Repensar o Conhecimento: Como torná-lo humanizado e universalizado?

O conhecimento é algo impalpável materialmente: não podemos tocá-lo, pegá-lo com um bisturi, reparti-lo, nem nada deste tipo. Podemos "percebê-lo" sensorialmente só via demonstrações, mas demonstrações não são o conhecimento em si. Uma observação de relâmpagos por exemplo não é conhecimento embora possa fazer parte de uma investigação para se construir conhecimento e o mesmo vale para investigações realizadas com outros sentidos. Isto ocorre porque trata-se de um processo mental, e não me refiro ao processo neuro eletroquímico observável por métodos atuais de investigação, porque o conhecimento também não são moléculas nem partículas ou coisas deste tipo. O mesmo vale para identidade: muitas coisas são identificáveis, os seres humanos têm suas respectivas identidades, pois têm histórias pessoais de vida, preferências, sentimentos, valores etc... E nada disto pode ser manipulado sensorialmente, nem dividido etc. 
Esta minha humilde explicação é uma tentativa de indicar o caminho das investigações realizadas por Platão por volta do século 4 a.C. Platão menciona este tipo de argumento em algumas de suas obras como em A República e em Sofista. Nesta última, o autor investiga todos os pressupostos filosóficos, ou seja, pré suposições intimamente ligadas com cosmovisões - visões de mundo, ou mais precisamente, visões da realidade, do universo, ou "do todo". Na verdade o termo "pressuposto" certamente não era utilizado na época de Platão, mas era um assunto em pauta: Os filósofos naturalistas helênicos ("pré socráticos") discutiam essas coisas: Alguns pensavam que tudo estava em movimento, outros teorizavam que tudo era "uno", enquanto outros discutiam se tudo que existia era somente matéria formada por átomos e outros alegavam que tudo era espírito ou psiquê... Platão refuta todas essas suposições/ visões que eram pregadas como se fossem a verdade essencial - como se fossem a base de todas as coisas... E ele não fez isso porque achava que todas estavam completamente erradas e sim porque viu que todas tinham algo de verdadeiro e porque a postura essencial para se investigar qualquer coisas não é assumir um pressuposto e sim presumir a própria ignorância, ou seja, admitir não conhecer o que se investiga. 

 A postura de assumir não conhecer um tema ao invés de assumir um pressuposto não se trata de niilismo nem de relativismo, pois esta postura básica serve à investigação via o "diálogo" (não necessariamente a conversa, mas a comparação de ideias/ relatos/ fatos); Assim o diálogo é verdadeiramente equitativo e não se julga precocemente determinadas ideias ou relatos. 

Temos até aqui então, a base (presumir a própria ignorância) e o meio (diálogo equitativo) para se investigar / construir conhecimento, faltando apenas a finalidade: Platão indica ela em obras como Fedon e A República (novamente a obra principal do autor): Em A República, o autor indica que as ideias mais sublimes e mais benéficas à todos, ou mais benéfica à maioria dos seres, é alcançável pela atividade cognoscível: a parte menos material da psiquê humana e a capaz de trabalhar/ alcançar os valores universais, ou seja, a ética. (as outras duas "partes" da psiquê seriam a "intermediária" de aspecto emocional ligada ao termo "thymous" e a parte mais inferior ligada às necessidades básicas, seus impulsos e prazeres afrodisíacos e do comer e beber)

Já no diálogo Fedon, o autor indica que seu mestre Sócrates admirou a teoria de Anaxágoras, mas acabou achando-a insuficiente, porque o "Nous" (a causa de todo o universo) do filósofo naturalista era "neutro"/ apartado de ideias como o bem/ belo (kalos, a bondade) e das demais virtudes como moderação, coragem e justiça. Para o autor, o professor de ontos (das coisas que são, mas pode-se entender de ontologia) deve buscar e se pautar pela melhoria de todas as coisas. Aqui Platão certamente não se limita a melhoria de coisas materiais, avançando principalmente para a melhoria do ser humano para que este viva em harmonia com o meio/ a sociedade.

A verdadeira construção de conhecimento então segue este modelo: presunção da ignorância como pressuposto filosófico, o "diálogo equitativo" / a maiêutica como método de investigação e a melhoria de todas as coisas e as virtudes/ valores universais como finalidade. Tudo que está fora disto não é conhecimento e sim opinião ou ignorância. Esta proposta que muitos podem considerar vaga ou ingênua é o mínimo para se respeitar cosmovisões de diferentes povos e culturas. O rigor do método não se apoia em detalhes perceptíveis sensorialmente (empirismo, difundido principalmente pela Europa iluminista) nem em mera mensurabilidade matemática; se apoia na escuta e na reflexão com a finalidade ética/ pautada nos valores universais. Esta é a filosofia como construção de conhecimento rigorosa: ela não se fecha em um pressuposto ou paradigma específico, porque valores universais exigem universalidade. Universalidade não é diversidade desconexa: ela é una, ou seja, compõe um corpo unido pautado na melhoria e no que é bom para todos.

Claro, que neste ponto muitos discutiriam "o que é bom para todos"? Bem, Platão aponta ao longo de sua obra o que é bom e o que é ruim. Algumas coisas ruins por exemplo permanecem até os dias de hoje e são óbvias: A prioridade no lucro, ou seja, nos ganhos pessoais é um ponto criticado em várias de suas obras (Górgias, A República, Apologia etc), bem como a ênfase nas honrarias. Esta última palavra mais difícil de traduzir refere-se a uma gama de coisas interconectadas: rivalidade, status social, econômico, político, religioso etc. Estas honrarias são típicas dos indivíduos que Platão chama de "filónikons", termo este traduzido como briguento, mas que ao pé da letra é "amigo da vitória" e está para "amante do sobressair-se", assim como filósofo está para "amante/ amigo do saber" e "filokerdes" está para amante do lucro ou interesseiro. 

Estes três tipos de indivíduos parecem ligados ao conceito dos 3 níveis da psiquê elaborado por Platão e também com os 3 tipos de classes da sociedade (artesão/ mercadora, guerreira/ guardiã e legisladora/ governante).

É fácil alegar que não existe coisa alguma que é boa para todos, mas isto é uma mera negação generalizada. Quando o "todos" não é alcançável, é possível buscar alternativas desde que mantenha-se a ética (ou os valores universais) como finalidade. Não existe "bom para todos" enquanto a finalidade de algo (seja um estudo, uma proposta econômica, uma administração ou um estado) for o lucro ou o sobressair-se (disputa, rivalidade, honrarias etc). Platão indica que o conceito de saber, de sabedoria e de conhecimento, estão ligados aos valores universais, portanto à ética e à universalidade. A episteme então (construção de conhecimento, do ensino ao conhecimento em si) é incompatível com a priorização de dinheiro/ lucro e de honrarias/ status: se um estudo é feito visando lucros, ele está corrompido. Se é feito priorizando um povo ante o outro, ele está corrompido. Isto é notável em nossa história, onde indústrias/ empresas induzem estudos seja financiando seus pesquisadores ou pagando campanhas para elogiar um produto ou difamar outro. Alguns dos casos mais comuns são os de empresas farmacêuticas (desde a época de Szaas até a crise dos opioides nos EUA) que apresentam tal tipo de viés lucrativo omitindo desde fatores culturais e sociais na saúde mental até efeitos colaterais de medicações. Já o "amor ao sobressair-se", tão comum dos nacionalismos e do fanatismo religioso, também foi notável em casos de estudos utilizados para inferiorizar uma etnia inteira, ou para dar poder a uma determinada nação ante outras; A drapetomania e a cranoscopia, que eu já citei em outros textos, foram estudos científicos racistas claramente eurocêntricos que tentavam classificar os negros, ou seja, povos de origem predominantemente africana, como seres humanos inferiores aos "brancos". O desenvolvimento de armas químicas e nucleares "davam o direito" de nações (Alemanha, EUA etc) as utilizarem sobre outros povos, matando milhares de humanos...

Em Sofista e em Parmênides o autor faz um uso rigoroso de seu método investigativo, sendo que nesta última obra, o mesmo (via um dos personagem) alerta que a maioria das pessoas acharia tais investigações enfadonhas e/ ou não dariam crédito à elas. Isto porque, o autor investiga via o diálogo e a racionalização (pressupondo sua própria ignorância, refletindo, buscando o melhor etc) conceitos como a unidade, o que é cada coisa (formas/ eidos e classificações destas), o que se interconecta etc. O tema é difícil talvez por ser raramente discutido e pouco objetivo, ou seja, pouco sensorial... na verdade é puramente racional/ lógico/ ético e praticamente nada sensorial.

Os estudos apresentados por Platão nestas obras raramente seriam bem difundidos e praticados por uma parcela significante da sociedade, independentemente da nação e da cultura humana. É uma construção de conhecimento filosófica profunda e afastada do que se entende por ciência na era moderna. Pelo que li das obras do filósofo, estes estudos ajudariam sim a humanidade a ser mais ética com rigor e diálogo inclusivo... Porém estamos longe disto: Parece que são poucos são os filósofos que se aproximaram da postura ética e epistemológica de Platão e os outros saberes tidos como o científico e o religioso são quase antagônicos entre si. Pior que isso, não são antagônicos de forma que critiquem pontos negativos um dos outros, buscando os pontos positivos, ou seja, buscando a ética - São antagônicos entre si de modo que se enquadram majoritariamente no conceito filonikon apresentado pelo fundador da filosofia ocidental (meros rivais entre si). Além deste problema grande parte das nações juntamente com suas respectivas instituições, sejam científicas ou religiosas, está submetida a um sistema sócio econômico, e portanto político também, neoliberal - uma continuação do liberalismo e do mercantilismo, todos de ideologia capitalista, ou seja, "filokerde" que prioriza o lucro...

Não acho que seja obrigatório o ensino de obras complexas como Sofista e Parmênides nas universidades (nas escolas seria impensável), mas resgatar a filosofia como uma construção de conhecimento aberta a diferentes cosmovisões e que faça a ponte entre algumas áreas da ciência (ao menos as humanas) com a cultura e a espiritualidade (eu incluiria as religiões contanto que elas não fossem usadas como ferramenta de poder) é urgente... Isto é aplicar uma verdadeira ética na construção de conhecimento e remover os ares de superioridade da academia (e das religiões) eurocêntrica(s) que invadiu praticamente todos países da América. Isto é dar vozes aos indígenas e aos negros, iniciando um diálogo entre a academia e os povos nativos da América e da África. Além disto, tal diálogo entre saberes poderia auxiliar no combate aos interesses privados e financeiros em setores essenciais e frágeis como a área da saúde mental desde a rede de instituições até seus pacientes/ usuários de tal sistema.

A construção de conhecimento então não deveria ser pautada meramente pelo rigor metodológico nem por dogmas ou paradigmas, e sim, deveria ser pautada pela ética e seus valores universais, como já mencionei em outros textos... Se isto parece absurdo ou vago demais para as áreas da física, da química e da biologia, definitivamente não deveria parecer assim para áreas humanas como a história, a geografia (política), o direito, a contabilidade, a economia, a sociologia e a psicologia. Uma construção de conhecimento centrada na ética, e portanto mais filosófica, nestas áreas se faz urgente e os motivos para isso devem render outro(s) texto(s).

A Utopia que questionava o início do Mercantilismo

Recentemente voltei a ler o livro Utopia de Thomas Morus, ou Thomas More (1478-1535) - leitura que eu havia iniciado há 1 ou 2 anos atrás, mas havia interrompido para me dedicar ao último ano da faculdade de psicologia. 
O autor é um humanista inglês e não é um dos meramente antropocêntricos: Thomas, em sua obra Utopia, claramente mostra que foi influenciado pelo filósofo da Grécia clássica, Platão (428 aC - 347 aC), além de abordar de modo crítico o cristianismo. Crítico aqui não significa destrutivo, mas também não é simplesmente bajulador de sua própria fé, a católica: Thomas Morus pode até parecer para alguns, um católico romano fervoroso devido ao fato de se opor a igreja anglicana (novidade em sua época), porém vale lembrar que o autor conhecia bem a sociedade inglesa e os poderes que a regiam. Por isso devia saber que haviam interesses por trás da criação da igreja anglicana*, bem como anos depois haveriam interesses por trás do estabelecimento da igreja protestante na Inglaterra. 
*(inclusive o autor morreu condenado pelo rei inglês que criou a igreja anglicana)

A Utopia
Utopia mistura realidade com ficção, ou talvez seja mais correto dizer que mistura a dura realidade européia renascentista (principalmente a inglesa) com ideias de uma nação ideal certamente inspiradas em Platão com poucos elementos possivelmente baseados na América descrita por Vespúcio ou outro autor relacionado as navegações. Essa mistura de relatos críticos da Europa com uma nação ideal porém não é um mero conto de entretenimento - ela serve à construção de conhecimento dialética reflexiva similar às propostas da filosofia fundada por Platão. A dura realidade retratada na obra, é a sociedade do mercantilismo europeu dominada por reis e aristocratas corruptos em paralelo com uma burguesia em ascensão que não desejava nada além de adquirir cada vez mais propriedades privadas. Claro que a burguesia a que me refiro neste texto não é a industrial/ dona dos meios de produção da era moderna - É a classe mercantil que surgiu na baixa idade média e estava enriquecendo rapidamente no início do mercantilismo.

A partir da análise dos poderes de seu tempo, Thomas Morus aponta outros variados problemas como a concentração de bens em posse de poucos, a pobreza das massas, o banditismo etc. Oras, que filósofo poderia criticar tamanha ganância nos poderes da sociedade? Os filósofos medievais de um século antes de Thomas eram em sua maioria voltados a escolástica e cheios do viés teológico da igreja como instituição de poder. Sobravam então os filósofos da Grécia clássica, dos quais poucos eram espiritualistas, ou talvez só um autor clássico realmente combinasse política, epistemologia e espiritualidade: Platão. 
Como historiador amador, não tenho profundo conhecimento da Renascença, mas os poucos resumos que li sobre a época e seus respectivos filósofos, combinados com o que li de Platão e de Morus, me faz entender que o fundador da filosofia ocidental fôra peça chave para demolir as falácias do poder medieval (majoritariamente religioso católico, mas também aristocrático) e dar abertura para uma nova construção de conhecimento menos presa à igreja e mais filosófica e até mesmo "(pré) científica". Mais do que isto, a obra de Platão ao propor uma construção de conhecimento e um ideal de sociedade, ambos éticos, também é contrária à ideologia e à economia mercantis (e burguesa em algum nível) onde a prioridade é o lucro e o acúmulo de bens.

Em Utopia, Morus apresenta a si mesmo como personagem ao lado de um protagonista certamente fictício ao qual ele identifica como Rafael - um suposto português colega de viagens de Américo Vespúcio (o navegador veneziano Amérigo Vespucci). 
 Após indicar os problemas da Europa, particularmente da Inglaterra e da França com um certo teor satírico (recomendo a leitura ao menos desta parte que está nas primeiras 30 ou 40 páginas), o diálogo segue com Rafael, Thomas e outros personagens discutindo a possibilidade de fazer leis melhores e capazes de impedir a injustiça. O autor, em seu estilo literário, não deixa claro quando passa da realidade para suas teorias e "ficções", mas certamente deve-se entender que a maior parte das falas apresentadas pelo personagem Rafael sobre a civilização ideal, são ficções de serventia ética, talvez baseadas em alguns eventuais elementos reais de sociedades nativas da América.
Num ponto do diálogo, Rafael diz que se der alguns exemplos de povos que encontrou no "Novo Mundo" e como estes formam sociedades mais justas que os reinos europeus, ninguém irá ouví-lo. Por esta razão, ele conclui que a filosofia, como mostrada por Platão, não tem acesso junto aos príncipes (a aristocracia em geral) e isso faz com que ele tenha aversão ao estado e aos administradores públicos da Europa.
Thomas responde que a filosofia entendida por Rafael, como a de uma escola que apresenta soluções aplicáveis a qualquer situação não deve ter espaço entre os poderosos mesmo. Porém ele crê que uma filosofia instruída pela vida (presente, prática) poderia ser apresentada de maneira gradual e menos diretamente aos aristocratas, e assim, obter não a solução para todos os problemas, mas alternativas menos ruins do que a eles possuem em sua época e local.
Rafael segue cético e diz que a proposta de Thomas é como um pretexto para remediar a loucura dos outros, colocando-se a delirar junto deles. Ele diz que como filósofo não poderia mentir nem se calar diante as mentiras e que gostaria de poder expor o estado imaginado por Platão e praticado pela "nação de Utopia"*, onde os bens são partilhados em comum. 
(*a nação mais exemplar do Novo Mundo apresentada na obra. Obviamente o nome não se refere a qualquer língua nativa da América por se tratar de uma ficção do autor)
Porém sendo impedido de falar diretamente destas coisas Rafael teria que se calar diante as maldades dos aristocratas e isso seria como dissimular aos cristãos tudo que Jesus ensinou. Ele diz que o essencial dos ensinamentos de Cristo está bem afastado dos costumes do mundo e que adaptar-se a tal meio, seria como o ensino de certos frades pregadores que flexibilizam as palavras de Jesus permitindo que os "fiéis" simplesmente pequem com mais consciência. 
Para Rafael, a filosofia instruída pela vida cotidiana e apresentada de modo gradual como Thomas propôs seria inviável, pois diante os príncipes é preciso aprovar projetos detestáveis ou calar-se diante resoluções nefastas. 
Saindo um pouco da crítica particular aos aristocratas, Rafael aponta a propriedade privada como um problema central: Ele diz que enquanto houver tal conceito, o mundo avaliará as coisas pelo dinheiro e dificilmente será possível estabelecer nos assuntos públicos um regime que seja justo e próspero, a menos que se conforme que reserve as melhores coisas para os piores indivíduos e que se concentre a maior parte das propriedades em mãos de poucos, enquanto a grande maioria viva na pobreza.
Uma série de leis restringindo o acúmulo de riquezas, proibindo o luxo aos governantes e impedindo a comercialização de cargos e disputas entre estes, poderiam adormecer o mal (reduzi-lo ou adiá-lo), mas não poderiam impedi-lo de modo mais definitivo, estabelecendo a justiça e o bem.
Thomas acha a supressão da propriedade privada um exagero que traria outros problemas como um conformismo que propagaria a preguiça e a falta de autoridade.
Rafael diz que Thomas pensa assim porque não passou um tempo junto aos utopianos, como ele o fez.
O outro interlocutor, Pierre Gilles, diz que Rafael dificilmente os convencerá pois os europeus não são menos inteligentes do que os povos do Novo Mundo e são mais antigos, possuindo mais invenções construídas ao longo do tempo.
Rafael lhe responde que referente a antiguidade das nações, Pierre está enganado, pois no Novo Mundo há nações mais antigas do que as da Europa e que referente a inteligência e às invenções, talvez os europeus tenham ultrapassado os povos do Novo Mundo, porém ficaram muito atrás no que se refere à aplicação desta inteligência na sociedade e em suas respectivas atividades.
De acordo com Rafael, a lendária ilha de Utopia teria sido visitada há 1200 anos no passado (o que dataria por volta do século 4), quando embarcações romanas e egípcias naufragaram lá. O personagem conta que os utopianos souberam aproveitar os conhecimentos dos romanos, enquanto não houve registro algum de que estes europeus da antiguidade tenham aplicado algo de Utopia em seu respectivo império. Rafael conclui que mesmo que um utopiano tivesse desembarcado alguma vez na Europa, tal fato teria sido esquecido pelos seus "conterrâneos".

 Utopia é uma ilha cuja a descrição tem vários elementos do repertório e imaginário europeu, porém com alguns detalhes curiosos: A população das cidades de Utopia não é sedentária como a maioria das civilizações mercantilistas europeias: os habitantes migravam em intervalos de tempo não muito longos e os líderes eram escolhidos em eleições indiretas anualmente. Esta movimentação regular da nação lendária de Thomas Morus certamente está mais relacionada à proposta de ausência de propriedade privada do que uma inspiração em descrições de povos semi nômades da América. Assim o autor propõe uma forma de propagar "desapego de bens materiais" através das leis de uma sociedade. 

 Thomas também propõe através do personagem Rafael e da lendária Utopia, que todo cidadão deveria aprender a agricultura e praticá-la, além de uma outra profissão de escolha individual. Os cidadãos exerceriam a profissão de seu gosto, exceto em casos de necessidade do Estado, ou seja, do coletivo. Em "sua Utopia" toda casa deveria ter um jardim e não teria trancas nas portas, já que são residências temporárias devido ao "semi-nomadismo" ou rotatividade da população das cidades. Morus propõe que uma esfera das autoridades certificariam se todos cidadãos estão exercendo suas profissões, mas não de modo que estes trabalhem do nascer do sol ao pôr do sol. O autor através do personagem Rafael diz que esse regime pior do que escravidão é o que ocorre na maioria das nações de seu tempo, mas não em sua Utopia (na Inglaterra do século 16 o povo trabalhava cerca de 14 hs por dia). Em Utopia, os habitantes, praticamente em sua totalidade, trabalhavam somente 6 horas por dia com um intervalo de duas horas. Os utopianos dedicam o tempo livre aos estudos de quaisquer áreas que lhe interessem e às atividades lúdicas como exercícios de matemática ou de ética e não na forma de jogos de azar ou de excessos. Rafael então diz que sabe que seus interlocutores argumentariam que uma jornada de trabalho de 6 horas diárias causaria uma escassez de produtos, porém adianta que eles estão errados. Ele explica que nas nações européias mercantilistas, diferentemente de Utopia, só cerca da metade da população trabalha de fato, isto porque a mulher é proibida de exercer profissões e a maior parte do clero é ociosa, além de praticamente todos os ricos, os latifundiários, os aristocratas, os excessivos exércitos e os mendigos também não trabalharem nem produzirem coisa alguma. Além disto, sendo todas as nações mercantilistas pautadas pelo dinheiro, muito de suas atividades se voltam para fins inúteis, como o luxo, o prazer e objetos supérfluos. Se todo o conjunto de operários fossem destinados à produção de itens úteis para a coletividade (primariamente de necessidade básica etc), haveria um excedente de produtos e este poderia ser até voltado aos prazeres mais saudáveis - Isto é o que ocorre em Utopia. 

De acordo com Rafael, alguns utopianos eram escolhidos pelos sacerdotes e eleitos pelos magistrados, recebendo imunidade à lei dos trabalhos manuais (que todo cidadão seguia) para se dedicar exclusivamente aos estudos. Caso estes estudiosos não alcançassem os resultados esperados eles eram dispensados de volta ao seu posto anterior. Os cidadãos também podiam adquirir esta posição de estudioso por mérito próprio: Após dedicarem suas horas vagas em estudos, eles passariam pelo mesmo processo para viverem exclusivamente dos estudos.   

Um ponto curioso é a tentativa de manter uma média populacional através da troca de membros da família: Aquelas com muitos filhos passariam o "excedente" destes às outras famílias com poucos filhos. Esta ideia também está ligada ao fato que quando o total de habitantes de Utopia excedia o "permitido", surgia o único meio ao qual o governo utopiano criava colônias. Neste caso, os utopianos só podiam estabelecer uma colônia em áreas não ocupadas por indígenas do "Novo Mundo". Daí os utopianos contatavam os indígenas para negociar ou checar a possibilidade de assentar no território fértil não utilizado. A guerra seria permitida aos utopianos caso estes fossem impedidos por outros povos (indígenas) de obter alimentos para a sobrevivência. No caso de qualquer declínio populacional, as cidades originais de Utopia eram a prioridade e os colonos teriam que voltar para sua terra natal.

O autor tenta classificar quais prazeres são dignos e saudáveis e quais não são. Neste ponto, Morus deve ter ido além de Platão, se baseando em Epicuro, embora classifique os prazeres da alma como superiores ao do corpo. Todos prazeres do corpo mais louváveis estão ligados a saúde deste e devem ser aproveitados de maneira que respeite o próximo e o coletivo. Depois disto, ele relata através de Rafael, que os utopianos desmatam apenas para produção de itens voltados ao seu coletivo de cidades e que eles sempre realizam o replantio da floresta (entende-se bioma original) desmatada.

Um ponto notável é a proposta "religiosa" do autor: Apesar de católico, ele propõe a tolerância religiosa prática, condenando as críticas às outras religiões e as disputas entre elas, sejam discursivas ou físicas/ bélicas. Para Thomas Morus, se há uma religião certa e outras erradas, isso se provará com o passar do tempo e não com discursos de imposição de uma religião qualquer ou de rivalidade onde se ataca a fé alheia. Assim, em Utopia o proselitismo só é permitido sem exageros: Deve-se explicar o motivo da pregação antes de discursar e mesmo se os discursos forem impotentes, é proibido apelar para insultos e agressões. Tais atitudes, bem como afirmar que a própria religião está certa e as outras estão erradas, são ações punidas pela lei de Utopia. A negação da existência da alma é reprovada pelo autor, que entende tal fato como uma tentativa de reduzir o ser humano à vida animalesca. Propagar tal idéia é fomentar a infração das leis do Estado, pois tais homens não temeriam burlar ou destruir as regras por não acreditarem que há uma justiça para além da vida material. O autor conta que em Utopia, estes "materialistas" não eram considerados cidadãos pois rebaixavam a si mesmos ao status de animal e por isso, não tinham acesso aos cargos públicos. Eles são deixados em paz enquanto não infringirem as leis de Utopia, pois todos tinham o direito de acreditar no que quisessem. Porém caso saíssem pregando publicamente contra a existência da alma, contra sua sobrevivência à morte do corpo e coisas deste tipo, eles eram advertidos para debaterem tais opiniões somente com sacerdotes, que por sua vez, não eram de uma só religião em Utopia, embora a maioria fosse monoteísta.

Enfim, o autor propõe uma sociedade centrada no coletivismo com algumas peculiaridades e com variadas aberturas para gostos individuais, mas notoriamente evitando a concentração de bens e o medo da miséria. Ele indica que estes dois defeitos típicos da Europa mercantilista estão interligados com a propriedade privada - o que faz sentido, afinal se "a Terra dá tudo de graça", porque se apropriar de partes dela seria benéfico para alguma forma de vida? 

Contexto Histórico e Legado

O autor viveu no fim de um período de transição da Inglaterra: o país entrava na renascença com possível atraso em relação aos estados itálicos e ibéricos. Em relação aos itálicos porque ali renasceu a filosofia e a arte 4 décadas antes de Thomas Morus nascer. E em relação aos ibéricos porque Portugal e Espanha não eram fortes em filosofia e arte, mas saíram na frente nas navegações e exploração do "Novo Mundo". A Inglaterra passava por um processo de cercamento de terras que favoreciam os proprietários de maiores riquezas materiais - fato que acontecia quase 2 séculos após supressões de revoltas camponesas no país. As anteriores revoltas dos camponeses visavam condições dignas de trabalho e acontecia num período onde os lollards (católicos dissidentes) questionavam a corrupção da Igreja Católica na Grã Bretanha. Thomas Morus então, ao ter contato com os humanistas, predominantemente itálicos, deve ter notado a necessidade da filosofia na sociedade, pois sem discutir a ética (valores universais, ou seja, duradouros e coletivos - bom para todos) a ideologia tosca de autoridade e obediência do feudalismo regido pelas (duas) igrejas católicas seria substituído por algo tão ruim ou pior: o capitalismo. O sistema socioeconômico mercantil se baseia nas invenções humanas que Morus critica: a propriedade privada e o dinheiro. Um sistema centrado em tais invenções é obviamente capitalista, embora não na mesma intensidade que os sistemas posteriores (liberalismo etc). 

A ideologia por trás do sistema feudal foi derrubada pelos filósofos bizantinos e itálicos que se apoiaram amplamente em autores da Grécia clássica, porém a ética desta filosofia não penetrou de modo significativo os governos (aristocracias em sua maioria) nem as igrejas e muito menos penetrou a burguesia que estava em ascensão. Na própria Inglaterra via-se regulares conluios entre a monarquia/ aristocracia e um clero que ignoravam a ética - eis que fundaram a Igreja Anglicana como ferramenta de poder aliada ao rei Henrique VIII, em oposição a velha Igreja Católica Romana tão aliada aos estados itálicos e principalmente aos ibéricos. O rei inglês não só tomou o poder da igreja em seu país, como continuava uma campanha de assimilação (do País) de Gales. Essa assimilação suprimia a língua galesa nas posições estatais/ de poder sobre a sociedade além de tomar bens materiais destes através da imposição da igreja anglicana: assim notava-se que o rei inglês, além de ter interesses em acumular bens materiais, atacava a capacidade dos galeses tomarem decisões e pensarem sobre a própria sociedade. Era nítido que os poderes medievais se contorciam para manter seus privilégios e status e que a burguesia constituída por mercadores estava cada vez mais afastada do povo, pois só buscavam mais dinheiro e propriedades. Thomas Morus então via os defeitos da igreja e seu afastamento dos ensinamentos de Jesus, além de entender toda a corrupção da aristocracia e os interesses da burguesia em ascensão: estas classes da sociedade estavam tomadas por indivíduos que buscavam basicamente duas coisas: autoridade (típica do feudalismo) e dinheiro/ propriedades (típicos do capitalismo, ainda que mercantil), sendo que estes últimos indivíduos tinham interesses meramente materiais, mesmo que demonstrassem alguma "religiosidade" externamente. 

O autor aproveitou a "descoberta" do "Novo Mundo" (nome da América dado por Vespucci) e a filosofia redescoberta pelas "classes médias" dos estados itálicos e do extinto estado bizantino, para propor soluções éticas à sociedade inglesa de seu tempo. Morus fracassou diante os poderes que se opuseram a ele, mas sua obra, com suas respectivas observações da realidade e suas ideias éticas, se mostra bastante atual ainda hoje, após 500 anos.

Revolução: troca de poder, ou arrancada de desenvolvimento ético?

Em conversas sobre história da sociedade e da economia ocidental que tive com amigos e colegas nos últimos 6 ou 7 anos, percebi que as pessoas acabam caindo em algum nível de pessimismo quanto ao futuro da humanidade. 
De 4 ou 5 conhecidos que se aprofundaram neste tema por longos minutos (ou algumas poucas horas), 4 ou 5 mostraram a opinião que "o mal prevalece sobre o bem", seja por causa da ganância por dinheiro e/ou poder ou devido a ignorância da maioria. As visões variaram um pouco, mas uma possível solução variou entre revolução ou... nenhuma solução - a "humanidade não teria solução". 
Eu poderia discorrer sobre o que descobri sobre "o mal" e o bem na história das civilizações ocidentais, mas deixarei esse tema filosófico para um próximo texto.

Nos últimos 3 anos, após ler vários textos de Platão, ficou nítido que os problemas sócio econômicos que assolam a humanidade têm uma causa que envolve a (falta de) ética. Por isso tendo a crer menos que uma revolução traga grande benefícios: ao menos revoluções armadas, para mim, parecem trazer pequenos benefícios seguidos de muitas retaliações, traições etc.
Na primeira conversa sobre história da sociedade e da economia ocidental, os meus 2 interlocutores pareceram não chegar a uma conclusão, embora um pensou em uma grande revolta direta contra o sistema (capitalista) e o outro duvidou que isso fosse possível, sem apresentar uma possibilidade de mudança ou progresso social/ econômico.
Noutra conversa, com um sociólogo que trabalha com o povo de rua, lembro-me que ele falou que não vê esperança e que o ser humano não tem jeito pois nenhum sistema funciona devido ao fato deles serem impostos (colocados) de uma minoria de poderosos sobre o povo sem poder e devido a democracia (o sistema eleitoral etc) ser uma farsa pouco ou nada útil. 
Apresentei para ele, não em um tom muito sério, a proposta de um governo só de profissionais e cientistas de humanas: pedagogos, sociólogos, geógrafos, psicólogos (um tanto baseado em Platão, acho eu). Ele respondeu-me que seria só mais um governo vertical imposto de cima para baixo e não via como isso poderia gerar bom resultados. Pensei a respeito após nosso papo e lembrei-me que a proposta de Platão certamente foi pensada para uma cidade/ estado, ou seja, um coletivo de pessoas muito menor do que países continentais como Brasil, Rússia, China, EUA, ou outras nações quase tão grande quanto estes (Argentina, México, Índia etc). Na verdade o governo dos filósofos, que seria um governo de poucos construtores de conhecimento pautados pela ética (valores universais: duradouros e coletivos), é uma proposta não só social, mas também individual: moral/ ética e psicológica.
Numa outra conversa, meu interlocutor geógrafo cogitou vagamente que só revoluções poderiam mudar o mundo para melhor. Falei-lhe que revoluções sem educação e conscientização humana e social, já foram feitas e alternaram entre gerar pequenos resultados e ciclos de troca de poder com conflitos mortais, sejam bélicos ou não.

Vendo os problemas atuais, penso que isto está cada vez mais nítido: a maioria dos que têm poder, principalmente poderes econômico e ideológico (religiões e economias inclusas), são abertamente antiéticos. Variam entre psicopatas, fanfarrões e sádicos: basta vermos pastores manipuladores, políticos vendilhões e empresários do agronegócio, de indústrias farmacêuticas, armamentista, de grandes mídias e empreendedores (influencers mercenários), mentindo descaradamente, usando de argumentos chulos e estúpidos com pouca ou nenhuma base nos fatos... e absolutamente sem moral ou ética. 
 Isso denota uma falha miserável na educação, ao menos do Brasil, mas também com certeza em outros países, incluindo um tal de Estados Unidos. 
O sucateamento da educação ao lado de uma mídia que não informa desde a época da tv e do rádio, gera uma maioria de pessoas sem capacidade de análise dos fatos e sem conhecimento de utilidade ética, ou seja, sem conhecimento humano, coletivo e que perpassa o tempo (histórico etc). 
Lembro-me que em minha graduação de psicologia, todos professores que tentaram abordar a história da ciência e profissão tinham dificuldade de expor o assunto. Para completar, tentei fazer um trabalho de conclusão de curso abordando a história de umas poucas áreas da psicologia... e fui impedido: a professora negou-me esta possibilidade.
Pior que isso, alguns dos professores que abordaram história, reproduziram (automaticamente ou ingenuamente) discursos liberais, de "intelectuais" enviesados pela ideologia capitalista que contam só o ponto de vista do vencedor, geralmente o ponto de vista dos colonizadores que espalham desigualdade social e até guerras.

De modo geral não sabemos de onde viemos porque poucos de nós estudam história. Não sabemos o que é nação ou sociedade, porque não nos ensinam sociologia e vemos cada vez menos sobre geografia. Não sabemos que podemos aprender a dialogar com equidade, nem corrigir nossas limitações, porque quase não temos acesso à filosofia/ ética. Não sabemos quem cobrar porque não nos ensinam política...

Eu não sei se a verticalização do poder por si só é o maior de nossos dos problemas. Acho que pode ser problema quando exagerado, ou seja, quando a hierarquia social e/ ou econômica fica enorme e inquebrável para quem está submisso aos poderes. Por um outro lado, me parece que uma sociedade horizontal só é viável em pequenos coletivos... sejam como as dos indígenas da América, da África, da Oceania ou mesmo da Eurásia. Seja como a proposta talvez utópica de Platão para Atenas séculos atrás... 

Como seria então uma revolução capaz de trazer uma melhoria geral da sociedade? Revoltar-se contra multimilionários, eliminando-os? Destruir tudo do sistema econômico neo liberal e implantar um socialismo? Isso já não deu errado? Implantar um anarquismo? Daria certo em que nível? 
A palavra revolução pressupõe evolução... que evolução haveria sem educação? Sem uma civilização que se paute pelos valores universais da ética? Implantar uma educação conscientizadora e humana não seria uma revolução ainda que durasse poucos anos?
Talvez precisamos de algumas eventuais revoluções sim: para quebrar barreiras opressoras que nos impedem de propagarmos saberes humanos e de vivermos com equidade e ética. Porém, mais importante que isso então é o fato de que precisamos de educação... de uma construção de conhecimento equitativo com diálogo. Precisamos entender que o ganho individualista é falso, tosco e/ ou ignóbil... O individualismo é nocivo não só para o próximo e para as multidões; precisamos provar que é nocivo até mesmo para quem pratica crimes econômicos, ambientais, sociais etc... 
Sim, ensinar e propagar isso deve ser muito difícil... mas precisamos.

 

Amor e Constança

Escrevi este texto na segunda semana de maio - semana do "dia das mães". Isto porque me lembrei do amor e como ele é um sentimento importante apesar de parecer haver pouco consenso sobre o que ele é exatamente. No texto anterior critiquei como a psicologia deste início de século 21 ainda menospreza o amor e se submete ao viés biológico da medicina, porém aqui trato um pouco do amor na cristandade (dos ensinamentos de Jesus e seus apóstolos), e mais na relação desse sentimento tão importante com a espiritualidade e com o cotidiano... com a vida.

O amor cobre uma multitude de erros... esse ensinamento atribuído ao apóstolo Pedro, fala do amor ensinado por Jesus. O amor piedoso que faz os seres servirem uns aos outros em uma amizade universal, ou seja, sem mentiras e sem priorizar interesses individuais. Esse amor vivido sinceramente cobre uma multidão de erros porque é o ensinamento central de Jesus de amar o próximo como a si mesmo e a Deus (amar toda a vida)... 
Mas andei pensando: e ser amado por esse amor? Como é? Talvez não seja tão importante se não retribuirmos?... Mas o que esse amor de quem nos serve com tanta sinceridade nos causa? 
Senti que fui amado assim. E descobri que esse amor resiste à morte do corpo. Esse amor então é uma verdade que é quase indizível - É o que realmente vale a pena. Mas falarei essencialmente da porção desse amor perceptível aqui na vida terrestre, mesmo porque discorrer sobre o além não é necessário até o momento. 
Eu tive momentos de tristeza, irritação, dúvida etc... Mas sem dúvida, uma coisa que não esqueço é o quanto fui amado. 
Quando lembro de minha infância, lembro o quanto fui cercado por amor. Minha mamãe foi muito presente. Sempre me lembro de como sorria tão alegremente por minha causa e por causa de meus irmãos. Na verdade isso pouco mudou com o passar do tempo: era um sorriso espontâneo e sincero de um amor por nós, praticamente inabalável. Claro que isso não impediu momentos que ela ficou brava conosco e tantas outras emoções mais conflitivas, mas isso faz parte das relações humanas... 
Também me lembro da presença dos meus tios, particularmente de 2 irmãos de minha mãe, que viveram um tempo conosco quando eu era pequenino (por volta dos meus 2 anos de idade) e depois nos visitaram por anos (quase toda semana): 
Tio Hélio parecia mais fanfarrão ou talvez um brincalhão peculiar. Era meio atrapalhado e estava frequentemente ouvindo música, tomando café e fumando (essa última parte nunca me agradou, mas muitos outros familiares também fumavam). Frequentemente ria uma gargalhada emblemática e me chamava pelo meu apelido prolongando a primeira sílaba por uns segundos. 
Tio Bão foi o tio quase onipresente, pois visitava regularmente todos seus parentes (meus tios, tias e primos) e principalmente minha mãe, eu e meus irmãos. Acho que ele me pôs o apelido o qual meu tio Hélio me chamava. Era o tio que levava eu e meus irmãos para passear (muitas vezes de trem) e fazia muitos brinquedos para nós: ônibus de lata, veículos de madeira, maquetes etc. Também jogava cartas (mais com mamãe), fazia bolinhos fritos para gente e me ensinou a fazer nhoque. Visitou nossa casa frequentemente por mais de 30 anos. 
Alguém poderia me perguntar: mas aonde esteve o amor além o de sua mãe? Como você tem certeza do amor de seus tios? Bom, eu não tenho que ter certeza disso, ao menos não de modo explicável racionalmente... e nem empiricamente acho eu. Não penetro pensamentos e sentimentos alheios, nem leio mentes, mas amor é sentimento para além do material, então é sentir. Sentir nós simplesmente sentimos - é mais visceral que perceber sensorialmente ou explicar com palavras. Quando pequenino, muitas vezes senti o amor; estava no ambiente, nos olhares e sorrisos e sobretudo na presença. Amar é estar presente e se fazer sentir presente. Querendo o bem, fazendo bem... amando. O amor que eu senti não é momentâneo como a emoção: é reconhecível e duradouro, pois também é se sentir feliz, acolhido e seguro, ainda que ameaças compreensíveis ou incompreensíveis possam existir. 
Lembro-me que minha mãe contava que vovó se esforçou muito para fazer com que ela e seus irmãos (meus vários tios e tias) permanecessem unidos ao longo dos anos. Acho que esse esforço deu certo em algum nível. Lembro que ela contava como o tio Hélio gostava de crianças e sempre se fazia presente diante delas. E lembro como ela se dava bem com a maioria de seus irmãos - eles visitavam-se uns aos outros com certa regularidade, apesar de variadas dificuldades envolvendo rotinas familiares, condições financeiras e localização/ transporte. 
 O amor então parece ser presente. Viver o presente de coração com presença... ou seja com consciência. 
 O amor se faz inesquecível quando olho para esse meu passado. E quando tive medo que ele acabasse no futuro, Ele se manifestou de um modo imortal, provando-se mais absoluto que o espaço/ tempo... mas isso eu já não consigo explicar em um mero texto. 
 Se amar é estar presente e o amor provou-me sobreviver à morte do corpo, o presente independe do espaço e de nossa percepção... o que importa é viver esse amor. Quando não amamos estamos incompletos então talvez por isso Jesus centrou seus ensinamentos no amor. Talvez por isso Platão afirmou que os deuses chamam o amor de "o alado"; que nos eleva ao "além céus" (hiper ouranos)... 
Devemos nos manter presentes e conscientes... pois amor não é só gostar e nem simplesmente querer bem; ele envolve algo que nos tranquiliza... como serenidade. E algo que nos move e não nos deixa desistir... como a esperança.

Seja na memória, ou na psiquê, seja esta a alma ou a mente que não pode ser dividida nem decomposta, o amor sobrevive. 

O desprezo pelo bom sentimento nas famílias e na psicologia

De tempos em tempos sou forçado a ouvir ou ver algum adulto mal tratando uma criança - geralmente seu próprio filho(a). Não estou me referindo às broncas ou "palmadas" para educar e sim a tratar mal mesmo: Ignorar chamados de crianças com idade de 2 a 4 anos por vários minutos ou algumas horas, trancafiar uma ou outra no apartamento por dias seguidos brigando quando com a criança quando esta pede para sair/ para brincar, e sim, palmadas e petelecos dados por mera impaciência ou coisas piores. Quando digo com frequência, há uma variável, mas essa variável é o tempo em que essas famílias passam morando ao meu lado como vizinhos: Ao morarem, estes mal tratos são frequentes/ regulares - a variação de intervalos entre os mal tratos é mínima e na maioria dos casos que tive que viver "ao lado" destas famílias, notei que eram e ainda são quase diários. Isto ocorre a minha volta há uns 10 anos: chega um vizinho, trata mal a criança por 2, 3 ou 4 anos e se muda me dando alguns meses de paz. Só que na verdade eu não priorizo a paz de meramente estar longe de gente que maltrata criança: Isto porque eu sonho com um dia que essa merda acabe em toda a humanidade. 
O mal trato à criança não é algo supérfluo. Não é algo passageiro, que terminada a infância, a criança cresce e fica bem então "todos são felizes para sempre". Este mal trato que varia da recusa em dar afeto básico (seja carinho, atenção, lidar com paciência etc) até diversas violências (golpes físicos geralmente sem a criança entender porque está apanhando) tem seu impacto seja por causa que excede a capacidade da criança entender a opressão que sofreu ou porque traumatiza deixando sofrimentos ou limitações psicoemocionais. 
Citei alguns casos neste texto de 2021: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/08/reflexoes-sobre-importancia-da-inocencia.html, onde possivelmente as crianças mencionadas crescerão (algumas já devem ser adolescentes enquanto escrevo este texto) sem referência de boas emoções e expressões de bons sentimentos! Sem terem sentido a segurança básica de um pai e/ ou de uma mãe em que podiam confiar e receber carinho ou ao menos uma atenção sem violência ou sem desprezo. 
Estes mal tratos aos quais me refiro não são eventuais - são frequentes e dominantes na vida de variadas crianças que viveram e vivem próximas de mim. Sendo dominantes, quais serão os parâmetros de sentimentos e emoções que elas terão após crescer? Como essas crianças poderão tratar alguém bem se nem sabem o que é isso? 
Infelizmente estes casos parecem comuns e escrachadamente subnotificados mesmo porque seria muito difícil fazer uma pesquisa precisa com uma amostragem significante explicitando o cotidiano e os detalhes das relações destas crianças com seus cuidadores. Questionários podem ser feitos e aplicados em grandes públicos, mas um acompanhamento com levantamento de informações sobre a criação das crianças seria muito difícil. E como seriam ou serão as respostas de questionários sobre este tema? Certamente omitirão muitas das violências que mencionei, afinal quem responderia que trata suas crianças como estorvo na maior parte do tempo? Ou quem responderia que espanca ou estupra uma criança? Ninguém.
Este é um problema social que certamente deixa marcas na sociedade. E quando vemos pessoas apoiarem ou naturalizarem a violência no dia a dia, seja em qualquer setor da sociedade, deve haver uma ligação com a criação permeada de indiferença e/ ou de violência. Isto denota a necessidade e a importância de uma educação humana abrangente ao mesmo tempo que mostra o quão longe estamos de sermos uma civilização ética.
Seres humanos que desprezam ou torturam crianças certamente estão cagando e andando para falta de direitos básicos, para conquistas sociais, ou mesmo para uma política coerente e uma polícia que cumpra seu papel de defender a população. Ela acha a violência normal porque não aprendeu a gostar de ninguém ou só tem a violência como parâmetro de vida.
Porque candidatos que promovem o autoritarismo e a violência ganham eleições? Porque muitos acham normal a polícia matar trabalhadores sem prova alguma de que tenham cometido um crime? Porque acham normal um pastor pedir dinheiro, enriquecer e ignorar completamente os ensinamentos da própria religião? Porque acham normal um punhado de empresários terem fortunas enquanto muitos não tem nem o suficiente para se abrigar ou para comer? Porque achar normal crianças morrerem numa guerra?
Temos muitos problemas na civilização humana e enquanto aqueles que são os mais dependentes e indefesos forem desprezados ou mal tratados, os avanços éticos e sociais serão MUITO lentos... 
Sentimentos e emoções são necessidades humanas desde a tenra infância - se uma criança não tem acesso aos bons sentimentos e emoções ela não se torna um robô, um réptil ou um inseto - ela NÃO se torna NEUTRA e MUITO MENOS FORTE. Força mental não é violência nem indiferença! Força mental é ter autocontrole e saber conviver com respeito: é não se deixar ser dominado por sentimentos negativos nem por indiferença; é lidar sim com sentimentos negativos, mas também viver os bons sentimentos e expressá-los por meio de emoções saudáveis. 
Eu já tinha alguma noção disto há anos e minha formação em psicologia confirmou minhas suspeitas anteriores de que, ao passar por tais situações indiferença prolongada e/ ou de violência intensa, a criança cresce transtornada, seja com depressão, ansiedade, ou com transtornos de personalidade como por exemplo, o limítrofe (borderline) onde a pessoa tem grandes dificuldades para identificar uma amizade verdadeira e para saber os limites das relações humanas conforme cada ambiente e a realidade de cada pessoa. Uma psiquê torturada desde a infância não se desenvolve de modo saudável porque ela é marcada com sofrimento profundo enraizado em sua história de vida.
Para piorar, acompanhando profissionais de saúde mental nas redes, vejo um amplo abandono das abordagens de base mais humana da psicologia (fenomenológicas, filosóficas) em prol das abordagens "científicas". E qual seria o problema disto? Nenhum se a ciência de fato se propusesse a estudar os sentimentos de maneira ética, ou seja, com diálogo em pé de igualdade com os pacientes e pessoas com sofrimento psicoemocional ou transtornos. Esta igualdade é altamente negada, seja de modo velado ou aberto e isso ocorre porque a ciência está repleta de profissionais medíocres. Mediocridade em lidar com o ser humano que sofre não é mera falta de técnica ou de conhecimento, é principalmente falta de empatia, falta de assumir a própria ignorância/ de deixar de lado pré suposições! É falta de diálogo respeitoso e equitativo e falta de uma finalidade ética que busque o bem do paciente e do maior número de pessoas possível - o bem coletivo não de um mero grupo de pessoas, mas o bem de pessoas com as mais diversas culturas e cosmovisões. 
Só nestes 4 primeiros meses de 2025 eu vi três psicólogos pregando suas visões de mundo como se fossem a ciência em si, ou seja, como uma verdadeira construção de conhecimento que visa o bem estar psíquico do ser humano... Sendo dois destes psicólogos, supostos divulgadores científicos, com muitas dezenas de milhares de seguidores na internet. Estes dois, apesar de prováveis diferenças ente si, praticamente afirmam coisas do tipo "a ciência provou que Deus é uma invenção humana" (ou outras banalidades deste nível), mas... A ciência tem esta capacidade? E tem essa finalidade? 
Um destes "psicólogos" espalha há anos o cientificismo, atacando diversas religiões e até espiritualidades independentes (sem religião) e não, ele não critica, ou raramente ataca, os comportamentos antiéticos de líderes enriquecidos de grandes religiões. 
Para meu desprazer, o terceiro "psicólogo" (ao menos, espero que seja menos influente) veio com o velho discurso biologista: afirmou em uma entrevista para um canal/ site de psicologia, que a carga biológica é dominante no comportamento humano. Voltou um pouco atrás depois, afirmando que há um meio termo entre comportamento de origem genética e de origem social, para depois defender que a promiscuidade masculina é predominantemente biológica porque o homem ao longo da história lutou por várias parceiras sexuais etc... 
Note que ele cita que há um máximo de 50% de dominância de comportamento social no ser humano, sendo o restante de origem biológica... Ele ignora fatores humanos existenciais como busca por sentido e a espiritualidade, mas vamos considerar que ele só quis estudar uma pequena faixa do comportamento humano - assim é importante questionar qual é a finalidade deste estudo "comportamental" que submete o ser humano ao domínio das áreas da biologia? Primeiro vale notar que ele submete a psicologia às áreas biológicas, sejam a genética, a neurologia e/ ou a psiquiatria. Estas áreas já têm prestígio o suficiente na academia então qual é a serventia dessa "explanação"? Em segundo lugar, quais evidências mensuráveis este "cientista" do comportamento tem de que o homem lutou por várias parceiras sexuais ao longo da história? Não existiram sociedades matriarcais na Terra? Ele só fez uma comparação superficial do homem com outros mamíferos e não citou quais são estas espécies nem quais são as semelhanças ou diferenças entre elas e o ser humano! Ele não citou em que época esse comportamento masculino ocorreu certamente porque deduziu que ocorreu na "pré história", mas em qual período dos cerca de 200.000 anos de homo sapiens isto ocorreu? Quantos e quais agrupamentos humanos tiveram uma dominância de homens poligâmicos? Ou ele quis dizer, que líderes machos da maioria das sociedades, sejam elas tribais ou urbanas, tinham múltiplas parceiras sexuais sem existir o caso contrário (de líderes mulheres) ao longo de todos os 200.000 anos do homo sapiens?? Que estudo biológico prova definitivamente que o desejo sexual é mais incontrolável no homem do que na mulher? Oras, se foi analisado o comportamento externalizado de uma grande amostragem de homens (o que eu duvido), o estudo em si foi mais social do que biológico. Sendo comportamento externo/ observável, o estudo deveria levar em conta a criação familiar de cada homem, seus valores, se tais homens tentaram ou não se autocontrolar, quais influências sociais que eles recebem - de amigos, de parentes ou de mídias etc. 
Tendo em vista todas essas informações ignoradas pelo "cientista" do comportamento, nota-se que há pouquíssima mensurabilidade em suas deduções. Um "estudo" que reduz ou ignora a vasta gama de fatores sociais, psíquicos e existenciais, é mera opinião de viés simplista que reduz o ser humano ao seu aspecto biológico!
Em terceiro lugar, há uma finalidade coerente com a ética neste "estudo científico" de baixa mensurabilidade e apoiado em lacunas da história pré escrita, sobre comportamento humano? É um estudo que visa o bem do ser humano a nível coletivo, respeitando a diversidade de culturas e cosmovisões? Levou em consideração a vasta e complexa rede de fatores historicamente psicossociais?
Não é o que parece!
Vivemos numa sociedade ainda permeada por injustiça, indiferença e desigualdade - para que um profissional da "saúde mental" discursa publicamente sobre uma teoria de viés biologista?? Normalizando, ou correndo o risco de normalizar comportamentos como a promiscuidade masculina, que geram conflitos em relações humanas (sejam sociais ou familiares) e que frequentemente também geram sofrimento psicoemocional. 
Por fim, este texto pode parecer um desabafo (e é isso também), mas é um questionamento empático sobre os rumos do ser humano e um questionamento ético e epistemológico sobre as áreas que estudam a saúde mental e o comportamento humano. 
Espero que estes questionamentos sejam úteis ou benéficos... embora eu não espere nenhum alcance significativo com este texto. 

 

Aspectos psíquicos da saúde mental e sua relação com a Filosofia

Decidi escrever este texto após passar por uma série de experiências particulares das quais mencionei um pouco em algumas postagens anteriores, mas não só por causa disto: Escrevo porque vejo uma forte influência das áreas médicas como psiquiatria e neurologia sobrepondo e suprimindo aspectos filosóficos, existenciais e psíquicos do ser humano na psicologia. 
 Pode-se dizer que neste ano de 2025, vivemos um momento de crise social, psicológica e ética, ou talvez, um período de crise que se arrasta há vários anos, mas só foi recentemente escancarada: aumento da utilização da internet e de mídias "sociais" para produção e/ ou consumo de conteúdo de violência ou mentiras, protestos por variados países (revoluções coloridas, "black lives matter", revoltas mapuches, sociais/ trabalhistas etc), crise de saúde mental com aumento de consumo de opioides, alta de suicídios, afastamento em massa do ambiente de trabalho, precarização da mão de obra, entre tantos outros problemas. É difícil separar de maneira definitiva os problemas sociais dos econômicos, dos éticos e dos psicológicos e isso ocorre por um fato que me parece ainda muito ignorado: tudo o que é estudado pelas "ciências humanas" é inseparável da filosofia.
 Filosofia? Para que serve isso? Para explicar sobre filosofia em si, é bom lembrarmos dos seus "períodos de destaque" na história do ocidente: 

Não é muito claro quando a filosofia começa a surgir no ocidente, mas temos algumas evidências históricas das obras de filósofos naturalistas gregos que viveram entre os séculos 7 a.C. e 6 a.C., também chamados de "pré socráticos"; Tais filósofos levantavam uma série de questionamentos num momento de crescimento das cidades gregas, porém nem tudo eram "flores": havia insatisfação popular, revoltas, guerras e muita ganância. Entre esse progresso e essa turbulência, no século 5 a.C. surgiu um filósofo que trouxe a ética para o centro das discussões e da construção de conhecimento: Seu nome era Sócrates e, pelo fato de não ter deixado obra escrita, há quem duvide de sua existência. Porém é certo que seu principal pupilo existiu pois ele deixou o primeiro corpo de obras coeso na história do ocidente: Platão de certa forma é o fundador do que se chama de filosofia ocidental hoje em dia; Ele não só registrou os ensinamentos de seu mestre ateniense Sócrates, como bebeu de outras fontes como do filósofo greco-persa Anaxágoras, do greco "itálico" Parmênides, dos pitagóricos, cujo o suposto Pitágoras teria estudado outras culturas (egípcia, babilônica etc) e talvez de mais alguns outros filósofos. Platão propôs uma construção de conhecimento alicerçada na presunção da ignorância antes de se iniciar qualquer investigação ou estudo. Seu método se dava pelo diálogo que aliado a tal presunção, mostrava-se equitativo e respeitoso, porém crítico em um sentido construtivo. Sua finalidade era a melhoria de todas as coisas, principalmente daquelas que ele considerava que eram (verdadeiras, ou mais importantes): o cognoscível, a psiquê e portanto, as virtudes ou excelências como a justiça, a bondade, a coragem, a moderação etc. As gerações posteriores a Platão tiveram dificuldades e/ ou discordâncias em relação a alguns de seus ensinamentos e assim sua obra foi pouco colocada em prática apesar de preservada. 

Com a ascensão de Roma sobre os gregos entre os séculos 3 e 1 a.C. a filosofia grega (não só a platônica) começa a sofrer altos e baixos devido a oscilação entre aceitação e perseguição por parte dos imperadores romanos. Entre os séculos 1 e 2 d.C. surge o "médio platonismo" em diálogo com outros sistemas filosóficos e espirituais como o cristianismo e pouco tempo depois, os imperadores romanos adotam o cristianismo como religião de estado no final do séc 4 d.C. O platonismo juntamente com outras filosofias e religiões acaba praticamente "varrido" do ocidente com a formação e ascensão da igreja católica na Europa por volta do século 5 d.C. e o "continente" entra na "Era das Trevas". 

A filosofia praticamente só ressurge na Europa no fim do século 11 com a construção das universidades católicas talvez em reação ao contato com a cultura árabe que possuía madraças onde se estudava tanto filosofia como religião. Porém os europeus medievais deram ênfase nos estudos das obras de Aristóteles, e os conteúdos de Platão permaneceram timidamente esparsos e adaptados a uma teologia católica introduzida por (Santo) Augustine no início da era das trevas. 

Com as crises da igreja católica, causadas principalmente pelas contradições (múltiplos papas, afastamento dos ensinamentos éticos cristãos...) e vícios (excesso de luxo, poder, crimes etc) de seus líderes, as críticas vieram de duas frentes: de católicos dissidentes como os cátaros, Wycliffe, os lollards, Jan Hus, os hussitas (entre outros) e de camponeses e trabalhadores insatisfeitos com a pobreza e a opressão que sofriam. Porém essas revoltas e dissidências dos séculos 12, 13 e 14 foram predominantemente esmagadas por alianças entre a igreja e aristocratas ou burgueses e este foi o "início do fim" da era medieval: após a igreja católica romana (do ocidente) ter aparentemente superado seus opositores e questionadores, a igreja católica ortodoxa (do oriente) busca a ajuda dos ocidentais. Os otomanos estavam tomando todo o decadente Império (Romano) Bizantino que era a principal sede da igreja católica ortodoxa e os concílios (reuniões negociando a união) entre as igrejas do ocidente e do oriente foram feitos, mas fracassaram. 

Apesar do fracasso, os concílios também serviram para que filósofos bizantinos (Manuel Crisoloras e Gemisto Plethon, por exemplo) que guardavam grande conhecimento da filosofia grega, passassem a ensinar tais obras nos ducados/ estados da península itálica na primeira metade do século 15 - Possivelmente esse processo de divulgação foi facilitado pela "invenção" dos tipos móveis (a imprensa fundada entre 1440 e 1450) de Gutemberg. Além disto, tratados de paz foram feitos entre os estados itálicos por volta de 1454 e 1494, certamente também por temor à ameaça otomana, e esse ambiente deve ter consolidado ou assegurado o florescer dos movimentos intelectuais: Os estudos da filosofia grega estavam sendo retomados na Europa; principalmente das obras de Platão, Zenão, Epicuro e de autores do médio platonismo. Os estudos destas obras filosóficas serviram para combater argumentos obsoletos e falaciosos da igreja católica ainda muito poderosa apesar de dividida em duas. Em paralelo a isso, o judaísmo místico passa a ser abertamente estudado por alguns destes filósofos, dando origem a um sincretismo religioso certamente afrontoso ao poder da igreja - este florescer de novas ideias sobre o ser humano, sua história e sua espiritualidade e de novos questionamentos sobre (falta d)a ética e sobre a epistemologia dominante na Europa parece ser o início do movimento conhecido como humanismo. Nos estados itálicos vários humanistas, alguns ocupando cargos na burocracia ligada à própria igreja católica, outros financiados por políticos e banqueiros da região, se tornaram conhecidos por divulgar as obras clássicas da filosofia platônica, aristotélica, estoica, epicurista e do médio platonismo: Leonardo Bruni, Poggio Bracciolini, Ambrogio Traversari, Nicolau de Cusa, Lorenzo Valla, Marsílio Ficino e Giovani Pico foram alguns deles e seus questionamentos abriram espaço para outros posteriores, que viriam a reformar ou separar a igreja, criando o protestantismo. 
Deste ponto em diante certamente a filosofia despertou o interesse de alguns burgueses, mesmo porque dissidentes da igreja naturalmente procurariam aliados fora do clero: seja nas aristocracias ou nas burguesias e isso parece estar de acordo com a gradual substituição da economia feudal, pela mercantil. Também nesta mesma época, navegadores itálicos como o genovês Cristóvão Colombo (1451-1506), o florentino Américo Vespucci (1451-1512) e o veneziano Giovanni Caboto (1460-1498), iniciam a exploração naval pelo globo à serviço da Espanha, de Portugal e da Inglaterra (seja pelo interesse pelas especiarias da "Índia" ou devido à divulgação de obras clássicas como as de Eratóstenes e Crates de Mallus) e a arte surge como uma área de estudo rigorosa aliada à matemática, perceptível nas obras de artistas como Da Vinci e Rafael, que mostravam alto refinamento do uso da perspectiva e da volumetria (luz e sombra) marcando um interesse humano pela tridimensionalidade e pelo espaço. Infelizmente o interesse pelo "espaço" e seus respectivos recursos naturais juntamente com as navegações, serviram a ganância tanto das classes aristocráticas (reis etc) como das classes mercantis (burgueses) e acabaram resultando em diversas violências contra nativos da América e da África. 
Nos anos seguintes, a filosofia foi ganhando espaço na Europa com altos e baixos: Copérnico, Kepler e Galileu estiveram entre os famosos filósofos renascentistas devido ao seu estudo da natureza e hoje são considerados precursores da ciência moderna; Alguns destes filósofos (e outros como Giordano Bruno) estudavam não só o espaço e suas leis naturais, mas também a psiquê humana, a ética e a espiritualidade. Porém nesta época praticamente não havia psicologia e a única espiritualidade disponível em maior parte da Europa fora das igrejas era o neoplatonismo e o misticismo judaico - esse sincretismo mencionado anteriormente deve ter dado origem ao movimento Rosacruz que atingiu seu ápice entre 1614 e 1617. 

 Porém é com René Descartes no século 17 que um tema parece dividir a filosofia: como se dá a relação entre psiquê (mente ou alma) e corpo? A reação às obras de Descartes foi diversa, mas a visão empirista foi se tornando dominante principalmente a partir da Inglaterra; Essa preferência pela filosofia natural, ou seja, o estudo da natureza e do espaço estava crescendo entre britânicos enquanto o movimento Rosacruz que tinha alguns (ou muitos) intelectuais declinava. Talvez este declínio tenha relação com os seguintes fatos: Apesar do florescer da filosofia, a renascença foi o maior período de inquisições e caça às bruxas: durante o século 16 na península ibérica, os monarcas e a igreja romana perseguiram os judeus (aproximadamente no mesmo período em que o misticismo judaico foi "aberto"), enquanto no século 17 no Império Germânico, na Grã Bretanha e até na Escandinávia, vários grupos e famílias de camponeses, principalmente mulheres foram injustamente julgadas e executadas. Embora a maioria destas execuções tenham sido ordenadas por sacerdotes da igreja que se debatia para manter o poder ne Europa, na Grã Bretanha, as mais famosas das matanças foram lideradas por aristocratas: o rei James "VI e I" que chegou a escrever uma obra como "lidar com demônios" e o "Witchfinder General" auto intitulado membro do parlamento inglês (há controvérsias sobre isso) que escreveu obras alegando "como identificar bruxas". 

O movimento intelectual que começa a surgir a partir deste momento pode ser entendido como uma versão menos mística do rosacrucianismo e voltada a um aspecto humano mais racional-naturalista do que espiritual: O iluminismo passa a ser fomentado entre as "elites intelectuais" da Europa criticando a religião de modo geral e "cutucando em algum nível" o poder das aristocracias... Enfim, a filosofia natural que começou a crescer neste período passou a priorizar a experiência sensorial (empírica) ante a investigação mais racional (cognitiva, reflexiva) de Descartes, iniciando um lento processo de divisão da filosofia que viria a se consolidar por volta da primeira metade do século 19 com o surgimento do positivismo e a criação da palavra "cientista"; Sobre a história da relação "mente-corpo" eu já abordei em outros textos: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/11/filosofia-teoria-mente-corpo-e-o.html 

Essa filosofia natural centrada na investigação empírica surge na mesma região (Inglaterra) e época do liberalismo (transição do século 17 ao 18). Aqui não estou dizendo que estava tudo conectado, mas sim indicando as típicas correntes de pensamento dos intelectuais europeus "iluministas", principalmente dos britânicos/ ingleses, mas também marcadamente dos franceses que cunharam o termo "laissez faire" ("deixe ser", denotando um mercantilismo desregulado). Este também é o período inicial do "racismo científico" (vide algumas ideias de Petty sobre os africanos subsaarianos e de Linaeus sobre as "raças" humanas) e o período de intensificação da escravização: Com o banimento dos jesuítas pelas coroas da Espanha e de Portugal, houve uma substituição massiva de mão de obra indígena por negros escravizados levados para a América. Longe de suas nações, os negros tinham mais dificuldades de se comunicarem entre si e de organizarem revoltas contra seus escravizadores e isso aumentou a produtividade não de modo incidental como alguns contam por aí... Esta escolha feita pelo governo português por exemplo, aumentou os lucros da produção de arroz e de algodão na colônia do Grão Pará e Maranhão em cerca de 3000 a 4000%. Isso certamente é um indicador que os negros eram mais forçados e/ ou violentamente pressionados do que os indígenas catequizados pelos jesuítas no trabalho do cultivo de tais produtos. 

Mas qual a relação entre a as mudanças na filosofia seguida pela expansão da filosofia natural e as políticas comerciais europeias? Numa análise fria e reducionista elas não devem ter relação entre si, mas considerando quem determina como se constrói conhecimento, quem determina o que é verdade e quem tem direito ao estudo e à liberdade, é possível ver que a ideologia dominante nas elites europeias era de superioridade de seu próprio povo ante nativos da América e África - Uma superioridade racial, intelectual e de direitos não só comerciais, mas de propriedade sobre terras, bens e até sobre outros humanos! Embora houvessem alguns progressos sociais/ políticos ocorrendo na Europa, como o lento surgimento de ideias democráticas, as mudanças mencionadas anteriormente (expansão da filosofia natural e da economia liberal laissez faire) "coincidem" com a intensificação do mercantilismo: já não bastava só explorar a terra utilizando mão de obra escravizada: O escravo tinha que ser alguém não reconhecido como humano - algo biológico, mas sem alma, sem chances de lutar e sem direito de expressar sua cultura, sem direito de viver a cosmovisão de sua sociedade ou de se integrar à sociedade eurocêntrica. Claro, que isso não se deve só à elite intelectual e econômica europeia do século 18, mas também à posição das igrejas que permitiam a escravização dos negros negando-lhes até a opção de se converterem ao cristianismo. 

Analisando este período da história, peço para que o leitor note como o "desenvolvimento" da filosofia europeia moderna priorizando tecnicidades e biologismo e se afastando de questões psíquicas, morais e éticas (ciência) não fazia um enfrentamento real ao que havia de mais desumano nas igrejas: suas contradições em relação aos ensinamentos de amor ao próximo (do fundador do "cristianismo") e o poderio religioso discriminatório e opressor. Quando surgem o positivismo e o termo cientista então, mencionados anteriormente, o racismo científico já estava enraizado na epistemologia europeia: De pré suposição materialista niilista (o homem era um corpo sem alma) a ciência racista da Europa do século 19 desembocou em absurdos como as ideias de cranoscopia, drapetomania e darwinismo social! Essas ideias absurdas da ciência eu expliquei no texto https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/12/filosofia-teoria-mente-corpo-e-o.html
Assim os pressupostos da ciência, que não passam de mera visão de mundo, não garantiram a ética nas relações humanas, pelo contrário, se escondendo atrás de uma suposta "neutralidade", foram até coniventes com as atrocidades mencionadas e também explicadas mais sucintamente neste outro texto:  

Voltemos ao nosso século 21 então: porque a psicologia está sendo engolida pelas áreas médicas? 
Primeiramente é digno de nota, que para isso ocorrer é preciso alguma aceitação dentro da própria psicologia seja como área profissional ou como área acadêmica/ de estudos e construção de conhecimento. E porque existe tal aceitação? Por uma série de motivos não muito difíceis de entender, pois são todos perceptíveis para quem é da psicologia: Tomarei como exemplo minha vivência na área, já que dificilmente conseguiria emplacar um trabalho de pesquisa sobre tal tema logo no bacharelado; Durante o curso eu acompanhei opiniões de psicólogos nas redes sociais e notei que um possível motivo para que alguns estudiosos e profissionais da área buscassem maior rigor referente à prática da profissão, era a existência e propagação de terapias alternativas (algumas de eficácia dúbia) e a desregulação e permissividade do Conselho de Psicologia em relação a quem pode oferecer psicoterapia no Brasil. Além disto, quando comecei o curso de psicologia, logo no primeiro semestre, eu e os demais noventa e poucos colegas de turma (e possivelmente várias ou todas outras turmas de psicologia da faculdade em questão) fomos ensinados que ciência é o campo de estudo que se baseia no rigor metodológico, que busca compreender e explicar os fenômenos da natureza observável... Esse rigor supostamente é investigar o perceptível sensorialmente e conseguir reproduzir o fenômeno estudado, ou seja, o rigor é o método empírico - O que contradiz a psicoterapia ao menos em parte já que o paciente pode eventualmente omitir informações sobre si mesmo e o psicoterapeuta, ao se utilizar do diálogo, trabalha mais com a racionalização e com reflexões do que com reprodutibilidade. Talvez a reprodutibilidade possa ser alcançada parcialmente em estudos coletivos de pacientes, mas é praticamente impossível de ser alcançada em casos psicológicos individualmente e essa contradição não foi explicada em aula alguma! 
Também mostra-se importante questionar: que professores passaram tal conteúdo e/ ou reafirmaram tais regras para se construir conhecimento? Na faculdade onde estudei, recebemos esse conteúdo sobre o que é ciência e quais são seus pressupostos e métodos, via um professor de direito (não sei porque ele deu aula sobre tal tema no curso de psicologia) e também de dois professores da psicologia comportamentalista (behaviorista). Faz sentido que os behavioristas reproduzam esse discurso, pois era o que um ou mais fundadores desta abordagem da psicologia defendia. Porém há 2 problemas em propagar tal informação como uma verdade absoluta que serve para toda a psicologia: O primeiro é reduzir toda a área a essa visão de mundo de que é possível estudar o ser humano e sua psiquê (memórias, valores individuais, sentimentos, pensamentos etc) se pautando com ênfase no método empírico, pois isto exclui todas as abordagens fenomenológicas e a psicologia analítica que parte de uma base psicanalítica; O segundo problema de impor tal visão de ser humano e de construção de conhecimento é que isso se configura como um biologismo: Anuncia a certeza de que o ser humano é meramente biológico (sem provas definitivas) e com isso automaticamente dá poder à narrativa dominante nas áreas médicas, tais como a neurologia e a psiquiatria. Note que elevar esse pressuposto biologista que é um paradigma materialista como se fosse uma verdade absoluta na psicologia, não se trata de um diálogo verdadeiramente interdisciplinar entre a área em questão e a medicina, muito menos, se trata de uma abertura ao estudo transdisciplinar. Se trata de elevar a medicina e a biologia como áreas superiores à psicologia, reduzindo esta última praticamente à condição de uma sub área da medicina!

Com a alegação que a ciência é só o estudo do observável e do reproduzível, cria-se um impasse ou uma exclusão, isto porque a psicoterapia é centrada no diálogo com o paciente e os relatos deste são a base da construção de conhecimento sobre o tratamento psicoterapêutico! O verdadeiro estudo interdisciplinar deve considerar os aspectos psíquicos, sociais, biológicos até os existenciais e espirituais do ser humano. Considerar não é dar um sorriso diante o paciente e depois tratar tais aspectos como banalidades, mentiras ou até mesmo como meros processos psicopatológicos. O estudo interdisciplinar da psicologia deve considerar os aspectos existenciais e espirituais como possibilidade destes últimos serem tão reais quanto os aspectos biopsicossociais! Não se trata de ser religioso nem de admitir teorias religiosas na psicologia, na psiquiatria nem na neurologia; se trata de não impor visões de mundo sobre o paciente e seus relatos, quando estes envolvem os temas em questão! 
A mescla irresponsável de teorias religiosas, místicas e afins deve ser devidamente combatida, com análise e possível refutação pautada pela ética como finalidade e não meramente pautada por uma pré suposição/ paradigma ou pelo mero método de investigação e de construção de conhecimento. 

A ética pressupõe valores universais, ou seja, que fazem bem à toda a humanidade a nível coletivo, mas ainda é praticamente uma "área" de estudo da filosofia e eu nem tentaria impor que seja diferente disto; Afinal a ciência "mainstream", ou seja, a maioria dos cientistas e "acadêmicos" se apoiam no pressuposto "filosófico" materialista e consequentemente niilista, o que automaticamente classifica a ética como uma ideia impalpável ou até mesmo relativa. Até aí "tudo bem", se as demais áreas da ciência (física, biologia, química etc) não realiza estudos interseccionados com a filosofia; porém assumir tal postura na psicologia é contradizer a história da própria área.  
Se as demais áreas da ciência se posicionarem como estudos estritamente materialistas, será preciso questionar: A ciência abandonou a ética? Afinal o argumento de que há neutralidade na ciência é obsoleto e análises históricas já mostram que essa ideia é falsa. 
Ou a ciência aceita autoridade da filosofia para que se paute pela ética? Não parece haver um consenso do que exatamente é ciência hoje, mas imagino que a maioria dos cientistas não aceitariam a autoridade da filosofia, mesmo que esta se prove aberta ao diálogo transdisciplinar e com uma finalidade ética. 
Se for feita a primeira escolha então (a de abandonar a ética), não é de se espantar: já citei as atrocidades da física, da química e da medicina (principalmente psiquiatria) ao longo da história em outros textos e tal escolha só provaria que a ciência não colabora com o desenvolvimento de uma humanidade mais ética, justa e equitativa. 
Porém a psicologia deve permanecer inseparável da filosofia e isso não é defender só as abordagens fenomenológicas da área: é defender sua coerência proposta desde Wilhelm Wundt no século 19.
Não é preciso estabelecer o pressuposto filosófico de Wundt como um paradigma da psicologia, mas é urgente manter o aspecto filosófico de nossa área - ele serve para preservarmos um diálogo verdadeiramente equitativo não só com os pacientes mas também com os tratamentos integrativos e com os estudos multidisciplinares. Psicologia é ciência, mas também é filosofia! E todas as ciências humanas deveriam ser assim. Só assim manteremos uma epistemologia ética e inclusiva que não exclua cosmovisões!

Para a análise histórica deste texto me baseei nas obras The Ever Present Origin de Jean Gebser, nas leituras históricas de Francis Yates envolvendo o platonismo e o rosacrucianismo, no conteúdo de história geral que tive no ensino médio que coincidiu parcialmente sobre a história da psicologia que vi no bacharelado em psicologia da Universidade São Judas no ano de 2019... e por fim em textos da Wikipedia, aos quais prefiro em inglês que geralmente têm mais citações de fontes do que as páginas em português, porém talvez eu cite o "apud" posteriormente. 
As considerações sobre a psicologia são essencialmente minhas impressões parcialmente apoiadas na obra de Platão e de Wundt (traduzida por Saulo de Araújo) - elas visam uma construção de conhecimento com a inclusão de cosmovisões indígenas, afrodescendentes e possivelmente outras que tenham similaridades com estas.

O fundamentalismo religioso e o cientificismo: Alternância de fanatismo?

O Brasil foi "fundado" por um povo resumidamente católico: os portugueses no século 16, porém outras religiões ou espiritualidades já existiam aqui, afinal o território que hoje chamamos de Brasil, era ocupado por cerca de 900 povos diferentes entre si, com um total aproximado de 1.000 idiomas; Essas religiões/ espiritualidade foram oprimidas pelos colonizadores portugueses, sejam com a catequização feita por jesuítas, ou por meios mais toscos e brutais como ataques dos sertanistas paulistas (bandeirantes) etc. Com o aumento do tráfico de escravizados da África, outras religiões surgiram no Brasil, mas foram alvo de perseguições de modo não muito diferente dos indígenas... Em suma, até o século 20 a religião dominante do Brasil foi a mesma de Portugal: a católica apostólica romana. Esta é uma visão geral da história da religião no Brasil; existem uma série de pormenores dos quais não devo abordar em um único texto, pois não quero escrever uma tese de mestrado aqui, nem um livro. 

O assunto que está me chamando atenção no momento é o retorno do cientificismo, mas o que ele tem a ver com religião? Bom, ele é, ao menos aparentemente, uma resposta compreensível para o fundamentalismo típico de religiões que se tornaram ferramenta de poder há muito tempo. Obviamente, as religiões ou espiritualidade de minorias ou de massas sem poder algum, dificilmente podem se tornar ferramenta de poder, então é compreensível que o cientificismo seja uma resposta às influências do catolicismo ou do protestantismo na sociedade (embora existam cientificistas que ataquem outras religiões também). Mas o que é cientificismo? Eu gostaria que a maioria das pessoas já soubessem o que é isso neste início de século 21, mas acho que devo apresentar um breve resumo: Cientificismo é o movimento de cientistas, "acadêmicos" ou admiradores da ciência, que prega que a ciência é o único meio de se construir conhecimento, ou o meio mais confiável e portanto, superior a todos outros. E ele pode parecer natural para qualquer um que goste de estudar ou procura entender o mundo, o universo etc, porém o problema é que o cientificismo geralmente prega a visão dominante de ciência como dogma e seus difusores raramente reconhecem ou assumem que estão propagando esta idéia enviesada. O cientificismo ao pregar a superioridade da ciência, geralmente despreza ou nega os elementos das religiões, tais como espírito, fenômenos não explicados pelo empirismo, divindade, universalidade do bem e elementos da filosofia, como a presunção da ignorância/ suspensão de pressupostos, o diálogo, chegando às vezes a ignorar ou deturpar até mesmo a ética. O cientificismo geralmente se apoia em uma visão de mundo / pressuposto materialista que tende a convergir com o niilismo (o argumento de que não há nada além da "matéria" perceptível/ mensurável) e alguns exemplos de cientificismo na história também se apoiaram no biologismo. Por este último motivo ele deve ser comum entre estudiosos de áreas como medicina e biologia, mas também pode ocorrer em qualquer área da ciência. 

Enfim, já expliquei sobre os perigos de tais movimentos em vários textos, então vamos à sua relação com o fundamentalismo religioso: O fundamentalismo religioso surge em religiões que são ferramentas de poder, ou seja, são autoritárias de um modo velado, ou de modo notório; São doutrinas dogmáticas, ou seja, cheias de certezas e leis inquestionáveis de um suposto Deus todo poderoso. Estas religiões não necessariamente concordam entre si de modo unânime sobre Deus: O Deus da Igreja Universal por exemplo, como explicado em seus programas de rádio (que escuto quase diariamente à contra gosto), está sempre prometendo "unções" aos seus fiéis. Esta unção seria uma suposta proteção e "selo de aprovação" de que você faz parte da igreja deles caso participe de seus eventos, sejam cultos ou qualquer outra coisa que eu desconheço. Proteção contra o quê? Não tenho certeza, porque não acompanho mais do que os repetitivos programas de rádio que frequentemente convocam seus fiéis para unções e apresentam "milagres" operados por seus pastores. Estes milagres são supostas soluções de problemas familiares, dificuldades profissionais ou financeiras etc (nada de novo, pois muitos pastores espalham tais discursos desde meados do século passado). 
Outras religiões protestantes estão mais empenhadas em propagar o fim do mundo e citam com elevada frequência "o demônio", "satanás", enfim, o opositor de Deus... Praticamente um dualismo ao invés de um monoteísmo, pois o capiroto para estes, parece tão poderoso quanto Deus (a última vez que vi esses, foi quando retirei meu "ex" carro de uma oficina em 2023 e me deram um livretinho desta religião). Mas porquê falam tanto do fim do mundo e do rival de Deus? Esse não é um discurso novo, mas não sei dizer exatamente quando surgiu. Imagino que tal doutrina seja uma ferramenta de poder sim, para deixar os fiéis com medo constantemente, pois isso combina com o velho discurso de que "se você não seguir nossas regras rigorosamente, o diabo vai te pegar" e com a acusação que todas outras religiões estão em erro ou são "obras do inimigo". Assim como teologias da prosperidade e do domínio, essas doutrinas religiosas têm uma finalidade: manter o poder de um pequeno grupo de líderes religiosos - seja através do enriquecimento e acúmulo do dinheiro, ou através da criação do discurso "nós e eles" evidente na idéia de "unção" dos fiéis.

Eu poderia buscar discursos manipuladores de outras religiões, mas já deu pra sacar o porque surgiu uma reação à tanto absurdo e além do mais o catolicismo pela 1ª vez na história do Brasil está sendo ultrapassado pelo protestantismo ("evangelismo") de acordo com fontes atuais das quais não anotei e não as citarei por enquanto. (embora o fenômeno seja aparente...) As igrejas evangélicas dos pastores mais enriquecidos detém um poder enorme: influenciam não só a política e as mídias, como já têm muita força na economia e até em setores de segurança do país, como a PM paulista, por exemplo (policias que deveriam servir o estado e à sociedade, fazem a segurança de templos evangélicos, assistem cultos e palestras de pastores em expediente etc). Então é natural que uma classe de estudantes, cientistas, intelectuais reajam a este movimento conservador e/ ou obscurantista crescente: Isto não é novidade, apesar do Brasil ter suas particularidades; O cientificismo já existia por exemplo no século 19 e teve seu apogeu com o positivismo, movimento que durou praticamente até as duas ou três primeiras décadas do século 20! Embora no século 19 as igrejas fossem mais poderosas devido a uma possível falta de instrução das pessoas, o que gerou os maiores conflitos do mundo, pouco tem a ver com religiões, pois foram as crises do liberalismo, um sistema econômico e "social" charlatão (que causa prejuízo às massas beneficiando uma minoria), aliadas a um saber completamente apartado da ética: A ciência que gerou armas químicas na primeira guerra mundial e armas de destruição em massa na segunda! Essa ciência antiética era positivista, biologista, racista e materialista-niilista! Poucos foram os cientistas (Einstein, entre eles) que criticaram a pesquisa para fabricação de armas! Armas existem com um só objetivo e não é o de proteção: é o de matar! 

Após as duas guerras mundiais, a ideia de modernidade começou a ruir: Tal ideia de base iluminista, pregava que o homem tinha alcançado seu ápice com a filosofia natural que passou gradativamente a ser chamada de ciência com a invenção da palavra cientista, mais ou menos na mesma época do positivismo (primeira metade do séc 19); Apesar do abalo, as classes dominantes ainda tentavam suas cartadas: com o advento dos meios de comunicação em massa, os protestantes/ evangélicos passam a utilizar cada vez mais a televisão para promover suas igrejas e o cientificismo ganha um novo fôlego com as descobertas na área de genética (biologia) - seguindo esse movimento, o comportamentalismo ganhou força nos EUA, indicando uma aproximação da psicologia com a medicina/ biologia. 

Porém, nos anos 60, são realizados uma série de movimentos e reivindicações populares que marcam o que alguns estudiosos chamam de pós modernidade: o racionalismo frio e niilista por trás das duas guerras mundiais era combatido com o movimento "paz e amor", lutas anti-racistas, feminismo, movimento pela liberação do uso de psicoativos, sincretismo religioso entre ocidente e oriente (new age) entre outras manifestações. Apesar de tantas manifestações, muitas reinvindicações foram ignoradas ou suprimidas, enquanto outras foram ganhando espaço lentamente. As igrejas protestantes/ evangélicas agora dominadas pelo movimento neopentecostal não perderam poder algum com o passar dos anos - pelo contrário passaram a crescer no Brasil e em outros países. E aqui começo minha crítica à inutilidade do cientificismo: O que ele fomentou? Uma construção de conhecimento ética? Não; porque como vimos, na guerra fria, a química e a física foram capitaneadas pela criação de armas; A psiquiatria (medicina) continuava repleta de atrocidades desde a escravização existente no séc 19 até mais da metade da Guerra Fria no séc 20... O que o cientificismo combateu então? O abuso de autoridade de pastores e padres? Suas violências, seus interesses em enriquecer às custas das massas? Também não!

Desde por volta de 2019 estive vendo o crescimento (ou retorno) do movimento cientificista no Brasil e este, seja uma resposta ao fundamentalismo religioso ou não, é um movimento que prega a velha visão de uma elite européia decadente e arrogante - uma visão que propaga indiferença e egoísmo, tanto é assim que atualmente ela já ganha uma força apartada de movimentos pró sociedade, e de movimentos contra preconceito e a favor de oprimidos. Aqui vejo alguns perigos: como psicólogo de formação, o espalhamento da visão biologista na psicologia ataca abordagens humanistas e existenciais, seja diretamente ou indiretamente. O cientificismo, priorizando o método de investigação, acaba deixando em segundo plano a finalidade dos estudos ou da profissão, correndo o risco de até mesmo separar a construção de conhecimento da ética, uma vez que esta não é da área de estudos da ciência; Cheguei a ouvir um professor falar isso abertamente numa palestra: que a psicologia (comportamental) como ciência não se ocupa (e não deve se ocupar) da ética. Minutos depois ele citou a importância da finalidade social da psicologia... Então me perguntei: "Ué, finalidade social não é ética? Existe um fim social "neutro" ou antiético?" Pois bem, então se isso não for cientificismo, é porque a ciência mais aceita na academia se propõe a ser "neutra", permitindo o retorno das atrocidades mencionadas anteriormente e de outras também. Todas atrocidades na história da ciência mostram que nunca houve neutralidade na construção de conhecimento nem em qualquer outra área da civilização humana. 
O "cientista" que prioriza o método acima de tudo, esquece ou ignora a finalidade da construção de conhecimento que deveria ser ética! Ele se ocupa de discursos de finalidade dúbia como (exemplos simplificados): "Deus é uma invenção"; "Profeta x ou y não existiu", entre muitas insinuações de que a questão da relação entre mente e corpo está resolvida, alma não existe, espíritos não existem, campos eletromagnéticos dos orgãos humanos são só efeitos colaterais ou residuais (como se não tivessem causa nem finalidade), psicologia de verdade é só comportamental, fora tantas outras banalidades que miram em práticas culturais, religiosas etc.

E o que é a ética da qual os cientificistas se afastam, tanto voluntariamente como involuntariamente? 
Com certeza não é o que fundamentalistas religiosos falam, nem o que neoliberais amantes do dinheiro acham... Um dos maiores estudos sobre ética foi feito no período inicial da filosofia ocidental: Platão trata dela em grande parte de suas obras: para o autor, a construção de conhecimento verdadeiro não pode ser apartada de valores imutáveis e unos - apesar da linguagem talvez esquisita de sua época e local, é notório que o autor prioriza o conhecimento que busca o bem de todos (universal), do coletivo, ou do maior número de pessoas possível. Tudo isso através do diálogo alicerçado na presunção da ignorância - esta postura que a fenomenologia traz de volta à construção de conhecimento na virada do séc 19 ao 20, sob o nome de ausência (ou suspensão) de pressupostos - afinal pressuposição em prática, é preconceito. O fundador da filosofia ocidental então dialogava criticamente, mas não destrutivamente com cosmovisões (em Sofista e Fédon), mitos populares (em Político e A República) e com práticas espirituais e experiências místicas (em Fedro e Ion). Platão condenava o interesse particular na construção de conhecimento (em Górgias, Apologia, A República, Fédon, Filebo entre outros textos) e na política, traçando uma relação entre a epistemologia e sua serventia pública, para o estado e a sociedade. Se a ciência deve se apartar de tudo isso... O que ela se tornou? Uma arena de intelectualistas? Clubes de ditadores de regras sobre o que é a verdade, sem buscar a melhoria da humanidade. Sem ética e sem função social? Ignorando o que há de humano... no ser humano?

 

 

Expressões

Esta é uma tentativa de anotar o que é importante para mim. Escrevi muitos textos expondo ideias de maneira predominantemente racional, entã...