ao coração e às emoções e uma vinculada à cabeça, ao destino e ao divino. A quem interessar segue um link com conteúdo sobre o assunto: https://www.mexicolore.co.uk/aztecs/aztec-life/notes-on-the-three-spirits-souls-animistic-forces   

Durante o diálogo apresentado no livro 9 da obra A República, Sócrates indica que os governantes que se deixam levar pelo domínio de seus desejos insaciáveis, como os desejos por poder e honra sem filosofia/ sem ética (típicos do timocrata), pelo desejo por riquezas e prazeres sedutores (típicos dos oligarcas) e por uma ausência de regras (típica da democracia e dos democratas), acabariam se tornando tiranos. O tirano entregue ao descontrole de sua própria psiquê, acabaria experimentando prazeres como banquetes e orgias e nunca ficaria plenamente satisfeito. Assim, em sua insatisfação o tirano cairia em acessos de fúria e se viraria até mesmo contra parentes próximos, buscando sem pudor algum, recursos e aliados que servissem seus interesses particulares. Por esta razão, Sócrates diz que o desejo (eros) é um tirano da alma (psiquê), o que explica a necessidade de controlá-lo e alinhá-lo com o thymous (indignação, emoção, sentimento) voltado à sabedoria que é alvo da "parte superior da psiquê"; A busca pela episteme (conhecimento, ciência) que tem por finalidade as ideias mais imutáveis e unas (universais), como a justiça, a moderação, a coragem e o bem/ belo (kalos).

[575] Sócrates — Ora, se num Estado os homens deste gênero (tirânico) são em pequeno número e o resto do povo é sensato, eles partem para ir servir de soldados a um tirano qualquer ou se alistarem como mercenários, se houver guerra em qualquer parte. Mas, se a paz e a tranqüilidade reinam por todo lado, ficam na cidade e cometem aí um grande número de pequenos delitos.
Adimanto — E que delitos seriam esses?
Sócrates — Por exemplo, furtam, abrem fendas nas paredes, cortam as bolsas, roubam os transeuntes, capturam e traficam escravos e por vezes, quando sabem falar, são delatores, falsas testemunhas e prevaricadores.
Adimanto — Esses só serão pequenos delitos se esses homens forem em pequeno número!
Sócrates — Sim, pois que as pequenas coisas só são pequenas em comparação com as grandes, e todos estes delitos, no que tange à sua influência sobre a miséria e a infelicidade da cidade, nem sequer se aproximam, como se diz, da tirania. Com efeito, quando tais homens e os que os seguem são numerosos num Estado e tomam consciência do seu número, são eles que, ajudados pela estupidez do povo, engendram o tirano na pessoa daquele que tem na sua alma o tirano maior e mais completo.
Adimanto — E natural, porque será o mais tirânico. 

Aqui o filósofo indica como são os apoiadores de um tirano e possivelmente mostra uma relação recíproca de tirania; um tipo de círculo vicioso na sociedade. Faz sentido já que na história da humanidade muitos líderes antiéticos que apoiaram a propagação de miséria enriquecendo minorias ou que incitaram perseguições irracionais e guerras, foram apoiados por grande parte do povo.

Sócrates — E então pode ocorrer que a cidade se submeta de boa vontade ao tirano; mas, se resistir, assim como outrora maltratava o pai e a mãe, ele castigará a sua pátria, se tiver poder para isso, e introduzirá nela novos companheiros e, entregando-lhes aquela que outrora lhe foi querida, a sua mátria, como dizem os cretenses, irá reduzi-la à escravidão. E a esse ponto que levará a paixão do tirano.

Interessante como Platão indica que os cretenses usavam o termo "mátria" ao invés de pátria. Isto parece ter relação com as artes encontradas na região (de Creta), referentes à antiga civilização minóica, que retratavam mais as mulheres do que os homens.

Sócrates (e Platão) conclui que o tirano não só tem as piores características de um "timocrata" (a priorização das honrarias, da vitória etc), mas também as dos oligarcas que priorizavam a propriedade privada, o dinheiro, o luxo e os prazeres sensoriais intensos e/ou desnecessários. Assim, o filósofo e os demais interlocutores, classificam os sistemas de governo do melhor ao pior: Em 1º lugar estaria o governo dos filósofos (seja chamado de realeza, aristocracia ou outro nome), em 2º estaria a timocracia, em 3º a oligarquia, em 4º a democracia e em último, a tirania. Platão admite que há sistemas intermediários entre estes, mas apresenta o assunto desta maneira resumida e, claro, com as limitações de sua época e local: A democracia ateniense do século 4 aC era bastante imperfeita (elitista para os padrões deste século 21) e não admitia a participação de mulheres, de pessoas empobrecidas etc... O autor ainda modifica um pouco desta sua interpretação política na obra O Político, onde ele classifica os sistemas de governo na seguinte sequência: 1º governo dos filósofos; 2º monarquia com leis, 3º "populacho" (democracia livre de leis), 4º aristocracia (uma oligarquia com leis), 5º oligarquia, 6º democracia com leis (nunca agradaria a diversidade das massas) e em 7º e último lugar a monarquia sem leis (a tirania). Estas leis ditas na obra O Político, não são leis arbitrárias e sim leis baseadas na ética, na universalidade numa tentativa de um sistema uno que serve ao estado/ ao coletivo. 

Neste ponto do diálogo [577 b-e], Sócrates recorda a semelhança entre a cidade/ estado e o indivíduo: a tirania não seria só o pior sistema de governo, como o também tirano seria o pior tipo de indivíduo. Isto porque os indivíduos tomados pelos desejos insaciáveis por bens materiais, por prazeres sensoriais e por poder (etc) são os mais infelizes dos seres humanos. Indivíduos tirânicos (e suas respectivas psiquês) são escravos de seus desejos particulares, e quando chegam ao poder de uma cidade, estado ou de qualquer outra sociedade, para satisfazer suas ambições insaciáveis, escravizam a maioria da população. Continuando sua comparação do indivíduo com o estado/ o coletivo, [580] Sócrates diz que ambos podem ser classificados em 3 partes: O estado composto pelas 3 classes reuniriam os respectivos 3 tipos de indivíduos/ almas (psiquês) em cada uma delas:

A classe dos artesãos e mercadores seria repleta de indivíduos dominados pela parte inferior da psiquê e seus desejos, geralmente numerosos, por lucro, acúmulo de dinheiro, propriedades privadas e/ ou por prazeres (hedon) mais rudimentares como os de banquetes e os "afrodisíacos" (sensuais, sexuais etc); 

A classe dos guardiões e guerreiros teriam mais indivíduos com suas psiquês direcionadas pelo elemento intermediário "irascível"/ emocional (thymous) que precisa ser alinhado à parte superior da psiquê, para que não se tornem como os indivíduos típicos da oligarquia, da tirania etc; 

A classe dos filósofos seria aquela que controla seus desejos, voltando a parte (elemento) intermediária da psiquê para a parte superior que é amiga da sabedoria e do estudo/ aprendizado das virtudes/ ideias (eidos) de justiça, moderação, coragem e do Bem/ belo (kalos, valor uno, universal);

[581...] Sócrates — Por isso é que dizíamos que há três classes principais de homens: o filósofo, o filónikon (amigo da vitória, ambicioso ou briguento) e o filokérdes (amigo do lucro, interesseiro). 

Curiosidade: Até este ponto da obra "A República", fica evidente que Platão dividiu a sociedade humana em 3 classes: Filósofos, os ideias para governarem e legislarem - Aqueles que buscam a verdade, o conhecimento que leva ao Bem; Guerreiros, os corajosos ou indignados ideais para formarem o exército/ os guardiões da cidade/ estado - Que preferem a honra da guarda e do combate; Artesãos e mercadores - Trabalhadores que preferem a diversidade de bens materiais. Tal classificação do ser humano na sociedade/ na civilização aparece em outras culturas como em teorias religiosas/ mitológicas/ espirituais. Na mitologia dos povos do Cáucaso (osseta, vainakh, georgiana...), por exemplo, os semi deuses ou "primeiros humanos filhos dos deuses" foram divididos em 3 clãs (getas): 

Alai: Os sábios, os espirituais/ religiosos, talvez comparáveis com os líderes, os filósofos;

Aexserta: Os bravos, comparáveis com a classe dos guerreiros/ guardas, (filónikon);

Boretai: Os ricos, comparáveis com os mercadores (filokérdes) e possivelmente também com artesãos;

Existem outras teorias com algumas semelhanças à estas, como no hinduísmo, mas não as detalharei aqui. 

[582-583] Sócrates — Examina o caso, amigo Glauco, do seguinte modo: quais são as qualidades requeridas para julgar bem? Não são a experiência, a sabedoria e o raciocínio? Existem critérios melhores do que estes? 

Glauco — Não seria possível. 

Sócrates — Então repara. Qual destes três homens tem mais experiência de todos os prazeres que acabamos de referir? 

Neste trecho da obra, o autor começa a formular uma escala de prazer que vai do mais desnecessário, o sensorial intenso/ grosseiro (tipicamente almejado pelo interesseiro), até o prazer cognoscível / intelectual/ virtuoso/ ético/ imutável/ uno/ universal, que é mais necessário (finalidade dos filósofos). Quem tem experiência nesses "prazeres" relacionados à sabedoria, à justiça e às demais virtudes que fazem bem a todos devido ao fato de serem universais, tem mais capacidade de julgar corretamente.

Glauco diz que mesmo que o interesseiro (filokérdes: amigo do lucro/ filokhrimaton: amigo do dinheiro) se pusesse a estudar a natureza das essências, ele não veria necessidade de sentir todo o prazer e experiência desta benesse. Além disso, tal interesseiro não levaria a coisa a sério, diferente do filósofo que é educado desde criança nos prazeres da filosofia (e seus valores universais/ virtudes). Já o indivíduo que cresceu ambicioso (filónikon) também só é favorecido pela honra quando atinge seus objetivos reconhecidos pela multidão (sejam títulos, recompensas de cargos, posições de poder etc) e não entende a contemplação do Ser. É válido lembrar que o Ser geralmente é traduzido da palavra grega "ontos" e foi entendido por Platão como algo imutável, que não está sujeito à geração, ou seja, não sofre transformações típicas da vida e da morte como de processos biológicos. O Ser sendo imutável, está vinculado a uma ideia (eidos) que faz Bem à todos e é bela para todos (kalos), portanto não é uma mera ideia no sentido de opinião ou imaginação; é una (universal).  

Seguindo o diálogo, os interlocutores discutem como o cessar de prazeres pode causar sofrimento e o cessar da dor pode causar prazer, porém analisam se não há experiências que não causam tais consequências. Sócrates toma os prazeres do olfato como exemplo, dizendo que estes não são precedidos por sofrimento algum, e por mais intensos que sejam os cheiros prazerosos captados, quando cessam eles deixam a psiquê imperturbável (sem sofrimento). A partir daí Sócrates e Glauco concluem que a dor/ o sofrimento são opostos do prazer, mas que há um estado intermediário da psiquê que não está necessariamente sofrendo ou deliciando-se: 

Sócrates — Tu não deves então te espantar que os homens que não têm a experiência da verdade tenham uma opinião falsa de muitos objetos e que, no que concerne ao prazer, à dor e ao seu intermédio, se achem dispostos de tal maneira que, quando passam à dor, a sensação que experimentam é exata, porque sofrem de verdade, ao passo que, quando vão da dor ao estado intermédio (indolor, mas sem prazer) e acreditam firmemente que atingiram a plenitude do prazer, enganam-se, porque, à semelhança das pessoas que oporiam o cinzento ao preto, por não conhecerem o branco, opõem a ausência de dor à dor, por não conhecerem o prazer. 

Assim, Sócrates indica que existe a dificuldade em convencer uma pessoa (que passou do estado de ignorância ao estado da opinião) a aprender mais. A pessoa que adquiriu um conhecimento parcial ou insuficiente e está satisfeita (ou orgulhosa) com isso, pode opinar sobre algo que não sabe (a opinião falsa), neste caso, ela pode estar acima da ignorância, mas está muito abaixo da ciência/ do saber. 

[585] Sócrates — Pensa agora da seguinte maneira: a fome, a sede e as outras necessidades semelhantes não são espécies de vazios no estado do corpo? 

Glauco — Sem dúvida. 

Sócrates — E a ignorância e o contra-senso não são um vazio no estado da psiquê? 

Glauco — São. 

Sócrates — Mas é possível preencher estes vazios tomando alimento ou adquirindo inteligência? 

Glauco — É claro. 

Sócrates — Assim, a plenitude mais verdadeira provém do que tem mais ou do que tem menos realidade? 

Glauco — É evidente que do que tem mais realidade. 

Sócrates — Então, a teu ver, destes dois gêneros de coisas, qual participa mais da existência pura: o que inclui, por exemplo, o pão, a bebida, a carne e a alimentação em geral ou o da opinião verdadeira, da ciência, da inteligência e, numa palavra, de todas as virtudes? Pensa do seguinte modo: o que se liga ao imutável, ao imortal e à verdade, que é de natureza semelhante e se produz num indivíduo semelhante, parece ter mais realidade do que o que se liga ao mutável e ao mortal, que é ele próprio de natureza semelhante e se produz num indivíduo semelhante? 

Glauco — O que se liga ao imutável tem muito mais realidade, sem sombra de dúvida. 

Os alimentos e os corpos que precisam dos alimentos podem ser decompostos, ou seja, podem ser feridos, portanto divididos, podem ser mortos e apodrecidos. Tudo isto faz parte dos organismos perceptíveis por nosso sistema sensorial, sejam eles sólidos, líquidos etc. A psiquê, seja mente, ou alma, é capaz de alcançar ideias universais e não pode passar pelos processos de decomposição típicos dos corpos, sendo por estes motivos, mais verdadeira que a matéria perceptível sensorialmente (Platão  segue esta mesma lógica em outros diálogos/ textos onde indica que a psiquê é imortal). Esta conclusão de Platão pode ser considerada polêmica ou absurda para cientistas que têm uma visão materialista da realidade e uma pré suposição deste tipo. Tal visão de mundo e pressuposto materialistas são reducionistas por negarem a possibilidade da existência de uma mente abstrata ou da alma, ainda que a discussão filosófica sobre este tema revivido por Descartes (1596-1650) não fôra concluída até este início de século 21. A pressuposição e visão materialistas típicas do iluminismo (movimento antropocêntrico) dos séculos 18 e 19, sobrevivem no meio científico ainda hoje. Porém é válido lembrar que teorias do século 20, como as da relatividade, conforme explicadas por Arthur Eddington (1882-1944), não são materialistas/ positivistas e têm abertura para cosmovisões mais amplas como a de Platão. Assim como Eddington não negou a realidade sensorial, pois estudou astrofísica e testou a teoria de Einstein, Platão também não a nega pois se importou com tal realidade ao fazer suas propostas políticas. Porém o cognoscível e a psiquê para o filósofo grego, são mais importantes e mais reais do que o sensorial, uma vez que estão por trás da intencionalidade (das ações, decisões etc) e sobrevivem à morte do corpo.

[586] Sócrates — Assim, os indivíduos que não têm a experiência da sabedoria e da virtude, que estão sempre nas festas e nos prazeres afins, são, ao que me parece, transportados para a região baixa, depois de novo para a média, e erram assim durante toda a vida. Não sobem mais alto; nunca viram as verdadeiras alturas, nunca para lá foram transportados, nunca foram realmente cheios do Ser e não experimentaram prazer seguro e puro. À semelhança dos animais, de olhos sempre voltados para baixo, de cabeça inclinada para a terra e para a mesa, pastam na pastagem gorda e acasalam-se; e, para satisfazerem ainda mais seus apetites, escoicinham, batem-se com seus chifres e matam-se uns aos outros no furor do seu apetite insaciável, porque não encheram de coisas reais a parte real e estanque de si mesmos.

(...) Sócrates — Mas então não ousaremos afirmar que os desejos relativos ao interesse e à ambição, quando seguem a episteme e a razão e procuram com elas os prazeres que a sabedoria lhes indica, alcançam os prazeres mais verdadeiros que lhes é possível experimentar e os prazeres que lhes são próprios, porque a verdade os dirige, se é verdade que o que há de melhor para cada coisa é também o que lhe é mais próprio? 

Glauco — Mas é exatamente assim. 

Sócrates— Então, quando toda a alma segue docilmente o elemento filosófico e não se produz nela nenhuma revolta, cada uma das suas partes mantém-se nos limites das suas funções, pratica a justiça e, também, recolhe os prazeres que lhe são próprios, os melhores e os mais verdadeiros que lhe é possível gozar. 

Desta forma Sócrates define como o prazer mais perfeito, o prazer em viver as finalidades da filosofia que é a moderação, a coragem, a justiça, o Bem, imutável e uno, o Ser... Em comparação aos prazeres do sábio/ do verdadeiro filósofo, os prazeres das outras duas categorias de psiquê, são menos verdadeiros e menos puros. Estes prazeres impuros então, típicos dos ambiciosos (filonikon, os amantes da vitória, da rivalidade/ da briga) e dos interesseiros (filokerdes e filokhrimaton, os amantes do proveito/ lucro e do dinheiro) são respectivamente mais falsos que os do verdadeiro filósofo. Tendo estes prazeres perfeitos típicos da filosofia, como referência, Sócrates classifica os demais prazeres de acordo com os tipos de governo e de indivíduos que governam; Assim, em 2º lugar após o prazeres já citados da filosofia, viria o prazer do timocrata que começa a buscar as honrarias por se perder dos objetivos filosóficos que são éticos (justiça, o bem etc); Depois viria o prazer típico dos oligarcas e dos democratas, que, mais corrompidos pelos interesses particulares e pelo descontrole, experimentam mais os prazeres vorazes e afrodisíacos. Por fim, o pior e menos saciável seria o prazer dos tiranos que se entrega a todos desejos mais afastados do bem e da justiça e às violências das 3 classes anteriroes. 

Platão faz mais observações sobre quais prazeres são bons e quais são ruins em outras obras além da "República", como Filebo e Hípias Maior. Se juntarmos suas observações/ argumentos sobre os prazeres citados nestas obras, é possível formar um panorama quase hierarquizado sobre este assunto.

[589-592] O filósofo conclui a partir do diálogo, que a honestidade submete nossa psiquê ao ser humano, ou mais precisamente ao divino, enquanto a desonestidade nos submete às nossas características mais animalescas/ bestiais. 

Sobre o Psiquismo Não Expresso

 Há um tempo atrás, entre os anos de 2021 e 2024 eu comecei a refletir sobre a importância de nossa atividade mental - principalmente aquela...