Observações sobre Teeteto (Do conhecimento) Pt. 1

Tido como um dos escritos da última fase de Platão (em seu estágio idoso), a obra trata do diálogo de Sócrates com o jovem Teeteto (Theaitétos) sobre o que é a episteme, palavra ora traduzida como ciência, ora como conhecimento. A segunda opção (conhecimento) parece mais precisa, já que Platão trata do aprendizado, do ensino, enfim da filosofia, ao utilizar a palavra episteme. Além disto, a palavra ciência, após o século 19 parece ter uma utilização dominante para denotar o conhecimento adquirido pelo método empírico, ou seja, especialmente o método da investigação sensorial reprodutível. Isso é assim salvo raras exceções, como por exemplo, no caso da Teoria Geral dos Sistemas.

Sócrates inicia o diálogo sobre o que é o conhecimento deixando Teeteto falar e depois, estabelecendo bases ou padrões teóricos que tratam de conceitos, de certa forma, contrários ou críticos aos materialistas (aos que "só acreditam na existência daquilo que eles são capazes de segurar com as duas mãos"): 

"Sócrates diz: (…) diremos, logo de início, segundo penso, que jamais alguma coisa ficou maior, seja em volume seja em quantidade, enquanto se manteve igual a Si mesma. Não é verdade? 

Teeteto — Exato. 

Sócrates — Em segundo lugar, uma coisa a que nada se acrescente e de que nada se tire, não aumentará nem desaparecerá, porém continuará sempre igual. 

Teeteto — Incontestavelmente. 

Sócrates — E não poderemos apresentar mais um postulado, seria o terceiro, nos seguintes termos: que não existia antes, não poderia ter existido sem formar-se ou ter sido formado? 

Teeteto — É também o que eu penso. 

Sócrates — (…) o principio de que pende tudo o que acabamos de expor é que só há movimento e que, fora disso, nada existe, havendo duas espécies de movimento, ambas de número infinito: uma de força ativa e outra de força passiva. Da união de ambas e da fricção recíproca nasce prole de número infinito porém sempre aos pares: um dos termos é objeto da sensação; o outro, a própria sensação. Damos as sensações vários nomes, tais como: visões, audições, olfações, frio e quente, e também prazeres, dores, desejos, temor e muitos outros. Infinitas são as anônimas; numerosíssimas as que têm nome. Por sua vez, o gênero dos sensíveis tem cognatos correspondentes a cada uma dessas sensações: para as inúmeras visões, cores de perder a conta; para as audições, os sons em igual variedade, e para as outras sensações, outros tantos objetos sensíveis, que lhes são aparentados.

…Sócrates continua: Ainda há a possibilidade, me parece, de sermos um para o outro alguma coisa, ele e eu, ou que venhamos a ser algo em virtude dessa correlação, ligados reciprocamente, não a qualquer outra existência nem mesmo a nós próprios. Só resta essa relação de reciprocidade. Por isso mesmo, se se disser que alguma coisa existe ou devém, será preciso acrescentar que existe ou se forma de alguém ou para alguém ou com relação a alguma coisa. 

[157e] ... Não descuidemos de um ponto que essa teoria (de Protágoras) é falha. Ainda não falamos dos sonhos, das doenças em geral e, particularmente, da loucura nem das alterações da vista, as do ouvido e das demais sensações. Como bem sabes, a opinião unânime é que todos esses casos concorrem para refutar a doutrina exposta agora mesmo, uma vez que em tais casos as nossas sensações certamente se revelam de todo o ponto falsas, e muito longe de ser verdadeira está a afirmação de que todas as coisas que aparecem ao indivíduo também são*, nada, pelo contrário, existe tal como nos aparece.   

*O autor também critica o "vir a ser contínuo" de Heráclito neste trecho.

(…) Sócrates — Queres saber, Teodoro, o que me admira em teu amigo Protágoras? 

Teodoro — Que será? 

 Sócrates — De modo geral, agrada-me sua doutrina, de que tudo o que aparece para alguém, existe para essa pessoa. Só o começo de sua proposição é que me surpreende, por ele não dizer logo no início de sua obra, A Verdade, que a medida de todas as coisas é o porco ou o cinocéfalo ou qualquer outro animal mais esquisito ainda, porém capaz de sensações. Seria o melhor prefácio para um discurso a um tempo brilhante e desdenhoso, com mostrar-nos que, se o admiramos como a uma divindade por causa de sua sabedoria, em matéria de discernimento ele não bate nem os girinos, quanto mais um ser humano. 

Como diremos, Teodoro? Se a verdade para cada indivíduo é o que ele alcança pela sensação; se as impressões de alguém não encontram melhor juiz senão ele mesmo, e se ninguém tem autoridade para dizer se as opiniões de outra pessoa são verdadeiras ou falsas, formando, ao revés disso, cada um de nós, sozinho, suas opiniões, que em todos os casos serão justas e verdadeiras: de que jeito, amigo, Protágoras terá sido sábio, a ponto de passar por digno de ensinar os outros e de receber salários astronômicos, e por que razão teremos nós de ser ignorantes e de freqüentar suas aulas, se cada um for a medida de sua própria sabedoria? Não nos assiste o direito de afirmar que tudo isso na boca de Protágoras não passava de frase para armar o efeito? No que me diz respeito e à minha arte de parteiro, nem me refiro ao ridículo que provocamos, o que, aliás, se poderia tornar extensivo a toda a arte da conversação. Pois analisar e procurar refutar as fantasias e opiniões de outras pessoas, dado que todas sejam certas para cada um de nós, não será o cúmulo da sensaboria e da tolice, se A Verdade de Protágoras for realmente verdadeira e se ele não estava pilheriando, quando doutrinava dos penetrais sagrados do seu livro? 

Sócrates continua a crítica à teoria de Protágoras: Pois vou ver se consigo explicar melhor meu pensamento. O que perguntamos foi se um indivíduo que aprendeu alguma coisa e dela ainda se recorda, pode deixar de conhecê-la; e depois de demonstrar que quem vê determinado objeto e, logo a seguir, fecha os olhos, deixando, assim, de vê-lo sem deixar de lembrar-se dele, concluímos que ele juntamente se recorda e não conhece, o que é impossível. A este modo, liquidamos o mito de Protágoras e também o teu (Teeteto), visto considerares idênticos conhecimento e sensação. 

Sócrates então passa a descrever os que pertencem ao seu círculo, ou seja os filósofos: Estes sofrem variadas dificuldades e zombarias porque não se apegam às banalidades que a maioria das pessoas se apegam, como riquezas materiais, honrarias, ancestralidade familiar, discursos de bajulação e de jactância. Sócrates então continua: 

[176c] (…) Porém no caso, amigo, de conseguir ele (o filósofo) arrastar alguém para as alturas em que se encontra e de induzir este outro a sair das perguntas: Em que te ofendi? ou Em que me ofendeste? para considerar a justiça ou a injustiça em si mesmas e procurar saber em que uma difere da outra ou de tudo o mais, desistindo de aplicar-se a temas como o de saber se é feliz o Rei ou quem for possuidor de montões de ouro, para estudar a realeza em geral ou a felicidade e a desgraça do homem em universal, em que consistem e de que modo convém à natureza humana adquirir uma e fugir da outra: quando aquele indivíduo de alma pequenina, afiada e chicanista se vê obrigado a responder a todas essas questões, então, é sua a vez de sofrer o mesmo castigo: sente vertigens na altura a que se viu guindado, e por falta de hábito de sondar com a vista o abismo fica com medo, atrapalha-se todo e mal consegue balbuciar, tornando-se objeto de galhofa não apenas das raparigas trácias ou das pessoas incultas em geral, pois todos estes são incapazes de notar o ridículo da situação, como de quantos receberam educação contrária à dos escravos. Eis aí, Teodoro, a condição desses dois tipos. Um, educado realmente com liberdade e lazer (ócio), a quem dás o nome de filósofo, não merece ser vituperado por fazer figura simplória e revelar-se imprestável quando se vê às voltas com alguma ocupação servil, como, por exemplo, não saber amarrar os cobertores na hora de viajar nem temperar alimentos ou preparar discursos bajulatórios. O outro é capaz de fazer tudo isso com rapidez e perfeição, porém não saberá arranjar o manto no ombro direito como o faz o homem livre, e muito menos, apanhando a música do discurso, entoar condignamente o hino da verdadeira vida dos deuses e dos varões bem-aventurados (venturosos). 

Teodoro — Se conseguisses, Sócrates, convencer todo o mundo da verdade do que disseste como fizeste comigo, haveria mais paz e menos males entre os homens. 

Sócrates — É certo, Teodoro. Porém não é possível eliminar os males — forçoso é haver sempre o que se oponha ao bem — nem mudarem-se eles para o meio dos deuses. É inevitável circularem nesta região, pelo meio da natureza perecível. Daqui nasce para nós o dever de procurar fugir quanto antes daqui para o alto. Ora, fugir dessa maneira é tornar-se o mais possível semelhante a Deus (Theo); e tal semelhança consiste em ficar alguém justo e santo com sabedoria. Mas a verdade, meu excelente amigo, é que não é fácil convencer ninguém de que as razões consideradas válidas pela maioria para fugir do vício e procurar a virtude não são as que levam um a cultivar esta e evitar aquela, a fim de não parecer ruim, senão virtuoso. A meu ver, tudo isso não passa de história de velhas, como se diz." 

Sócrates então explica que os argumentos da teoria relativista e sensorial de Protágoras, ao afirmarem que "o homem é a medida de todas as coisas" (e que não há uma verdade universal nem absoluta; somente há verdades que cada um percebe) não discerniriam o conhecimento de um médico perante um leigo sobre um determinado sintoma, nem o conhecimento de um cozinheiro diante um cliente sobre como preparar o sabor dos alimentos, nem de um músico ante um outro profissional em relação a como tocar um instrumento ou compor uma música etc. Se a verdade só existisse para cada ser humano que a percebesse, então não haveria como construir conhecimento.

Assim, Sócrates indica que teorias como a de Protágoras são exageradas/ uma grande distorção dos fatos: Apoiada na ideia de que o que é percebido sensorialmente pelo homem é a verdade, esta teoria sensorial e materialista mostra-se relativista, pois tudo o que cada ser vivo percebe individualmente seria a verdade absoluta (e portanto nada seria tal verdade), não havendo uma verdade comum/ universal. De acordo com tais argumentos, tudo seria relativo a cada ser, e assim, não haveria um conhecimento verdadeiro, só a percepção de cada ser poderia ser considerada "conhecimento".

Após refutar a teoria de Protágoras, Sócrates também investiga a teoria dos melissos (Parmênides) de que tudo é um, estático, imóvel (aparentemente o contrário da teoria de Protágoras). Para isso, ele e Teeteto analisam e descrevem o que são os sentidos e por onde eles ocorrem. Entende-se que os sentidos, apesar de captarem imagens, sons, cheiros e sabores, não fazem o processo de identificação, medição, comparação do que é similar ou diferente entre si etc. Estas últimas habilidades são feitas pela alma, ou seja, pela mente (psique), certamente no processo denominado de cognição, séculos após Platão escrever suas obras. É pela atividade da mente, que comparamos sensações passadas com as presentes e especulamos sobre o futuro em busca da verdade. Assim ambos separam a sensação (a percepção através dos sentidos) do conhecimento.

 

Observações sobre "Político (Da Realeza)" Pt. 2

Esta é a 2ª parte das observações sobre a obra "Político (ou, Da Realeza)" a partir do trecho "288a". 

Através do personagem "estrangeiro" ("xenos"), Platão indica várias classes da sociedade separando-as dos governantes (trabalhadores diversos, comerciantes, sacerdotes etc) pois suas funções objetivas não se refere a governar uma cidade ou estado e todas as suas classes de pessoas. 

O diálogo segue com o estrangeiro refletindo e explicando sobre a arte régia, do governante, ao "jovem Sócrates". 

O estrangeiro entende que é preciso um conhecimento ("episteme", traduzido como ciência por Edson Bini) para se governar. Esse conhecimento não é especificamente prático, pois está mais para uma ciência ou arte de observar, gerir e administrar várias outras artes e ocupações da sociedade. Conforme sua explicação, governar não é uma questão a ser resolvida por muitas ou poucas pessoas, por pobres ou ricos nem por voluntários ou escolhidos involuntariamente. 

Sendo uma episteme, a arte de governar, não poderia ser adquirida pela maioria de uma cidade ou estado e sim, seria algo aprendido ou desenvolvido por poucos indivíduos. O verdadeiro sistema de governo descrito pelo "estrangeiro" então, é aquele o qual o governante é detentor da episteme e não alguém que somente parece ter tal conhecimento. 

Neste ponto do diálogo, o jovem Sócrates diz ao estrangeiro, que dificilmente um governo seria realizado sem leis e este o responde que, em certo sentido (ou conforme dizem alguns), a legislação pertence à arte do rei/ do governante. 

Porém, o protagonista (o estrangeiro), segue explicando que as leis nunca abarcam o que é mais justo, ou mais excelente, para todos simultaneamente. As diferenças entre seres humanos e suas ações e as instabilidade de seus negócios fazem com que nenhuma arte consiga estabelecer uma regra de aplicação universal o tempo todo. 

Citando o exemplo de um médico ou professor de ginástica que se ausenta e decide deixar instruções para seus pacientes/ alunos, o estrangeiro explica que, ao retornar de sua ausência esse médico/ professor constataria que seus pacientes/ alunos mudaram de comportamento (por uma razão qualquer) em desacordo com suas recomendações deixadas anteriormente. Neste caso, seria necessário uma mudança das regras/ "leis" instituídas que se tornaram insuficientes ou inadequadas. Se o governante não mudasse as leis em um caso como este exemplo, certamente seu conhecimento (episteme) seria exposto ao ridículo. 

O estrangeiro então prossegue dizendo que em casos como este, a pessoa que tem uma melhoria a oferecer em relação à lei obsoleta, geralmente é aconselhada a persuadir o estado. Porém se alguém decide usar a força (a violência) ao invés da persuasão, para impor uma nova lei no lugar da antiga, estaria cometendo um erro pernicioso por falta de arte. As pessoas forçadas por tal atitude são consideradas vítimas de injustiça, opressão e maldade. Em seguida o estrangeiro diz que o homem sábio e justo que governa um estado, deve realizar o que é benéfico aos cidadãos, fazendo de sua arte a lei. É válido notar que arte (tekhnes) é intercambiável com conhecimento (episteme) neste texto.

Os argumentos seguintes do estrangeiro comparam o(s sistemas de) governo com profissões, especificamente com o médico e o timoneiro: Se os mais ricos assumem todos os cargos destas duas profissões, muitos que não conhecem a arte da medicina ou da navegação iriam exercer tais profissões com base nos seus ganhos e interesses particulares, eventualmente vindo a serem subornados e causando grande dano aos pacientes e/ ou aos navegadores, pessoas na embarcação. Este exemplo compara ambas profissões ao governo da oligarquia. 

Em seguida, o personagem diz que se os cargos de médico e de timoneiro fossem ocupados pelo povo sem o conhecimento necessário para praticar tais profissões, os resultados danosos também ocorreriam devido às escolhas feitas. Estas escolhas seriam feitas por votação da maioria que ignoraria a necessidade do conhecimento para se exercer tais funções. Esta é a comparação com a democracia. 

O texto neste trecho mostra que alguém com o conhecimento da arte régia/ política que questionasse uma incompetência ou injustiça cometida pelos governantes destes sistemas de governo falhos, seria acusado de estar falando das "coisas do céu ou do além" e "incitando a corrupção da juventude". Uma clara referência às acusações feitas contra Sócrates e que o levaram a ser condenado à morte.

No decorrer da obra, são apresentadas 3 formas de governo imitativas do governo real e ideal*, sendo elas: a democracia, a aristocracia e a monarquia. Estas 3 categorias de governo são meras imitações do governo verdadeiro porque seus governantes não têm (ou raramente teriam) o conhecimento/ a episteme para governar. 

*(o governo dos filósofos, ou seja, daqueles que desenvolveram a compreensão da episteme e que propagam esta, ou a "tekhnes" desta, entre aqueles que não sucumbem à natureza bestial, como será mostrado mais adiante).

As 3 formas de governo ainda podem ser divididas em um total de 6 tipos: A monarquia sem leis efetivas seria a "tirania" (a pior de todas as formas de governo), a aristocracia desregulada seria a "oligarquia" e a democracia sem leis seria o "populacho"* (superior à tirania, à democracia, à oligarquia, à aristocracia, perdendo somente para a monarquia e o governo dos filósofos). O governo dos filósofos então seria superior pelo fato de seu(s) governante(s) aplicar(em) um conhecimento voltado à justiça e à serventia da população de sua cidade / estado. 

*Platão separa a democracia em duas: na "lícita" e na "ilícita", mas não dá 2 nomes a esta categoria de governo. 

Esta esquematização parece indicar que em todos os 6 tipos de governo faltam o conhecimento da justiça, da moderação e do servir aos habitantes da cidade/ estado. Certamente porque esse conhecimento refere-se ao que Platão mostra em sua obra a República: a episteme não pode ser desvinculada da ética: a ideia/ forma (eidos) do bem / belo (kalos). Assim, para servir a população com o déficit de conhecimento, a melhor alternativa seria empossar um monarca apoiado em leis voltadas para o governo e serventia da cidade/ estado. A 2ª melhor alternativa, seria deixar o povo cuidar de si mesmo. Porém como o povo é constituído de um grande número de pessoas com interesses diversos, fazer leis para que a maioria governe, seria pouco eficaz e muito confuso ou conflitivo. Então o populacho teria o mínimo possível de leis, ou nenhuma lei escrita. 

A partir destas observações, torna-se perceptível que a monarquia indicada por Platão é diferente das monarquias hereditárias que existiram na Europa medieval e renascentista, pois estas se alicerçaram na ideia de "poder de sangue" e no apoio de uma religião institucionalizada como ferramenta de poder. A democracia para Platão também não é o que está em vigência no início do século 21 e nem é exatamente o que houve nas polis helênicas de seu tempo (século 4 a.C.). Para o autor democracia seria o governo onde a maioria realmente exerceria poder apoiado em leis que tentassem atender os interesses da maior quantidade possível de habitantes da cidade/ estado. Uma "utopia" quase contraditória, já que certamente ocorreriam (muitos) conflitos de interesse e as leis desta "democracia" teriam que ser modificadas ou ignoradas frequentemente. Não se trata de uma democracia representativa, pois Platão parece falar de um enorme número de pessoas tentando governar a cidade/ estado simultaneamente. A democracia dos países liberais/ neoliberais da idade moderna/ pós moderna se parecem mais com um governo de poucos "representantes" eleitos pela população das nações, severamente influenciados pelos interesses de grupos minoritários de multimilionários, os quais fazem lobby adulterando as leis e sobrepondo seus interesses lucrativos sobre o bem-estar da sociedade e sobre as infraestruturas nacionais. Este governo de poucos é o que Platão classifica como aristocracia ou oligarquia. 

O texto continua com o estrangeiro separando os governantes verdadeiros dos juízes, dos militares e dos oradores (nesta última classe, parecem estar os mestres na arte da retórica, da persuasão e das mitologias, divididos em 2 grupos: os sofistas e os poetas/ rapsodos). 

O estrangeiro então diz que a arte verdadeiramente régia (política) deveria decidir o momento oportuno da instauração das medidas importantes a serem tomadas no estado, cabendo as demais artes cumprirem suas determinações. 

Porém a dificuldade sobre o conhecimento da arte régia está ligada à virtude e como partes desta parecem distintas entre si. Esta aparente distinção entre partes da virtude, permite argumentos contrários entre pessoas que defendem só um aspecto desta em detrimento de outro aspecto. 

O estrangeiro cita o exemplo de um grupo de pessoas que defende o auto controle e outro que defende a coragem. Ambos podem apresentar pontos fracos ao exagerarem na priorização de um só destes aspectos da virtude. A grosso modo, as pessoas exageradamente "autocontroladas" podem se tornar teimosas, desinteressadas por tudo fora de suas rotinas ou totalmente estagnadas, enquanto as demasiadamente "corajosas", tendem a ser belicosas, ambiciosas e invejosas. Estes 2 agrupamentos de atitudes são nocivos para as sociedades.

A arte política então como qualquer arte, é composta de elementos e dos melhores possíveis, continua explicando o estrangeiro. Assim ela (a política) deve testar seus elementos (cidadãos) de modo a confiar àqueles que podem propiciar ensinamento, para que alcancem a meta em vista. A arte régia deve supervisionar mestres designados e tutores que atuam sob a lei para propiciar educação ajustada à composição que esta criando. Aqueles que fracassam absolutamente em temperança ou em coragem (ou que não desenvolvam virtude alguma, ou seja, aqueles que se chafurdam na ignorância ou na maldade) tendem a serem arrastados para um estado de "atheóteta"* e por isso devem ser sentenciados à indignidade (destituição de direitos e/ ou de bens), ao exílio ou à morte. 

*Esse termo que aparece entre o fim "trecho 308e" e início do "309a", significa um ateísmo, mais no sentido de irreligiosidade e descrença nos deuses dos estados helênicos/ gregos da época de Platão. Seria a impiedade, um crime naquela cultura/ "nação". Obviamente não faz sentido esperar que Platão apresente ideias totalmente condizentes com o atual início do século 21, tanto que nas polis gregas do séc. 4 a.C., tratamentos desumanos, como a escravidão e a pena de morte, eram aceitos pelo governo e pela sociedade.

Nota-se que apesar dos costumes impiedosos da "Grécia clássica", o autor se esforçou em projetar um governo centrado na educação e na filosofia, que trata da ética e seus valores universais (a virtude e seus aspectos) como tema central. 

O estrangeiro segue explicando que aqueles que não sucumbem a uma natureza animalesca, ao serem educados, tornam-se nobres e unidos como a arte régia exige. Estes teriam maior propensão à coragem ("andreas", também inclui certa virilidade) com um caráter (ethos) mais forte, como a base da trama (urdidura), que dá firmeza ou estabilidade à uma peça têxtil. Ou teriam menos disposição a se desviarem, sendo organizados, como os espessos fios macios de uma peça têxtil. A arte régia tenta combinar estas características da virtude, "atando a parte eterna de suas almas com um laço divino e a parte animal com laços humanos". 

O jovem Sócrates pergunta o que o estrangeiro quer dizer com essa última frase, ao que ele responde (conforme tradução de Edson Bini): 

"Quero dizer que a opinião efetivamente verdadeira e assegurada acerca do nobre (ágathon), do justo (dikaion), do bom (kalos) e de seus contrários é divina, e que quando é gerada nas almas, o é em uma raça de origem divina. " 

Esta frase, principalmente seu último trecho (309c), parece difícil de traduzir e pode significar: "Acerca do nobre, do justo, do bom e de seus contrários, quando a opinião verdadeira e assegurada toca visivelmente nas almas, nasce uma reputação divina no espírito" (theían fimí en daimonío gígnesthai génei). 

O estrangeiro então segue perguntando: "Reconhecemos então que o político e bom legislador é o único a quem pertence propriamente o poder - pela inspiração da (musa) arte régia - de inculcar essa opinião verdadeira naqueles que receberam educação de maneira correta, ou seja, aqueles que aludíamos há pouco? 

Jovem Sócrates: é provável que sim." 

O estrangeiro conclui que não se deve unir os maus com os maus nem os bons com os maus. Os bons devem se unir entre si, assim como se une os diferentes aspectos da virtude mostrados em seu exemplo anterior. Talvez isto dê margem a alguma interpretação segregacionista, elitista ou punitivista do conteúdo, mas tal interpretação seria certamente um equívoco, por ser um anacronismo (ignorar as limitações típicas das pessoas da época e do local quando/onde o texto foi escrito - a "Grécia" do séc. 4 a.C.). 

A seguir ele critica os casamentos feitos em busca de dinheiro e poder. O ideal para o estrangeiro é casar pessoas que mostrem diferentes aspectos da virtude entre si, como no exemplo anterior. Assim, pensando na geração / criação dos filhos, por exemplo, seria bom casar uma pessoa corajosa/ valente com uma pessoa auto-controlada/ organizada, para que se evite exageros que descambem em comportamentos nocivos. Estes seriam os "laços comuns" (certamente os humanos) entre diferentes "classes de pessoas" úteis à trama da arte régia, contanto que estas classes tenham uma opinião comum a cerca do nobre e do bom. Tal união geraria os membros ideais para ocuparem os cargos do estado, para que não faltasse ação e agilidade nem cautela e justiça na política. Então o estrangeiro conclui: Assim, a arte régia uniu o ethos do povo corajoso (andreíon) e sóbrio (sofrónon), mediante a amizade e o sentimento solidário em uma vida comum; e tendo completado o magnífico e melhor dos tecidos, com ele traja todos os habitantes da cidade/ estado - tanto escravos como homens livres; continue com esta rede, e no que diz respeito a todos estes habitantes, nada faltando, você se tornará uma cidade de bem-aventurados, comece e acredite. 

(este último trecho Edson Bini traduz como: "conserva-os juntos graças a esse tecido, e nada omitindo que deva estar em uma cidade feliz, governa-os e por eles zela.") 

Parte anterior: https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2024/03/breves-observacoes-sobre-politico-da.html

Fontes:

PLATÃO Diálogos IV, tradução de Edson Bini, (2020) edipro;

https://www.perseus.tufts.edu/hopper/collection?collection=Perseus%3Acorpus%3Aperseus%2Cwork%2CPlato%2C%20Statesman acessado em 07/06/2024

 

Observações sobre "Político" (Da Realeza) Pt. 1

Platão mostra o diálogo entre o estrangeiro (xenos, em grego) e um jovem “xará” de Sócrates. O diálogo em seu início trata de uma breve tentativa de classificar o político; 

258d - 268c Após separar o conhecimento teórico do prático, eles começam a definir o político como alguém que tem um conhecimento teórico. Depois definem que ele dá certos tipos de ordem, executa leis e faz demandas. O político também governaria um estado independentemente de seu tamanho e serviria seres com psiquê (alma) e não meros objetos. Entre os seres “almados” (enpsiquen), ele governaria humanos e não os animais; Porém se governasse somente os mansos e manipuláveis, ele seria um mero sofista e, por um outro lado, se governasse pessoas questionadoras e/ ou rebeldes, seria destronado, não sendo um político/ governante de fato. 

268d - 272c Após isto o estrangeiro começa sua argumentação baseada nos mitos gregos, focando em contar uma versão “modificada” do mito da era de ouro governada por Cronos; O tradutor Edson Bini compara este mito com a história do Éden da gênese bíblica, quando os “seres humanos” viviam em uma plena condição de ócio constante, sem necessidade do trabalho para sobreviverem. 

Entende-se que, de acordo com o texto de Platão, o universo (cosmos) corpóreo é imperfeito desde sua origem, e que, seu período mais perfeito foi sob a condução (governo) de Deus (theos/ theon) e/ ou do megisto daimoni (uma mega-divindade ou mega-espírito, possivelmente Cronos ou o artesão/ demiurgo) e os daemons (semi-divindades, espíritos bons). Apesar de herdar algumas qualidades abençoadas daquele que o gerou, o universo, devido sua corporalidade, tem sua imperfeição, e por isso, sofreria sucessivas inversões de seu movimento circular, quando deixa de ser conduzido pelo timoneiro (Cronos? demiurgo?) Destes períodos de movimento invertido, somente alguns indivíduos escolhidos por (seu?) theos (Deus) teriam outro destino (não seriam atingidos pela inversão). O estrangeiro diz que este timoneiro do universo larga seu timão e retira-se para o posto de vigia, quando todas as almas completam todos os nascimentos tantas vezes quanto foram prescritas. Poderia este trecho do texto de Platão, ter relação com o conceito de “apocatástase”, a salvação de todos os seres, ensinado pelo cristão neo platônico, Orígenes de Alexandria (185-253 dC)? 

Continuando o diálogo, o estrangeiro diz que descreveu este mito para destacar um grosseiro erro cometido anteriormente: A ideia de que um político ou rei governa uma multidão de seres humanos como um pastor guia sua manada não serve para explicar os humanos de seu ciclo, pois é a descrição do governo feito pelo divino (pelo timoneiro…) 

277c - 278c Ele diz então que sente-se como se soubesse do assunto em sonho, mas quando desperto, esquecia o que sabia. A partir disto, o estrangeiro diz que primeiro deve-se aprender o mais fácil, para depois aprender o mais complexo, citando um exemplo de crianças que aprendem a ler as sílabas curtas e fáceis que conseguem pronunciar primariamente, para depois aprender aquelas mais difíceis que elas começam a falar falsamente/ erroneamente. O estrangeiro conclui que alguém que começa com a falsa opinião (e aceita ela como se fosse verdade) não poderia atingir nem uma diminuta parcela da verdade nem adquirir sabedoria. 

O estrangeiro segue o diálogo buscando exemplos comparativos com a tecelagem; após separar elementos e processos do trabalho com o tecido, o estrangeiro diz que a tecelagem, sendo um tipo de arte de combinação, forma um todo, ou seja, forma um item apropriado para um determinado fim, graças a conclusão do processo de entrelaçamento da trama e da urdidura (posicionamento dos fios ao longo do tear). Este item, chamado de roupa de lã, é o objetivo da arte chamada de tecelagem; Após isso, o estrangeiro propõe examinar o caráter do excesso e da deficiência, com o objetivo de ter uma base racional para atribuir louvor ou censura adequadamente à prolixidade ou brevidade nas conversações deste tipo (com o objetivo de construir conhecimento): 

284a-d Estrangeiro: "Se as naturezas não se dirigem senão para a maior ou para a menor, nunca o são para a média*: não é isso? 

Sócrates mais jovem: Isso."

[* “o que está na devida medida”, de acordo com a tradução de Edson Bini.] 

"Estrangeiro: Não são por essa avaliação destruídos os universos das artes e dos seus ofícios, e não destruímos também a política desejada e o referido tecido cuja definição já contamos? Pois todas elas, sem dúvidas, mantêm a medida da moderação cuidadosamente, vigilantes no que tange ao excesso e à deficiência, não como se fossem negligentes em suas ações, e dessa forma preservam a moderação e sempre fazem o bem e trabalham bem. 

Sócrates mais jovem: Decerto que sim. 

Estrangeiro Se aniquilarmos a política, nossa busca pelo conhecimento da ciência real (da realeza, do governo) será em vão, não é mesmo? 

Sócrates mais jovem: Certamente. 

Estrangeiro: Bem, tal como fomos compelidos no caso do sofista* a ser o não-ser, porque naquela altura a razão (logos**) nos escapou, agora, portanto, o mais alto e o mais baixo são medidos não apenas em relação uns aos outros, mas também para a geração média (do que está na medida). Não é o que devemos fazer? Pois sem isso ser admitido, a existência do político, ou de qualquer outra pessoa que tenha conhecimento dos assuntos práticos, não pode ser formulada de maneira incontestável."

*Alusão ao diálogo Sofista, sobretudo 235a em diante; 

**Neste ponto, “logos” é traduzido como argumento por Edson Bini; 

O estrangeiro então diz que deve-se medir o maior e o menor não só em sua relação recíproca, mas também na relação com o estabelecimento do que está na medida, pois se este existe, também eles existem; (...) Uma existência jamais é possível na ausência de outra existência; 

Isto parece estar em acordo com uma construção de conhecimento que vai além do reducionismo, ou seja, que não é reducionista. Alguns exemplos seriam: o estudo dos campos eletromagnéticos além do mero estudo das partículas e o estudo dos campos eletromagnéticos dos órgãos dos seres vivos, ao invés de estudar apenas os conjuntos de órgãos do corpo separadamente; 

[284e] "Sócrates mais jovem: Isso está correto, mas e depois disso? 

Estrangeiro: É evidente que dividiremos a arte da medição em duas, como foi dito. Cortando-a, damos a uma delas, a função de medir o número e os comprimentos e as profundidades e as larguras e a velocidade em relação aos seus opostos; e a outra, se ocupa da medição em relação ao moderado e ao apropriado e ao oportuno (kairon) e ao devido (deon) e a todos padrões situados na média dos extremos."

Neste trecho, Platão parece querer dizer que além de medir as coisas em relação umas com as outras (medir em comparações, ou em relatividade), é preciso medir as coisas em relação a uma média. Esta média nem sempre parece meramente matemática, como é mostrada no último parágrafo: Deve-se medir as coisas em relação ao que é apropriado ou devido. Isto é um indício que Platão dava importância em buscar estudar as coisas para se alcançar o melhor resultado possível e este melhor resultado não é meramente corpóreo/ sensorial: é ideal e ético, certamente relacionando-se com o conceito de bom e belo (kalos) de Platão; 

285d "(...) me parece que a maioria dos indivíduos não consegue notar que algumas coisas “que são” (tôn ónton) apresentam semelhanças sensíveis de fácil percepção; Não é difícil indicá-las quando alguém está desejoso de proceder a uma fácil demonstração - que não implica problema algum e sem recorrer ao meio verbal - a alguém que solicita uma explicação destas coisas. Por outro lado, as maiores e mais valiosas concepções não apresentam imagem alguma claramente elaborada para o uso humano, imagem que aquele que quer satisfazer a mente do investigador possa aplicar a algum de seus sentidos e, por meio de uma mera demonstração, atingir esta meta. É necessário então, nos empenharmos por meio da prática para adquirir capacidade de apresentar e compreender uma definição racional de cada uma delas. De fato, as coisas incorpóreas, que são as mais excelentes e as mais importantes, só podem ser exibidas pelo discurso racional, e é no seu interesse que tudo que estamos dizendo é dito. Entretanto é sempre mais fácil praticar com coisas de pouca importância do que com coisas de maior importância."

Interessante notar que, ao defender a importância de discutir “coisas incorpóreas” pelo discurso racional, Platão acaba demonstrando a importância de se buscar a ética e os valores universais - pois são temas de extrema importância de serem colocados em prática não só nas leis que regem as sociedades, mas também na construção de conhecimentos, como por exemplo, na ciência, na filosofia etc… 

Continuação: https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2024/06/observacoes-sobre-politico-ou-da-realeza.html

Observações sobre Filebo (do Prazer e da Ética) Pt. 2

Continuação do diálogo Filebo:

Na parte anterior do texto, Platão mostra que Sócrates ensinou aos seus interlocutores, que há 4 gêneros de coisas ou de fenômenos: O finito (uno), o infinito, o misto de finito com infinito (de certo modo, o enumerável) e a causa (nous, a inteligência divina, o conhecimento divino). O prazer se situa no gênero de fenômenos infinitos. A inteligência por sua vez, é aparentada à causa, embora a inteligência humana possa estar no gênero misto, ou enumerável. 

Sócrates segue dizendo que o prazer e a dor nascem do gênero misto: Quando há uma quebra da harmonia nos seres vivos, surge a dor, e, quando há a recuperação desta harmonia, ou seja, a restauração da natureza, ocorre o prazer.

(...) 32a Sócrates – A sede, por sua vez, é destruição e dor. O inverso é prazer a atuação do úmido no ato de encher o que secou (reabastecimento). Do mesmo modo, a desagregação e a dissolução contra a natureza, causadas em nós pelo calor, é sofrimento, como é prazer a volta ao estado natural e ao frescor. 

Protarco – Perfeitamente.

Sócrates – Da mesma forma, a congelação contra a natureza que o frio opera nos humores do animal é sofrimento; mas, quando eles retornam ao seu estado natural e voltam a dissolver-se, esse processo conforme a natureza é prazer. Em uma palavra, vê se te parece razoável dizer que na classe dos seres vivos, formados, como declarei, da união do infinito com o finito, sempre que essa união vem a destruir-se, tal destruição é dor, e o contrário disso: em todos eles é prazer o caminho para sua própria natureza e conservação.

32c-34a (…) Sócrates conclui que as necessidades dos seres vivos, particularmente dos seres humanos, como a sede e a fome são um tipo de dor, enquanto a satisfação de tais necessidades é um tipo de prazer. A esperança de um prazer ou de um saciar vindouro, bem como o medo de uma dor ou de uma escassez (necessidade) vindoura, são antecipações feitas pela psique (mente, alma). Portanto estes exemplos de Sócrates não afetam só o corpo, mas também a psique e, além disto, podem causar expectativas. Embora estes exemplos de prazer e dor sejam mais puros, Sócrates diz que existem casos misturados, como por exemplo, os de sentir calor e frio, que podem ser tanto aliviantes como desconfortáveis, ou mesmo, nocivos. 

Sócrates explica que de todas as pathemáton (afecções ou emoções) a que nosso corpo está sujeito, algumas se extinguem no próprio corpo antes de alcançar a alma, deixando-a impassível, enquanto outras atravessam o corpo e a alma, causando-lhe abalo (seismón) a um tempo comum ambos e peculiar a cada um. As que não passam pelos dois escapam a nossa alma, como não lhe escapam as que passam. Ao dizer que uma afecção não passa pelo corpo, ou que escapa da alma, não deve-se interpretar a expressão como falasse do esquecimento. O esquecimento é perda da memória e, no presente caso, a memória ainda não nasceu. É absurdo falar de perda do que não existe e ainda não nasceu. Então, Sócrates recomenda que em vez de dizer, quando algo escapa à alma, que esta esquece (léthen) os abalos do corpo, será preferível dar o nome de insensibilidade (aenesthesin) ao que denominamos esquecimento. Mas quando o corpo e a alma são afetados pelo mesmo agente e se movem a um só tempo (comovem), o nome de aesthesin (sensação ou percepção) a esse movimento, é o mais apropriado. Isto seria a conexão da alma e do corpo em um único estado emocional comum e em um único movimento. A memória seria a preservação desta percepção ou sensação, enquanto a recordação (reminiscência) seria quando a psique, sozinha e independente do corpo, lembra de qualquer coisa que experimentou junto ao corpo.

34a-35d Então Sócrates explica que as reminiscências e a memória desempenham papel central no processo de lembrar das boas e das más sensações… Mesmo daquelas atribuídas normalmente ao corpo como fome, sede etc. 

A seguir Sócrates afirma que quando vemos algo de longe, naturalmente nos perguntamos o que é. Daí podemos formular uma opinião certa ou errada.

O fato de perceber algo de maneira incompleta ou mal, ou o fato de não perceber algo, não nos dá uma visão completa de uma verdade. Então as coisas podem parecer maiores ou menores do que realmente são.

Isto é nítido na visão que as pessoas têm da dor e do prazer: O prazer chama mais atenção, é mais desejado, parece maior, mais intenso etc. A dor e a dificuldade sendo diminuídas, muitas vezes são ignoradas pelas pessoas que não as sentem diretamente. 

A memória gravaria as sensações na alma a partir das percepções e experiências. Portanto entende-se que o corpo mantém-se separado da alma e suas respectivas afeições. 

Após criticar aqueles que se entregam aos prazeres materiais a ponto de entrar em estados de torpor, histeria, vício etc, Sócrates dá exemplos dos males da alma: 

 Sentimento de inveja e prazer na desgraça alheia; Ignorância; Orgulho, vaidade, valentia; Rir da situação ridícula de um amigo… 

“Sócrates – Há duas espécies de coisas: a que existe por si mesma e a que sempre deseja outra. 

Protarco – De que jeito e que coisas são essas? 

Sócrates – Uma é de natureza nobre; a outra lhe é inferior. 

Protarco – Seja mais claro. 

Sócrates – Já vimos belos e excelentes jovens e também seus valorosos apaixonados. 

Protarco – Sem dúvida.” 

Sócrates – O que afirmo é que os remédios, todos os instrumentos e todos os materiais são sempre aplicados em vista da geração, e que cada geração se faz em vista desta ou daquela essência, e a geração em geral, em vista da essência universal. 

Protarco – Ficou bastante claro. 

Sócrates – Nesse caso, se o prazer for, de algum modo, geração, necessariamente terá de sê-lo em vista de alguma essência. 

Protarco – Como não? 

Sócrates – Assim, a coisa em vista da qual se faz em vista de qualquer coisa pertence a classe do bem; mas o que é feito em vista de qualquer coisa, meu caro, devemos colocar numa classe diferente. 

Protarco – Forçosamente. 

Sócrates – Estando, pois, o prazer sujeito à geração, andaríamos certo se incluíssemos numa classe diferente da do bem? 

Protarco – Certíssimo, sem dúvida. 

Os prazeres, ou a maioria deles, ficariam em uma categoria abaixo das propriedades mentais como a inteligência, a bondade, a moderação. 

Ao avaliar os prazeres, Sócrates classifica como mais baixos os que se misturam com a dor e os de grande intensidade física. 

Os prazeres dos cheiros e sabores viriam em seguida… 

Então os auditivos e os visuais (No diálogo Hípias Maior isto é reforçado) 

Os maiores e mais nobres seriam os mentais: Relacionados à inteligência, o conhecimento, à humildade, à solidariedade, ao amor, à bondade etc 

Então ele cita a necessidade do movimento, da mudança e da mistura... 

Sócrates – Resolves, então, que eu ceda e abra de par em par a porta, à maneira de um porteiro comprimido e forçado pela multidão, e deixe entrar todos os conhecimentos, para que os impuros se misturem com os puros? 

Protarco – Não percebo, Sócrates, que mal adviria do fato de aceitarmos todos os conhecimentos, uma vez que ficássemos com os de primeira qualidade. 

Sócrates – Tal como dissemos há pouco: Não é possível, nem disso adviria nenhuma vantagem, que qualquer gênero puro permaneça à parte e solitário. Se compararmos os gêneros entre si, de todos o melhor para nosso companheiro de casa é o que conhecer a todos e a nós outros por maneira tão perfeita quanto possível. 

Sócrates – Mas ainda há um ingrediente indispensável, sem o qual nada se poderá fazer. 

Protarco – Qual é? 

Sócrates – Se não incluirmos verdade na mistura, nada poderá nascer nem verdadeiramente subsistir. 

Protarco – Como fora possível? 

XL – Sócrates – Não há jeito. E agora, se ainda faltar alguma coisa para nossa mistura, tu e Filebo que se manifestem a meu parecer, o argumento já está completo, podendo ser comparado a uma espécie de ordem incorpórea que dirige admiravelmente bem um corpo animado. 

 Protarco – Ficas autorizado, Sócrates, a dizer que essa, também, é minha maneira de pensar. 

 Sócrates – E se declarássemos que nos encontramos agora no vestíbulo da casa do bem, teríamos falado com muita propriedade. 

(...) Sócrates – É que, se em qualquer mistura faltar medida e proporção na natureza de seus componentes, fatalmente se arruinarão seus elementos e ela própria. Deixará de ser uma mistura regular, para transformar-se num amontoado heterogêneo, que será sempre um verdadeiro mal para seus possuidores. 

Protarco – É muito certo. 

Sócrates – Agora, tornou a escapar-nos a essência do bem, para asilar-se na natureza do belo. Pois é na medida e na proporção que sempre se encontra a beleza e a virtude. 

Protarco – Perfeitamente. 

Sócrates – Como também declaramos que a verdade entrava nessa mistura. 

Protarco – Certo. 

Sócrates – Assim, no caso não podermos apanhar o bem por meio de uma única idéia, recorramos a três: a da beleza, a da proporção e a da verdade, para declarar que todas elas reunidas, podem ser consideradas verdadeiramente como a causa única do que há na mistura, a qual passará a ser boa pelo fato de todas o serem. 

Sócrates classifica os bens na seguinte ordem, no final do diálogo: 

O moderado, a medida e o apropriado; 

O belo, bom (kalos), perfeito, suficiente (simétrico); 

A sabedoria, inteligência, mente (nous) que busca a verdade; 

Os conhecimentos (epistemes), artes (tekhnes) e opinião correta (doxos orthos); 

Os prazeres sem dor e prazeres puros da alma relacionados ao conhecimento (episteme) e às vezes aos sentidos; 

Interessante notar as conclusões possíveis a partir do diálogo entre Sócrates e Protarco, ou, mais precisamente do texto "Filebo" de Platão: 

Este e outros textos de Platão, já indicam que a matemática estava na filosofia desde o século 4 a.C. (possivelmente antes, com Pitágoras) e na verdade, ela nunca deixou a filosofia. Vide o filósofo e matemático fundador da fenomenologia, Edmund Husserl, que na virada do séc 19 ao 20, já discutia se a matemática era uma invenção humana ou uma lei natural descoberta pelo ser humano. O próprio Husserl mudou de ideia sobre esta questão ao longo de sua carreira! 

A ideia de "uno" e "infinito" discutida em Filebo de Platão são conceitos surgidos na filosofia que inevitavelmente tocam a matemática: O autor explica que o que é passível de medição, ou seja, o enumerável, seria o meio termo do uno com o múltiplo, ou do finito com o infinito, e seria gerado pela causa - Nous. Nous, por sua vez, foi traduzido ao português ora como conhecimento, ora como inteligência. Mas se trata de uma inteligência divina, criadora (perfeita e/ ou superior ao ser humano, pois certamente "está lá" desde o "início" do universo) como o próprio autor explica; o arquiteto ou demiurgo. Inclusive a matemática obviamente trata de duas coisas imateriais ou, ao menos, "não-materializáveis" / incorpóreas: o zero e o infinito. O primeiro parece mensurável, mas é ausência de algo, ou inexistência, enquanto o segundo obviamente nem é mensurável ou passível de medição, porque não tem fim. Sendo assim, isso não é (ciências) exatas - ainda é uma questão filosófica, passível de ser discutida racionalmente, mas que não pode ser plenamente coberta por um método empírico de investigação, afinal quem poderia medir o infinito? Quem poderia fazer uma demonstração material do zero?

Sendo a matemática algo mais amplo do que um estudo empírico, ou mais vasto do que um saber de pressuposto materialista pode cobrir, ela pode ser discutida juntamente com as questões da finalidade das coisas, as melhores maneiras das coisas serem (ontologia de Platão) e com a ética de acordo com Platão, a ideia (eidos) do bem (kalos). 

 Enfim, a matemática faz parte da filosofia e é analisável por este saber. Embora ela trate principalmente do enumerável e passível de medição, ela tem ao menos alguns fundamentos em conceitos mais abstratos/ filosóficos como o zero e o infinito. E mesmo a parte especificamente enumerável / passível de medição mencionada por Platão também é alvo de investigação filosófica, pois o filósofo identificou que todo estudo humano trata desta "parte" da lei natural ou matemática e que a beleza, relacionada com o bem (kalos) está nesta lei desde a sua causa, ou seja, há a beleza e o bem, desde o "ínicio do universo", a "criação de tudo" pela causa - Nous.

 

A Filosofia ocidental surge de um diálogo entre o racional, o mítico e o místico

Filosofia e Construção do Conhecimento 

Considera-se que a filosofia ocidental surge por volta do século 4 a.C. com Sócrates, e principalmente, com Platão, este último que sistematizou a "amizade com o saber" dialogando com outros autores anteriores. 

Apesar de racional, a construção de conhecimento da filosofia ocidental mostrou-se aberta à outras formas de consciência, como a dos mitos (mítica), e a dos sinais/ inspirações e transes (mística). 

Tal postura de abertura, necessária na filosofia, é a "presunção da ignorância" proposta por Sócrates e Platão. A consciência a que me refiro aqui não é meramente a percepção sensorial do indivíduo no presente: é mais abrangente, cobrindo percepção, interpretação e (modo de) ação do indivíduo em relação ao objeto e ao ambiente. 

Esta grande abertura da filosofia não é meramente permissiva a ponto de acolher mentiras ou argumentos nocivos aos indivíduos e às sociedades, pois tem uma postura crítica alicerçada na ética proposta por Platão. Os mitos por exemplo, são muitas vezes reinterpretados por Sócrates/ Platão, pautando-se na questão ética e seus conceitos de valores universais, ou mais precisamente, no conceito de virtude. Na verdade a ética é um ponto tão importante na filosofia ocidental em seu cerne, que ao examinar as obras platônicas é possível perceber como ela permeia todas as investigações, estudos e áreas. 

Em "Político", Platão sugere que não deve-se medir (estudar) o maior e o menor só em sua relação recíproca, mas também em relação ao estabelecimento do que está na medida. Este estabelecimento do que está na medida não é somente matemático, nem simplesmente sensorial - é o que é devido, apropriado ou oportuno ao tema estudado em questão. Isto certamente não contradiz a proposta das tekhnes (artes, ou profissões), nem contradiz a ideia (eidos) de kalos tão pautada por Platão: o bom e o belo. A descrição das tekhnes e suas finalidades, assim como a ideia central do Bem/belo, na filosofia de Platão, são ambas mostradas na obra A República (Politheia) e estão em acordo com o que Platão propõe como área de estudo e objetivo de um professor das "coisas que são"* na obra Fédon, onde trata da psiquê (alma). O professor de ontologia deve estudar/ buscar/ demonstrar a melhor maneira das coisas serem - trata-se de uma ideia de progresso, de buscar melhoria contínua, pautada pela ética (eidos de kalos). 

*(professor de ontos, ou seja, de ontologia)

Platão indica que nem a matemática está apartada desta ética, quando em Filebo, explica que o misto do finito com infinito, ou seja, o enumerável, foi gerado pela causa, que é "nous". Nous é traduzido como inteligência ou como conhecimento, mas não refere-se a algo meramente mortal: no próprio diálogo Filebo, é mostrado que Nous é a inteligência divina, o que faz sentido: pois é a causa que uniu o finito com o infinito e talvez, possa ser interpretado também como o que uniu o "Uno" com o "múltiplo". Ao explicar a origem do que é passível de medição, o enumerável, Platão põe a matemática como (parte da) lei divina, pois foi Nous, a mente divina que criou este conceito a partir do finito com infinito ou do uno com o múltiplo. Certamente era isso que Sócrates esperava de Anaxágoras ao citar sua decepção com o filósofo "professor de ontos" no diálogo Fédon. A matemática sendo de origem divina, faz parte não só da lei divina mas também da natural, pois a encontramos nas causas e efeitos de uma série de fenômenos no universo... Isto está de acordo com que Sócrates explica à Cálicles, no diálogo Górgias: a lei natural é divina (são a mesma lei) e a lei dos homens deveria se basear nesta. 

A explicação matemática de Platão, ao mostrar como a mente divina (Nous, possível sinônimo de Demiurgo e do "Theon" de Sócrates conforme indicado no diálogo Filebo...) cria tudo a partir da mistura do finito com o infinito, indica uma harmonia e plenitude. Os textos de Platão também indicam que as coisas são boas quando governada por Deus (Theon), como por exemplo, no "mito da era de ouro", citado em Político. É possível concluir que Deus criou tudo assim porque é adequado, moderado, bom, portanto a eidos (ideia/ forma) mais sublime é kalos (o bem/ belo). E o que há de mais amável é o bem, conforme mostrado no Banquete. Assim, de acordo com o fundador da filosofia ocidental então, o bem está diretamente ligado a lei natural, a lei divina, a Deus e toda sua criação! 

Nota-se que Platão construiu toda a filosofia como um corpo coeso que conversou com seus "pares", pois além de dialogar com seu mestre Sócrates, dialogou com alguns filósofos anteriores/ pré socráticos, como Parmênides (que desenvolveu sua teoria sobre o Uno), Heráclito e/ ou Protágoras que discorriam sobre o múltiplo/ a relatividade, com Anaxágoras que propagou o conceito de Nous e possivelmente com Pitágoras e sua matemática/ geometria. 

Como citado,o Bem é o mais sublime dos eidos explicados por Platão. Mas o que é eidos? Porque não há tradução exata desta palavra para vários outros idiomas diferentes do grego da época de Platão? O que importa é o conceito explicado pelo filósofo: Eidos é ideia, não meramente abstrata, porque é real. Mas como provar? Platão, nos indica o caminho no diálogo entre Sócrates e Menon (o outro nome do texto "Menon" é: "da Virtude"): 

 Sócrates diz que a forma (skhema) é o que está presente em todas coisas que são (ton onton) e precede a cor. Menon, insatisfeito com a fala do filósofo, a considera tola, pois diz que há seres que podem não saber o que é cor. Sócrates então pergunta a Menon se há algo chamado de fim (teleyten*), referindo-se a um limite, um extremo, uma coisa terminada ou consumada e o indagado responde que sim. 

*palavra que dá origem, por exemplo, à teleologia, o "estudo das finalidades"

Em seguida, Sócrates pergunta à Menon, se na geometria há superfície (epipedon) e sólido (sthereon), ao que Menon também concorda. 

O filósofo então diz que a skhema é o que limita o "sólido" (no sentido da geometria) embora esta palavra seja traduzida como forma por alguns autores como Edson Bini, ela também é traduzida como figura por tradutores como Maura Iglesias. 

É possível haver confusão, uma vez que os significado tenha poucas diferenças entre si, talvez ambíguas: o 1º termo, forma, refere-se mais às formas geométricas, ou, à silhuetas classificáveis por algum padrão geralmente (mas não necessariamente) perceptível pela visão. O 2º, figura, refere-se a qualquer imagem, objeto ou fenômeno perceptível pela visão. De um ponto de vista platônico, possivelmente essa "forma" (skhema) se assemelha à eidos (idéia/ forma), pois ambas estão presentes nas coisas que o filósofo explica que são (ton onton) em seus textos. O ser de Platão não é meramente o que é perceptível sensorialmente (o "material"), é sobretudo, o acessível pela cognição, o que pode ser conhecido (gnose), como por exemplo a "eidos de kalos" (a ideia do bem/ belo). 

Sócrates segue explicando que cor é uma espécie de emanação das formas, que se harmoniza com a visão e é perceptível. Esta última definição pode parecer imprecisa atualmente, mas não está errada: Vemos cores em todas formas/ objetos, quando estes emanam (mais precisamente, refletem) uma porção da luz que incide sobre eles. 

Reflexões entre os mitos e a racionalidade na obra de Platão

Numa possível interpretação das obras Filebo e Político, Cronos, conduzindo o movimento do universo como um timoneiro deve representar a divindade que "gerou" o ciclo dos números 1 a 9. Explico: Os números 1 ao 9 também podem representar o finito, que se tornariam infinitos apenas com a inserção do 0 (zero), pois assim torna-se possível as dezenas (números de 10 a 99), as centenas (de 100 a 999), os milhares etc. Esta peculiaridade faria do 0 (zero) o "nada" ou "negação" quando representado só isoladamente, e , quando representado à direita de qualquer outro número, ele introduz o infinito na numeração/ na matemática, porque dá continuidade à finita sequência dos números 1 a 9. Esta sequência que era finita, pode parecer continuar linear com a inserção do 0, mas também pode ser considerada cíclica, já que os números 1 a 9 praticamente se repetem, apenas inserindo uma casa "decimal" a "cada novo zero" (10, 100, 1000 etc). A nível de comparação (da matemática com a filosofia) assim seria o tempo no universo tridimensional que, ao menos aparentemente, nunca alcançaria o além, o eterno, Deus. A realidade tridimensional seria assim em relação a quadrimensional: o que percebemos como corpóreo no universo, não pode transcender a velocidade da luz, nem o tempo. Somente a psique/ alma poderia realizar tal feito... (que viagem, mas é uma tentativa de continuar o diálogo entre matemática, mito e cosmologia fomentado pela filosofia fundada por Platão) 

Afinal Deus, seja Nous ou qualquer outro nome, é espírito (ou a "psiquê cósmica") e, conforme explica Platão e várias religiões espiritualistas (druidismo céltico, hinduísmo, candomblé, orfismo grego etc), nós essencialmente somos espíritos imortais que eventualmente ou regularmente (r)encarnamos em corpos mortais. 

Esta geração do misto a partir do finito com infinito (como indicado em Filebo), seria gerar o tempo como percebemos na vida sensorial/ encarnada - gerar o enumerável, a realidade mensurável/ passível de medição. Assim, ele pouco ou nada diferiria de Chronos (o tempo): Chronos seria o mesmo que a divindade Cronos e ele "largaria o timão", numa espécie de renovação de um ciclo temporal e psíquico, onde todas almas completariam uma totalidade de encarnações no cosmos... Neste caso Cronos não pode ser o Theon Hegemon/ Nous. Ele complementaria um conceito "trínito" de Deus: representando os números de 1 a 9, estaria ao lado de Ouranos/ Urano, o ciclo, que por sua vez representaria o "0" e/ou infinito. Talvez por isso, há quem interprete* que em algumas artes Ouranos (Caelus) seja representado carregando o "círculo" do zodíaco - seria uma simbologia do zero e/ou do aether, o céu além do universo tridimensional. Este argumento parece mais uma viagem, mas se tratando da linguagem mítica, é uma possível explicação do inexplicável na linguagem humana - o surgimento do tempo, do universo etc. O ser humano existe limitado às condições tridimensionais, então a linguagem mítica foi a única forma de explicar algo mais complexo como uma realidade com mais dimensões do que a nossa! Seguindo esta explicação Cronos e Urano estariam "sob" Nous, a mente cósmica possível sinônimo de Theon/ Deus que criou ambos, resultando em toda a matemática/ lei divina e natural. 

*Por enquanto fico devendo o(s) nome(s) do(s) autor(es), que não me lembro se era(m) poeta(s) ou hermeneuta(s).

 Essa "trindade" trata de assuntos transcendentes - do tempo e do além, não acho que valha a pena compará-la com a "trindade" do hinduísmo (Brahma, Vishnu e Shiva - os aspectos de Brahman, o Todo), nem com as nornas (as "tecelãs do tempo e/ou do cosmo") dos mitos nórdicos, menos ainda com a trindade da igreja católica. Neste primeiro momento, ao menos, não considero tal comparação esclarecedora. 

O que vale notar é que tal complexa combinação das consciências ou das linguagens mística (transcendente), mítica (linguagem mitológica) e racional (matemática/ filosofia) é uma tentativa de continuar o que Platão (e seu mestre Sócrates) iniciaram: Uma construção de conhecimento que não nega saberes - Uma amizade com o saber... 

Este Theon (ou Zeus) Hegemon, que possivelmente é Nous, não é um Deus distante e frio, que apenas iniciou o processo de criação do universo. Ele criou a(s) eidos (ideia/forma), sendo a mais sublime o Bem/belo (kalos). Eidos são acessíveis só cognitivamente porque são mais reais, portanto mais psíquicos (da alma...) do que o "mundo sensível" (sensorial, corporal). 

Assim, a realidade sublime é acessada pela Psiquê (alma) e não pelo soma (corpo). Naturalmente percebemos o tempo (chronos) com nossa psiquê e só podemos transcendê-lo com a mesma. É com a alma que alcançamos o "Hiper Ouranos" ou o "aether", o "distante" céu luminoso sem o calor das chamas, o "além céus", que não por mera coincidência parece misturar os nomes do titã Hiperyon (além das eras) e da divindade Ouranos (Urano, o céu distante, o cosmo). É com nossa essência mais interior e verdadeira que transcendemos o espaço/ tempo. É com a ideia mais sublime (o bem/ belo) que alcançamos isto. 

Como já mencionado, o bem, é o que há de mais amável. Sendo uma ideia/forma (eidos), o Bem está ligado ao estágio sublime do amor, além do eros (paixão sensorial) e da filia (amizade). Este amor mais sublime é ágape, o amor a todas as almas, às suas criações que visam o bem e a lei natural e divina (que são uma só). Por isso Nous (Deus) ama: ele fez o Bem! Por isso transcendemos com o amor, buscando viver conforme a ideia (eidos) sublime, o Bem (kalos). 

 Conclusão ou "Considerações Finais"

Com a centralidade na ética (a virtude, a ideia do Bem), a proposta de Platão, assim como a de seu mestre Sócrates, era de construir conhecimento (episteme) através do diálogo, respeitando diferentes perspectivas da consciência humana. A filosofia por eles fundada, não restringia métodos escolhendo uma visão de mundo excluindo outras cosmovisões. Nas obras Teeteto e Protágoras, Platão indica como uma teoria centrada exclusivamente em experiências sensoriais era relativista e arbitrária: não permitia a busca por uma verdade, nem permitia uma construção de conhecimento universalizado. E isto não fazia da filosofia fundada por Platão algo aleatório ou sem método: além da pauta supra citada (ética, ideia do bem...) que envolve a busca pela virtude/ um valor universal, excluindo a priorização da retórica/ sofisma/ discurso meramente convincente e a busca pelos excessos de prazeres sensoriais ou pelo acúmulo de grandes fortunas materiais; havia a postura da presunção da ignorância como pré requisito para se investigar / estudar (pois onde há dúvida é possível a investigação) e a finalidade da melhoria das coisas que são, principalmente envolvendo a psiquê. O ser e o existir são verdadeiros portanto bons e (por exclusão) o "não ser" e o inexistir são falsos! Por isso Platão em sua teoria sobre ton onton (as coisas que são), ou ontologia, só discutia a possibilidade das coisas serem melhores. Ontologia não é tentar definir o que existe e o que não existe e por esta razão, a filosofia ocidental em sua origem (platônica) pautou a ideia do Bem! Porque o "mal" é mera ausência do bem - estuda-se o bem e já se entende tudo - inclusive o "mal" por exclusão. Esta centralidade no bem (e na ética, palavra que vem de ethos - caráter) certamente foi sendo deixada de lado no decorrer da história da filosofia.

Sócrates se apoiava na tradição oral para despertar a noção da virtude (do bem) nas pessoas. Seu método, a maiêutica, se deu através do diálogo. Quem nega saberes e formas de consciências de ser e de existir nega esta interação que desperta o bem nas pessoas - a construção do saber pautada no bem, na ética. Negar isto, é diabólico, notável certamente pela própria etimologia da palavra "dia bolos" (do grego: negar a interação de dois). A filosofia em sua origem é dialética porque é aberta ao diálogo: jamais nega a interação e o desenvolvimento mútuo. 

 Fontes:

Platão, Político 

Platão, Filebo 

Platão, Fedon 

Platão, Menon

Platão, O Banquete

Platão, A República 

Platão, Górgias 

Jean Gebser, The Ever Present Origin

 

Observações sobre Filebo (Do Prazer e da Ética) Pt. 1

Filebo (Do Prazer e da Ética) 

Esta obra de Platão leva o nome do personagem que acreditava que o bem era o prazer. Para Filebos, uma vida onde prioriza-se os prazeres seria o ideal, a vida perfeita, o verdadeiro bem. Sócrates discorda alegando a importância da mente: Da Inteligência, da Sabedoria e do Conhecimento para se alcançar o verdadeiro Bem. Filebo deixa a discussão seguir entre seu colega Protarco e Sócrates.

16b-17a "Sócrates – Meninos, o caminho recomendado por Filebo não existe. Não há nem pode haver caminho mais belo do que o que eu sempre amei, mas que perco muito freqüentemente, ficando sempre na maior perplexidade. 

Protarco – Qual é? Basta que o menciones. 

Sócrates – Indicá-lo é fácil; difícil acima de tudo é percorrê-lo. Foi graças a esse método que se descobriu tudo o que se diz a respeito às artes. Considera o seguinte. 

Protarco – Podes falar. 

Sócrates – Até onde o compreendo, trata-se de um dádiva dos deuses para os homens, jogada aqui para baixo por intermediário de algum Prometeu, juntamente com um fogo de muito brilho*. Os antigos, que eram melhores do que nós e viviam mais perto dos deuses, nos conservaram essa tradição: que tudo o que se diz existir provém do uno e do múltiplo e traz consigo, por natureza, o finito e o infinito. Uma vez que tudo está coordenado dessa maneira, precisamos procurar em todas coisas sua idéia peculiar, pois sem dúvida nenhuma a encontraremos. Depois dessa primeira idéia, teremos de procurar mais duas, se houver duas, ou mais três, ou qualquer outro número, procedendo assim com todas, até chegarmos a saber não apenas que a unidade primitiva é una e múltipla e infinita, como também quantas espécies ela contém. Não devemos aplicar a pluralidade a idéia do infinito sem primeiro precisar quantos números ela abrange, desde o infinito até à unidade; só então soltaremos a unidade de cada coisa, para que se perca livremente no infinito. Conforme disse, foram os deuses que nos mimosearam com essa arte de investigar e aprender e de nos instruirmos uns com os outros. Mas os sábios de nosso tempo assentam ao acaso o uno e o múltiplo com mais pressa ou lentidão do que fora necessário, saltando indevidamente da unidade para o infinito, com o que lhes escapam os números intermediários. Esse, o caráter fundamental que permite distinguir se em nossas discussões procedemos dialeticamente ou eristicamente."

*Sócrates refere-se ao mito onde o titã, filho de Iapetus, teria dado o fogo da inteligência, ou da psiquê (alma) à vida humana. Com a frase seguinte, é possível que ele esteja indicando que os povos mais antigos conheciam mais meios de se comunicar com o divino, ou com os “deuses” em comparação com o povo de seu tempo (século 4 a.C.). As/ os oráculos, por exemplo, existiam desde muito antes de Sócrates. 

Sócrates critica os filósofos que ensinam erroneamente sobre o uno e o múltiplo. Neste caso ele pode estar criticando classes além dos sofistas: Embora Sócrates e Platão tenham aceitado ideias de Parmênides e sua escola, a aceitação teria sido somente parcial: Para Platão, a ideia de Uno/ do monismo (de Parmênides) não explica todas as coisas pois tende a indicar que tudo é imutável. Já a crítica aos que afirmam que tudo é múltiplo / infinito pode ser uma crítica ao outro extremo, talvez a escola relativista de Protágoras. 

É possível entender que a dialética é a discussão para investigar e aprender através da medição, enumeração, comparação etc. Já a erística, vem da palavra Éris (deusa da discórdia) e é o discutir pelo discutir ou a mera disputa onde não se prioriza o aprendizado nem a investigação. 

Sócrates diz que é importante que não caiam em discursos distorcidos sobre o que é uno e o que é múltiplo e que é importante enumerar os prazeres e saberes para iniciar a discussão. Ele segue explicando que conhecer o uno/finito e o múltiplo/infinito não basta para entender e praticar uma ciência ou técnica: O músico não toca instrumentos só porque sabe quantas notas musicais existem, nem alguém aprende a falar porque sabe que existem inúmeros sons na natureza. É preciso entender as qualidades dos elementos estudados, suas combinações, resultados, contextos etc. Seus interlocutores reclamam, não entendendo o porquê explicar tais coisas, então Sócrates decide definir o bem como ponto de partida: 

20d "Sócrates – É de necessidade forçosa que a natureza do bem seja perfeita? Ou será imperfeita? 

Protarco – Terá de ser o que há de mais perfeito, Sócrates. 

Sócrates – E agora, o bem é suficiente? 

Protarco – Como não? Nesse particular, exatamente, é que ele ultrapassa tudo o mais. 

Sócrates – Como também devemos afirmar, segundo penso, com absoluta convicção, que todo ser dotado de discernimento o procura e se esforça por adquiri-lo em definitivo, sem preocupar-se de nada destituído de qualquer conexão com o bem. 

Protarco – Contra isso não há objeção possível."

Sócrates a seguir mostra através do diálogo, dois tipos de vida extremos: O primeiro vive apenas dos prazeres sem os atributos da mente (como memória, inteligência, opinião etc), portanto não saberá discernir o que é prazer, não se lembrará dos prazeres, nem preverá ou planejará prazer algum, O segundo vive apenas da razão, saber e memória, sem prazer algum e se tornaria insensível e indiferente a tudo. Em seguida Sócrates propõe um terceiro modo de viver que seria a mescla do prazer com a inteligência e o saber. Protarco concorda que os 2 primeiros modelos de vida não são desejáveis nem suficientes. 

Sócrates continua: "E daí não se concluirá, também, com evidência meridiana, que nenhum dos dois participa do bem? Pois, do contrário, também seriam suficientes, perfeitos e desejáveis por parte das plantas e dos animais capazes de viver semelhante vida o tempo todo. E se algum de nós preferisse outra condição, sua escolha seria contrária à natureza do que é verdadeiramente desejável, e efeito involuntário da ignorância ou de alguma “anánke ouk eudaímonos”*. 

Protarco – Parece mesmo, que tudo se passa dessa maneira."

*Esta última sentença de Sócrates é traduzida como fatalidade perniciosa por Carlos Alberto Nunes do grupo de discussão Acrópole e como necessidade infeliz por Edson Bini, tradutor da coleção Platão - Diálogos (IV) da Edipro. Lembrando que: anánke é necessidade, ouk é uma negação (não ou sem) e eudaímonos vem de eus (bom, nobre) daímonos (divindade, espírito ou espiritual).

22c-23a "Sócrates – Nesse caso, considero cabalmente demonstrado que a deusa de Filebo não pode ser confundida com o bem. 

Filebo – Nem tua “nous”*, Sócrates, se identificará com o bem, pois está sujeita às mesmas objeções."

*Edson Bini traduz “nous” como conhecimento e Carlos A. Nunes, como inteligência

"Sócrates – Com a minha, Filebo, é possível que isto aconteça; porém não com a inteligência (nous) ao mesmo tempo divina e verdadeira. Com essa, entendo que as coisas se passam de outro modo. Não disputo o primeiro prêmio para a inteligência, no que entende com aquela vida mista (vida comum); quanto ao segundo, precisamos ver e examinar o que será preciso fazer. Talvez eu e tu pudéssemos defender a tese de que a verdadeira causa dessa vida mista seja, respectivamente, a inteligência ou o prazer, e assim nenhum dos dois viria a ser o bem em si mesmo, restando a possibilidade de aceitarmos um deles como causa do bem. Sobre esse ponto, sou inclinado a sustentar contra Filebo que, seja qual for o elemento presente nessa vida mista que a deixa boa e desejável, não será o prazer, mas a inteligência o que com ele apresenta com mais semelhança e afinidade. Com base nestes raciocínios, podemos afirmar que, em verdade, o prazer não tem direito nem ao segundo prêmio, como está longe de merecer o terceiro, se confiardes agora em minha inteligência. 

Protarco – Em verdade, Sócrates, quer parecer-me que jogaste ao chão o prazer; foi derrubado pelo teu último argumento: sucumbiu na disputa pelo primeiro prêmio. Quanto à inteligência, precisamos reconhecer sua superioridade nisto de não haver disputado a vitória; se o fizesse, teria sofrido igual revés. Mas, se o prazer for privado também do segundo prêmio, cairá bastante no conceito de seus aficcionados, que nem mesmo encontrariam nele sua beleza primitiva."

Sócrates afirma notoriamente que há uma inteligência (nous) que é divina e verdadeira, destacando-a de sua inteligência, ou seja, da inteligência humana. Ele não diz que a inteligência humana / o conhecimento humano, certamente voltado à vida comum, seja o sinônimo do bem. Por isto, em outros textos, Platão sugere que se busque a ideia do Bem, pois ela não está na realidade meramente sensorial e sim em uma realidade ideal alcançável e passível de ser colocada em prática.

A seguir, Sócrates segue dialogando sobre o infinito, o finito, o meio termo entre estes 2 gêneros ou classes de elementos e sua causa/ origem. 

23c "Sócrates – Dissemos que Deus revelou nas coisas existentes um elemento finito e outro infinito. Protarco – Perfeitamente."

23d-24b "Sócrates – Formemos com esses elementos duas classes, vindo a ser a terceira o resultado da mistura de ambas. Mas receio muito que me torne por demais ridículo com essa divisão por espécies e com a maneira de enumerá-las. 

Protarco – Que queres dizer com isso, meu caro? 

Sócrates – Tudo indica que vou precisar de um quarto gênero. 

Protarco – Dize qual seja. 

Sócrates – Considera a causa da mistura recíproca dos dois primeiros e acrescenta-a ao conjunto dos três, para formamos o quarto gênero. 

Protarco – E não viríamos, depois, a necessidade de um quinto, como fator de sua separação? 

Sócrates – Talvez; porém não agora, segundo creio. Todavia, se for preciso, hás de permitir que eu saia à procura de mais esse. 

Protarco – Por que não? 

 Sócrates – Para começar, desses quatro separemos três, e depois de anotar que dois deles são altamente dissociados, e de reduzi-los à unidade, observemos como cada um deles pode ser ao mesmo tempo uno e múltiplo. 

Protarco – Se me explicasses esse ponto com maior clareza, decerto me fora possível acompanhar-te. 

Sócrates – O que eu digo é que os dois gêneros por mim propostos são os mencionados há pouco, a saber: o finito e o infinito. Primeiro vou tentar demonstrar-te que, em certo sentido, o infinito é múltiplo. O limitado pode esperar um pouco mais. 

Protarco – Que espere, por que não? 

 Sócrates – Presta atenção. Além de difícil, é bastante controverso o que te convido a considerar; e contudo, considera-o. Começa experimentando se és capaz de determinar limite no mais quente e no mais frio, e se o mais e o menos que residem nesses gêneros não os impedem de ter fim enquanto residirem neles; pois, uma vez chegados ao fim, o mais e o menos também deixarão de existir. (...) – Porém sempre haverá, é o que afirmamos, mais e menos no que for mais quente e mais frio. 

 Protarco - Sem dúvida. 

Sócrates – Assim, nosso argumento demonstra que esses dois gêneros não tem fim; e não tendo fim, de todo jeito serão infinitos."

25c-e "Sócrates – Acrescenta-lhes, também o mais seco e o mais úmido, o mais e o menos, o mais rápido e o mais lento, o maior e o menor e tudo o mais que há instantes incluímos numa só classe definida pelos conceitos do mais e do menos. 

 Protarco – Referes-te à classe do infinito? 

Sócrates – Exato. Agora mistura-a com a família do finito.

Protarco – Que família?

Sócrates – A do finito, que há pouquinho deveríamos ter reduzido à unidade, tal como fizemos com a do infinito, mas deixamos de fazê-lo. Talvez o consigamos agora, se da reunião das duas surgir a que procuramos.

Protarco – A que classe te referes e como será isso?

Sócrates – A do igual e do duplo e toda classe que põe termo à diferença natural dos contrários e enseja harmonia e proporção entre seus elementos, introduzindo-lhes número.

Protarco – Compreendo. Ao que pareces, queres dizer que de cada mistura desses elementos nascem certas gerações."

Interessante notar que entre o finito (uno) e o infinito (múltiplo), Sócrates identificou uma classe intermediária. Esta classe seria passível de medição, enumeração e quantificação, portanto certamente os números maiores que 0 (zero) e menores que infinito, se enquadrem nela. Poderiam ser estes argumentos do diálogo “Filebo” de origem (ou influência) pitagórica? Parece uma possibilidade.

 25e "Sócrates – Não será o caso das doenças, em que a mistura acertada desses elementos produz a saúde.

Protarco – Perfeitamente.

Sócrates – E no agudo e no grave, no veloz e no lento, todos eles infinitos, não se dará a mesma coisa: com deixar limitados esses elementos não darão forma perfeita a toda a música.

Protarco – Sem dúvida.

Sócrates – E com se associarem ao calor, ao frio, não lhes tira o excesso e o infinito, substituindo-os por medida e proporção?

Protarco – Como não?

Sócrates – Essa é a origem das estações e de tudo o que há de belo: a mistura do limitado com o ilimitado.

Sócrates – Deixo de mencionar um milhão mais de coisas, tal como a beleza e força com saúde, e também na alma, uma infinidade de qualidades excelentes. Vendo a divindade, meu caro Filebo, a arrogância e toda sorte de maldades que se originam do fato de carecerem de limites os prazeres e a gula, estabeleceu a lei e a ordem, dotadas de limite. Pretendes que ela estraga a alma; pois eu digo justamente o contrário: é o que a conserva. E tu, Protarco, como te parece?

Protarco – De inteiro acordo contigo, Sócrates.

Sócrates – Se bem observaste, aí estão as três classes a que me referi.

Protarco – Parece que compreendi. Uma delas, creio, classificas como infinita; a Segunda; como o limite das coisas existentes; porém não aprendi muito bem o que entendes pela terceira.

Sócrates – É assim mesmo. Com respeito ao terceiro, bastará aceitares que eu incluo nessa rubrica, como unidade, todos os produtos dos dois primeiros, tudo o que nasce para o ser, por efeito da medida e do limite."

26e-27b "Sócrates – Mas também dissemos que, além desses três gêneros, havia a considerar um quarto. Ajuda-me a pensar. Vê se te parece necessário que tudo o que devém, só se forme em virtude de determinada causa.

Protarco – Sem dúvida; pois, sem isso não poderia formar-se.

(...) Sócrates – E agora: todas as coisas geradas e tudo de onde elas provêm não nos forneceram os três primeiros gêneros?

Protarco - Isso mesmo.

Sócrates – E o artesão (demiurgo) que produz essas coisas, a causa, declaramos ser o quarto, pois demonstramos à saciedade que difere dos outros.

Protarco – Difere, sem dúvida.

Sócrates – E agora, depois de havermos distinguido os quatro gêneros, só seria de vantagem enumerá-los por ordem, para mais fácil memorização deles todos."

Sócrates conclui que a vida equilibrada entre inteligência e prazer pertence ao terceiro gênero, ou seja, do misto entre finito e infinito. A causa desta mistura ou deste “terceiro gênero”, o “quarto” gênero citado por Sócrates, que alguns autores traduzem como artesão (de demiurgo), seria a mente/ inteligência cósmica. Assim, Platão, relaciona os conceitos de uno (dos filósofos Parmênides, Xenófanes etc) e de infinito, com a força criadora, o Demiurgo e/ou Nous, a inteligência divina/ mente cósmica, certamente fazendo o elo entre estes gêneros, que um dos mestres de Sócrates, Anaxágoras, não havia feito. Alguns estudiosos, como por exemplo, o filólogo Paul Friedländer, consideram que estes assuntos diferentes do prazer, abordados por Platão neste texto (Filebo), pertencem à área da ontologia. Porém, vale lembrar que a finalidade da ontologia, mostrada na obra Fédon (96 b-e, 97 a-e, 98 a-b), é discutir a melhor maneira das coisas serem.

XV 27e-29a – "Sócrates – (...) Como fica teu tipo de vida, Filebo, de prazer puro, sem mistura alguma? Em qual dos gêneros enumerados ela se enquadraria corretamente? Mas, antes de te explicares, responde-me ao seguinte. 

Filebo – Podes falar. 

Sócrates – A dor e o prazer apresentam limites, ou serão suscetíveis de mais ou de menos? 

Filebo – Sim, Sócrates; são suscetíveis de mais; o prazer deixaria de ser todo o bem, se não fosse infinito por natureza, em grau e em quantidade. 

Sócrates – Como também a dor, Filebo, deixaria de ser todo o mal. Assim sendo, precisamos procurar algo fora da natureza do infinito que comunique aos prazeres uma parcela do bem. Concedo-te que essa qualquer coisa pertença à classe do infinito. Mas então, Protarco e Filebo, a inteligência, a sabedoria e o conhecimento, em que classe incluiremos, dentre as mencionadas há pouco, para não nos tornamos desatenciosos (sem devoção)? Não é pequeno o perigo em que incorremos, conforme resolvermos certo ou errado essa questão. 

Filebo – Colocas num pedestal muito elevado, Sócrates, tua divindade favorita (nous). 

Sócrates – O mesmo fazes com a tua companheira (hedonis). Mas a pergunta não pode ficar sem resposta."

"(...) Sócrates: Todos os sábios estão acordes – por isso mesmo com isso se engrandecem – em que, para nós, Nous (a inteligência, ou o entendimento) é a rainha do céu e da terra. E talvez tenham razão. Porém, caso queiras, investiguemos mais extensivamente a que gênero ela pertence. 

Protarco – Faze como entenderes, sem contar conosco, ó Sócrates, pois não é enfadonho. 

XVI – Sócrates – Muito bem. Então, principiemos com a seguinte pergunta. 

Protarco – Qual será? 

Sócrates – Para sabermos, Protarco, se no conjunto das coisas e nisto a que damos o nome de universo domina alguma força irracional e fortuita, ou seja o mero acaso ou o seu contrário, a mente, como diziam nossos antepassados, e uma sabedoria admirável que tudo coordena e dirige? 

Protarco – São duas assertivas, meu admirável Sócrates, que se destroem mutuamente. A que acabaste de enunciar se me afigura verdadeira blasfêmia. Mas, dizer que a mente determina tudo, é uma asserção digna do aspecto do universo, do sol, da lua, dos astros e de todo o circuito celeste, sem que, do meu lado, eu possa pensar ou manifestar-me a esse respeito por maneira diferente. 

Sócrates – Queres, então, que nos declaremos de acordo com os nossos maiores, sobre se passarem as coisas, realmente, dessa maneira, não nos limitando a repetir sem o menor risco de a opinião de terceiros, mas compartilhando com aqueles tanto a censura como o risco, sempre que algum sujeito petulante afirmar que não é assim e que não há ordem no universo? 

Protarco – Como não hei de querer?"

Sócrates então compara os elementos constituintes dos corpos (celestes e dos seres vivos) limitado às condições de sua época, por exemplo, quando se interpretava que haviam só 4 elementos (fogo, ar, água e terra) e não se conhecia os elementos químicos descobertos na era moderna. 

29e-30d (...) Sócrates – Aceita a mesma conclusão para o que chamamos universo (“kosmon”); é um corpo da mesma espécie do nosso, porque possui os mesmos elementos constituintes.

Tanto o corpo dos seres vivos como os planetas, estrelas e outros corpos celestes, são constituídos de cargas elétricas/ átomos, elétrons e suas sub partículas. Tais partículas microscópicas constituem somente um bilionésimo do átomo, sendo o restante, espaço vazio e campo eletromagnético. Mesmo sem saber destes detalhes, Sócrates (e/ ou Platão) identificou que o universo e os corpos dos seres vivos possuíam os mesmos "elementos" constituintes. 

Protarco – Certíssimo.

Sócrates – E agora: é desse corpo universal que o nosso se alimenta, ou é do nosso que o universo tira o de que necessita e recebe e conserva tudo o que há pouco mencionamos?

Protarco – É outra pergunta, Sócrates, que nem valia a pena formular.

(...) Sócrates – Afirmaremos que nosso corpo é dotado de psiquê*?

*Geralmente traduzido como alma, a psiquê de Platão inclui o conceito da mente com todos os seus “elementos” (cognição, memória, pensamento, sentimento, virtude etc) até o conceito que interliga tais “elementos” em uma unidade coesa equivalente a um espírito vivo/ essência imortal. Em outras obras Platão indica que a psique pode adoecer (em Górgias), mas não pode ser destruída (A República e Fedon) e que ela pode alcançar o “hiper ouranos” (além céus), a realidade divina, ao viver a virtude, o amor mais sublime, que é o amor a todas as almas, à justiça e ao Bem (Fedro). 

Protarco – É o que vamos dizer.

Sócrates – E de onde, ó amigo, a receberia, se o corpo do universo não fosse animado e não possuísse os mesmos elementos que o nosso, e, a todas as luzes, ainda mais belos?

Protarco – Impossível ser de outra forma, Sócrates.

Sócrates – Pois não podemos acreditar, Protarco, que desses quatro gêneros: o finito, o infinito, o misto e o gênero da causa, que, como 4º, se encontra em todas as coisas, essa causa que fornece uma alma a nosso corpo, dirige os exercícios físicos e cura os corpos quando estes adoecem, e forma mil outras combinações e as repara, seja, por isso, denominada sabedoria total multiforme, e que no conjunto do céu*, onde tudo isso se encontra em maior escala e sob forma mais bela e pura, não se tenha realizado a natureza mais bela e de maior preço.

[*holoi te ouranôi; também podendo ser traduzido como "em todo universo"]

Protarco – De fato, não faria o menor sentido.

Sócrates – A não ser assim, melhor faríamos seguindo outra opinião, à qual já nos referimos tantas vezes, sobre haver ilimitado (infinito) abundante  no universo, suficiente finito, além de uma causa nada desprezível (não má, nada insuficiente), que coordena e determina os anos, as estações e os meses, e que, com todo o direito, poderá ser denominada sabedoria e inteligência (sophía kaì noûs).

Protarco – Sim, com todo o direito. 

Sócrates – Certamente sem alma (psique), não pode haver (genoísthin) sabedoria nem inteligência. 

Protarco – De jeito nenhum.

Sócrates – Dirás, então, que na natureza de Zeus (Diós) há uma alma real (régia) e uma inteligência real formadas pelo poder da causa, bem como outros belos (ou bons, de kalos) atributos nas demais divindades, designados da maneira que melhor lhes aprouver. 

A última fala de Sócrates tem traduções que diferem um pouco entre si, certamente por ser mais complexa. A palavra "real" neste texto em grego é basilikon, referente à realeza, portanto a tradução de Edson Bini, que é régia, parece mais precisa do que a de Carlos A. Nunes. Outro detalhe é que o texto em grego parece iniciar com uma negação que não aparece nas versões em português. Talvez refira-se ao fato de Sócrates querer dizer que não há este fator régio nele e nos humanos no mundo sensorial. Também não há palavra equivalente a "divindades" no texto em grego, ao invés disto, há a palavra fílos (amigos). Talvez os tradutores entenderam que isto se referia aos "amigos" de "Diós", as divindades.

(...) Sócrates – Decerto, Protarco, não irás imaginar que eu desfiei todo esse discurso sem segundas intenções. Ele serve para reforçar o juízo há muito enunciado, de ser o mundo, sempre, governado pela inteligência.

Protarco – Com efeito.

Sócrates – Além do mais, ensejou resposta à minha pergunta, sobre pertencer a inteligência (nous) ao gênero do que dissemos ser a causa de tudo, uma das quatro por nós admitidas. Aí tens a resposta que te devíamos.

Sócrates conclui que, havendo uma causa e havendo ordem/ leis no universo, Nous (inteligência, entendimento) é a causa de tudo - rege todo o universo* (hóloi te ouranôi) que é sua criação, todos os movimentos cósmicos, astronômicos e as almas (psique) humanas. Além disto, sendo a causa de tudo, tem os mais belos e puros aspectos da alma, a mais nobre e admirável natureza.

31a Sócrates – A respeito de ambos, não nos esqueçamos de que a inteligência é aparentada com a causa e mais ou menos do mesmo gênero, enquanto o prazer é infinito em si mesmo e pertence ao gênero que não tem nem nunca terá em si e por si mesmo nem começo nem meio nem fim.

Certamente a inteligência é "mais ou menos" do mesmo gênero da causa, porque Sócrates identificou que ela é, de certa forma, transcendente. Há inteligência na causa de tudo, assim como há na vida, nos seres humanos, mas não em todas formas de vida na realidade sensorial. Pois a inteligência (nous) não é meramente sensorial, ela é psíquica, da mente/ da alma. O ser humano então, tem uma essência imortal e a capacidade de transcender através de sua psique (alma), como mostrado em outras obras de Platão (ver Fedon, Fedro etc).


 

Uma Reflexão sobre as Crianças e o Afeto

As crianças mostram uma grande capacidade acurada de perceber mínimas expressões de sentimentos. Tal capacidade de perceber expressões de sentimentos, ou emoções, mostra que as crianças têm uma atenção altamente voltada para isto. Eu já havia percebido tal capacidade em alguns momentos no decorrer de minha vida, mas recentemente percebi em várias crianças durante meu trabalho em uma clínica para crianças com transtorno do espectro autista (TEA). 

Apesar de espalhar-se a generalização de que pessoas com TEA não gostam ou não ligam para demonstrações de afeto, isto se mostrou bem impreciso durante meus 10 meses de estágio na clínica. Algumas das crianças com TEA procuravam atentamente por alguém que lhes desse atenção no seu entorno, ainda que fizessem isso rapidamente, geralmente seguido por um comportamento de "se fechar". Inclusive o vínculo afetivo com tais crianças mostrou-se parte importante do tratamento para o desenvolvimento destas, mas não falarei sobre autismo aqui.

Recentemente percebi esta "busca" por atenção/ afeto nos meus sobrinhos: No menorzinho, percebi por meio da "atitude básica" do bebê que busca contato visual e aprende a sorrir e rir. Na menina, com seus 9 anos de idade, percebi quando ela me pediu para aprender a fazer nhoque. Após terminarmos o nhoque, eu me servi e ela, mesmo alegando não querer comer, ficou olhando meu prato. Perguntei se ela não queria comer o nhoque que ela mesma fez, e ela hesitou (pensou) para decidir e responder novamente (negativamente). Ela está acostumada a recusar comida (possivelmente tem um problema psicoemocional por trás disto), mas ao receber atenção e interagir no preparo do alimento, mostrou ao menos, repensar este seu comportamento típico.

Esta busca por afeto das crianças se dá por meio da atenção ao olhar dos adultos, tom de voz, maneira de falar, enfim é bem mais intuitivo do que racional, mas é perceptível nos detalhes do olhar, da reação e da fala da criança. 

Me lembro de um estudo sobre o comportamento dos chimpanzés, realizado no Japão: Os estudiosos notaram a elevada capacidade do chimpanzé de se atentar e perceber vários fenômenos no presente. Em relação ao ser humano, o chimpanzé memoriza mais detalhes do que este, no que se refere a posições de objetos (incluindo seres vivos) no espaço e os variados movimentos destes. Em outras palavras, eles prestam muito mais atenção a detalhes no espaço presente do que o ser humano. Isto porque o ser humano, como parte de sua evolução (na separação do gênero Pan e surgimento do Homo) , teria voltado sua consciência para fatos além do presente, perdendo parte dessa capacidade de captar muitos detalhes físicos/ do espaço no presente. O ser humano faz mais uso das recordações de longo prazo do que o chimpanzé por exemplo. Os cientistas estipularam que isso foi útil para memorizar membros individualistas do bando, fazendo com que o ser humano pudesse excluir membros agressivos e ameaças similares às relações da vida grupal/ familiar/ coletiva etc. 

Fazendo uma correlação destas observações, parece que a atenção das crianças voltada às demonstrações de afeto indica que as boas emoções/ expressões de bons sentimentos foram, são e serão essenciais para a vida humana. É óbvio que identificar sentimentos ruins têm sua utilidade, mas a criança busca o sorriso, a atenção e a disposição do outro para cuidar de si e/ ou para brincar consigo. É uma busca por bons sentimentos, mas principalmente de estar presente com tais sentimentos. Portanto é a necessidade de estar presente com felicidade, de ser feliz. 

Essa é a necessidade básica do amor.

 

Sobre o Psiquismo Não Expresso

 Há um tempo atrás, entre os anos de 2021 e 2024 eu comecei a refletir sobre a importância de nossa atividade mental - principalmente aquela...